"Ao enfrentar as situações impossíveis, as pessoas que amam o seu país podem mudá-lo". Barack Obama
17 de janeiro de 2013
Mais uma semana negra
Esta semana Passos Coelho veio
aos Açores fazer um discurso hermético e descolorido. Aliás, a especialidade do
primeiro-ministro é pintar de cinzento tudo o que diz. Enfatizou as
dificuldades do país com convicção e acenou, a medo, com melhoras lá para a
frente, que ninguém, no seu prefeito juízo, consegue vislumbrar.
Esta sua intervenção no congresso
do PSD mereceu tímidos aplausos dos militantes do seu partido, talvez desanimados
e desiludidos com a ineficácia do seu líder na resolução desta crise, que ele
garante não ser da sua responsabilidade, mas que todos os portugueses sabem que
foi ele que a precipitou logo a partir da sua tomada de posse.
Ficou também confirmado, através
dos dados divulgados pelo Banco de Portugal na última terça-feira, que a
recessão em 2013 vai ser mais grave do que se previa, com menos consumo e mais
88 mil postos de trabalho destruídos.
O desacerto deste governo, de
matriz ultra liberal, é uma constante e, mais do que isso, é uma triste
realidade que está a levar os portugueses ao desespero. Falham previsões atrás
de previsões e continuam em frente. Faz lembrar a banda do Titanic que
continuou a tocar enquanto o navio se afundava.
O relatório do FMI, encomendado
pelo governo, contém uma série de propostas indiscritíveis que, a serem
assumidas, irão esmagar, ainda mais, o rendimento dos portugueses. A OCDE
também está por cá para colaborar na reforma do estado que, segundo se percebe,
vai avançar a direito, sem esperar pela opinião de quem quer que fosse, tal
como aconteceu com a reorganização das freguesias agora promulgada pelo
Presidente da República.
A clima social por esse país fora
é de tal gravidade que gente lúcida e com responsabilidade moral inatacável,
como é o caso do Dr. Freitas do Amaral, já prevê a possível queda do governo de
Passos Coelho.
Esta foi mais uma semana a correr
mal.
11 de janeiro de 2013
Mestre da viola
A oficina do mestre José
Juventino - com era mais conhecido o senhor José Gil de Ávila, por ter sido esse
o nome de seu pai – ficava ao fundo da rua do Saco. Antes esteve situada na
atual rua 25 de Abril e depois na rua Infante D. Henrique.
Adivinhava-se a sua localização
pelo amontoado de tábuas encostadas às paredes, secando ao sol, para depois
servirem de matéria-prima aos artistas daquela carpintaria e marcenaria, ele e
os seus três filhos, que as transformariam em mobílias, armários, portas,
janelas, mesas, cadeiras, soalhos, vasilhame ou cabos para utensílios agrícolas.
No seu interior, presas nas
paredes ou espalhadas por cima dos bancos de trabalho, existiam várias ferramentas:
serras, sutas, esquadros, maços, serrotes de ponta, serrotes de costas, berbequins
manuais, plainas, martelos, etc.
Por cima do chão, que antes era nu
e frio, acumulavam-se os cavacos de madeira nascidos na ranhura das plainas
que, num vai vem frenético, iam dando forma e sentido à madeira. Durante a
jornada, para não se perder muito tempo, empurravam-se as aparas e os cavacos para
os cantos da tenda, mas no final de cada dia eram queimados mesmo ali do lado
de fora da porta.
No teto viam-se alguns moldes e
várias violas da terra carinhosamente construídas pelo mestre José Juventino. No
início moldava pacientemente a rebelde madeira com que construía as violas com
vapor que saía de panelas com água a ferver. Mais tarde construiu as suas
próprias formas que, no fundo, lhe facilitavam a vida nesta atividade.
Dali saía quase tudo o que fosse
possível moldar. Faziam trabalhos mais toscos, como coberturas de casas, ou
moldes para as obras da Junta Geral, mas era na marcenaria que aquela oficina se
destacava mais. O mestre José Juventino e os seus filhos deixaram nesta ilha,
sobretudo nas casas mais abastadas, mobílias que ainda hoje são muito
apreciadas.
Certo dia encomendaram-lhe um candeeiro
tendo como corpo um fuso igual ao dos lagares. Depois de fazer as suas contas
lá acabou por desenhar um esboço que o ajudaria a concretizar mais uma obra de
arte. Apesar de ter pouca instrução, como era normal no tempo em que se criou,
tinha conhecimentos empíricos de matemática capazes de o ajudarem a resolver
alguns problemas ligados à sua profissão.
Era naquela oficina que vi fazerem
piões que depois comprava para jogar com os meus amigos na escola ou na praça.
Bocados de madeira amorfos iam-se enformando à custa da rotação do torno e da
mão ágil do mestre José Juventino. Foi também nessa carpintaria que vi
construir o meu primeiro carro de ladeira que utilizei em inúmeras brincadeiras
durante vários anos da minha infância.
Dizem aqueles que o conheceram
bem que gostava de fazer duas coisas na vida: trabalhar e tocar viola da terra.
Só era visto de duas formas, ou curvado sobre a sua bancada ou então carregando
a sua viola.
Andava de casa em casa, de clube
em clube, ora tocando nas matanças do porco, ora animando os bailes com as
modas de viola, onde mandava como ninguém. Nesta sua faceta era também muito
bom.
Tinha conhecimentos musicais e
isso dava-lhe mais traquejo e versatilidade para poder acompanhar o acordeão do
José Berto, a voz do Joaquim dos Fados ou o piano da D. Nizalda Barcelos.
Foi músico na centenária
Filarmónica Recreio dos Artistas, onde também desempenhou cargos nos seus
órgãos sociais. O trombone era o seu instrumento na banda que serviu durante
longos anos.
Gostava muito de se juntar com os
amigos em concorridas petiscadas que acabavam, quase sempre, em alegres
cantorias acompanhadas pela sua inseparável viola.
O senhor José Juventino foi um
artista nestas duas artes que foram, sem dúvida, a paixão de uma vida.
10 de janeiro de 2013
Ano fora discurso novo
Confesso que não ouvi a mensagem
de Ano Novo do nosso Presidente da República. Não a ouvi por nenhuma razão em
especial ou movido por qualquer preconceito, mas apenas por não me despertar
qualquer tipo curiosidade, até porque do mais alto magistrado da nação já não
espero grande coisa, sentimento que comungo com uma grande parte dos
portugueses.
Com esta minha linguagem acabei
por levar uma chapada com luva branca, não só por não ter avaliado bem a
intervenção política do Presidente da República naquela que seria a sua
primeira aparição no novo ano, mas também por ter ignorado a sua capacidade de
avaliar os danos que esta política de Passos, Gaspar e companhia provocam aos
portugueses e de dar um puxão de orelhas a quem nos levou para este atoleiro em
que se encontra Portugal.
Eu - que assumo ser um simples
mortal que muitas vezes se engana e que vive carregado de dúvidas, ao contrário
do Chefe da Nação - tenho de confessar que, mais uma vez, falhei.
