22 de março de 2012

Turismo nos Açores - do oito ao oitenta


Quis o PSD – Açores levar ao Plenário da Assembleia Legislativa uma interpelação ao Governo Regional sobre o setor do turismo na Região Autónoma dos Açores.

Estranha-se, no entanto, que para um partido que critica tanto a política de turismo do Governo Regional dos Açores, apenas agora tenha trazido este tema à baila para debate.

Terá sido por acaso? Claro que não. Cedo se percebeu que esta figura regimental foi aproveitada pelo partido proponente para atacar e tentar diminuir o Secretário Regional da Economia que, como se sabe, é o candidato do Partido Socialista a Presidente do próximo Governo dos Açores que sairá das próximas eleições regionais que ocorrerão em outubro próximo.

Mas penso que este gesto terá saído como mais um tiro no pé. E têm sido tantos, ultimamente, que até já lhes perdi a conta.

Um partido como o PSD, que já governou esta região duas décadas, não se poderá proteger das responsabilidades que tem, agora que se encontra na oposição.

É preciso lembrar – e temos de fazê-lo agora com mais acuidade porque neste período pré-eleitoral algumas pessoas revelam sintomas agudos de memória curta – que o PSD deteve o poder durante muitos anos e, nessa altura, enjeitou a oportunidade desta região se afirmar no turismo.

Naqueles tempos não se construíram hotéis porque não tínhamos turistas, mas também é verdade que não tínhamos turistas porque não tínhamos hotéis. E vivíamos assim, enredados nesta teia imobilizadora que nos atirou para uma situação dramática.

Apesar disto o PSD chegou a ter um Secretário Regional do Turismo, imagine-se. Aos Açores não vinham turistas, nos Açores não existiam estabelecimentos hoteleiros, mas, mesmo assim,  o PSD tinha um gabinete completo para tratar de uma pasta que, na prática, não existia. Isto não é para qualquer um…

Foi assim que o Partido Socialista encontrou os Açores em 1996. Estava tudo por fazer e em todas as ilhas.

Foi preciso dinamizar a iniciativa privada, apostar na construção de hotéis de qualidade, promover o destino, ao mesmo tempo que se qualificava a restauração. Nalgumas ilhas, como é o caso da Graciosa, o Governo substituiu, e muito bem, a iniciativa privada na construção de empreendimentos quando o empresariado se mostrava sem capacidade financeira para o fazer.

Os resultados estão bem à vista de todos e só não vê quem não quer. O número de turistas aumentou exponencialmente, aumentando o número de trabalhadores neste setor, tal como aumentou o rendimento desta atividade, contributos importantes para o crescimento do Produto Interno Bruto da Região Autónoma dos Açores.

Passamos do oito ao oitenta. Foi uma tarefa hercúlea, que orgulha, e em muito, os Governos do Partido Socialista.

15 de março de 2012

O logro


Berta Cabral veio a público regozijar-se da boa situação financeira da “sua” Câmara Municipal, com base num ranking saído no Anuário Financeiro dos Municípios. Que era bem gerida, que estava de perfeita saúde, que tinha um dos menores endividamentos per capita, que se encontrava entre as melhores do país e sei lá o que mais. Só coisas boas.

No dia da entrevista, onde essa revelação inusitada foi feita, notei grande candura na postura da presidente da Câmara de Ponta Delgada, o que, sinceramente, fez-me lembrar que quando a esmola é grande até o santo desconfia.

Pouco depois os Açorianos vieram a saber que houve um engano e que afinal não era bem assim, antes pelo contrário. A Câmara de Ponta Delgada não estava entre as melhores 50, infelizmente. O endividamento por munícipe afinal era o dobro da que se encontrava em 50º lugar desse ranking, o que atira aquele município, afinal, para as calendas gregas da tal listagem, num lugar nada honroso.

Até o professor Marcelo Rebelo de Sousa, comentador domingueiro, ficou inebriado com a prestação da sua companheira de partido, que, depois, veio a verificar-se, tratar-se de um flop nunca desmentido, apenas porque dava jeito.

Foi com estupefação que assistimos ao silêncio depois de tamanho engano com se isso fosse de somenos importância. Os Açorianos não merecem este tipo de comportamento branqueador.

Se foi por a dra. Berta Cabral ignorar a verdadeira situação financeira da sua edilidade, é grave, mas se foi uma ação premeditada então trata-se de um ato inqualificável e impróprio para quem tem ambições políticas.

Nestas coisas a verdade vem sempre ao de cima, diz o nosso sábio povo. Descobre-se o logro e cai a máscara, digo eu.

14 de março de 2012

Humilde e culto




Edmundo da Cunha Ribeiro

(04/03/1910 – 09/08/1987)

Era na sua tenda situada na rua Serpa Pinto, por baixo do granel do senhor Francisco Barcelos, que estava sempre. De avental marcado por nódoas das tintas que usava, permanecia invariavelmente sentado de corpo curvado atrás da sua banca de trabalho, repleta de utensílios próprios da profissão. Passava horas seguidas, agarrado aos sapatos, moldando as solas, cozendo ou polindo, rodeado pelas suas ferramentas espalhadas pela banca, sempre ao alcance das suas necessidades. E sapatos, muitos sapatos, depositados num recanto da tenda esperando a sua vez para merecerem os cuidados deste artífice.

Este era o sapateiro a quem a minha família entregava os sapatos para as devidas reparações. Normalmente calhava-me a mim levar os ditos em mau estado, quase sempre de biqueira aberta devido às jogatanas no campo de S. Francisco, mais conhecido pelo campo da Rata, ou então de sola gasta pelo uso intensivo, para os ir buscar uns dias depois já como novos, prontos para mais uma temporada.

