4 de julho de 2012

Animador invulgar e lutador

Valter da Cunha Melo

(12/02/1934 – 22/03/2011)

Quando o navio Ponta Delgada se aproximava do porto de Santa Cruz ou da Praia, surgia ao fundo uma lancha com o Cabo do Mar a bordo que, com uma bandeira, sinalizava o local apropriado para o comandante da embarcação mandar arrear a âncora. Esta manobra era fundamental pois permitia aos conhecedores das baías escolher um bom fundo e dá-lo a perceber ao comandante e assim evitar a perda de tão importante equipamento. A partir do fundeadouro o serviço de desembarque e embarque fazia-se num lento vaivém desta frágil embarcação de madeira.

De seguida a lancha voltava ao cais e trocava o Cabo do Mar pelo senhor Valter Melo e dirigia-se novamente ao navio, encostando-se à escada do portaló feita de madeira e cabos, dependurada no través do navio. Com a ajuda de um dos marinheiros, que se colocava estrategicamente no patamar ao fundo da escada, o senhor Valter era a primeira pessoa a entrar no Ponta Delgada, sempre acompanhado por uma pasta com a listagem dos passageiros a embarcar e outra papelada necessária ao despacho. Naquela altura já havia grande azáfama, com os passageiros a prepararem-se para o desembarque. O senhor Valter, passava pelo portaló em passo apressado e perdia-se no convés por entre os passageiros em direção ao conferente de bordo para tratar da burocracia. Depois, a partir do navio, acompanhava toda a operação de desembarque e embarque dos passageiros e só regressava a terra na última lancha, cerca de 2 horas depois da chegada.

Primeiro o senhor Valter foi despachante oficial das Alfândegas. Depois da desativação daquele serviço nesta ilha, nos anos 70, ingressa na Empresa Insulana de Navegação. Mais tarde torna-se correspondente do Banco Português do Atlântico e inicia o percurso de mediador de seguros, tendo sido agente da Tranquilidade, função que exerceu até à sua reforma.

O senhor Valter Melo era daquele tipo de pessoas que não deixava ninguém indiferente. Muito alegre e sempre bem-disposto o senhor Valter destacava-se naturalmente em qualquer grupo, por ser o centro de todas as atenções. Tinha uma enorme facilidade para contar uma história e fazia humor a partir de uma qualquer banalidade. Conseguia arrancar gargalhadas dos amigos com muita facilidade, mesmo com histórias que a partir da boca de outros não teriam piada nenhuma. Estava sempre pronto para participar em convívios com os amigos que, normalmente, acabavam com ele a cantar músicas do reportório popular, sempre acompanhado pelo seu cunhado Serra, de quem era, também, inseparável amigo.

Este seu registo de pessoa divertida e bem-disposta contrastava, e muito, com a sua postura no campo profissional, que encarava com muita seriedade e reconhecida competência, em todas as funções que desempenhou ao longo da sua vida. Como é recomendável conseguia sempre manter uma fronteira bem definida entre o trabalho e o divertimento, nunca misturando as duas coisas.

Há alguns anos atrás foi-lhe diagnosticada uma doença grave que o obrigou a diversas e prolongadas deslocações para o respetivo tratamento. A grande maioria das pessoas, perante uma notícia destas, claudicaria, com toda a certeza. A gravidade desta situação complicada nunca lhe tirou a alegria de viver, nem amenizou o seu espírito brincalhão. Lutou diariamente contra esta doença e no final saiu vencedor. Sem dúvida que a experiência de vida deste homem e a sua reação à adversidade é um exemplo para todos nós, sobretudo para aqueles que se deixam abater perante a primeira contrariedade.

O senhor Valter Melo tinha uma grande paixão pelo “seu” Graciosa Futebol Clube. Naquele clube fez de tudo. Foi jogador durante anos e anos. Lembro-me de o ver jogar, no Campo Grande ou no Campo da Avenida. Na altura eu não tinha qualquer capacidade para avaliar um jogador, mas dizem-me que foi grande nesta modalidade. Foi também dirigente, incluindo presidente da direção. Aliás, deve ter desempenhado todos, ou quase todos, os cargos existentes nos corpos sociais do clube.

Quando o clube estava instalado na casa da senhora Carolina Maria, na Rua Dr. João de Deus Vieira, as festas de aniversário daquela instituição ocorriam, muitas vezes, na sua casa de campo, a Vivenda Verde, situada no Jardim. Eram momentos mágicos que pude assistir uma ou outra vez, levado pela mão do meu irmão, e que agora gosto de recordar com uma certa nostalgia.

Nos anos 80 foi preponderante na decisão de se construir uma sede social de raiz, em parceria com outros adeptos daquela instituição. Ele fez parte de um grupo de pessoas que meteu mãos à obra, literalmente, e ajudou a construir aquele edifício que agora muito orgulha os seus sócios.

Depois de deixar de jogar, ainda fez uma perninha num clube criado quase por brincadeira, o Falta de Ar, constituído por atletas já há muito retirados ou jogadores improváveis, que participava em atividades locais, tendo, inclusivamente, vencido uma prova nas Festas de Santo Cristo, perante os incrédulos jovens que faziam parte das equipas regulares, onde eu próprio me incluía.

Vi-o também jogar voleibol, no campo de S. Francisco nas tardes de verão, onde se assumia com líder e com quem todos gostavam de jogar. Eram jogatanas animadíssimas em que a piada fácil, especialidade do senhor Valter, alternava com as picardias próprias de jogos muito disputados. As pessoas, depois dos seus trabalhos, juntavam-se ali, equipados tal como estavam vestidos, marcavam o campo com cal e montavam a rede que normalmente ficava guardada no saguão do tribunal, tal como a única bola existente. Dividiam-se as pessoas em dois grupos e escolhia-se alguém da assistência para dirigir o jogo em cima de um banco cinzento retirado das sentinas, localizadas mesmo ali ao lado. Não interessava se o eleito percebia ou não da matéria, o que era imprescindível é que fosse capaz de manter a ordem. Juntava-se ali uma animada assistência que acompanhava o jogo que só terminava ao cair da noite.

Era um grande animador dos bailes do seu clube de sempre. Conseguia transformar facilmente uma noite sem brilho num baile memorável. Com a sua maneira de ser e a sua alegria, arrastava os presentes para as coreografias inventadas por ele na hora, ao ritmo das marchas tocadas pelo conjunto do Graciosa Futebol Clube, onde se destacava a voz e a trompete do saudoso Gasparinho, o saxofone do Acácio e a viola ritmo ou o órgão elétrico tocados pelo Valdemiro.

Nos serões que passava no Graciosa gostava de jogar à sueca ou ao dominó com o seu grupo de amigos. Foi também ator de teatro no grupo da Filarmónica Recreio dos Artistas, representando papéis que combinavam com a sua personalidade, ou seja, divertidos.

O senhor Valter Melo foi um animador invulgar e também um lutador que soube combater a adversidade com a única arma que tinha: a alegria de viver. Sem dúvida que o seu percurso de vida marcou várias gerações, uma das quais a minha.

3 de julho de 2012

Intervenção na Assembleia Legislativa da R.A. dos Açores


Há dezasseis anos houve uma mudança de paradigma na Ilha Graciosa. De uma postura resignada perante a inércia do Governos que exerceram as suas funções até 1996 e a incapacidade local para dinamizar a economia, que definhava lentamente, fator que levou, nos anos oitenta, à emigração massiva de cerca de 25% de Graciosenses, que procuraram lá fora oportunidades que lhes eram negadas na sua própria terra, passámos para uma nova atitude que levou a uma completa infraestruturação da ilha, tal como aconteceu no restante arquipélago, começando por áreas fundamentais, como a energia, a educação ou a saúde, passando pela reabilitação das estruturas de transportes marítimos e aéreos e da rede viária, chegando às áreas económicas, como a agricultura com a construção da nova fábrica de laticínios, ou as pescas com a construção do porto de abrigo, lota e casas de aprestos ou ainda no turismo com a construção de um hotel de quatro estrelas, culminando no apoio social, que andou até 1996 pelas ruas da amargura.      


Foi com a convicção de que o muito que foi feito é muito mais do que está por fazer, que o Governo dos Açores esteve, no passado mês de junho, a cumprir mais uma visita estatutária à Ilha Graciosa, dando um forte sinal às populações que as conquistas do estado social são para manter e, nalguns casos, passíveis de reforço, apesar dos ataques perpetrados por Lisboa.


É mesmo assim. A humildade que orienta a nossa ação política faz-nos reconhecer que não está tudo feito, nem que somos os donos de toda a verdade ou que os virtuosos estão apenas do nosso lado. Mas esta postura coerente nunca nos fará abdicar do enorme orgulho que temos pelo trabalho imenso feito por todas as ilhas dos Açores, incluindo, claro está, a Graciosa.


A inauguração do novo Centro de Saúde, testemunhado por centenas de Graciosenses, foi, sem dúvida, o momento mais importante desta visita. O moderno edifício, capaz de proporcionar um serviço de melhor qualidade e com melhores condições para os profissionais e utentes e com o dobro da área do anterior, vai substituir um outro, obsoleto e que já não tinha condições para um cabal desempenho na prestação dos cuidados.