O Presidente da República
reconheceu as dificuldades do ano velho, confirmou que o ano novo vai ser
difícil e corroborou a certeza que todos temos de que o país empobreceu e que
vai empobrecer ainda mais por via do aumento imenso e nunca visto da carga
fiscal.
Mas não foi só. Falhei logo a
seguir - e isto só pode dizer que são falhanços a mais - quando pensei que o
Dr. Mota Amaral iria deixar passar este “deita abaixo” sem qualquer reparo.
Num artigo publicado nas páginas
do jornal Açoriano Oriental, com o título “OE 2013 – a prova de fogo”, o Dr.
Mota Amaral desfere um ataque a Passos Coelho e aos seus ministros reconhecendo
que a situação do país tem vindo a piorar, ao contrário do que o Governo diz,
criticando-o duramente por ter sido mais troikista
que a troika e por não ter cumprido o
que prometeu na campanha, nomeadamente na questão dos cortes nos subsídios de
férias e de natal e nas pensões.
Reconheço a coragem destes dois
políticos, que, muito certamente, estarão incomodados com estas e outras
políticas que podem conduzir a uma, já eminente, rutura social.
No entanto não posso compreender
porque não usaram os mecanismos que estão ao seu dispor: o veto em Belém, no
caso do primeiro e o voto contra em São Bento, no caso do segundo.
Vamos ver em 2014…
3 de janeiro de 2013
100 anos é muito tempo
Há cem anos atrás, gente de visão
larga e de espírito empreendedor, gente daquelas que faz coisas, resolveu fundar
uma filarmónica para animar as festas profanas e dignificar e acompanhar as
manifestações da fé do nosso povo.
A Filarmónica Recreio dos Artistas
surgiu numa cisão com outra filarmónica, a Liberdade, processo que não terá
sido muito pacífico, havendo mesmo algumas ameaças de pancadaria e metendo o
tribunal pelo meio.
Lembro-me da imensa atividade desta
instituição. Era uma casa animada, em que, para além dos ensaios da sua
filarmónica, decorriam a preparação das fantasias, os bailes e onde ensaiava também
um grupo de teatro. No verão a sua cerca anexa servia para apresentações de
teatro, para bailes e ainda para assistir ao cinema.
Hoje esta casa está bem viva, com
inúmeras atividades, destinadas a diversas idades, desde crianças até aos mais
maduros. A Filarmónica, como habitualmente a denominamos, e os seus dirigentes,
tem contrariado aquela ideia pré-concebida e pessimista de que já não há quem
se interesse por estas coisas.
Temos de agradecer às mulheres e aos
homens que hoje dirigem esta e outras instituições, que lhes dão vida, temos de
lhes agradecer por teimarem em seguir em frente, a ultrapassar as dificuldades,
sem nunca virarem a cara á luta.
Mas, no entanto, nunca poderemos esquecer
aquelas e aqueles que depois de cada crise a souberam reerguer. Não poderemos
esquecer todos os que a trouxeram até aqui, desde sócios, músicos e dirigentes,
de modo a que as novas gerações possam agora usufruir dela.
No dia 1 de janeiro estiveram os
sócios de parabéns e, mais do que os sócios, estão a Graciosa e os Graciosenses
de parabéns, porque podem contar com uma Filarmónica Recreio dos Artistas
centenária e pronta para o futuro.
28 de dezembro de 2012
Contador de histórias
Gabriel Correia Pacheco
de Melo
(07/01/1923)
A biblioteca itinerante da
Fundação Calouste Gulbenkian corria as freguesias carregada de livros,
proporcionando aos Graciosenses o acesso à leitura. Para uma grande parte da
população esta era a única hipótese de contatar com os livros.
A carrinha, de marca Citroen,
tinha um aspeto esquisito. Era forrada com uma espécie de chapa frisada, uma
frente proeminente, com formas bem marcadas, mesmo tipo caixote, e com o
tejadilho de abrir. Podia parecer invulgar mas era funcional. O seu interior
guardava cerca de dois mil livros, meticulosamente arrumados, ficando os
infantis nas prateleiras de baixo, os livros de ficção, biografias e de viagens
ficavam ao meio e nas prateleiras superiores eram colocados os livros menos
requisitados.
Terão sido milhares os livros
emprestados nesta ilha por este serviço criado pela Fundação Calouste
Gulbenkian que, deste modo, se substituída ao estado numa das suas funções mais
básicas. No país foram emprestados por esta instituição cerca de 95 milhões de
livros, segundo uma notícia da Lusa/RTP.
A gestão da viatura e do armazém,
que deveria ter o triplo da capacidade da biblioteca itinerante, era feita por
um auxiliar e também por um encarregado, cuja função mais relevante era a de
orientar as escolhas dos leitores. Não se exigia ao encarregado qualquer
formação específica, apenas um boa cultura geral, o gosto pela leitura e uma boa
capacidade para lidar com o público.
O senhor Gabriel Melo tinha todas
essas competências. Durante os vinte e dois anos em que exerceu esta atividade
recebia como ninguém os seus “clientes” e incutia-lhes o gosto pela leitura,
não só lúdica mas também formativa e informativa.
Foi nesta sua função que tive o
primeiro contato com o senhor Gabriel Melo. Ainda me lembro o modo afável com
que recebia as crianças e jovens da minha idade e lhes emitia os cartões onde
eram registados os empréstimos dos livros. Aliás este seu modo terno e sempre
bem-disposto com que tratava as pessoas ainda o acompanha hoje em dia. Era também
ele que distribuía gratuitamente os livros de estudo pelos estudantes com mais
dificuldades.
O senhor Gabriel fez o liceu no
Brasil e é nesse país que inicia o seu percurso laboral. Foi funcionário no
Gabinete Português durante alguns meses e depois transita para o Consulado de
Portugal em Salvador da Baía onde trabalhou durante dois anos.
Em 1946, quando resolve voltar à
sua terra, esteve no Brasil à espera de transporte até Lisboa durante três
longos meses. Chegado à capital portuguesa esperou ainda mais dois meses para
apanhar navio para os Açores. Eram os resquícios da II Grande Guerra Mundial a
ditar as regras numa altura em que faltava tudo. Casa quatro anos depois de cá
chegar e desse casamento resultaram três filhos.
Já na sua terra natal desenvolve
uma intensa atividade social, sendo um dos fundadores do Clube Central e
Recreativo de Guadalupe, de onde nasceram, por sua vez, o Sporting Clube de
Guadalupe e a Filarmónica União Progresso de Guadalupe, dos quais também fez
parte dos seus corpos sociais.
O surgimento do clube teve uma
pequena história. O senhor Gabriel e um amigo, depois de autorizados a utilizar
a casa de sua mãe para bailar, preparavam-se para proceder às respetivas
limpezas na manhã seguinte. Durante a noite o senhor Gabriel pensou que seria do
agrado da população a freguesia poder dispor de um clube definitivo e
identifica a atual sede como um dos melhores sítios para a instalar, mesmo
estando sem soalho e um pouco degradada. Nessa manhã e antes de procederem às
limpezas na casa de sua mãe, conforme estava combinado, seguem até casa do
procurador e fecham o negócio por 40 contos. E foi com este impulso que o Clube
Central e Recreativo de Guadalupe é fundado a 31 de julho de 1955.