A tenda do senhor Edmundo, como era conhecida a sua oficina, funcionava, também, como ponto de encontro de muitos Graciosenses.

O chão era de cimento frio, que contrastava com o calor humano que reinava naquele espaço. Nas paredes viam-se alguns cartazes amarelados pelo tempo. Tinha um banco corrido num dos lados onde se sentavam todos aqueles que procuravam saber as novas, que, naquele tempo demoravam a chegar, trazidas pelos frequentadores e clientes que eram também os seus amigos. Num dos cantos ficava uma cadeira de vimes, mais confortável, que estava informalmente reservada ao Dr. Gregório ou ao Comandante Silveira, duas figuras de referência que não dispensavam uma presença diária naquele espaço. Por ali passavam médicos, comerciantes, sacerdotes, estudantes, carteiros, professores, etc.. Uma amálgama de gente que refletia a sociedade Graciosense.

Antes da revolução dos cravos era ali que se discutiam intensamente os assuntos que estavam na berra. Era ali que chegavam outras maneiras de ver o mundo, porque muitos dos frequentadores ouviam rádios não controlados pelo antigo regime e por aí sabiam a verdade, nua e crua, sobre o que se passava no nosso país e no mundo. Era ali que se abordavam os assuntos políticos, mais ou menos em surdina.

Acredito piamente que aquele espaço deve ter merecido a atenção da polícia política, pois muito do que lá se dizia, comentava e discutia, não era, de todo, bem visto pelo regime da altura.

Depois de Abril, com o advento das comunicações e da televisão o nosso mundo mudou, mudaram também o país, a região e a nossa ilha, mas a tenda do senhor Edmundo manteve-se inalterável. Era um local de culto para os seus frequentadores que continuaram a abordagem dos mesmos temas, só que de maneira mais desassombrada. Era o valor da liberdade.

O senhor Edmundo tocou trombone anos a fio na Filarmónica Recreio dos Artistas e terá pertencido aos seus corpos sociais, dando, assim, um contributo para a cultura Graciosense. Era um pescador de calhau exímio e, diz quem o conheceu, fazia uma caldeira muito apreciada pelos amigos. Estava sempre pronto para pregar umas partidas aos mais incautos que por ali passavam.

Apesar da modéstia e humildade o senhor Edmundo era um homem culto e que cultivava a verdadeira amizade.

8 de março de 2012

Petições


Partilho da opinião de que as petições públicas são um instrumento importante nas sociedades modernas. Qualquer cidadão ou grupos de cidadãos podem, por esta via, invocar a atenção dos poderes públicos para uma situação ou uma questão tida como pertinente por parte de quem subscreve.

Esta é uma das grandes conquistas plasmadas nos documentos fundamentais, a Constituição Portuguesa e o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores.

Curiosamente têm surgido ultimamente muitas petições, o que faz denotar a maturidade da democracia e a participação dos cidadãos nas decisões sobre políticas que afetam a sua ilha, a sua região ou o seu país.

Recentemente surgiram nos noticiários duas petições, que chamaram a atenção por serem inusitadas, na minha opinião meramente pessoal. Uma destina-se à destituição do Presidente da Republica e outra à antecipação das Eleições Regionais.

O Dr. Cavaco Silva foi eleito em janeiro de 2011 com 53,14% dos votos expressos e, por isso, quer se concorde ou não com ele, está a ocupar um cargo com a legitimidade que tão larga maioria lhe deu nas urnas.

Nas Eleições Regionais de 2008 o Partido Socialista venceu com 49,92% dos votos expressos, atingindo uma nova maioria absoluta indiscutível que lhe garantiu a governação por mais estes quatro anos.

O povo, convocado a decidir, foi muito claro e escolheu quem queria para Presidente da República e antes, em 2008, apurou o partido que lhe dava mais garantias para dirigir os Açores.

Num e noutro caso o povo vai ser chamado novamente a decidir e é nesse contexto que fará o julgamento e não de outra forma, mesmo que desse mais jeito a este ou a aquele partido.

Alterar as regras parece-me a subversão da democracia, porquanto foi esta democracia, com as virtudes e os defeitos que encerra, que proporcionou a prerrogativa dos cidadãos utilizarem esta figura de participação cívica. Não a desvirtuemos.

1 de março de 2012

O desemprego como arma


Na passada semana ficamos a saber que o desemprego nos Açores se situava nos 15,1 %, valor mais alto do que o registado no conjunto do país.

Logo tivemos quem se apressasse a atacar o Governo Regional dos Açores acusando-o de não ter conseguido estancar este drama que afeta muitos Açorianos, sobretudo o mais os jovens. Basta folhear os jornais e logo se veem os títulos garrafais de crónicas dos comentadores políticos dizendo isso mesmo.

Esta reação era esperada. Ainda recentemente vimos caras com ares de consternação apenas pelo facto de na Região Autónoma dos Açores não ser encontrado um “buraquinho” nas contas públicas que fizesse render alguns votos. Agora o desemprego também é usado como arma de arremesso. Infelizmente alguma oposição funciona assim, tipo, quanto pior, melhor.

Fala-se muito dos jovens na busca de emprego, como se isto fosse um dado novo. As coisas não mudaram muito para os jovens, mas existem diferenças que importa revelar. Todos têm acesso ao ensino superior e quando isso não acontece existe uma enorme oferta de cursos técnico profissionais, que os qualificam e abrem portas ao mercado de trabalho. Quando acabam a licenciatura tem acesso a um primeiro contato com esse mercado através dos programas Estagiar, que, curiosamente, tem colocado muitos dos estagiários nas empresas onde cumpriram esse programa. Hoje qualquer jovem licenciado ou com formação profissional tem acesso a programas de empreendedorismo ou de criação do auto emprego.