Fazendo parte integrante de uma política responsável na preservação do ambiente foi inaugurado o novo Centro de Processamento de Resíduos, que facilitará a gestão deste problema, nomeadamente com a exportação de grande parte dos resíduos produzidos, ficando naquela ilha apenas 25% e que serão passíveis de valorização. Este processo culminará com a selagem das lixeiras a céu aberto e com o encerramento e a recuperação do aterro sanitário existente mesmo ao lado da pista do aeroporto e que dá uma imagem negativa a quem nos visita.


Enquanto o governo de Passos Coelho fecha serviços da responsabilidade do Estado, como aconteceu recentemente na Calheta de S. Jorge, com o encerramento da repartição de finanças, ou o que se prepara para fazer no Nordeste ou na Povoação, com o encerramento dos tribunais, o Governo Regional aposta em aproximar a administração regional aos Açorianos. Por isso inaugurou o terceiro posto RIAC, este na freguesia da Luz, que irá proporcionar à população o acesso a uma diversidade de serviços, incluindo a marcação de consultas médicas, já a partir deste mês de julho.  


O Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz foi também inaugurado depois de totalmente requalificado, com a remoção das barreiras arquitetónicas e dotado de equipamentos modernos que proporcionam uma melhor qualidade de vida aos seus utentes.


Foi inaugurado também um miradouro no caminho florestal da Caldeira, que irá melhorar a oferta turística.


Foi também inaugurada a segunda fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, uma obra há muito pedida pelos agricultores daquela zona e que irá servir várias explorações agrícolas.


Além da conclusão destas obras e no âmbito do Conselho de Governo que decorreu durante aquela visita, foram ainda tomadas decisões importantes, nomeadamente com vista a reabilitar a Escola da Vila da Praia, a melhorar algumas vias de comunicação, apoiar os espaços TIC, iniciar os procedimentos para o lançamento do concurso da Marina da Barra, reabilitar moradias para realojar famílias carenciadas, contratar mais um médico para o período do verão, implementar o serviço de enfermagem ao domicílio aos sábados para evitar a ida de alguns doentes à urgência, ajudar a Adega e Cooperativa na contratação de um plano financeiro para a execução do seu projeto de modernização, lançar a terceira fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, entre outras.


Foram ainda apresentados projetos de tecnologia de ponta, como o SuperDARN, que incluirá a estação de radares da Graciosa numa vasta rede de 25 estações, ou a instalação definitiva do programa meteorológico ARM.


Estas inaugurações e estes anúncios de processos que estão em andamento ou prontos para arrancar, fazem parte dos compromissos apresentadas a sufrágio em 2008. Não vamos cumprir tudo, infelizmente, mas é preciso lembrar todos aqueles - já bem poucos, felizmente – que dão saltinhos de alegria quando algo não corre como o previsto, que o nível de cumprimento das promessas eleitorais que apresentamos aos Graciosenses é muito elevado e é por isso, com toda a certeza, que o povo daquela terra tem renovado a confiança em nós.


Enquanto avançamos e preparamos o futuro cumprindo uma estratégia de desenvolvimento, temos pela frente uma oposição que se entretém a puxar para trás, a denegrir aqueles que não são como eles, a incentivar os mais incautos a ofender e a optar pelo ataque pessoal, utilizando mentiras e meias verdades, que em nome da ética política deveriam ser renegadas. As desmesuradas ambições pessoais não justificam passar por cima dos outros sem qualquer pejo.


Na Graciosa é um pouco isso que se passa. Alguns políticos, alguns ex-políticos, alguns dos que se perfilam a candidatos a políticos e outros que tais, passam os dias, de esquina em esquina, a engendrar como se pode deitar abaixo isto ou aquilo, quando eles próprios, quando passaram pelos cargos que lhes permitiriam deixar a sua marca ou a concretização das suas ideias para aquela ilha, deixaram-nos apenas uma mão cheia de nada.


Muitos Graciosenses estão a ficar imunes a estas táticas de guerrilha política. Cada vez vale menos a pena tentar ludibriar o povo.


Horta, Sala das Sessões, 3 de julho de 2012.

28 de junho de 2012

Visita com frutos


O Governo dos Açores terminou, na passada semana, mais uma visita estatutária à Ilha Graciosa

Esta visita assume caraterísticas especiais por ser a última do atual mandato. Apesar disso acho que esta obrigação estatutária foi muito positiva para a Graciosa e para todos os Graciosenses.

A inauguração de um novo Centro de Saúde foi, sem dúvida, o ponto alto desta visita de Carlos César e do seu governo. O moderno edifício, capaz de proporcionar um serviço de melhor qualidade e com melhores condições para os profissionais e utentes, tem o dobro da área do anterior e respeita as normas internacionais para edificações desta tipologia.

Depois foi a vez de ser inaugurado o novo Centro de Processamento de Resíduos, obra que irá contribuir, e muito, para a qualidade ambiental desta ilha que foi reconhecida, em 2007, como reserva da biosfera. A partir de agora vai ser possível selar as lixeiras a céu aberto e o aterro sanitário construído mesmo à beira do aeroporto. Este investimento irá permitir a exportação de 75% dos resíduos, enquanto o restante irá ser reaproveitado.

Enquanto por esse país fora são encerrados serviços da responsabilidade do governo de Passos Coelho, como aconteceu também na Calheta de S. Jorge, no Nordeste ou na Povoação, com o encerramento de serviços centrais, o Governo Regional aposta na aproximação da administração regional aos cidadãos. Por isso inaugurou mais um posto RIAC na freguesia da Luz, o terceiro a abrir nesta ilha, que irá proporcionar à população daquela freguesia o acesso a uma diversidade de serviços concentrados naquele local, incluindo a marcação de consultas médicas.   

O Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz foi também inaugurado depois de totalmente requalificado, com a remoção das barreiras arquitetónicas e dotado de equipamentos modernos que proporcionam uma melhor qualidade de vida aos seus utentes.

Foi inaugurado também um miradouro no caminho florestal da Caldeira, que irá aumentar a oferta turística. Foi também inaugurada a segunda fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, um investimento há muito pedido pelos agricultores daquela zona.

Para além disso foram tomadas decisões importantes, com vista a reabilitar a Escola da Vila da Praia, melhorar as vias de comunicação, apoiar os espaços TIC, iniciar os procedimentos para o lançamento do concurso da Marina da Barra, reabilitar moradias para realojar famílias carenciadas, contratar mais um médico para o período do verão, implementar o serviço de enfermagem ao domicílio aos sábados, ajudar a Adega e Cooperativa na contratação de um plano financeiro para a execução do seu projeto de modernização, lançar a terceira fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, entre outras.

É claro que a oposição apresenta reticências, diz sempre que só são promessas, mas o certo é que, apesar dessas dúvidas e desta sua visão distorcida, o Governo dos Açores continua a mostrar obra feita. É pena, mas é a vida.

20 de junho de 2012

Sempre pronto para ajudar

Cristovão Eduardo da Paz Martins
 (30/12/1959 - 12/11/2004)
Perante a necessidade de lavrar e endireitar a terra do meu pequeno quintal desde logo recebi da parte do meu amigo Diogo e do seu cunhado Valentim a disponibilidade para me ajudarem nesta tarefa. Lembrei, na altura, a existência de um tubo de gás subterrâneo, que, a partir do outro lado do quintal, alimentava o esquentador e o fogão montados na cozinha. Este alerta, no dizer do Diogo, exigia a minha presença na altura dos trabalhos para indicar o local preciso, para aí procederem de modo a preservar esse imprescindível tubo.

No dia e na hora combinadas lá estavam os dois, com o respetivo trator. Iniciaram-se as manobras e eu, entusiasmado pelo modo como aquilo estava a decorrer, nunca mais me lembrei do malfadado tubo de gás. Escusado será dizer que o desastre aconteceu. De repente, atrás do trator, surgem da terra duas pontas de tubo de cobre, uma delas derramando abundantemente o combustível a partir da botija ligada na extremidade desta canalização. Foi preciso agir rapidamente e fechar o gás para evitar outro tipo de danos.

Depois do trabalho concluído e ante o cenário de não ter fogão nem esquentador nos próximos dias e sem saber a quem recorrer para resolver esta situação, lá fomos nós matar a sede ao Rivoli, a escassos metros da minha casa.

Atrás do balcão estava, como estava quase sempre, o loiro Cristovão, no seu inconfundível estilo de lobo-do-mar, com barba farta e já com alguma falta de cabelo.

Apercebendo-se do meu desalento logo o Cristovão quis saber o que se tinha passado. Ainda a remoer toda a culpa que só a mim cabia, lá consegui explicar a embrulhada em que me tinha metido. A resposta não tardou. Deu-me indicações para desligar a garrafa de gás e deixar os tubos a arejar durante vinte e quatro horas, dando a conhecer que ele próprio iria lá resolver a situação. De facto no dia seguinte lá surgiu o Cristovão, no lote contiguo à minha casa, a bordo do seu Citroen Mehari amarelo, com uma caixa de ferramentas e outros equipamentos. Soldou os tubos, testou a canalização e enterrou-a tal com estava antes do acidente. Depois do serviço feito e perante a pergunta sobre o custo do seu trabalho, o Cristovão respondeu: “- Depois pagas um copo lá no café”.