O Sporting Clube de Guadalupe
também surge pela vontade deste homem que achava que um clube desportivo na sua
freguesia traria algum movimento, apesar de ter sido dissuadido por amigos que
o assustaram com os problemas que uma estrutura deste género poderia trazer. Não
se atemorizou e procura o terreno para construir um campo de futebol para o
clube que ajuda a inaugurar em 22 de abril de 1962.
No ano seguinte, mais
precisamente no dia 29 de setembro, juntamente com os Guadalupenses que achavam
que a freguesia mais rica e mais populosa da ilha necessitava de uma
filarmónica que lhe desse prestígio, ajudou a fundar a Filarmónica União
Progresso de Guadalupe.
Foi o primeiro ganadero da Graciosa e, por essa via,
foi o percursor das touradas nesta ilha. Com apenas dois toiros promoveu o
gosto pela festa brava, que hoje ainda persiste e se encontra enraizado como
uma tradição do nosso povo. Também se dedicou á exportação de gado vivo para o
continente português durante cerca de 20 anos, atividade que, como se sabe,
dinamizava a economia da ilha.
Em 1980 é eleito Presidente da
Junta de Freguesia de Guadalupe, cargo que exerce até 1983.
Tem um gosto especial por
viagens. Para além de conhecer muito o nosso país, conhece também o Brasil,
onde viveu alguns anos, a Espanha, a Itália, o Reino Unido, a França e os
Estados Unidos.
Tem um jeito muito especial para
contar histórias de todo o tipo, mas distingue-se nas histórias verídicas.
Nestes tempos de correria, em que não se pára para pensar e em que as
preocupações com questões materiais se sobrepõem às coisas simples da vida, é
um prazer ouvir histórias verídicas da nossa e de outras gerações e o senhor
Gabriel fá-lo como ninguém. Conta-as umas atrás das outras.
No dia 7 de janeiro de 2013 o
senhor Gabriel comemorará o seu nonagésimo aniversário, mantendo uma invejável
boa disposição e um espírito jovem, que sempre o tem acompanhado ao longo da
sua vida.
27 de dezembro de 2012
O Pai Natal
Neste período do ano lembro
sempre, com uma certa nostalgia, os tempos em que acreditava no Pai Natal.
Naquele tempo os diversos comerciantes, com a criatividade que os
caraterizavam, tinham um Pai Natal que distribuía pelas casas dos seus clientes
a prendas previamente adquiridas nos seus estabelecimentos.
A espera fazia-se em “pulgas”,
com o pijama já envergado e com o rosto colado à janela da frente. Era um
momento mágico, aquele em que o homenzinho de barbas brancas satisfazia uma
parte, muito pequena diga-se, dos desejos da criançada.
Passada a idade da inocência e em
que deixamos de acreditar em tudo o que nos dizem, mantenho o hábito de, nesta
época natalícia e de transição para um novo ano, pedir a concretização de
alguns desejos, muitos deles repetentes.
Queria que acabasse a fome e a
guerra no mundo. Queria que o dinheiro gasto em armamento fosse todinho para a
cura de doenças que ceifam vidas. Pretendia que o ser humano fosse mais justo e
mais fraterno. Desejava acabar com a malvadez e a hipocrisia, tão abundante nos
tempos que correm. Acho que não é pedir muito…
Mas ao aproximar-me do ano 2013 e
pelo que os portugueses sofreram neste ano que agora termina, tenho mais uns desejos.
Queria que o Passos Coelho
deixasse os pensionistas em paz e acabasse com as ameaças veladas de mais
cortes nas suas pensões. Queria que o Presidente Cavaco Silva tivesse um
sobressalto, nem que fosse cívico. Gostaria que os enfermos continuassem a ser
tratados das suas maleitas e a ter acesso aos remédios de que precisam.
Desejava que aos idosos continuassem a ser dispensados acompanhamento e carinho
na última etapa das suas vidas. Queria que o governo não vendesse a RTP, que
não deixasse morrer as universidades e que devolvesse os submarinos aos alemães.
Daqui a um ano cá estarei, se
tiver vida e saúde, para renovar a esperança e os desejos que não forem
concretizados. Bom Ano.
24 de dezembro de 2012
20 de dezembro de 2012
Diferenças
Estando sob a intervenção
internacional para financiar o país, ficamos, indiscutivelmente, numa condição
de estado com a soberania hipotecada, já se sabia.
Sempre que se pensa em algo de
mais construtivo, como foi o caso recente da pretensão de aumentar o salário
mínimo nacional, logo o governo de Passos Coelho se apressou a dizer que tem de
pedir autorização à troika, que, por
sua vez, depois de analisar o problema dá o seu veredicto.
Mas o país vai assim. Assiste-se
ao falhanço de todas as metas negociadas no memorando de assistência
financeira, apesar da enorme e desproporcionada carga fiscal a que estamos
todos sujeitos, mas, mesmo assim, o ministro das finanças vem dizer que não,
que acertamos em quase todas e as que falhamos foi, mesmo assim, por muito
pouco.
Mas para esta confusão toda
contribuem os membros deste governo e todos os líderes europeus bem como as
organizações internacionais que não se cansam de dizer isto e aquilo e depois o
seu contrário.
Merkel veio dizer que vamos no
bom caminho. Depois vem a diretora do FMI dizer que é preciso prudência. Mais
tarde a OCDE diz que não vamos conseguir. O Presidente do BCE vem dizer que o
pior já passou. Depois vem Paulo Portas afirmar que já passamos o meio da
ponte. Mais tarde ouvimos Merkel dizer que, afinal, está descontente com a
prestação dos países periféricos, como Portugal. Enquanto isto Passos Coelho
tem a certeza que este é o caminho certo, mesmo assistindo ao desmantelamento
de empresas e destruição de emprego a cada dia que passa.
Não haja dúvida que a chanceler
da Alemanha concorda com a gigantesca carga fiscal que os países em
dificuldades impõem aos seus cidadãos. Essa tem sido, de facto, a sua receita.
A senhora Merkel tem confirmado
que esta é a via para a recuperação e não se cansa de propalar essa ideia em
todas as aparições públicas que faz fora do seu país, mas quando fala para os
seus concidadãos, para os seus eleitores, a sua opinião muda completamente. Lá,
no seu país, Merkel descarta qualquer aumento da carga fiscal para a classe
média, que considera o motor do desenvolvimento. O que se percebe é que na
Alemanha a senhora Merkel quer uma classe média e média alta pujante para
estimular o consumo e assim proporcionar o crescimento. Para os outros a
receita é precisamente o contrário: o empobrecimento da classe média que, por
sua vez, diminui o consumo, contribuindo, assim, para a destruição de mais
empregos.
Estas diferenças de entendimento,
estas interpretações dúbias não faziam parte do pensamento dos construtores da
Europa, com toda a certeza.