Este flagelo do desemprego, usado indevidamente para caçar uns votos aqui e outros ali, tem afetado as regiões ultraperiféricas da Europa de uma maneira assustadora.

Nas diversas crónicas feitas por gente da oposição, nunca vi referências que remetessem o aumento do desemprego para a diminuição drástica do consumo, a redução do investimento, ou a falta de liquidez da banca para alavancar a economia, situações criadas pelo Governo Central que se orgulha, todos os dias, de, em matéria de cortes, ir muito mais além do que exige a troika.

Pela via das dificuldades de acesso ao crédito houve uma redução enorme da atividade no setor construção civil. O aumento brutal dos impostos fez diminuir drasticamente o rendimento das famílias, afetando o consumo e por isso o setor de comércio e serviços registou uma quebra sem precedentes. É por esse facto que todos os dias trabalhadores do comércio ou da construção civil engrossam os números de desempregados e isso deve-se às políticas desacertadas impostas pelo Governo da República, como facilmente se depreende.

O Governo Regional se não tivesse executado um Plano Regional de Emprego, se não tivesse criado mais de 21 mil novos empregos em 10 anos, se não criasse programas para empregabilidade para mulheres e jovens, se não apostasse na formação profissional e se não consolidasse o tecido empresarial, certamente que agora o problema do desemprego teria contornos muito mais graves.

E mais. O Governo Regional, enquanto esta conjuntura externa adversa atingia os Açores, tratou de minimizar os estragos, atacando o problema em várias frentes, nas empresas e nas famílias, passando pela agricultura e pescas e criando o Programa para a Promoção do Emprego e Competitividade para uma resposta imediata.

Uns, aproveitando a boleia desta conjuntura nacional e internacional desfavorável, tentam, desesperadamente, colar os seus efeitos nefastos ao Governo Regional sem apresentar uma única proposta para alterar esta situação, enquanto outros, por entre as dificuldades impostas, respondem aos problemas que assolam os Açores e Açorianos com confiança e determinação.

29 de fevereiro de 2012

Oriolando de Sousa Machado Correia da Silva

Oriolando de Sousa Machado Correia da Silva

(06/11/1938 – 31/03/2008)

A primeira vez que ouvi o Cântico Negro de José Régio, já lá vão uns bons anos, foi pela voz do Oriolando. Creio que ninguém fica indiferente a estas poderosas estrofes, mas confesso que este cântico ganhou um lugar de honra nos meus gostos literários, muito por culpa de uma declamação que senti, na altura, ser perfeita, pelo tom, pelo ritmo e pela sensibilidade de quem o dizia.

Com o seu timbre forte mas, ao mesmo tempo, melodioso, o Oriolando declamava este e outros poemas como ninguém.

Também cantava acrescentando sentimento às interpretações que fazia, desde músicas do reportório popular até às mais eruditas, passando pelas de intervenção política mais conhecidas.

Era um notívago assumido e nessa condição era frequente vê-lo em convívios com os inúmeros amigos, que, quase sempre, proporcionavam momentos dedicados ao canto, à declamação ou a discorrer sobre História, de que tanto gostava, ou em simples cavaqueira. 

Assisti, no palco da antiga cerca da Filarmónica Recreio dos Artistas, aos ensaios de uma peça de teatro dirigida pelo senhor Brivaldo Santos, onde o Oriolando tinha um papel importante que representava com proficiência. Nesse tempo o teatro fascinava os miúdos que, sem mexer uma palha, assistiam incrédulos aos intermináveis ensaios, onde os atores se comportavam como autênticos profissionais.

Era um eloquente orador e, nessa qualidade, era convidado com muita frequência para dissertar em cerimónias públicas, efemérides ou lançamentos literários.

Defendia os ideais de esquerda. Esta era a sua posição política que, no verão quente de 1975, lhe terá causado alguns dissabores, que soube enfrentar com coragem e determinação, rendendo-lhe, mais tarde, o respeito e admiração quer dos companheiros quer dos que não pensavam como ele.

Durante a sua vida participou ativamente na vida pública do seu concelho, tendo sido deputado municipal.

Encontrou na História a sua paixão. Nos últimos tempos fez investigação e chegou a pôr em causa alguns conhecimentos dados como certos da história da Graciosa, com fundamentos válidos e que apresentava com sabedoria.

Foi também genealogista, tendo sido um dos grandes mentores e impulsionadores dos vários encontros regionais destes especialistas realizados na Ilha Graciosa.

Profissionalmente foi solicitador e, nessa qualidade, participou em inúmeros atos onde se destacava pela sua oratória e conhecimentos jurídicos.

Esteve também imbuído do espírito associativo e, como tal, fez parte de diversos corpos sociais de clubes locais e foi também sócio fundador da Cooperativa Rádio Graciosa e o primeiro presidente da sua Assembleia Geral.

Embora sem grandes habilitações académicas este autodidata era um homem de saberes que ombreava com os demais na valorização da cultura e das tradições.

23 de fevereiro de 2012

O Carnaval ainda é o que era


Por estas alturas do ano recordo sempre uma conversa que ouvi da boca de um senhor de provecta idade que afirmava que, para ele, o dia mais triste do ano era aquele em que terminava o Carnaval. Sentia-se a veracidade nestas palavras por serem ditas de maneira sentida.

Os Graciosenses, de uma ou de outra forma, gostam do Carnaval, que, por cá, é festejado de uma forma diferente, com caraterísticas muito enraizadas e que, felizmente, tem sido mantidas ao longo dos anos por gente anónima que dedica muito do seu tempo às atividades dos clubes que proliferam pela ilha.

Esta festa é transversal a toda a sociedade. Desde crianças até aos idosos, todos se divertem à sua maneira e ao seu ritmo.