Esta resposta diz muito sobre a personalidade deste homem. Estava sempre pronto para ajudar, todos e em tudo. Era uma pessoa desenrascada e, nessa qualidade, resolvia qualquer coisa, literalmente. Para ele não havia impossível.

O Cristovão era natural da vizinha ilha de S. Jorge, mas era da Graciosa que gostava de estar e de viver, como afirmava frequentemente aos amigos.

Lembro-me de ver o Cristovão construir o seu Rivoli. Quando subia a Avenida Mouzinho de Albuquerque, em direção a casa, entrava naquelas obras, observava a evolução dos trabalhos e via o entusiasmo que o Cristovão e a Rosa emprestavam a este seu projeto.

O Rivoli era muito pequeno. A entrada dava para o corpo principal, em forma de L. À esquerda tinha um exíguo reservado, ao fundo, por trás do pequeno balcão, situava-se a cozinha. As casas de banho ficavam ao lado do balcão. O estabelecimento era forrado a madeira o que, em conjunto com a ténue iluminação, dava um ambiente acolhedor.

Abriu ao público em plenas Festas de Santo Cristo, em agosto de 1995. Atingiu tamanho sucesso que o obrigou, apenas alguns dias depois, a interromper a atividade, tendo, para o efeito, colocado na porta um elucidativo cartaz dizendo “Encerrado para organização”.

Por aquele estabelecimento passaram alunos, professores, equipas desportivas, turistas, funcionários deslocados, emigrantes e muitos, muitos Graciosenses.

Graças ao esforço e dedicação dos seus donos, o Rivoli foi sala de estar, cantina e clube de festas de muita gente. Eram frequentes a festas temáticas, acabando algumas em ambiente de baile, depois de removido o respetivo mobiliário. Era lá que muitos jovens festejavam os seus aniversários. Fidelizou muitos clientes, apesar da exiguidade daquele estabelecimento. O que faltava em espaço restava em simpatia.

Era impressionante a rapidez com que faziam uma nova decoração, por exemplo, para o São Martinho ou o Dia das Bruxas. E sempre decorações que surpreendiam. Depois das refeições viam-se, por cima das mesas, tecidos, papéis, balões e outros adereços, a serem preparados por clientes e amigos, sob a supervisão da Rosa e a complacência do Cristovão, para serem colocados nos respetivos lugares, sempre com o objetivo de criar um ambiente que agradasse às pessoas. Esse objetivo era sempre atingido, invariavelmente.

O Cristovão cultivava a amizade, sobretudo dos seus clientes. Era paciente com todos e sempre muito prestável. Fazia de cada cliente um amigo para a vida. Em várias situações, quando já se encontrava vencido pelo cansaço, deixava a chave e a responsabilidade da registadora ao cuidado de um amigo e retirava-se para casa, para um merecido descanso.

O Cristovão fez outras coisas na vida. Foi o representante dos produtos Olá para toda a ilha, em 2002 explorou o bar do Clube Naval e a discoteca Vila Sacramento no ano seguinte. Foi ainda funcionário da Casa Araújo. Nos seus tempos livres dedicava-se ao mar, onde gostava de estar. Viajava com frequência no seu barco, acompanhado por amigos, entre as ilhas do grupo central.

É, no entanto, no seu e nosso Rivoli que se destacou mais, revelando aí qualidades humanas que tocaram fundo no coração dos seus amigos quando tomaram conhecimento da sua inesperada partida.

14 de junho de 2012

A obra é maior do que dizem


O Partido Socialista tem um imenso orgulho da obra feita pelos seus Governos por todas estas ilhas dos Açores. A agricultura, a pesca e o turismo foram sujeitos a um forte investimento para recuperar o tempo perdido. A par desta estratégia o Governo dos Açores empenhou-se no reforço das estruturas portuárias e aeroportuárias, na renovação e construção de uma rede viária moderna e segura. A construção de novas escolas e a requalificação de muitas outras foi uma realidade, dotando a região de um parque escolar de excelente qualidade. Os transportes marítimos de passageiros foram reintroduzidos no período de verão, depois de terem sido desmantelados nos anos 80, quando os destinos da região estavam nas mãos do PSD de Berta Cabral, convém não esquecer. Foram também implementadas medidas de proteção social importantes, como a introdução do complemento de pensão para idosos, que abrange mais de trinta e cinco mil cidadãos e do apoio à aquisição de medicamentos do qual usufruem mais de mil e trezentos Açorianos. Mas não foi só. Os Governos da responsabilidade do Partido Socialista triplicaram os centros de convívio, criaram mais vinte e duas creches e aumentaram o número de lares de idosos e equipamentos de apoio domiciliário.

Na Ilha Graciosa estas alterações, para muito melhor, também são visíveis, precisamente nestas mesmas áreas. Nesta ilha também houve mudança da noite para o dia. Só não vê quem não quer.

Berta Cabral quando se desloca à Graciosa, em trabalho partidário, teima em não reconhecer isso e reinventa teorias com base em erros do passado, precisamente quando tinha responsabilidades políticas importantes.

Desta vez Berta Cabral, e passo a citar uma nota de imprensa publicada no Graciosa Online e com a ligação http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/graciosa/?k=Dupla-insularidade.rtp&post=40172, “quis reconhecer o esforço da indústria, mas também incentivar os produtores, que em 10 anos passaram de 1 milhão para 2,5 milhões de litros de leite por ano”, fim de citação.

Ora, se fosse só isto era muito pouco. No setor agrícola da Graciosa o Partido Socialista fez muito mais e orgulha-se disso todos os dias. Reergueu das cinzas a produção de leite e colocou-a no patamar dos 8 milhões de litros por ano e não dos 2,5 milhões referidos por Berta Cabral naquela nota de imprensa. E mais. Ao contrário do que aconteceu com a administração laranja que equacionou, entre 1992 e 1995, a possibilidade de encerrar de vez a indústria de laticínios, o Partido Socialista, a partir de 1996, apostou na inversão desta tendência suicida e decidiu construir uma nova e moderna fábrica que, neste momento, tem um enorme e inquestionável peso na economia da ilha.

Como se vê a obra do Partido Socialista, quer na Graciosa quer nas restantes Ilhas dos Açores, é muito maior do que o PSD de Berta Cabral quer fazer parecer. O povo, na altura certa, saberá fazer a destrinça entre o trigo e o joio.

7 de junho de 2012

Cortar a direito


Foi estranho para muita gente acordar na passada segunda-feira e não ter na RTP Açores o Bom Dia do conhecido Pedro Moura, tal como foi também triste para muitos Açorianos deixar de poder ver o noticiário regional das 13 horas.

Esta é a demonstração de que o plano do ministro Relvas já está em andamento, sem dó nem piedade. É mesmo assim, cortar a direito sem preocupações com as obrigações de serviço público, nem com o interesse dos Açorianos. E, o mais grave, é que ninguém consegue explicar que ganhos financeiros se obtêm com esta alteração.

Curiosamente, hoje foi conhecido um estudo de opinião, elaborado pela Norma Açores, onde 79% dos inquiridos não concorda com a concentração da programação regional entre as 17 e as 23.30 horas.

O referido estudo, e passo a citar a nota do Gabinete de Apoio à Comunicação Social, “aponta também para uma clara adesão do público açoriano à RTP Açores, que surge em primeiro lugar em termos de notoriedade total (reconhecimento e visualização), com 85,5%, sendo igualmente o canal mais visto do Grupo RTP nos Açores; seguida da TVI com 79%, e da SIC com 75,3%, respetivamente. Dentro do universo RTP, a RTP/Açores é, não só o canal que merece maior reconhecimento dos açorianos (47,5% para a RTP/Açores contra 41,5% da RTP 1), como é também o que é visto com maior regularidade (37% para a RTP/Açores, 18% para o Canal 1)”, fim de citação.

Este estudo de opinião indica, também, que o programa Bom Dia, agora extinto ao abrigo da imposição desta “janela” da programação regional, era o programa mais visto pelos Açorianos, seguido do Telejornal. Mais palavras para quê…

O receio é que, impelidos por esta suposta concentração de meios e de recursos, frase muito em voga agora, se comece, devagarinho e à falsa fé – como aconteceu agora – a promover o esvaziamento, primeiro, dos correspondentes e, depois, dos centros de produção mais periféricos, em nome da economia de escala. Com este caminho poderemos estar a desenhar o fim desta estação que muito tem dado aos Açores e às suas gentes.

Às voltas com esta questão anda o PSD Açores, sem saber o que há-de fazer com este embaraço em que se meteu. E tudo porque o PSD Açores se quer dar bem com Deus e com o Diabo, o que, convenhamos, não é boa política.

6 de junho de 2012

Uma vida de trabalho duro


Diógenes da Silva Lima

(04/12/1920 – 19/02/1988)

Em casa preparava-se mais um fim-de-semana na Praia. Era um ritual que levava o seu tempo, pois a viagem era grande. Apesar de serem apenas seis quilómetros de distância, aquela viagem parecia longa.