14 de dezembro de 2012
Alegre e conversador
Manuel da Ajuda
Pereira Lima
(08/11/1943 –
01/03/2007)
O isolamento das nossas ilhas
sempre foi combatido com fortes tradições muito enraizadas no nosso povo. Na
Graciosa a música sempre ocupou um lugar de destaque no panorama cultural.
Antigamente existiam alguns
divertimentos, como os diversos jogos de cartas e dominó, mas pelos bailes os
Graciosenses deixavam tudo. Novos e velhos, todos gostavam de bailar e de
cantar. Era desta maneira salutar que o nosso povo se divertia e confraternizava.
Nos bailes de carnaval, na
matança do porco ou integrando grupos folclóricos, habituamo-nos a vê-los de
viola a tiracolo, dedilhando e cantando músicas do reportório popular. Eram
homens e mulheres, quase sempre bons foliões, que ocupavam os tempos que
restavam da dura labuta do dia-a-dia divertindo os outros e fazendo o que mais
gostavam: tocar.
O Manuel da Ajuda era um deles.
Tocava muito bem a viola da terra. É impressionante ver tocar este instrumento.
Com 12 de cordas (existe também uma versão com 15 cordas), a viola da terra
emite uma sonoridade peculiar que se conjuga harmoniosamente com outros
instrumentos musicais.
A aprendizagem da viola da terra era
feita de um modo empírico, vendo os outros ou experimentando uma e outra vez,
com muita persistência e dedicação. O Manuel da Ajuda também se fez executante
assim, depois do senhor Manuel do Júlio lhe ter transmitido o gosto por este
instrumento e lhe ter dado os primeiros ensinamentos.
A viola da terra é tipicamente
Açoriana. Embora muito semelhante ao violão, é mais pequena e tem dois corações
na boca, com as pontas opostas, que, dizem os entendidos, representam o amor
entre duas pessoas que estão separadas fisicamente.
Desde o início que o Manuel da
Ajuda tocou nas danças do senhor Francisco Sampaio. Foi membro do Grupo
Folclórico da Casa do Povo da Praia. Tocava também em grupos de Reis pelos
caminhos da Graciosa, visitando, nas frias noites de inverno, as casas em
festa, espalhando alegria e boa disposição a quem os recebia. Era também muito
solicitado para animar os bailes de carnaval com as modas de viola.
Em 1988 participou num concerto
com 24 violas da terra, na freguesia de Guadalupe, dirigido pelo incontornável
Padre Simões Borges.
Era agricultor de profissão. Vivia
do rendimento que lhe dava o gado bovino que pastoreava nas suas terras.
Gostava muito de pescar. Dizem os
mais próximos que o Manuel da Ajuda tinha errado na profissão, pois gostava
tanto do mar que deveria ter sido pescador. Aos familiares e amigos terá dito
que quando chegasse a idade da reforma iria dedicar-se à pesca. Infelizmente
não chegou a gozar esse privilégio porque a morte, com os seus ditames,
roubou-lhe esse sonho.
Era muito alegre e divertido e um
bom conversador. Com os seus colegas da música, o Manuel Zagaia e o José
Helder, entre outros participava em tertúlias que eram momentos de pura diversão,
como acontecia frequentemente na tasca do senhor Álvaro.
13 de dezembro de 2012
Mais um jornal que morreu
O jornal “A União” desapareceu
como diário, talvez na qualidade de mais uma vítima desta conjuntura económica desfavorável
que atravessamos. Depois de 120 anos a escrever a história e histórias dos
Açores, atravessando momentos altos e outros baixos, certamente, encerra assim,
sem mais nem menos, um dos ícones da comunicação social da nossa região.
Nesta quadra de Natal, sempre
propícia a encontros com familiares e amigos e em que as conversas são, quase
sempre, alinhadas por lembranças alegres da nossa infância, recordo este diário
vespertino que sempre cobriu a velha secretária lá de casa.
O carteiro deixava na nossa
residência um molhe com uma ou duas semanas de edições do jornal, normalmente
atadas com um barbante cor de canela. Chegavam-nos desatualizados, mas valia a
pena. Abria-nos a janela do mundo.
Foi este jornal que acolheu um
suplemento sobre a Graciosa. Foi neste jornal que me habituei a ver e a ler
artigos de meu pai ou títulos de secções, ou do próprio jornal, desenhados pelo
seu punho. Foi também neste jornal que publiquei pela primeira vez, uma crónica
desportiva, no caso, que esperei ansiosamente apenas para a reler e apreciar,
embevecido, o meu nome escrito no seu rodapé.
O seu desaparecimento é uma
notícia triste para todos nós e ainda para mais recebida nesta altura que devia
ser de alegria e de confraternização, altura, também, em que há mais harmonia e
em que pensamos mais nos outros.
É triste porque ficamos todos
mais pobres. É muito mais triste, ainda, para aqueles que perderam o seu
ganha-pão, apesar de terem dado tudo de si para que esta situação nunca
acontecesse.
Assim morreu mais um jornal. A
nossa democracia ficou muito mais pobre.
6 de dezembro de 2012
Uma receita que não serve
A receita que o Governo da
Republica nos quer impor para a resolução desta crise não está a resultar, já
sabemos. O valor da redução das despesas neste momento só serve para pagar
juros a taxas altas que nos são impostas pelas instâncias internacionais que
nos emprestam o dinheiro.
Não há dúvidas que, hoje, os
portugueses estão muito mais pobres, com milhões a viver no limiar da pobreza e
com o aparecimento, todos os dias, de novos pobres. O défice teima em não
diminuir, apesar de sermos massacrados todos os dias como mais impostos, mais
cortes e com o anúncio de mais despedimentos. Ainda assim e apesar de todo este
sufoco a nossa dívida continua a aumentar, sem data anunciada para estancar.
Fico ainda mais preocupado, quase
sem reação, quando oiço, nas visitas que os nossos governantes fazem a Bruxelas
ou a Berlim, os líderes europeus a tecerem elogios a esta via, chegando mesmo a
referir que vamos no bom caminho. Os portugueses acham que este governo nos
está a levar, não por um caminho, mas antes por um beco sem saída, ao contrário
desses branqueadores do sofrimento dos outros.
Dizem os entendidos que bastava,
por exemplo, pagarmos a mesma taxa de juro que a Alemanha paga para gerir a sua
dívida pública, para resolvermos esta situação aflitiva com que nos
encontramos.
É claro que esta solução nunca
interessará aos poderosos e percebemos bem porquê. Esses países continuarão,
assim como está, a usufruir de taxas vantajosas para gerir as suas dívidas,
algumas semelhantes à nossa, enquanto nós temos de nos “virar” para cumprir as
nossas responsabilidades.
Será este, então, o bom caminho
que nos indicam? Não creio.
30 de novembro de 2012
Herói que lutou pela liberdade e democracia
João Silveira
Bettencourt
(04/04/1896 –
12/11/1980)
João Silveira Bettencourt era o
filho mais velho de Manuel Maria Bettencourt e de Maria das Neves Silveira
Bettencourt. Nasceu na freguesia da Luz e, por ser bom aluno, sempre quis
estudar, apesar de seu pai ser um modesto agricultor e os seus dois irmãos
quererem seguir as pisadas de seu pai.