A alegria é uma constante. Vive-se cada dia de festa de forma intensa, deitando para trás das costas as amarguras que estes tempos difíceis nos têm trazido.

Os bailes de salão têm o seu início logo a seguir ao Natal, às vezes antes, e são frequentados por várias gerações de Graciosenses e de forasteiros, que aproveitam estes momentos para se divertirem, revisitarem velhas amizades e conviverem. Muitos destes bailes terminam já depois do nascer do sol, sempre de forma ordeira apesar de alguns excessos próprios destes momentos.

Os grupos de fantasias, vestidas a rigor e quase sempre com cores garridas, percorrem todos os clubes da ilha executando coreografias mais ou menos simples - porque a folia não combina com grandes rigores técnicos - apresentando, deste modo, o contributo que dão a esta festa que é, no fundo, de todos.

As pessoas que têm passado pela experiência de viver estes dias connosco não ficam indiferentes e reconhecem que estes momentos são inesquecíveis, pela alegria contagiante, pela diversão pura e, sobretudo, por serem muito bem recebidas.

Por isso a nostalgia sentida pelo senhor que vos falei há pouco não deve ser rara. Muitos Graciosenses e muitas pessoas que nos visitam sentirão o mesmo.

Resta-nos a certeza de que para o ano haverá mais.

16 de fevereiro de 2012

As pescas e o futuro


As pescas desenvolveram-se nos últimos anos por via do melhoramento da frota, da construção e reparação de portos e de outras estruturas de apoio e da formação dos seus profissionais.

Nos últimos 10 anos (2001-2010) o número de pescadores nos Açores quase que duplicou, contrariando a tendência nacional, e isso devido à melhoria das condições de trabalho proporcionado a uma classe que abandonou a pesca de subsistência, ou a meio-tempo, e fez da atividade uma profissão digna e com bom rendimento.

É certo também que a pesca descarregada tem oscilado um pouco, dada a imprevisibilidade própria desta atividade que depende de diversos fatores, mas a tendência do valor dessas capturas tem vindo a crescer, muito embora com algumas exceções, como foram os casos de 2009 e 2011.

Pela leitura dos dados disponíveis verifica-se que apesar de, na sua globalidade, a pesca demersal ter vindo a ter apenas uma ligeira quebra, nota-se grande declínio nalgumas espécies deste grupo (de 1996 a 2011), quer na quantidade quer em qualidade, como são os casos do Boca Negra, do Congro, do Goraz, do Pargo e do Peixão.

Em tempos pensava-se que os recursos marinhos dos Açores eram ilimitados e que os problemas com a conservação de stocks não eram connosco.

Hoje, todos os intervenientes na fileira da pesca estão perfeitamente conscientes que é preciso manter as atuais e criar outras medidas preventivas para se evitar problemas de reposição de algumas espécies demersais.

Para esta visão realista terá contribuído, e em muito, o Departamento de Oceanografia e Pescas, que tem produzido importantes estudos na área da gestão dos recursos marinhos, reconhecidos a nível internacional e efetuado ensaios com sucesso, como é o caso da recuperação do banco de pesca Condor.

É fundamental garantir a sustentabilidade deste sector, com a aplicação das medidas de precaução já previstas, juntando outras, nomeadamente as que protegem as pequenas frotas de pesca artesanal das ilhas mais pequenas, porque a pesca contribuí com 3,6% para o Produto Interno Bruto da Região e ocupa, direta ou indiretamente, cerca de 5% da população ativa.

A atividade tem ainda um peso económico e social mais importante em algumas ilhas ou em comunidades mais pequenas.

Foi por estas razões que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista criou um grupo de trabalho, do qual fiz parte, para analisar esta problemática, apresentando as suas conclusões e elaborando uma bateria de recomendações tendo em vista a preservação dos recursos e a melhoria dos rendimentos dos profissionais da pesca.

Mais do que falar é preciso agir. E é para isso que cá estamos.

15 de fevereiro de 2012

O Gasparinho

Gaspar Manuel dos Santos Cordeiro
(04/09/1952 – 25/07/2011)

Em finais de julho passado fomos surpreendidos com a morte do Gasparinho, pouco tempo depois de ter sido assolado pela doença.
Por mais que queiramos nunca estamos preparados para enfrentar a morte como um desígnio da natureza, sobretudo quando esta nos rouba alguém a quem queremos muito e que muito ainda tinha para dar.
Era o caso do Gasparinho. Na Ilha Graciosa todos gostávamos dele. Para isso terá contribuído a sua maneira de ser, a sua maneira de agir e, sobretudo, a humildade e a bondade que colocava no relacionamento com os outros.

Na farmácia, onde trabalhou cerca de 40 anos, era um excelente profissional, dando sempre uma palavra a quem procurava aquele estabelecimento. Gente idosa e fragilizada pela doença constituí a maior franja de utentes de qualquer farmácia e, por vezes, aquando da compra de mais um medicamento para lutar contra a doença ou retardar e tratar os efeitos da velhice, uma voz amiga pode fazer toda a diferença. E era aí que o Gasparinho era exímio. Sem se deixar levar pelos lamentos de quem sofria, dava a cada um dos “seus clientes” uma palavra de alento e de coragem.

A música era uma das suas grandes paixões. Foi trompetista na Filarmónica Recreios dos Artistas, onde tocou com o pai, um tio e um irmão. Tocou guitarra e deu a voz nos conjuntos Selvagens do Rimo e Ritmo 2000, com quem gravou dois discos, Terra de Gente e Mar e Ritmo 2000 ao vivo nos Estados Unidos. Andou ainda muitos anos a animar os bailes de carnaval tocando no conjunto do Graciosa Futebol Clube.