Com os poucos carros que circulavam na ilha, os transportes coletivos e de cargas assumiam um papel preponderante na movimentação de pessoas e bens entre as quatro freguesias da Graciosa. As festas da ilha obrigavam a vários desdobramentos até levar a casa os últimos passageiros. No período do Carnaval estas camionetas faziam as visitas aos clubes e ainda transportavam os resistentes folgazões que, depois do último baile deste período e já quando nascia um novo dia, davam um passeio pela ilha. Existiam também algumas indústrias, tais como a cal, a telha e os refrigerantes que requeriam transporte para a distribuição e exportação.

Fomos até à garagem e oficina do senhor Diógenes, no Atalho, e esperámos pela hora de nos abrirem as portas da gasta camioneta que nos haveria de levar nesta viagem. Tinha o motor na frente e um capô de abrir para os lados. O corpo da camioneta desenvolvia-se para traz do motor, o que lhe dava um ar de tartaruga, nome pela qual era popularmente conhecido este meio de transporte. A lentidão poderia muito bem ser outra explicação para esta alcunha. Os passageiros entraram e o condutor, com a ajuda do cobrador, colocou no tejadilho várias encomendas e a mala do correio, que haveriam de ser distribuídas pelos destinatários ao longo dos caminhos da ilha.

Compramos o respetivo bilhete, de cor verde e encimado pelo nome de Diógenes da Silva Lima & Filhos Limitada, cortado, com uma pequena régua de alumínio, numa diagonal até à indicação do preço. Três escudos e cinquenta centavos era o custo desta viagem. Já com a camioneta em andamento, vinha o cobrador, sempre com a sua mala de cabedal a tiracolo, com uma espécie de alicate, fazer um furo no lugar correspondente ao percurso.

A viagem começava com piso razoável, mas grande parte do percurso ainda era feito em estrada de macadame. O caminho do Quitadouro, em direção à Praia, começava logo com uma grande subida, mas, mais ao menos a partir de meia viagem, no Formigueiro, havia uma descida abrupta, o que levava o condutor a redobrar os cuidados para levar os seus passageiros ao destino em segurança. A nossa tartaruga, de um modo esforçado, lá conseguia dar conta do recado, e completava assim mais um percurso, que terminava numa outra garagem, na Rua Rodrigues Sampaio, na Praia, onde o condutor, com o seu olhar clínico ditado pela experiência, via os níveis de óleo e de água e tratava de a pôr operacional para fazer mais uma viagem.

O senhor Diógenes a 22 de outubro de 1941 adquire, por dezasseis contos, o negócio de fazendas e mercearias, com sede na Rua Fontes Pereira de Melo, na Praia, filial da firma Costa e Medina Limitada, para o qual trabalhava desde 1936.

Quando tinha 18 anos constrói o seu primeiro autocarro, uma miniatura em madeira. Mal sabia ele que a sua vida empresarial estaria ligada aos transportes coletivos até ao dia da sua morte.

Em 16 de junho de 1948 recebe o seu primeiro táxi, um Austin. A 2 de agosto do ano seguinte recebe outro táxi, também daquela marca. A 29 de janeiro de 1951 recebe mais um táxi, também Austin e a 30 de março de 1954 recebe a quarta viatura para serviço de aluguer com condutor.  

Em 1954 compra um chassis de um autocarro e trá-lo até à Graciosa no navio Lima. É colocado num batelão em Santa Cruz, mas devido à fraca capacidade do pau de carga do porto, esse batelão é rebocado por uma “gasolina” baleeira até à Praia, onde finalmente é descarregado para terra firme. A carroçaria é feita na Graciosa pelos irmãos João e Manuel Machado, em madeira e forrada posteriormente a alumínio. Até os estofes eram feitos cá. Esta opção pela importação de chassis tinha a ver com a inexistência de meios para descarregar um autocarro completo.

Na altura a empresa tinha a sede na Praia. A primeira viagem desta camioneta dá-se a 23 de outubro de 1954, um sábado, fazendo um percurso de 52 quilómetros e realizando uma receita de 614$50.

As frequências foram aumentando, até que a partir de 9 de dezembro de 1957 passa a haver carreiras diárias.

A 24 de dezembro de 1955 recebe mais dois chassis que foram novamente carroçados pelos irmãos Machado, um destinado a carga e outro a passageiros. Curiosamente estes chassis saíram de Lisboa no navio Terceirense, a 20 de novembro, mas não puderam desembarcar devido ao mau estado do mar. Foram até Ponta Delgada e voltaram, desta vez no navio Lima, tendo desembarcado nesta ilha na véspera de Natal daquele ano.

Em 1958 a sede passa para Santa Cruz. Em 1968 dá-se uma alteração estatutária, passando a empresa a designar-se Diógenes da Silva Lima e Filhos Limitada.

Enquanto vai desenvolvendo a sua atividade nos transportes coletivos continua a investir nos táxis, chegando a ter 10 em circulação, espalhados pelas praças das quatro freguesias. Este negócio, no entanto, é abandonado a seguir à revolução de 1974. Mais tarde termina também com o serviço de transporte de mercadorias.

Em 1980 transforma-se em Empresa de Transportes Coletivos da Ilha Graciosa, já com a participação da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa no capital social.

A vida deste empresário não foi fácil. O recurso ao crédito e as dificuldades próprias da época, que desfasavam o período do investimento do período do respetivo retorno, podiam afastar deste tipo de negócio os menos afoitos, mas não o senhor Diógenes. Nunca se deu por vencido e empenhou-se de corpo e alma neste seu projeto, que acabou mesmo por ser o seu projeto de vida, enfrentando e minimizando todas as contrariedades que surgiram.

As dificuldades nos transportes destes equipamentos de grande dimensão eram resolvidas com imaginação. Se um batelão não chegasse, juntava-se um outro e colocavam-se alguns postes de telefone, atravessados, para dar mais consistência e equilíbrio a este meio de transporte adaptado. A falta de peças suplentes era resolvida com muito trabalho. Frequentemente as suas oficinas trabalhavam ininterruptamente, por vezes inventando peças, para colocar o autocarro ao serviço logo pela manhã. São conhecidas histórias de reparações feitas mesmo durante as viagens ou mudanças de motor durante a noite para que no dia seguinte não faltasse transporte a muitos Graciosenses que dele dependiam.

O senhor Diógenes foi um empresário que teve uma vida de trabalho duro e de muita dedicação ao seu negócio, que não lhe terá rendido muito em termos financeiros, mas certamente que o preencheu. Podíamos vê-lo agarrado ao volante de uma das suas camionetas a conduzir horas a fio, a supervisionar a sua oficina ou a vender bilhetes no seu guichet. Era um homem que nunca parava.

Nos seus tempos livres gostava de tocar violão e dançar modas de viola nas festas de Carnaval que aconteciam nos clubes espalhados pela ilha.

A ousadia, a tenacidade e a coragem com que tratou os seus negócios fazem dele um empresário que se destacou na Ilha Graciosa e que importa recordar.

31 de maio de 2012

Açores sempre em primeiro ou a dança das cadeiras


No Dia dos Açores, que se comemorou este ano na Vila da Povoação, o Presidente Carlos César fez um discurso brilhante, como sempre, mas este foi especial, a meu ver, talvez por ser o último desta legislatura e por não ser candidato a Presidente do Governo dos Açores nas próximas eleições de outubro.

É conhecida a sua posição firme em defesa dos Açores e dos Açorianos. Carlos César nunca se coibiu de levantar a voz sempre que esteve em causa a autonomia da região, independentemente da cor política dos inquilinos de S. Bento. Sempre repeliu os ataques dos centralistas que gravitam em todos os partidos políticos e que surgem à luz do dia nos momentos em que podem fazer mossa.

A política de proximidade, configurada no nosso modelo de autonomia, permitiu ao arquipélago desenvolver-se mais rapidamente em áreas fundamentais, como a saúde, a educação e o apoio social, que levavam décadas de atraso em relação ao resto do país.

É certo que foi nos últimos 16 anos que a Região Autónoma dos Açores conheceu um enorme crescimento fruto das opções de investimento estratégico e do reconhecido rigor nas finanças públicas. Daí a convergência com o país e a Europa em indicadores económicos e sociais,  que demonstram o acerto nas políticas executadas pelo Partido Socialista. Mas, no seu discurso, Carlos César fez referências às conquistas dos 36 anos, tantos os que tem a autonomia dos Açores, sem nunca esquecer os que o antecederam, demonstrando um enorme sentido de estado.

Por isso, por colocar os Açores sempre em primeiro lugar e também por ser um grande político, no final da sua intervenção, o Presidente do Governo Regional foi longamente aplaudido de pé por quase todos os presentes.

Digo quase todos porque meia dúzia ficou sentada, com os olhos colados ao chão e um envergonhado esboço de aplauso sobre o regaço. Curiosamente são os mesmos que perpetraram uma inexplicável guerra de lugares, com telefonemas em voz exacerbada para a comunicação social pressionando-os para darem atenção a uma situação protocolar que é, no fundo, perfeitamente normal. E logo estes, habituados que estão a empurrar para ficarem mais à frente ou a atropelar todas as regras de ética para terem mais uns minutinhos de antena.