Como era habitual naquele tempo,
para completar os seus estudos teve de se deslocar para Angra do Heroísmo para
aí frequentar o Liceu. Mais tarde acaba por tirar o curso de Professor na
Escola do Magistério Primário daquela cidade, profissão que nunca chegou a
exercer.
Ofereceu-se para cumprir o
serviço militar, tendo ingressado na Escola de Oficiais. É aqui que descobre a
sua verdadeira vocação.
Foi Comandante da Guarda Fiscal,
na cidade da Horta, e, depois, segue para uma comissão em Lisboa, com a patente
de Tenente da Guarda Nacional Republicana, ficando a residir no Quartel do
Carmo.
É a partir daqui que o Tenente
João Silveira Bettencourt inicia um processo de luta pela democracia e pela
liberdade, que lhe terá custado 3 anos, 1 mês e 1 dia de deportação e de
prisão. Este período da sua vida, de provação e cárcere, foi minuciosamente
registado num documento a que deu o nome de “Diário de um Deportado Vítima do
Totalitarismo da Época”.
Em março de 1926 o Tenente João
Silveira Bettencourt decide revoltar-se devido à situação social do país e aos
desentendimentos existentes entre os partidos políticos de então. Os revoltosos
instalam o seu quartel-general na Travessa do Salitre. Os comandos
revolucionários são constituídos pela Companhia da Estrela da Guarda Nacional
Republicana, a Companhia das Janelas Verdes, a Companhia de Alcântara e a
Secção de Metralhadoras Pesadas, comandadas pelo Tenente João Silveira Bettencourt.
No dia 9 de fevereiro do ano
seguinte, os revoltosos rendem-se, por volta da 20 horas, porque, como
escreveu,” lhe faltaram as munições e por ser impossível a meia dúzia de gatos
pingados vencermos toda a guarnição de Lisboa, a maior parte toda comprometida”.
É preso, pela primeira vez, por
dez dias, três deles incomunicável como era praxe. Descreve esse momento no seu
diário com alguma frieza, afirmando “Como é horrível experimentar, sem ser
criminoso, por dez dias, a vida de penitenciário. Só faltava o número nas
costas! Tínhamos chamadas, portas fechadas todas as noites pelos guardas, etc.,
etc.”.
A 20 de fevereiro de 1927 sai da
cadeia e a bordo do N/M Lourenço Marques é levado até à Guiné Portuguesa,
viagem que, curiosamente, teve a sua primeira escala na Ilha Terceira, muito
perto da sua terra natal.
Na Guiné esteve deportado em
Batafá, Bissau e Bolama. Detestou esta terra e isso está bem patente no seu
diário quando escreveu “Estive na maldita Guiné de mexericos, intrigas e
invejas 15 meses e 25 dias”.
A 27 de junho de 1928 inicia,
finalmente, a viagem de regresso aos Açores, passando pelo Funchal onde se
reúne com a esposa e o filho. Curiosamente a sua família ficou sempre no
Quartel do Carmo, protegida pelos seus camaradas de armas. Chega à Ilha
Graciosa, para onde foi mandado residir, a 14 de julho desse mesmo ano.
A 2 de abril de 1929 embarca para
Lisboa, por ordem do regime, a fim de ser julgado. A sentença atribui-lhe 12
meses de prisão e a igual tempo de multa a 2$50 por dia. Cumpre a prisão na
Torre de S. Julião da Barra de 4 de maio de 1929 a 11 de julho de 1930.
Depois de cumprida a reclusão
regressa à sua terra natal, onde chega a 15 de agosto de 1931.
Nesse mesmo ano, e por continuar
insatisfeito com o regime da altura, participa na Revolta dos Açores, tomando
as ilhas Graciosa, S. Jorge e Pico, a bordo do rebocador Milhafre com peças de
artilharia amarradas com arames. Saíram do Porto da Folga até Santa Cruz,
seguiram para Angra do Heroísmo, onde os revoltosos foram muito bem recebidos,
depois para a Velas e Cais do Pico. Mais uma vez teve de se render “sem
condições por falta de meios e apoio militar vindo de Lisboa”.
Foi novamente deportado, desta
vez para Cabo Verde, onde permaneceu 7 meses e 20 dias. Em janeiro de 1932
regressa à Ilha Graciosa, tendo-lhe sido aplicada a medida de residência fixa.
Mais tarde regressa à cidade da
Horta, onde “assiste” à revolução de 25 de Abril de 1974 pela rádio. Dizem os
seus familiares que ao conhecer o desenlace da revolução dos cravos “chorou
como uma criança pequena”.
Em 1975 é promovido a Capitão e
passado à reserva, facto que o desagradou imenso. A luta que encetou contra a
ditadura e o desprendimento que sempre demonstrou quando lhe eram oferecidos
cargos em troca do seu silêncio, exigiam outro tratamento por parte do Estado.
Nesta cidade dedicou-se à
contabilidade. Fez parte, também, dos corpos sociais e foi sócio efetivo de
inúmeras instituições de solidariedade social, desportivas e culturais, como o
Hospital da Santa Casa da Horta, o Amor da Pátria, o Lar das Criancinhas da
Horta, o Grémio Literário, a Artista Faialense, a Filarmónica Artista
Faialense, a Filarmónica a União a Filarmónica da Praia do Almoxarife, do
Angustias Atlético Club, do Fayal Sport Club, do Sporting Clube da Horta e do
Clube Naval da Horta, entre outros. Foi, também, sócio da Liga Portuguesa dos
Direitos do Homem.
Escreveu também para vários
jornais com a Gazeta de S. Miguel, o Alma Nova e foi redator do jornal
republicano Pátria Livre, além de colaborações nos jornais locais. Gostava
também de escrever poemas.
Diz quem o conheceu que era um
excelente conversador, mas nunca sobre si ou sobre a sua intensa atividade
política, tal era a sua humildade. Apesar de marcado por anos de sofrimento era
muito afável no relacionamento com os outros. Além da coragem que colocou na
sua luta pela liberdade e pela democracia o Capitão João Silveira Bettencourt
era conhecido por ser muito íntegro e sensato.
Nota: nesta simples crónica
utilizei os dados mais marcantes do imenso diário que o Capitão João Silveira
Bettencourt deixou e também algumas anotações feitas pelo seu filho e pelo seu
neto, que me foram gentilmente cedidas.
29 de novembro de 2012
Contra tudo e contra todos
O Orçamento Geral do Estado para
2013 foi aprovado esta semana na Assembleia da República. Ao que dizem os
jornalistas e muitos especialistas na matéria, alguns da área política da
maioria, este é o pior Orçamento de que há memória.
Na discussão deste importante
documento verificou-se que os partidos desta coligação, que governa o país,
cortaram a direito e fizeram orelhas moucas aos que escolheram as ruas para
demonstrarem o seu descontentamento por estas políticas e também à oposição,
que apresentou algumas propostas no sentido de aligeirar este sufoco fiscal a
que vamos estar expostos no próximo ano, mas sem qualquer resultado.