Tinha uma voz inconfundível, que se sobrepunha em suave melodia aos instrumentos musicais permitindo ouvir os bonitos temas que gostava de interpretar, desde fados até aos temas populares, acompanhado sempre pela sua guitarra, que tocava com desvelo. Com a sua trompete dourada dava show nos bailes tradicionais e quando se juntava ao Acácio e ao Valdemiro, em improvisos nas frequentes tertúlias, completava uma tripla de se lhe tirar o chapéu. Quem assistiu a estes momentos nunca os esquecerá. Foram noites e noites animadas por estes verdadeiros artistas.

Ouvi o Gasparinho cantar pela última vez na Gala do Desporto Açoriana, com os KontraBanda, no que agora, à distância, me parece uma espécie de despedida.

Foi também um grande jogador de futebol. Sempre o conheci a jogar a defesa central no seu clube de sempre, o Graciosa Futebol Clube, que serviu - como atleta, como músico ou como dirigente – até ao dia da sua morte, altura em que era Presidente da Direção.

Como jogador era conhecido pela elegância que punha em campo. Jogava muito bem, de cabeça e com os pés. Era muito astuto na leitura do jogo e com um comportamento irrepreensível. Como capitão da equipa dava alento aos colegas nas horas dos fracassos e rejubilava nas vitórias. Era ele que empurrava a equipa para a frente, literalmente.

O Gasparinho tinha várias qualidades e talentos, mas distinguiu-se, sobretudo, por ter sido um grande Homem.

9 de fevereiro de 2012

Ameaças


A autonomia política e administrativa foi a conquista maior que os Açores obtiveram a partir da revolução de abril de 1974. O mote tinha sido dado por anos de lutas infrutíferas, mas quando surgiu a oportunidade, os açorianos não a enjeitaram. Este é um dado adquirido reconhecido por todos.

Essa prerrogativa, ansiada há muito pelos açorianos, permitiu que estas ilhas, abandonadas pelo estado centralista que nos governava até então, se desenvolvessem.

Foram os seus governos que, legitimados pelo voto popular, traçaram estratégias para recuperar o tempo perdido.

Nos últimos anos, já com os governos do Partido Socialista e com o importante financiamento dos fundos comunitários, concretizou-se a infraestruturação da região, em áreas fundamentais, como a agricultura, a pesca, o turismo, o comércio, os transportes e a indústria. Em paralelo, foram também implementadas políticas públicas importantes, na área social, na gestão de resíduos, na produção de energia com base em fontes renováveis, na preservação do ambiente, entre outras.

A estratégia produziu efeitos rapidamente porquanto estes setores, depois de uma reestruturação, consolidaram-se e hoje contribuem ativamente para os progressivos ganhos da economia regional. O número de empresas aumentou assim como aumentou o número de pessoas empregadas, notando-se, sobretudo, um reforço da empregabilidade feminina.

Ficamos mais fortes, mais autossuficientes, mas, como parte integrante da Europa, ficamos, também, mais expostos às ameaças que surgem do exterior.  

Hoje estamos a enfrentar esta crise atípica que abala a Europa, e muitos outros países do mundo, que tem como principal caraterística a imprevisibilidade dos seus efeitos nefastos.

O Governo dos Açores, e muito bem, tem centralizado a sua ação, nestes conturbados tempos, no apoio às famílias e às empresas. A decisão de colocar sempre as pessoas em primeiro lugar, confirma e reforça o lema que tem acompanhado o Partido Socialista desde que está a exercer o poder.

Mas esta crise traz outras ameaças. Poderá despertar nos centralistas – de todos os partidos, diga-se – sentimentos recalcados e que surgem á luz do dia logo na primeira oportunidade.

Não acredito que a autonomia esteja em risco, mas não tenho dúvidas que os ataques surgirão, a breve trecho, a reboque da polémica do “buraco” da Madeira.

Só há duas coisas a fazer: cerrar fileiras e resistir.

2 de fevereiro de 2012

Para além do limite


As medidas de austeridade eram esperadas e toda a gente sabia que era preciso inverter a tendência de se gastar mais do que se pode. Não era um problema único de Portugal. O mesmo se passava e passa noutros países por essa Europa fora e pelo mundo.

O governo de José Sócrates caiu porque a oposição não pactuava com mais austeridade, nomeadamente a que estava prevista no chamado PEC 4.

Depois de jurar, a pés juntos, que a via para resolver o défice não passava pelo reforço do plano de austeridade, eis-nos perante um governo que, utilizando o medo como arma, ultrapassa, e em muito, o que está acordado com a troika.

E fá-lo sem qualquer pejo, como aconteceu logo a seguir ao acordo de concertação social onde o governo assegurou que em matéria laboral se tinha ido mais além do acordado.

Fá-lo também com consciência de que a austeridade não chega de igual modo a todos. Veja-se o caso do Banco de Portugal, dos novos contratos para cargos governamentais, que preveem 14 meses, sem, no entanto, lhes chamar subsídios de férias e de natal ou das recentes nomeações para a EDP onde a contenção salarial é coisa que não existe.

Este orgulho de ir até ao limite do razoável, atropelando direitos laborais e desmantelando o estado social faz-nos perceber que o poder está nas mãos de neoliberais que, neste momento, apenas querem mostrar serviço à dupla Merkel - Sarkosy.

Poderíamos ficar aqui a fazer considerações de vária ordem e esquecer o essencial. O grande problema é que, neste momento, muita gente passa por dificuldades. Estes cortes generalizados, por vezes cegos, estão a originar o desmoronar de pequenas e médias empresas, mandando para o desemprego milhares de pessoas. Retirar dinheiro à economia neste momento agudiza a crise e não há pastéis de nata que nos valham. 