Foi uma tentativa de estragar uma festa de partilha e de união, que é património de todos os Açorianos. Não conseguiram.

24 de maio de 2012

Ideias ou fogachos?



Nestes períodos de pré-campanha eleitoral, vai lá saber-se porquê, há a tendência de se cometerem atropelos, ficando relegado para segundo plano o bom senso recomendado para estes tempos de luta partidária mais acesa e, por conseguinte, de maior fricção.

É muito pouco dignificante fazer da pré-campanha apenas um frenético vai vem, onde parece não fazer mal, por exemplo, aparecer sem ser convidado, ou instigar terceiros a usar cargos associativos para promover campanhas partidárias em favor de um(a) candidato(a) ou ainda tentar controlar a comunicação social passando por cima da sua independência e idoneidade. Estes são alguns métodos – muito pouco inocentes, diga-se – executados por políticos com pouco escrúpulos, pelos seus solícitos mandantes ou pelos oportunistas, que surgem sempre à luz do dia de quatro em quatro anos, curiosamente.

Mais do que nunca precisamos, nesta altura, de ideias para o futuro desta região. Ideias claras e consistentes, que obedeçam a uma estratégia coerente e transversal que promova o crescimento, o emprego e a coesão social e económica.

Vasco Cordeiro tem feito esse trabalho por essas ilhas, propondo outras políticas e novas abordagens para novos problemas que assolam os Açores, Portugal e a Europa, mantendo um enorme orgulho no trabalho desenvolvido pelo Partido Socialista nesta região nos últimos dezasseis anos.

A política de solavancos e assomos ao sabor das circunstâncias perpetrados pelo PSD e pela sua líder, podem satisfazer momentaneamente alguma clientela aqui e ali, mas denota uma grande irresponsabilidade e falta de sentido de estado.

23 de maio de 2012

Agricultor inovador e homem solidário




António Maria da Cunha

(17/07/1918 – 10/04/2000)

Já passava das onze horas daquela noite fria e chuvosa quando bateram à porta da casa do senhor António Maria, no caminho Velho dos Fenais. Já estava habituado a que lhe batessem à porta, tanto de dia como de noite. Era, quase sempre, um sinal de que alguém precisava dele e dos seus conhecimentos adquiridos ao longo de uma vida de labuta. Tal como a maioria das pessoas que vivem do amanho da terra e da criação de gado, o senhor António Maria levantava-se muito cedo, para começar o seu duro dia, por isso aquela hora era já tardia.

Ao longo de toda a sua vida foi ganhando experiência no tratamento das mazelas e no acompanhamento dos partos dos seus animais, que, por vezes, por não correrem bem requeriam a intervenção humana para evitar perdas.

Ao mesmo tempo que a sua exploração ia crescendo, também crescia a sua fama no que respeitava ao acerto nos tratamentos dos animais e na resolução de partos mais difíceis. É claro que, numa ilha desprovida de médico veterinário durante anos e anos, este homem constituía uma mais-valia importante e, como tal, passou a ser muito procurado pelos agricultores de toda a Graciosa.

Era o caso daquela noite. O João, apercebendo-se que a melhor vaca da sua pequena manada, a “Caiada”, estava prostrada numa altura em que devia estar a parir, não hesitou e agarrou na sua motorizada Famel e meteu-se a caminho até aos Fenais.

O senhor António Maria veio à porta e ouviu da boca do aflito dono da “Caiada” a descrição do problema. Este ordenou que procurasse mais alguém para os ajudar e foi trocar o pijama por roupa quente e um fato de água, pois a noite não estava para brincadeiras e ainda por cima podia ser longa. De seguida mete-se na sua carrinha Peugeot, que mais parecia uma farmácia ambulante, e põe-se a caminho da pastagem do João, lá para os lados da Serra Branca.

Depois de algumas injeções e de várias manobras, lá acabou por nascer o bezerro da “Caiada”, aparentemente saudável. Já passava das três da manhã.

Muitas noites do senhor António Maria da Cunha terão sido passadas assim, ajudando os outros de forma abnegada. Aos agricultores com mais dificuldades nem o dinheiro dos medicamentos levava.

Como agricultor o senhor António Maria fez um grande percurso, sempre na sua ilha Graciosa, apesar de ter feito uma tentativa para emigrar com destino ao continente africano a chamamento de um amigo, mas sem qualquer sucesso. Começou com uma pequena exploração, que partilhava com a condução de um táxi, e foi crescendo, até ser a maior agricultor desta ilha, já a tempo inteiro. Foi um dos pioneiros do melhoramento animal, pois na tentativa de obter um melhor rendimento procurou noutros mercados adquirir produtoras de raças com caraterísticas ideais para a produção de leite. Mais tarde abandona a produção de leite e dedica-se exclusivamente à fileira da carne.

Eram também conhecidos os enormes bois, que exibia com orgulho, capazes de dar um melhor rendimento no trabalho da terra, numa altura em que a mecanização era inexistente.

Foi pelas suas mãos que veio até esta ilha um enorme arado que, puxado por 12 juntas de bois, revolvia a terra até profundidades consideráveis tornando-a mais produtiva.

Sem sombra de dúvida que esta postura inovadora, a sua experiência e a sua visão do futuro terão impulsionado outros agricultores desta ilha. Quando falava em agricultura fazia-o com paixão e isso via-se nos encontros públicos em que participava, onde tinha sempre uma palavra a dizer e era ouvido com respeito e admiração.

Apesar de ter apenas a instrução primária gostava de escrever, sobretudo poesia, que declamava em eventos públicos ou oferecia aos seus amigos.

Entre 1982 e 1985 foi Vereador da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa.

Nove anos após a sua morte a Associação Equestre Graciosense associa o nome de António Maria da Cunha ao seu picadeiro, numa merecida e rara homenagem a um homem que deu tudo à sua terra.

Em 2010, em sessão solene realizada na ilha do Corvo, os órgãos próprios da Região Autónoma dos Açores atribuem-lhe, a título póstumo, a Insígnia Autonómica de Mérito Industrial, Comercial e Agrícola.

Este homem solidário e de vistas largas morreu com aquilo com que começou, ou seja, quase nada, mas teve uma vida muito preenchida, onde se destaca uma inusual dedicação aos outros, sobretudo os mais desprotegidos.

17 de maio de 2012

Oportunidades e outras pieguices


Portugal nem sempre tem entendido de forma perentória as declarações emitidas pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, quando este intervém. Por isso tem sido recorrente vir novamente a público, no dia seguinte, tentar explicar aquilo que tinha dito anteriormente. Mesmo assim não é líquido que as explicações dadas sejam mais esclarecedoras do que as declarações da véspera.

O caso talvez se explique pela forma intensa com que gosta de falar aos portugueses e pela densidade das ideias que pretende fazer passar.

As últimas declarações sobre o desemprego foram desastrosas. Classificar este drama social como uma oportunidade para mudar de vida, foi um erro de palmatória. As explicações do dia seguinte até foram percetíveis, mas não apagaram aquela enviesada maneira de ver um problema que afeta cada vez mais portugueses.

Abordar o tema do desemprego desta forma constituiu uma ofensa a quem luta todos os dias para arranjar um trabalho que lhe permita sustentar a família com o mínimo de dignidade. Infelizmente os números nacionais indicam que a situação é dramática e, como tal, este governo, da responsabilidade do PSD e do CDS/PP, deveria preocupar-se, tão só, com a criação de oportunidades, mas de emprego.

Pulamos de recorde em recorde e as políticas ativas para minimizar este pesadelo, que afeta muitos concidadãos, tardam em aparecer. Ouvimos todos os dias alguns ministros desfilarem as suas preocupações, mas na prática tudo continua na mesma, não se vislumbrando soluções para minimizar os problemas por que passam muitos portugueses.

Este governo do PSD e do CDS/PP está a esmagar a classe média, a criar dificuldades no acesso dos portugueses à saúde e ao ensino. Todos os dias se assiste à destruição de postos de trabalho, quer nas empresas, quer na função pública, atirando para o desemprego muitas pessoas, a grande maioria sem direito a subsídio de desemprego, cujas regras foram habilmente alteradas.

É notório que este governo de Passos Coelho e de Paulo Portas estabeleceu como objetivo primeiro deixar empobrecer este país. O mais grave é que está mesmo a conseguir.

10 de maio de 2012

Diferenças


Constatei, através da leitura do jornal Açoriano Oriental, do passado dia 2 de maio, que o Plano Diretor Municipal de Ponta Delgada tinha sido suspenso parcialmente pela edilidade para que os proprietários de terrenos agrícolas possam expandir a área de instalação de equipamentos de apoio à atividade agrícola para além dos 1.500 m2. Essa suspensão, ainda segundo a notícia daquele jornal, foi aprovada apenas com a abstenção do CDS/PP e, passo a citar, “responde a vários pedidos feitos pelos próprios empresários agrícolas, sendo tida pela autarquia como uma forma de apoiar os produtores, numa altura em que é difícil a captação de meios de investimento económico”, fim de citação. A Câmara Municipal de Ponta Delgada considera que esta suspensão é mesmo, e cito novamente, “um incentivo para que os proprietários invistam mais nas suas explorações e possam apresentar candidaturas a apoios financeiros para este fim”, citei.