Tem crescido o número de pessoas
idóneas, de todos os quadrantes políticos incluindo os partidos que estão no
poder, que se tem insurgido contra estas medidas ao ponto de as considerarem
inconstitucionais e apelarem ao Presidente da República no sentido deste vetar
o Orçamento, coisa que ninguém acredita, tal a passividade que o mais alto
magistrado da nação tem demonstrado nos últimos tempos.
Os novos escalões do IRS vão
provocar um aumento enorme de impostos que vamos começar a sentir já no início
do próximo ano quando forem aplicadas as novas tabelas de retenção na fonte. O
Governo da República fez algumas manobras de diversão no sentido de disfarçar
este brutal aumento da carga fiscal, mas em 2013 só irá encontrar mais
contestação e mais desilusão devido a este aumento desmesurado e disfarçado.
Os subsídios por morte foram
cortados a metade do atual. O subsídio por doença será reduzido tal como o
subsídio de desemprego, que será de mais difícil acesso. Alguns pensionistas
pagarão mais impostos do que os trabalhadores no ativo.
E mesmo assim a economia vai
encolher, o défice vai aumentar, o desemprego continuará a crescer e as
famílias a empobrecer.
22 de novembro de 2012
Políticas de Pescas e Valorização do Mar
Senhora Presidente da Assembleia
Senhoras e Senhores Deputados
Senhor Presidente do Governo
Senhora e Senhores Membros do
Governo
Na minha primeira intervenção
nesta que é a X Legislatura quero aproveitar a oportunidade para a felicitar,
Senhora Presidente da Assembleia, e para lhe desejar os maiores sucessos na
condução dos trabalhos desta casa que é, no fundo, a sede da autonomia.
A si, Senhor Presidente do Governo, também lhe
desejo as maiores felicidades na execução do Programa do XI Governo da Região Autónoma
dos Açores, que agora nos encontramos a discutir, para bem de todo o povo
açoriano.
A economia do mar é uma
prioridade estratégica para a região, no conjunto dos seus sectores e
subsectores. É geradora de emprego e de mais-valias, mas o seu potencial de
crescimento é enorme a curto e médio prazo.
Os três milhões de metros
quadrados da plataforma continental ao redor do arquipélago dos Açores para
além de representar novas oportunidades representam também uma responsabilidade
acrescida na proteção e no aproveitamento dos recursos, quer vivos, quer
minerais ou energéticos.
A abordagem das questões ligadas
ao mar assume, nos tempos que correm, uma outra dimensão, muito diferente da
visão do passado, que era assente em apenas três vertentes da sua utilização:
os transportes, a pesca e a extração de inertes.
Ao contrário do que era tido como,
de todo, desconhecido, hoje sabe-se que o mar dos Açores encerra uma série de
recursos naturais importantes e por isso há a necessidade de garantir que sejam
explorados de forma a não por em perigo o equilíbrio ambiental e tragam
benefícios económicos à região, não só por via do valor acrescentado, mas
também pelos avanços tecnológicos que a economia do mar pode trazer.
Também hoje temos consciência das
ameaças existentes sobre os recursos vivos, provocados pela exploração
pesqueira e a poluição, ambas causadas pela intervenção humana, que podem por
em causa espécies e habitats.
Estas duas premissas indicam o
caminho a seguir.
Por um lado temos de avançar para
novos usos do mar dos Açores em áreas como a ciência, a biotecnologia, a
energia, o turismo e os recursos naturais.
Por outro lado apresentam-se-nos
importantes desafios na gestão dos recursos piscícolas que nos levarão,
indubitavelmente, à diversificação, à gestão cuidada das pescarias, à
valorização do pescado e à constituição e regulamentação de zonas de proteção.
Senhora Presidente da Assembleia
Senhoras e Senhores Deputados
Senhor Presidente do Governo
Senhora e Senhores Membros do
Governo
Nos fundos do mar dos Açores e em
volta das fontes hidrotermais foram detetados sulfuretos polimetálicos, muito
ricos em cobre, zinco e ferro, e jazidas de hidratos de metano, uma potencial
fonte de energia para o futuro. A introdução de inovação tecnológica no
aproveitamento destes recursos poderá gerar progresso nas nossas ilhas.
A pesca desportiva, a navegação
de recreio, o mergulho, a observação de cetáceos e de aves marinhas constituem atividades
componentes da indústria de animação turística que encerram potencial de
crescimento e com capacidade para captar mais investimento e criar emprego.
A pesca tem um impacto
socioeconómico importante nos Açores, porquanto representa cerca de 20% das
exportações e 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB), absorvendo mais ou menos 5% da
população ativa.
Com as oscilações verificadas em
algumas pescarias, nomeadamente na pesca demersal – conforme é notório nos
casos do Boca Negra, Congro, Goraz, Pargo e Peixão – é fundamental diversificar
as capturas, pescando mais longe e mais fundo, agora que as embarcações estão
melhor preparadas para isso, com boas condições de habitabilidade e de
segurança, fruto do investimento feito na renovação da frota de há dezasseis
anos a esta parte.
É importante diversificar a
própria atividade, enveredando por novos aproveitamentos, nomeadamente na pesca
turismo.
A formação dos profissionais do
mar é, também, fundamental para a aquisição de novas competências e reciclagem
de conhecimentos para a alteração do paradigma que se exige neste momento.
A forma descentralizada como a
formação está organizada permite melhores índices de sucesso, porque a leva até
todas as ilhas da região. O grau de mestrança terá, num futuro próximo, o seu
enquadramento no Centro de Formação de Marítimos dos Açores, com conteúdos
transversais a outros utilizadores do mar.
Pelas razões apontadas
anteriormente o sucesso das pescas não passa pelo aumento do esforço ou
sobre-exploração dos recursos, passando antes pela valorização do pescado, o
que traz novas responsabilidades que terão de ser resolvidas por via da
formação dos profissionais. Boas práticas no manuseamento dos produtos da pesca
desde a captura, passando pelo acondicionamento e embalamento, até ao seu
escoamento e entrega ao cliente final, trarão, certamente, mais-valias
importantes. A reforma e o reforço da rede de frio que está em curso e que se
iniciou na última legislatura, trará, com toda a certeza, novas capacidades
para atingir esse desiderato.
Senhora Presidente da Assembleia
Senhoras e Senhores Deputados
Senhor Presidente do Governo
Senhora e Senhores Membros do
Governo
A Região Autónoma dos Açores está
e estará, num futuro próximo, sujeita a grandes pressões todas no sentido de
redução de direitos sobre os seus recursos.
Advinham-se, por isso, enormes
desafios para os Açores nos próximos tempos. A firme recusa em “embarcar” em
ideias centralistas vindas de S. Bento ou de Bruxelas tem de ser a nossa
bandeira.
A defesa da gestão açoriana dos
recursos minerais do fundo do nosso mar é uma prioridade. Por outro lado, na
revisão da Política Comum de Pescas é fundamental que vingue a posição assumida
pelos Açores, que defende o controlo nacional da área entre as 100 e as 200
milhas, mecanismo que, como se sabe, perdemos em 2004 com o Regulamento das
Águas Ocidentais.