Aqui nos Açores, apesar de termos as contas em ordem, estamos também a apanhar por tabela. A crise está aí, ninguém duvida.

O PSD, cá como lá, apesar da pouca margem de manobra, tenta, a todo o custo, dar a paternidade desta crise aos adversários políticos esquecendo-se que o povo tem os olhos bem abertos e já não vai em balelas.

31 de janeiro de 2012

Luíz José Coelho



Homem multifacetado que deu muito de si e do seu saber aos outros

(09/01/1925 – 02/05/1995)

O senhor Luíz Coelho era bastante alto e aproveitava esse fator para, nos finais de tarde do período estival, fazer alguns pontos nos jogos de voleibol que se prolongavam até ao anoitecer. Apesar de serem jogos informais, feitos com a roupa que se trazia no corpo, eram levados muito a sério.

O campo de S. Francisco enchia-se de gente - uns a jogar e outros a assistir, como eu - num convívio em que as piadas disferidas durante o jogo, no recinto ou fora dele, por vezes despoletavam pequenas escaramuças logo desfeitas pelo bom senso dos participantes mais calmos, como era o caso dele.

Profissionalmente esteve sempre ligado a máquinas e a motores. Era disso que gostava.

Foi responsável técnico pela Central Elétrica da Câmara Municipal durante muitos anos. Naquele tempo a eletricidade era desligada à 1 da manhã. Para avisar a população de que estava perto dessa hora era feito um sinal de luz por duas vezes. Quando esse sinal tinha mais uma componente todos sabiam que havia um problema nos motores e que o funcionário requeria a presença urgente do senhor Luíz Coelho para o resolver. Nesse tempo isso acontecia com muita frequência.

Era funcionário da Rádio Farol que fornecia importante apoio à navegação aérea. Nunca percebi porquê, mas aquela estrutura era um ponto de visita e, quando lá ia alguém, o senhor Luíz Coelho explicava como aquilo funcionava e mostrava com orgulho os motores impecavelmente mantidos que, segundo as suas exemplificações, arrancavam quando faltasse a energia da rede pública.

Os seus conhecimentos fizeram com que fosse chamado a dar apoio técnico à fábrica de conservas do senhor Manuel Barcelos e à primeira máquina debulhadora que veio para a Graciosa.

Era um amante do mar. Ao leme da sua lancha “Júpiter” facultava alguns passeios aos visitantes e chegou a colaborar em algumas expedições de carater científico ao redor da Graciosa.

Participou ainda na gestão da companhia baleeira do Mota (Pico) e foi presidente da direção do Santa Cruz Sport Club.

Foi também diretor da Adega Cooperativa da Ilha Graciosa, numa altura em que o vinho verdelho e a aguardente davam prestígio a esta ilha.

Era, também, um radioamador reconhecido a nível regional. No âmbito desta atividade lúdica prestava apoio aos habitantes da ilha quando falhavam as comunicações.

No sismo de 1 de janeiro de 1980 as comunicações claudicaram e foi através do senhor Luiz Coelho que as autoridades souberam o que se tinha passado na Graciosa, como foi através dele que os graciosenses ficaram a saber da catástrofe que se tinha abatido na Terceira e S. Jorge. Eu próprio, apanhado na Terceira por esse desastre natural e perante a inoperância do telefone, só tive notícias da minha família e dos estragos que afetaram sobretudo a zona sul da ilha, através de um contato que alguém terá feito com o senhor Luíz Coelho.

Era um “engenhocas”. Improvisava, mas, o que é certo e sabido, é que arranjava solução para tudo. A sua oficina, de fazer inveja a muitos profissionais, tinha ferramentas de todos os géneros, mas quando a reparação exigia um utensílio especial, lá estava ele a inventá-lo na medida certa.

Naquele tempo, quase ninguém tomava decisões sobre equipamentos, motores ou automóveis, sem receber a sua “aprovação” e, claro, de forma gratuita.

Luíz José Coelho foi um homem multifacetado que deu muito de si e do seu saber aos outros, por isso tem lugar cativo na galeria dos Graciosenses que se destacaram.

26 de janeiro de 2012

Desilusão


Desde 2004 que a Agraprome (Associação Graciosense de Promoção de Eventos), nessa altura ainda em fase de constituição, organiza, com alguma frequência, eventos de natureza subaquática, por acreditar que os mares dos Açores constituem um património de valor incalculável. A beleza dos seus fundos conjugada com a temperatura amena das suas águas, a excelente visibilidade e a biodiversidade, fazem dos Açores um destino de eleição para mergulhadores de diversos níveis, desde os principiantes até aos que exigem maiores níveis de dificuldade, passando pelo mergulho técnico.

Foram três fóruns sobre turismo subaquático, dois campeonatos nacionais e três open’s internacionais de fotografia subaquática, organizações que abriram os mares da Graciosa e dos Açores a inúmeros mergulhadores que transformaram muitas fotografias em autênticas obras de arte, algumas plasmadas num livro que aquela associação publicou em 2008, denominado “Graciosa, a capital do mergulho”.

Tem sido uma aposta certa, sem dúvida. A partir de determinado momento este mercado passou a ser visto de outro modo e agora promove-se os Açores como destino de mergulho em diversas feiras mundiais.

Prevê-se o aumento da procura nos próximos anos no nosso país, por isso temos de estar atentos e trabalhar no sentido captar parte desse crescimento.

É para isso que a Agraprome trabalha e foi por isso que apresentou, em meados de 2011, uma candidatura para organizar o 1º Campeonato da Europa de Fotografia Subaquática, ao conselho geral da Confederação Mundial de Atividades Subaquáticas que se realizou em Roma.