Não sei de quem partiu esta proposta de suspensão do Plano Diretor Municipal, mas salta à vista de todos que os partidos que compõem a Assembleia Municipal de Ponta Delgada foram praticamente unanimes quanto à necessidade de aprovar este documento, tendo em conta os interesses dos agricultores do seu concelho.

A Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa, ainda muito recentemente, também apresentou um documento de teor semelhante onde era proposto expandir a área de instalação de equipamentos para além dos 750 m2, tendo em conta também alguns pedidos feitos a esta autarquia.

Duas situações em tudo muito semelhantes, mas que, no fundo, mereceram tratamento diferenciado pelos deputados municipais. No concelho de Ponta Delgada a proposta foi viabilizada, enquanto na Graciosa a suspensão do Plano Diretor Municipal apresentado pela Câmara Municipal foi chumbada pela maioria do PSD.

Por isso quando a dra. Berta Cabral jura a pés juntos que defenderá a agricultura e os agricultores, só temos de ficar desconfiados porque o seu discurso não bate certo com a prática do partido que dirige.

9 de maio de 2012

Gerir com paixão



Francisco da Cunha Vasconcelos Oliveira

(22/12/1939 – 31/03/1987)

Naquele dia 13 de agosto de 1976, quando eram sensivelmente duas horas da tarde, o iate Espírito Santo, com a matrícula SG-16-TL, saiu do porto das Velas, tal como fizera inúmeras vezes. Tinha acabado de descarregar a mercadoria vinda da Terceira e destinada àquela ilha, ficando ainda no porão muita carga destinada ao próximo porto de escala, desta vez no Pico.

O mar estava calmo naquela tarde de verão. A bordo seguiam também muitos passageiros que aproveitavam aquela ligação à vizinha ilha do Pico. À saída do porto, e quando nada fazia prever tal desfecho, o barco adornou suavemente, inundando a casa das máquinas e as salas repletas de passageiros. Esta situação terá sido provocada pela elevada concentração dos passageiros a bombordo do barco. A carga mais pesada, constituída por bidões com asfalto e ferro destinado à construção civil, terá corrido colocando a embarcação numa posição perigosa. Foi o pânico a bordo. De terra foi possível observar o acidente e por isso vieram várias pessoas e alguns barcos prestar socorro aos passageiros e tripulantes. Gente corajosa e anónima terá regressado várias vezes à inundada embarcação para retirar outros passageiros que se terão atrapalhado no meio de toda aquela confusão.

O balanço foi trágico. Neste acidente pereceram sete pessoas, seis eram passageiros e um fazia parte da tripulação. Depois das manobras de salvamento e da retirada dos corpos, o barco Espírito Santo foi rebocado até ao porto da Horta e, mais tarde, dirigiu-se para o estaleiro de Santo Amaro, no Pico, onde foi recuperado, tendo navegado até ao ano de 1992.

O senhor Francisco da Cunha era conhecido como um homem humilde, bondoso e de trato fácil. Naquela altura era gerente dos Transportes Marítimos Graciosenses, empresa com um capital social de cem contos, dividido equitativamente por vinte sócios. Mal foi conhecida a notícia do acidente o senhor Francisco tratou de ir, primeiro, até S. Jorge e, depois, até à Horta para se inteirar da situação, avaliar os danos e resolver o que tinha de ser resolvido. Foi uma árdua tarefa que desempenhou com zelo e rapidez, como o caso requeria.

Naquela data a empresa detinha apenas o velhinho Espírito Santo de madeira construído em frente à casa do Dr. Vinício Albuquerque, na Praia, pelo mestre Manuel Joaquim de Melo, que tinha vindo do Pico para esse efeito. O Fernão de Magalhães, também de madeira e vocacionado para o transporte de cargas, tinha saído do serviço nesse mesmo ano.

O senhor Francisco da Cunha não era um gerente qualquer. Para ele, gerir aquela empresa não era um trabalho na verdadeira aceção da palavra, era mesmo uma paixão, vivida intensamente na “onda” deste arriscado negócio. Essa entrega desmedida era visível nos bons momentos, quando se inebriava pelo reconhecimento que era atribuído à empresa pelos serviços que  emprestava ao Grupo Central dos Açores, e, também, nos momentos de enorme sofrimento, como foi o caso daquele fatídico dia. Era nesses momentos difíceis que consumia cigarros atrás de cigarros, como que para aliviar a tensão provocada pelas inúmeras preocupações que o iam consumindo.

Na qualidade de gerente, foi decisor nas diversas tentativas de fusão de pequenas empresas congéneres. A recusa em aderir a essas propostas esteve sempre ligada ao facto dos Transportes Marítimos Graciosenses poderem vir a perder peso na estrutura acionista e ser previsível a deslocalização da sede da futura empresa da sua tão amada Graciosa para outra ilha qualquer.

Esteve envolvido na elaboração de um projeto para a construção de uma nova e moderna embarcação, que chegou a apresentar e a discutir em várias assembleias gerais da empresa. As vicissitudes da vida desta empresa levaram-na noutro sentido. Em setembro de 1992, alguns anos depois da morte do senhor Francisco, o velhinho Espírito Santo, embora abrigado no interior do porto da Praia da Vitória, não conseguiu resistir às tempestades Boney e Charlie, que assolaram a Região quase em simultâneo, acabando por naufragar, desta vez de forma irremediável. Aqui, a empresa, devido à urgência que o caso implicava, optou por adquirir um barco de ferro na Noruega que tomou o seu lugar e, inclusivamente, o seu nome.

O senhor Francisco da Cunha foi também proprietário de um forno que, de um modo artesanal, fabricava telha regional que era vendida localmente e ainda exportada para outras ilhas do Grupo Central. Naquele tempo esta indústria tinha um peso importante na economia da Ilha Graciosa.

Trabalhou alguns anos na Santa Casa da Misericórdia da Vila da Praia da Graciosa. Depois ingressou na Conservatória do Registo Civil e Notariado de Santa Cruz da Graciosa, onde trabalhou até ao dia da sua morte.

3 de maio de 2012

A primeira vítima


Quer se goste ou não do estilo, o “Bom Dia” de Pedro Moura é uma programa de televisão que cumpre, na integra, a missão de serviço público nos Açores. Ninguém se admira de este ser dos mais vistos na RTP-Açores.

Quando as reportagens são de pequenas comunidades, das ilhas mais pequenas ou de assuntos menos relevantes e não cabem nos noticiários tradicionais, têm sempre à sua espera um lugarzinho no “Bom Dia”. Muitos são os entrevistados do Pedro Moura que nunca teriam hipóteses de aparecer no Telejornal e que ali têm espaço para apresentarem os seus projetos, recebendo, em troca, um apoio incondicional daquele jornalista, que valoriza o trabalho e empenho de muitas associações espalhadas por este arquipélago.

Sabe-se agora que a emissão do “Bom Dia” vai terminar. Assim, sem mais. De qualquer dos modos este tipo de programas já tinha sido condenado pela ordem, vinda de Lisboa, de concentração do horário de emissão. O “Bom Dia” de Pedro Moura é, assim, a primeira vítima da transformação da RTP-Açores numa mera janela.

O ministro Miguel Relvas não percebeu ou não quer perceber que a RTP-Açores não é um canal de televisão qualquer. Na sua génese esteve a coesão de uma região composta por nove ilhas e muito mar e, neste momento, a RTP-Açores representa um instrumento que contribui, e muito, para o fortalecimento da nossa Autonomia. Transformar o futuro da televisão dos Açores numa mera questão economicista é de muito mau gosto, sobretudo quando se sabe que o problema deste canal nem sequer reside aí.

Os Governos dos Açores do Partido Socialista sempre entenderam que o financiamento do serviço de rádio e televisão é da responsabilidade da República Portuguesa, mas, mesmo assim, criaram condições técnicas para que fosse possível cobrir com alguma qualidade e regularidade os acontecimentos de todas as ilhas, em nome da coesão regional.

Confrangedora é a posição do PSD-Açores sobre a televisão e rádio da região. Aliás, o PSD-Açores de Berta Cabral, quando esta questão se levantou, esteve sempre incompreensivelmente errático, daí ter revelado não uma, mas várias posições sobre esta matéria e sempre de modo a proteger o governo de Passos Coelho, atirando para trás das costas o superior interesse dos Açores. Primeiro o financiamento deveria vir da Lei das Finanças Regionais. Depois deveria ser o Estado Português a suportar a totalidade do financiamento. Agora dizem que a solução passa por uma empresa com capitais nacionais, regionais e privados.

Quando se esperava do PSD de Berta Cabral uma posição de força perante Passos Coelho e companhia, vê-se apenas submissão e incapacidade para reivindicar um direito que nos assiste.