O poeta Manuel Alegre, no poema Tanto Mar, fez justiça e sintetizou muito
bem este azul imenso, que muitas vezes nos separa, mas que também nos une,
quando escreveu:
“Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores”.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores”.
Disse.
Horta, Sala das Sessões, 22 de
novembro de 2012.
O Programa do novo Governo
Estamos a discutir, e haveremos
de votar ainda hoje, o Programa do XI Governo Regional, na Assembleia
Legislativa da Região Autónoma dos Açores, aquela que é a sede da autonomia.
Neste programa estão plasmadas
todas as promessas eleitorais assumidas no desenrolar da campanha eleitoral, o
que é raro. Há quem não goste e tenha declarado que irá votar contra, mas se calhar
votariam contra de qualquer modo.
Convenhamos que, no fundo, foram
estas as promessas que foram apresentadas aos eleitores na campanha eleitoral e
foram também essas as que receberam o apoio da maioria esmagadora do eleitorado
açoriano.
O facto de se verter os
compromissos assumidos neste importante documento, que, no fundo, irá orientar
a ação deste Governo nos próximos quatro anos, é uma atitude corajosa e um
sinal de que, tal como tem sido hábito nos últimos dezasseis anos, o contrato
eleitoral celebrado com o povo açoriano, em outubro passado, é para ser
cumprido.
Apresentado num momento de grave
crise económica em que os agentes económicos se veem espartilhados pela
diminuição do consumo imposto pelos cortes vindos de Lisboa e pela falta de
financiamento bancário, este Governo coloca neste programa um grande destaque nas
questões sociais e nos apoios às empresas e tudo porque é o tecido empresarial
que cria riqueza e, por conseguinte, emprego.
Este programa põe, assim, as
pessoas no centro das preocupações desta maioria. O Governo dos Açores pretende
“proteger os fragilizados, apoiar os necessitados e estimular quem quer crescer
e inovar”.
É um bom começo deste novo ciclo.
16 de novembro de 2012
Exigente, honesto e bondoso
Tomaz de Sousa da Luz
(13/11/1922 –
26/12/1977)
O senhor Tomaz era um homem que
dava nas vistas. Era bastante alto e com uma compleição física própria de um
homem do mar. De facto era no mar que trabalhava e era o mar que lhe dava o
sustento.
Naquele tempo os navios de carga
alternavam entre os portos de Santa Cruz e da Praia, de modo a agradar a todos.
Quando o mar pregava uma partida restava ao comandante do navio derivar para o
porto da Folga ou então o cancelar a operação.
Habituei-me a ver o senhor Tomaz
num frenético vai vem nos dias de navio em Santa Cruz. Era ele que coordenava,
a partir do Cais Novo, a ida e a vinda dos batelões, que, rebocados pelas
lanchas, se encostavam no bojo dos navios e aguardavam pacientemente, baloiçando
ao sabor das ondas, as mercadorias que eram arriadas suavemente pelos paus de
carga existentes a bordo. Era dele, da sua experiência e sabedoria, que dependia
a eficiência desta operação tão importante para a economia da ilha.
Está na origem, já depois da
revolução de 1974, da fusão destes trabalhadores dos batelões e das lanchas com
os estivadores e é nessa altura que assume o cargo de encarregado geral da estiva,
passando assim a coordenar toda a operação de carga e descarga dos navios que
demandavam os portos da Graciosa.
Para além desta atividade o
senhor Tomaz era um reputado e exímio pescador. Foi proprietário, primeiro, do Tomaz
Luz e, depois, do Valdemiro Luz, ambos de boca aberta e dedicados à pesca
artesanal. O barco Tomaz Luz foi destruído, juntamente com um barco do senhor
Casimiro, num dia de mau tempo, arrastados para o mar quando se encontravam
varados no Cais Novo. Nesse dia escapou por um triz o barco do mestre António
“Faroleiro” que se encontrava mesmo ao lado destas duas malogradas embarcações.
Mas foi na caça à baleia onde se
destacou mais. Na baleação, como era normal e até recomendável - porque nestas
coisas a experiência e a coragem é que capacitavam as pessoas - fez um pouco de
tudo. De simples tripulante e remador, função que exerceu durante alguns anos,
passou a trancador em 1948 depois de obter a carta de trancador ou arpoador de
cetáceos, que custou, na altura, 81$00. Em 1965, depois de tirar a respetiva
carta de mestre baleeiro cujo custo se cifrou em 86$90, passa a ser o oficial do
bote São Salvador, pertença de uma companhia baleeira da Graciosa. Os valores pagos
pelas licenças eram muito elevados, daí se perceber a importância social que
estas promoções deveriam ter naquele tempo.
O seu porto e de saída e de
entrada era o da Calheta, em Santa Cruz. Era ao largo deste porto que a
Estefânia Correia apanhava o bote comandado pelo mestre Tomaz e era aí que o
deixava quando terminava a faina.
Depois do sinal dado pela vigia
da baleia do Monte da Ajuda, com um foguete ou com a buzina do Mazini (barco que
naufragou no início do século XX no Calhau Miúdo), o mestre Tomaz e os seus
homens deixavam tudo e corriam até à Calheta. Sem tempo a perder tiravam o bote
do barracão, que hoje faz parte do Museu da Graciosa, e faziam-no escorrer até
à água passando pelos paus previamente untados. Era uma correria para se chegar
a tempo ou não fosse a baleia desaparecer dos binóculos do vigia. No regresso,
quer corresse bem ou mal, lavavam o bote, estendiam as linhas no cais da
Alfândega para secarem e faziam o percurso inverso em direção ao barracão.
Certo dia o mestre Tomaz, já
depois de trancado o cachalote, percebe que o animal se deixava conduzir e
avisa os seus homens que iria levá-lo até ao interior do porto da Calheta, para
aí consumar a matança. Não conseguiu os seus intentos, mas falhou por muito
pouco, pois o cachalote acabou por morrer um pouco mais ao lado, nos Terreiros.
A meados dos anos 70, um cachalote,
depois de trancado e de tanto andar às voltas, virou-se repentinamente em
direção ao São Salvador e com um golpe partiu o bote e fez todos os homens caírem
ao mar, que ficaram ali, entre os destroços e o animal, até serem socorridos
pela Estefânia Correia. Para além do mestre Tomaz, oficial do bote, estavam também
o Armandino, trancador, o João “Bota”, o Marcelo, o Valter Bettencourt, o
Urialdo Veiga e o José Manuel Quadros. Depois deste acidente o São Salvador foi
para o Pico e esta tripulação passou a balear no Restinga.
Os que trabalharam com o mestre
Tomaz dizem que era um homem muito rigoroso. Exigia respeito e respeitava os
seus companheiros de trabalho. Os mais novos tratavam-no como um segundo pai,
tal era a consideração que tinham por ele. Era dotado de grande coragem e com invulgar
capacidade para tomar decisões difíceis, muitas vezes necessárias nesta dura vida
de marítimo.