Já abordei estas questões diversas vezes, neste e noutros lugares, mas agora, infelizmente, pelas piores razões.

A Agraprome tinha muitas expectativas nesta prova. Era um passo importante para a consolidação da internacionalização dos eventos deste género realizados na Graciosa e nos Açores, pois previa-se a participação de, pelo menos, 16 países do continente europeu e eram esperados também jornalistas de revistas e sites da especialidade. Era de facto uma jornada importante e que trazia, implicitamente, uma grande responsabilidade aos organizadores, já habituados a esse peso.

Depois de atribuída a sua organização e de anunciada a data da sua realização, soube-se agora que esta prova foi cancelada pelo facto da Federação Portuguesa ter sido sancionada com uma suspensão de 2 anos.

Foi uma desilusão, não haja dúvida. Foi um contratempo com que a Agraprome não contava, de todo.

Mas nestas coisas a adversidade põe à prova as instituições e fortalece-as.

19 de janeiro de 2012

Novo reservatório de água


Hoje foi inaugurado mais um reservatório para abastecimento de água aos agricultores da Ilha Graciosa.
Com uma capacidade de 250 metros cúbicos, irá beneficiar 30 explorações com uma superfície de 210 hectares, este reservatório situa-se no caminho do Pinheiro, na Praia, e custou 53,9 mil euros.

Discernimento


Aparecer na televisão todos os dias é uma tentação. Dar a ideia da omnipresença pode fazer bem ao ego e transmitir a ideia de dinamismo, entrega e defesa da causa pública.

Mas há limites, impostos, mais que não seja, pelo bom senso, que nestas coisas por vezes é bom conselheiro. Não vale tudo por uns momentos de fama.

Tal exposição mediática, por vezes frenética, só deveria acontecer quando se tem algo para dizer ou uma boa nova para anunciar, porque as pessoas estão fartas de opacidades e de joguetes feitos apenas para benefício próprio e, desculpem a expressão, maribando-se para aqueles que deveriam ser os verdadeiros destinatários da sua ação política.

Quando se esgotam ideias há quem se empenhe em utilizar as ideias dos outros. Foi o caso da divulgação de que o novo envelope financeiro seria igual ao atual quadro comunitário de apoio, anunciado como se fosse uma conquista, quando essa informação já tinha sido disponibilizada pelo Governo dos Açores em junho de 2011. É o outro caso recente da defesa do POSEI para os transportes, como se fosse uma ideia original, quando a verdade é que outros já o tinham defendido no passado.

Enfim, tem-se visto de tudo, coisas incríveis, como estas, e que configuram um vazio de imaginação. Agora, quanto mais nos aproximamos das eleições regionais, as coisas vão-se agravando, sem sombra de dúvida.

É ver numa ilha desta região uma líder partidária inaugurar uma obra de um município, que não o dela, descerrando placa e tudo. É ver, noutro concelho, que também não é o dela, a mesma líder partidária falar num jantar de idosos pago pelo município dirigido pelo mesmo partido.

Não estou a ver em que qualidade isso possa ter acontecido. Se foi como líder de um partido político, é, então, porque já não há discernimento…

17 de janeiro de 2012

Industrial e Empreendedor

Manuel de Barcelos Silveira Bettencourt
(06/07/1916 – 15/10/1989)
O senhor Manuel Barcelos foi um empreendedor com visão de futuro. Perante as dificuldades da altura em que viveu, soube erguer uma conserveira, que primeiro se instalou no edifício da Casa do Povo da Praia e depois foi transferida para uma fábrica construída de raiz, na Rochela onde está hoje sedeada uma empresa de construção civil. Estava dotada de equipamento moderno e uma boa rede de frio. Construiu também uma frota de vários atuneiros, com uma capacidade apreciável para capturas de atum.
Para quem não conheceu é difícil imaginar a azáfama no porto da Praia e na linha de fabricação que a atividade da empresa provocava.

Na revista Açores – Madeira, publicada em 1955, Manuel Barcelos era caracterizado como “Braço forte e visão rasgada; incansável e exemplar homem de trabalho” e mais à frente refere que ”vai dotar a sua estimada ilha Graciosa com uma Fábrica de Conservas que ficará a ser a mais importante dos Açores e uma das melhores do País”. No mesmo artigo, aquela revista refere, e passo a citar, “a nova fábrica, que ocupará uma área de 5 mil metros quadrados, e cujo custo, devidamente apetrechada, orçará por cerca de 3 mil contos, constitui, de verdade, um grandioso empreendimento a que o nome e a ação do seu realizador ficarão honrosamente ligados”.

Se vivesse hoje, com os apoios que existem, decerto que este empresário estaria entre os melhores e com uma carreira de sucesso, porque a sua capacidade empreendedora foi sempre maior que as dificuldades que o perseguiram.

Vale a pena também referir outras qualidades, invulgares para aquele tempo. Graças o seu apurado sentido de responsabilidade, fazia honra em cumprir com os descontos para a segurança social dos seus trabalhadores, de tal modo que hoje muita gente, sobretudo mulheres, tem a sua reforma devido a essa preocupação para com o próximo.
Era prática corrente daquele empresário, também, dar trabalho aos homens em pomares e outros prédios, quando a fábrica não laborava, garantindo àqueles o seu ganha-pão em permanência, facto que também era raro naquele tempo e muito relevante, mesmo tendo consciência do prejuízo que isso lhe acarretava.
O senhor Barcelos foi derrotado pela falta de condições que reinava naquele tempo, nomeadamente pelas avarias nos equipamentos e pela ausência de um porto de abrigo que possibilitasse o alargamento da safra a mais alguns meses.