26 de abril de 2012

Abril sempre


Na primavera de 1974 muitas foram as esperanças depositadas no futuro de Portugal. O país abria-se ao mundo, enquanto se dava por finda uma guerra que matou e mutilou muitos concidadãos. A educação foi alargada a todos tal como a saúde passou a ser um direito de todos os portugueses. Os trabalhadores conquistaram direitos até então proibidos. Foram o 13º e 14º meses, os vínculos às entidades patronais, o apoio na maternidade, a igualdade de oportunidades, a dignificação das carreiras profissionais, a valorização dos salários, os direitos de aposentação, o direito à greve, entre outros. A implementação de políticas de proximidade através do poder local e a liberdade de expressão foram também importantes conquistas.

Eram estes os ideais de Abril que levaram os corajosos militares à rua para derrubar um regime déspota e promotor de desigualdades a todos os níveis. O povo cedo percebeu o que estava em causa e, desde logo, deu o seu inteiro apoio ao Movimento das Forças Armadas nesta revolução dos cravos.

Nestes trinta e oito anos a democracia portuguesa sofreu contratempos, com avanços e recuos, mas nunca esteve tão ameaçada como agora.

Todos os dias o Governo da República impõe medidas que vão no sentido de desmantelar essas conquistas. Os trabalhadores a cada dia que passa perdem direitos que são inalienáveis, ou pelo menos eram até há bem pouco tempo.

A desregulamentação do trabalho, a mobilidade de qualquer maneira, os encargos com os despedimentos a preços de miséria, o corte dos subsídios de férias e de natal, o congelamento das reformas antecipadas, o aumento desmesurado de impostos, são o pão não de cada dia. Depois vem a perigosa tentativa de liquidação do Serviço Nacional de Saúde e as restrições do acesso à educação. A reforma autárquica, feita a régua e esquadro sem qualquer respeito pelas especificidades, vai destruir, de uma forma indecorosa, a matriz identitária de muitas comunidades.

Estas medidas não só colidem com o espírito de Abril, como foram elas o motivo pela qual os militares saíram às ruas deste país.

E não me venham com a desculpa da troika, porque grande parte destas armas com que o Governo de Passos Coelho combate o seu próprio povo, estão para lá do exigido pelo memorando assinado com as instâncias internacionais.

Compreendo aqueles que faltaram à cerimónia oficial das comemorações do 25 de Abril, porque ainda nos resta esse direito, o direito à indignação.

25 de abril de 2012

Pioneiro na hotelaria


Brivaldo Bettencourt Santos

(21/06/1895 – 17/11/1984)
Naquele tempo, crianças com éramos, parecíamos todos felizes. Nas férias brincávamos de manhã até à noite, apenas com uns intervalos para as refeições. Em altura de escola aproveitávamos os tempos que nos davam os nossos pais para brincar e jogar. E não se pense que eram brincadeiras simples. Exigiam de nós força, destreza física, resistência, imaginação e espírito de grupo.

Não tínhamos computador ou play station. Não havia televisão e os livros eram poucos. Mas mesmo assim tínhamos uma panóplia de jogos à nossa disposição, como a barra, o rato de sociedade, o pião, a navalha e, por último, o quartel-general, que nos entretinham durante todo o ano, revezando-se por épocas estabelecidas por nós de forma quase automática e de maneira a nunca fartar. Para além destes, ainda havia tempo para corridas com babosas no íngreme cerrado do senhor Carlos da Marina no Monte da Ajuda ou com carros de ladeira.

Quando íamos para os lados do Coval para mais umas corridas, passávamos pela Pensão Graciosa, do senhor Brivaldo Santos. Pela manhã aquele cheirinho a café de cevada, que vinha da sua afamada cozinha, invadia a rua.

Dos cinco quartos da Pensão Graciosa quatro ficavam no primeiro andar e um no rés-do-chão. Todos tinham um lavatório de louça encastrado em armações de ferro, onde se viam as toalhas impecavelmente dobradas. Das alvas camas sobressaía a dobra dos lençóis com lindos bordados. A escada e o corredor estavam forrados com plantas. No rés-do-chão havia uma loja que era usada pelos inúmeros caixeiros-viajantes que demandavam esta ilha, como mostruário dos seus produtos para serem apreciados pelos comerciantes locais.

Era nessa loja, quando não estava ocupada pelos clientes, que o filho, Valdemiro Santos, e o sobrinho, Luís Avelino, montavam uma sala de cinema, destinada a jovens, com filmes de oito milímetros, normalmente do Bucha e Estica. Um escudo era o suficiente para pagar a entrada e mais alguns centavos davam para um copo de sumo e as pipocas da praxe. Passávamos assim as tardes de domingo.

Muito antes, e tal como muitos jovens da sua idade, o senhor Brivaldo teve de emigrar, quando tinha apenas 18 ou 19 anos de idade. O Brasil foi o seu destino. Regressa quando perfaz 25 anos e emprega-se numa chapelaria instalada nos baixos da antiga casa do senhor Eurico Vieira da Costa.

No início dos anos vinte resolve abrir uma pensão. O Carapacho foi local escolhido para instalar o primeiro estabelecimento do género na ilha, impelido pelo despertar da procura das águas “milagrosas” daquela zona. Não deve ter sido fácil empreender tal estrutura num local que, na altura, era de difícil acesso. Em 1924 inaugura a Pensão Graciosa, na casa da família do senhor José Araújo. É nessa altura que a sua cozinha ganha fama. Passaram por lá excelentes cozinheiros como o Carlos Pereira Valentim ou o Caetano Álvaro da Cunha. Consta que este último terá sido convidado a ir até Lisboa pelo Presidente da República de então, General Craveiro Lopes, aquando da sua visita a esta ilha em julho de 1957, precisamente por ter gostado do que comeu. Caetano Álvaro da Cunha fez a sua carreira no Palácio de Belém, onde chegou a chefe de cozinha.

O senhor Brivaldo optou depois por reduzir a atividade e transferiu a Pensão Graciosa para o Coval, donde partimos para esta nossa pequena crónica.

Além da sua vida profissional, fez parte das primeiras direções do Graciosa Futebol Clube. No entanto é na Filarmónica Recreio dos Artistas, agora quase a completar cem anos de existência, que exerceu mais cargos. Foi mestre de sala, função que, naquele tempo, era considerada importante pelo papel na organização das festas, sobretudo bailes. Destacou-se também como ensaiador e ator do grupo de teatro daquela instituição, tendo, numa ou noutra qualidade, levado à cena, entre outras peças, “O Amigo de Peniche” e ”Na Boca do Lobo”. Ainda coreografou inúmeras fantasias de carnaval que se apresentavam em todos os clubes da ilha.

O senhor Brivaldo Bettencourt Santos foi, sem dúvida, um pioneiro na hotelaria e um dinamizador cultural, que merece ser destacado pelo espírito empreendedor e pela sua entrega ao serviço da comunidade Graciosense.

19 de abril de 2012

Regresso ao passado


Da magna reunião do PSD-A que ocorreu no passado fim-de-semana esperava-se muito mais. E esperava-se sobretudo porque este partido tem legitimas ambições de chegar ao poder no próximo escrutínio, que ocorrerá em outubro do corrente ano. No entanto quando terminou este congresso os açorianos apenas puderam chegar a três conclusões óbvias:

- a dra. Berta Cabral é devota do Espírito Santo;

- Passos Coelho não sabe o primeiro nome da dra. Berta Cabral;

-a dra. Berta Cabral quando fala em mudança e renovação é a brincar.

A devoção que nutre pelo Espírito Santo é de respeitar e ponto final. Agora o anúncio de que só deixará a Câmara Municipal de Ponta Delgada depois das festas em seu louvor, deixa muitos açorianos desconfiados relativamente a uma manobra, mais uma, de mero oportunismo político. Foi dito que tem uma boa capacidade de trabalho e que consegue conciliar as duas funções, autarca a tempo inteiro e candidata a presidente do governo. Este dom da ubiquidade permite-lhe, segundo se infere das entrevistas pós-congresso, dirigir uma autarquia e ao mesmo tempo andar de ilha em ilha em campanha, restando ainda algum tempo para dar uns saltinhos ao estrangeiro.

Depois vem a troca do primeiro nome da dra. Berta Cabral perpetrado pelo seu mentor, Passos Coelho. É vulgar esquecermo-nos do último nome de pessoas amigas ou conhecidas, mas trocar o primeiro é grave.  

Por último vem a história da renovação para a mudança. Já vi renovações mais ou menos, já vi renovações tímidas ou renovações parciais, mas, sinceramente, nunca tinha visto uma renovação que é uma espécie de regresso ao passado. Foi uma autêntica repescagem de gente com mais de trinta anos de atividade política.

Esta nunca nos tinha passado pela cabeça.

12 de abril de 2012

Do empenho à mentira


Quanto mais perto do período eleitoral mais as coisas mudam, já se sabe. Mais empenho, mais ideias, mais opiniões, mais visitas, mais sorrisos, mais palmadinhas nas costas, enfim, os partidos apresentam-se com uma dinâmica diferente, com mais disponibilidade e com maior sensibilidade para resolver os problemas dos cidadãos.

Embora haja quem não concorde, esta postura é perfeitamente normal nas democracias. É nessa altura, no fim das legislaturas, que os partidos políticos tentam passar a mensagem do que defendem e o que farão caso vençam as eleições. Esta estratégia, sendo bem aproveitada, pode até contribuir para a conceção dos manifestos eleitorais, amplificando, deste modo, a vontade popular.