Era também um católico convicto. Não
se coibia de tirar o boné e fazer uma oração sempre que passava pela igreja da
Boa Nova, como que a pedir ou a agradecer a proteção de São Pedro Gonçalves,
padroeiro dos homens do mar. No seu bote e no seu barco eram sempre visíveis
símbolos religiosos que o confortavam nas horas mais difíceis.
A bondade era também uma das suas
grandes qualidades. Gostava de ajudar os outros. Sempre que a pesca rendia
pouco abdicava da soldada a que o barco tinha direito para não penalizar ainda mais
a sua companha. Sabe-se também que quando um dos seus homens deixou de poder
trabalhar no mar continuou a reservar-lhe uma soldada para deste modo o ajudar.
Nutria grande simpatia pelo Graciosa
Futebol Clube, clube onde desempenhou vários cargos nos órgãos sociais.
O senhor Tomaz merece ser
recordado pelas excelentes qualidades profissionais que demonstrou ao longo de
uma vida ligada ao mar e também pelas qualidades humanas que sempre revelou. O
seu caráter de homem exigente, honesto e bondoso fizeram dele uma pessoa
admirada e respeitada na Ilha Graciosa.
15 de novembro de 2012
A visita
Angela Merkel veio em visita
oficial a Portugal. Foi uma visita aparatosa devido à segurança que esse
momento envolveu, apesar das escassas cinco horas que durou a sua passagem pelo
nosso país.
É claro que esta visita gerou uma
grande onda de indignação junto dos portugueses. Ninguém ficou indiferente e
foi clara a colagem que se fez da chanceller à austeridade que demanda neste
país.
Esta colagem, justa, com é vista
pelo comum dos portugueses, ou não, como defendem os membros do governo de
Portugal, decorre das políticas que a senhora Merkel tem imposto à europa e aos
europeus.
Disse um pouco antes de
desembarcar em Portugal que nunca impôs austeridade a nenhum país, no mesmo tom
com que disse, logo a seguir, que estávamos no bom caminho. Esta postura, mesmo
para os mais distraídos, é um claro apoio a estas medidas draconianas que vão
destruindo o nosso país. É um claro apoio a estas medidas que vão muito mais
além das propostas pelo memorando de entendimento que estabelecemos com
organizações internacionais.
É por essas e por outras que os
portugueses sentem que a sua soberania está ameaçada e que a democracia se
encontra em risco como nunca esteve desde 1974.
É por essas e por outras que o
povo se indigna e enche ruas e praças numa clara demonstração do desagrado que
sente por estas políticas, como aconteceu ontem na greve geral.
Enquanto isto o primeiro-ministro
de Portugal, Passos Coelho, continua a acreditar, cada vez mais sozinho, que
esta política de empobrecimento da população é a via para o sucesso, enquanto o
país se afunda cada vez mais, como confirmam os indicadores.
8 de novembro de 2012
O início de um novo ciclo
Esta semana tomou posse o XI
Governo Regional dos Açores em sessão solene, um dia depois da instalação da nova
Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, resultante das eleições
de 14 de outubro de 2012.
Tal como o prometido na campanha
eleitoral, Vasco Cordeiro nomeou um governo mais pequeno, com maiores cortes do
que o inicialmente previsto, mais ágil e menos burocrático, com o objetivo de o
tornar, afinal, mais perto dos cidadãos.
É o início de um novo ciclo que,
indubitavelmente, terá pela frente novos desafios que se adivinham para os
próximos tempos e que se preveem, também, difíceis e incertos, exigindo de quem
nos governa rigor nas contas públicas e prudência nas opções políticas.
Os açorianos e os seus dirigentes
saberão, como sempre souberam, ultrapassar as dificuldades que surgem, umas
impostas pela natureza incontrolável e incontornável e outras fabricadas por
esta crise económica. Os açorianos, que cresceram aprendendo a seguir em frente
apesar das tempestades e dos vulcões, saberão, com toda a certeza, vencer, mais
uma vez, estes desafios provocados pela situação económica do nosso país.
Neste dia Vasco Cordeiro, naquela
que foi a sua primeira intervenção como Presidente do Governo da Região
Autónoma dos Açores, fez um apelo à participação de todos, ao diálogo e à
concertação, dirigindo-se aos partidos políticos e movimentos sociais, no
sentido de unirem esforços para defenderem de uma forma unissonante a Autonomia
dos Açores, para, deste modo e dispondo dos mecanismos que esta nos
proporciona, minorar os efeitos desta enorme crise de contornos desconhecidos.
Vasco Cordeiro, também nesta
comunicação, avançou com as três ideias que conduzirão este governo: a criação
de emprego, o reforço do apoio às empresas e o auxílio às famílias.
Estas importantes referências vêm,
de certa maneira, contrariar as opções do Orçamento de Estado para 2013 que
impõe mais austeridade e mais impostos e que impede a criação de riqueza e, por
conseguinte, de emprego.
É caso para dizer que o XI
Governo dos Açores, liderado por Vasco Cordeiro, não vai deixar ninguém para
trás.
1 de novembro de 2012
O Orçamento do Estado para 2013
Nestes dias de discussão do Orçamento
Geral do Estado fomos surpreendidos com novo aumento de impostos. É mais uma
situação que este governo da república confrontou os portugueses quase à
socapa.
Agora compreendo Vitor Gaspar
quando se refere ao povo português como o melhor do mundo. Esta sua apreciação,
infeliz a meu ver, pode confortá-lo neste momento em que todo o país está
contra esta política de empobrecimento e da usurpação de direitos adquiridos ao
longo destes anos da democracia, mas não poderá fazê-lo baixar a guarda,
porque, e isso já se viu nas ruas e nas praças deste país, o povo está a chegar
ao seu limite. O povo não pode mais. Não pode ser sujeito a mais impostos nem
quer ouvir esta gente a enterrar cada vez mais a esperança, que dizem ser a
última a morrer.
Não há dúvida nenhuma que esta
via para resolver a crise não interessa a ninguém. Diminuir o défice contando
apenas com a carga fiscal, esquecendo o crescimento não nos leva a lado nenhum.
Não sou eu a dizer isto, são os especialistas de todas as áreas políticas que o
afirmam à boca cheia. Só este governo continua a teimar nesta receita de
emagrecimento da economia, na redução de direitos e do consumo e no
desmantelamento das pequenas e médias empresas que, a um ritmo alucinante,
atiram para o desemprego centenas de cidadãos a cada dia que passa.
Ouvimos este governo da república
falar em cortar nas gorduras do estado e só o vemos, como resposta, aumentar
novamente os impostos ou atacar nos apoios sociais. Cortar nas gorduras do
estado não é empobrecer ainda mais os portugueses.
Depois de mais de uma década a
reduzir as desigualdades e a pobreza, vem agora este governo, com o orçamento
para 2013, tal como aconteceu com o do corrente ano, ignorar todo o esforço que
foi feito na tentativa de transformar Portugal num país mais justo e mais
solidário.
Não há dúvida que esta vontade do
PSD de Passos Coelho em refundar as funções do estado só deverá querer dizer
mais impostos e menos estado social.
Só nos resta fazer a pergunta: até
aonde nos querem levar?
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