As suas qualidades fazem dele um cidadão de reconhecido valor e mérito, com grandes capacidades empreendedoras e dotado de um notável e invulgar sentido de justiça social.

12 de janeiro de 2012

Sem luz nem brilho


O estado português vendeu, há poucos dias, uma participação na empresa Eletricidade de Portugal (EDP), conforme estava previsto no memorando de entendimento com as organizações internacionais, aquando do pedido de assistência financeira.

Desta venda espero que o país tenha saído a ganhar e que, conforme muitos recearam, não tenha sido vendida a preço inferior ao seu valor. Acredito que os interesses de Portugal deverão ter sido acautelados, para bem de todos nós.

Neste processo de privatizações outras empresas se seguirão, umas com mais implicações para os Açorianos do que outras, como tem sido muito falado e, ainda muito mais, discutido na comunicação social que tem dado um enfase especial a este tema, como aquele a que se assistiu no caso da RTP, que tem implicações diretas na nossa RTP Açores, ou no caso da ANA, que está ligada a questões como investimento e gestão em aeroportos da responsabilidade da república.

Depois de um procedimento deste nível, em que o estado sai voluntariamente de uma empresa que passa para a esfera da iniciativa privada, o que se espera é que também se afaste de maneira a deixar de influenciar a sua gestão, como é lógico e, diga-se com todo o rigor, legítimo.

Na EDP não terá sido bem assim. Quando se esperava uma atitude consentânea com a de um proprietário que acaba de vender, surgem as nomeações para o Conselho de Supervisão onde estão incluídos, proporcionalmente como convém, membros dos dois partidos que dominam o governo e ainda de mais alguém que é muto próximo do Presidente da República. E claro, alguns acumularão vencimentos milionários com as pensões mais pequenas, é certo, mas já de si milionárias também.

Isto está a acontecer numa empresa agora privatizada, imaginem o que virá a acontecer às outras.

Veja-se o recente caso das Águas de Portugal, onde se constata a nomeação de autarcas do PSD e do PP, um deles com um processo pendente nos tribunais precisamente em litígio com a empresa que agora vai administrar.

Mais uma vez Passos Coelho faz precisamente o contrário do que defendeu e prometeu na campanha eleitoral que o levou à vitória. O problema é que esta sua postura está a tornar-se crónica.

Se isto é transparência, vou ali e já venho.

(Publicado no site da Rádio Graciosa www.radiograciosa.com)

11 de janeiro de 2012

Como nós os vimos ou como nós os vemos - Apresentação


O Luís Costa, autor do blogue Graciosa Online, lançou a ideia e fez-me o convite. Claro que aceitei, mesmo correndo o risco de poder não estar à altura deste desafio.

Pretende-se com esta rubrica falar um pouco das pessoas que, de uma maneira ou de outra, contribuíram ou contribuem para o desenvolvimento social, desportivo, cultural e económico da nossa ilha.

A abordagem deste tema terá uma formatação simples e tratará o assunto mais pela perspetiva de como a minha geração viu e vê estes nossos concidadãos, sem grandes recortes históricos ou formalismos literários.

O ser humano tem a memória curta, já sabemos, mas é nossa obrigação, pelo menos cívica, de reconhecer e lembrar as contribuições que mulheres e homens deram para que possamos todos usufruir de um futuro melhor.

Iremos recordar pessoas diferentes, de estratos sociais distintos. Vamos ter por aqui gente mais ou menos simples, com mais ou menos valor, uns com estudos e outros não, mas, garantidamente, terão em comum o amor pela Graciosa. 

Não é intenção de nenhum de nós rivalizar com quem quer que seja. Apenas queremos dar mais um contributo ao reconhecimento e ao valor.
(Publicado no Graciosa Online)

5 de janeiro de 2012

Só para "inglês"ver


A mobilidade de pessoas e bens e o turismo interno constituem, sem dúvida, uma mais-valia para a nossa região.

No período estival quando nos abeiramos de qualquer porto dos Açores verificamos, por entre o buliço natural daqueles espaços de partida e de chegada, que muitos dos viajantes são jovens ou idosos que aproveitam os programas de mobilidade interna que foram instituídos pelo Governo Regional.

Foi esta abertura que tornou as festividades da região mais atractivas e com cartazes mais apelativos, com apostas direcionadas aos diversos públicos destinatários, nomeadamente o mais jovem.

Não consigo entender como ninguém se tenha lembrado disto mais cedo, nomeadamente aqueles que agora se dizem iluminados e a transbordar de soluções para tudo o que seja problema. Não me sai da cabeça como é que numa região arquipelágica como a nossa os governantes da altura não tenham percebido que o mar que nos separa é o mesmo que nos poderá unir. Não percebo como se pôs fim ao transporte marítimo de passageiros de forma unilateral, sem ao menos ter uma alternativa fiável.

Enfim, foram decisões que tornaram a vida dos açorianos muito mais difícil, mais isolada e de horizontes mais fechados.

Hoje em dia, esquecidas que estão estas falhas de governação que nos custaram muito caro, veem-se e leem-se afirmações que tentam branquear o passado, como se tivéssemos memória curta.

É difícil acreditar nas pessoas que estiveram no governo no passado e foram os responsáveis pela estatização da economia dos Açores e pela liquidação do serviço público de transportes marítimos de passageiros, venham agora, de mansinho, defender a iniciativa privada e a criação de uma região económica.

Nos tempos em que o PSD dirigiu esta região a população ativa era mais reduzida e existiam muito menos empresas. Em 1996 tínhamos para cada dois funcionários públicos três na privada. Agora essa relação é de cinco empregados na privada para dois funcionários públicos. Por aqui se vê a diferença.

Chega-se assim à conclusão que estas parangonas são apenas fogachos políticos de baixo teor de credibilidade.