O problema é que nem sempre é assim tão linear.

Há gente por aí que teima em recorrer a qualquer meio para tentar aproveitar estes momentos para espalhar inverdades de variadíssimas maneiras. Umas vezes a coberto de formas oficiais e outras não. Não sendo invulgar é, no entanto, um método indigno destinado a ludibriar as pessoas mais incautas que se atemorizam com estas posturas. Socorrem-se de outros que, por sofrerem de partidarite aguda, lhes passam informações de forma deturpada, fruto de recalcamentos antigos.

É assim. Daqui para a frente vamos ver um pouco de tudo, infelizmente. Desde falsificações de documentos até conspirações para se ver quem se vai tramar a seguir, algumas consumadas nas próprias instituições que lhes pagam os salários, vamos ver de tudo.

Não podemos, no entanto, permitir que esta prática vingue. Os partidos da nossa praça devem condenar liminarmente estes processos baixos e rejeitar esta gente que, sem ponta de coragem para assumir o que fazem, refugiam-se nestes métodos muito pouco éticos.   

Por isso é necessário estarmos todos atentos e não deixar passar impunemente estas manobras, venham de onde vierem. Uns serão responsabilizados politicamente à boca das urnas, enquanto os outros terão de assumir as consequências dos seus atos.

10 de abril de 2012

Político determinado



Gui Heber Bettencourt Louro

(13/02/1936 – 16/04/1982)

No dia 11 de julho de 1981 estava a cumprir o serviço militar em S. Miguel. No quartel da Castanheira preparei-me para ver na televisão do bar um momento importante para todos os Graciosenses: a inauguração do aeroporto.

Nesse tempo, e até essa altura, a mobilidade de pessoas e bens acontecia unicamente por via marítima. Eram os tempos de glória do velhinho Ponta Delgada, que, até aí, aportava em todas ilhas, primeiro de oriente para ocidente e depois ao contrário. Nos verões havia o reforço das ligações marítimas feitas pelos barcos Espírito Santo, Santo Amaro e Terra Alta, que, em vagarosas viagens, iam resolvendo as nossas necessidades mais prementes, por vezes em condições bem severas, que faziam de cada viagem uma aventura que, quando contada aos amigos, podia dar uma história.

Naquele dia todos os caminhos iam dar ao novo aeroporto e a população acorreu em força, passando pela antiga canada Nova, agora transformada numa bonita estrada, em direção á recém-construída aerogare, para apreciar a primeira aterragem de um avião comercial nesta ilha e depois ouvir os discursos da praxe, integrados na cerimónia oficial.

Estavam presentes as mais altas individualidades dos Açores e o primeiro-ministro de Portugal, Dr. Pinto Balsemão. Sinceramente não me recordo, de todo, da ordem das intervenções. Sei que foi o senhor Gui, presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa da altura, que chamou à atenção de todos os presentes e daqueles que viram através da televisão, como eu. Fez um discurso interrompido, de quando em vez, por silêncios em que fartas lágrimas escorriam pelo seu rosto. A emoção tomou conta de muitos dos presentes, que, naquele momento, também sentiram um aperto no peito. Foi a intervenção, de corpo e alma, de um homem que representava o seu povo num momento histórico em que se rompia definitivamente com um isolamento de séculos. O próprio primeiro-ministro referiu esse momento com uma contida emoção.

O senhor Gui Louro foi um dos fundadores nesta ilha do Partido Popular Democrático, agora designado por Partido Social Democrata, e em 12 de dezembro de 1976, data das primeiras eleições autárquicas após a revolução dos cravos, é eleito Presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa. Em 16 de dezembro de 1979 é reeleito e exerce o cargo até ao dia da sua morte.

É na qualidade de responsável autárquico que assiste a outros momentos importantes para a nossa ilha, como a entrada em funcionamento do porto comercial e a inauguração do entreposto frigorífico que, juntamente com o aeroporto, faziam parte dos primeiros grandes investimentos perpetrados depois da conquista da autonomia dos Açores.

O sismo de 1980 foi outro acontecimento que viveu enquanto exercia funções públicas. Foi um momento dramático, sem dúvida, que exigiu dele uma entrega extraordinária tendo em conta a necessidade de organizar todo o processo de reconstrução.



Impulsiona a constituição da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Ilha Graciosa, da qual foi sócio fundador. Conta-se que no dia do desembarque da primeira viatura dos bombeiros, feita ainda com o barco ancorado, o comandante do navio ter-se-á recusado a fazer a descarga devido aos riscos que a operação envolvia e foi o senhor Gui Louro que se deslocou ao porto para se responsabilizar pessoalmente por aquela manobra. Hoje essa viatura, embora já fora de serviço, ainda ostenta o seu nome.

Nas suas andanças na atividade política foi ainda, durante um mês, Deputado na Assembleia Regional dos Açores.

Antes de se dedicar à vida pública o senhor Gui foi funcionário do tribunal e, nessa qualidade, chega a viver alguns anos na vizinha ilha Terceira. Quando regressa dedica-se ao comércio e, mais tarde, concorre e exerce funções na Fundação Calouste Gulbenkian que, como se sabe, tinha uma biblioteca itinerante que percorria toda a ilha na busca de leitores. Nessa altura obtém a carteira profissional de solicitador função que exerce em acumulação. Os conhecimentos que possuía nessa área foram-lhe muito úteis aquando das expropriações dos terrenos onde foi construído o aeroporto.  

Nos seus tempos livres gostava de participar em caçadas com os amigos, que acabavam, invariavelmente, em alegres jantaradas. O mergulho também era uma das suas paixões, chegando a dizer aos seus mais próximos que era no mar que se sentia verdadeiramente livre. Dedicava também algum tempo a tratar da sua coleção de selos.

O senhor Gui Louro foi um político determinado e que acreditava no que fazia. Era intransigente quando estava em causa a defesa da sua amada ilha. Ao mesmo tempo era um sonhador e homem de paixões. Pela sua terra fez o melhor que soube e pôde, sem nunca esperar nada em troca.

5 de abril de 2012

Agradar a todos já não pega


Quando a presidente do PSD-Açores vem à Graciosa é em campanha, já sabemos. Noutra condição nunca cá põe os pés, mas isso é uma opção dela e temos de respeitar.

Normalmente escolhe estes momentos para dizer umas coisas que nem lembram ao diabo. Desta vez deu a ideia que quer resolver os problemas dos agricultores e da agricultura Graciosense.

É caso para perguntar:

. Onde andava esta senhora quando o leite era pago irregularmente e com mais de 12 meses de atraso?

. Onde estava quando a fábrica de laticínios fechou por não ter condições para laborar e os produtores ficaram sem rendimento e sem saber o que fazer ao leite?

. Onde andava quando o leite produzido na Graciosa era pago muito abaixo do preço pago em outras ilhas?

. Onde andava quando a Adega Cooperativa foi asfixiada financeiramente, pelo Governo do PSD, ao ponto de ter de encerrar portas?

. Onde andava esta senhora quando a agricultura definhava, sem quaisquer produções alternativas?

Estava no Governo. Podem dar as cambalhotas que quiserem para fazer passar a ideia que a Dra. Berta Cabral nada tinha a ver com isto, mas, o que é um facto indesmentível, é que fazia parte do Governo Regional da responsabilidade do PSD ou gravitava à sua volta. Por mais que os seus apoiantes queiram e tentem, nunca o poderão esconder.

Esta é que é a verdade. A Dra. Berta Cabral, naquele tempo em que os agricultores Graciosenses lutavam para sobreviver, podia fazer muito por eles, se quisesse, mas não fez absolutamente nada para evitar o colapso iminente de um setor que não tinha futuro à vista. Por isso nunca poderá isentar-se de responsabilidades na quase liquidação de um setor que foi necessário reerguer das cinzas a partir de 1996.

Hoje, felizmente, a Dra. Berta Cabral pode ver, quando por cá passa, uma agricultura moderna, com agricultores jovens e confiantes no futuro, com investimentos que rivalizam com os melhores dos Açores. Pode ver uma ilha que conquistou um elevado estatuto sanitário e com um rendimento por hectare superior à média regional. Pode ver a nova e moderna fábrica de laticínios, cuja construção o Governo a que pertenceu nunca teve a coragem de fazer. Pode ver que os produtores de leite recebem a tempo e horas, tal como pode apreciar investimentos em floricultura e horticultura, inexistentes no seu tempo. E pode constatar, ainda, que existem projetos importantes em desenvolvimento como a Adega e Cooperativa, o Centro de Recria ou o Matadouro Industrial.

Ainda não há muito tempo esteve cá e falou muito bem deste setor, tal como o tinha feito a Dra. Maria do Céu Patrão Neves, mas agora mudou repentinamente de opinião. Porque será? Só pode ser por as coisas não lhe estarem a correr de feição.

A presidente do PSD-Açores, nesta sua frenética pré-campanha, preocupa-se em estar com estes e com aqueles, prometendo tudo, numa estratégia de agradar a todos, que, como se sabe, é contrária ao sentido de estado que um candidato a presidente do Governo deve ter.