28 de fevereiro de 2013

Serviço Regional de Saúde


O Bloco de Esquerda promoveu na passada semana, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, uma interpelação ao Governo Regional sobre a defesa e sustentabilidade do Serviço Regional de Saúde.

Esta figura está prevista no regimento e, por esse facto, tem o Bloco de Esquerda toda a legitimidade para trazer esse assunto à discussão, até porque este é um tema que interessa e é importante para todos os Açorianos.

Como é conhecido o Governo dos Açores, sabendo da importância deste assunto, encetou, muito recentemente, conversações com todos os partidos políticos e outros parceiros no sentido de receber contributos sobre a reforma o Serviço Regional de Saúde.

Quando se discute esta matéria, normalmente surgem sempre as questões relativas à dívida do sector, por vezes fora de contexto e de forma imprecisa, muito embora perceba a preocupação.

Hoje vive-se mais, hoje existem mais meios complementares de diagnóstico, hoje as pessoas tratam melhor da sua saúde. São fatores positivos, sem dúvida, mas absorvem cada vez mais recursos financeiros. 

Parece-me que ninguém tem dúvidas que esta dívida resulta do enorme investimento, sem igual, na modernização do sistema de saúde, que está disperso por nove ilhas, e na melhoria da acessibilidade por parte de todos os Açorianos. Foi dinheiro gasto ou, melhor, investido, nas pessoas e para as pessoas.

Esta reforma, como já foi dito muitas vezes, não é necessária por ser este um mau serviço, mas antes para continuar a ser um bom serviço e, sobretudo, sustentável.

É conhecida a vontade do Governo dos Açores de manter a tendência gratuita do acesso ao Serviço Regional de Saúde, porque, entende o Partido Socialista, que sustenta o Governo, as pessoas são a razão de ser das suas políticas da saúde.

22 de fevereiro de 2013

Engraxador bem-falante

 
Renato da Cunha Bettencourt Neves

(08/11/1936 – 10/10/1988)

Via o Renato todos os dias, saltitando entre o quiosque da Praça Fontes Pereira de Melo e os baixos da casa do senhor Belchior. Era nesse dois sítios que estava quase sempre.

O único ofício que lhe conheci foi o de engraxador. Com um banco e a sua caixa, que servia para arrumar os utensílios da profissão e de base para colocar o pé com o calçado à espera de atenção, procurava os clientes, sobretudo aos domingos, na Praça Fontes Pereira de Melo, para lhes dar brilho nos sapatos. Enquanto limpava, dava graxa e polia, o Renato conversava com os seus clientes, que eram todos seus conhecidos, sobretudo sobre futebol.

No entanto o Renato, enquanto rapaz, serviu em várias casas de Santa Cruz. Cuidava dos quintais, tratava dos animais e fazia as “voltas” necessárias àquelas famílias. Nesse tempo ficou conhecido por “guarda-joias”, talvez devido a alguma inconfidência logo aproveitada pelos especialistas em atribuir alcunhas.

Era um homem magro e de baixa estatura, podendo mesmo classificar-se com franzino. Andava bem penteado, muito à conta da brilhantina que lhe alisava o cabelo. No canto da boca via-se quase sempre um cigarro que também lhe amarelava os dedos.

Com o advento da democracia em 1974, os partidos de então, e eram muitos, faziam incursões por estas ilhas debitando as suas ideias em inúmeras sessões de esclarecimentos. O Renato, impulsionado por aquilo que era uma autêntica novidade para todos os graciosenses, levou isso a peito de tal maneira que, quando bebia uns “copitos” a mais, era vê-lo por cima do quiosque da praça em animado “comício” para deleite dos transeuntes, sobretudo os notívagos, que faziam da praça a sua sala de estar.    

Empenhava-se muito naquelas suas intervenções, mas não ofendia ninguém. Quando queria reforçar uma ideia ou mesmo repeti-la usava sempre a expressão “ou que seja”, o que levou algumas pessoas a tratá-lo assim, pois, como se sabe e já aqui foi referido, as alcunhas na Graciosa, por vezes, surgem do nada.

Era adepto do Graciosa Futebol Clube, onde chegou a jogar. Certo dia, o treinador mandou-o, na segunda parte, saltar do banco para jogar a ponta de lança. O defesa Reinaldo Tristão, pai e avô de dois guarda-redes do mesmo clube, colocou-lhe a bola no meio campo e o Renato, com o seu passo miudeiro, isolou-se e correu em direção à baliza à guarda do Antero. Quando se viu só à frente da guarda-redes do Santa Cruz Sport Clube desferiu um remate e o Antero, fazendo o que lhe competia, atirou-se para o lado esquerdo e defendeu … a bota de travessas do Renato, enquanto a bola seguiu, menos veloz mas mais certeira, em direção à baliza, fazendo assim um golo de antologia, que o seu autor nunca mais esqueceu, nem nunca deixou de contar sempre que se falava de futebol.

O Renato, ainda novo, teve necessidade de receber tratamento na vizinha Ilha Terceira. Foi aí que acabou por encontrar-se com a morte de uma forma trágica e inesperada.

21 de fevereiro de 2013

As pescas e a economia do mar


O peso que o sector das pescas representa na economia dos Açores (3,6% do PIB e cerca de 20% das exportações) atribui à Região enormes responsabilidades na sua gestão e, sobretudo, na preservação.

Os Governos dos Açores constituíram como objetivo prioritário nesta área a proteção da nossa Zona Económica Exclusiva, porque sempre foi reconhecido que, para além de uma atividade importante do ponto de vista da economia regional, configura-se também importante em termos sociais e mesmo culturais.

A perseverança neste desígnio, há muito reivindicado, deu frutos e permitiu aos Açores, muito recentemente, recuperar a exclusividade para a frota açoriana das zonas em redor dos montes submarinos, situadas para além das 100 milhas da nossa ZEE.

A aprovação da não obrigatoriedade de imposição das quotas individuais transferíveis, também veio ao encontro das pretensões do Governo dos Açores, garantindo, por esta via, que a gestão destas questões tenha a sua sede na Região Autónoma dos Açores.

A grande evolução verificada nos equipamentos (casas de aprestos, gruas, e pórticos de varagem), nos portos de pesca (com a construção de novos e intervenções nos existentes), a renovação da frota e a formação, trouxeram enormes benefícios, nomeadamente criando melhores condições de segurança, de trabalho e de habitabilidade, acentuaram a pressão sobre os recursos, que, sabe-se agora, são sensíveis e finitos.

Sem dúvida que estes fatores contribuíram para a dignificação da classe e consequente rejuvenescimento dos seus profissionais.

Por outro lado as oscilações nas capturas, nomeadamente na pesca demersal, vieram levantar outra questão que tem estado na ordem do dia: a gestão dos recursos. Aqui a Região também viu a União Europeia reconhecer a necessidade de financiar a investigação nesta importante fileira, dando a conhecer aos utilizadores do mar a sua real situação.

São estes avanços que nos permitem acreditar no futuro deste setor.

14 de fevereiro de 2013

Venha mais um


Passamos mais um Carnaval na Graciosa. Exatamente como aconteceu em todos os outros, logo houve quem se apressasse a tecer algumas considerações, tais como “o nosso carnaval já não é o que era”, “o carnaval está a desvirtuar-se a cada ano que passa”, “as roupas já são importadas”, “no meu tempo é que era bom”, etc.

Mas uma coisa é certa: na Graciosa fez-se mais um carnaval e cumpriu-se a tradição. Também se fez jus à fama do gosto que os graciosenses nutrem pela folia e confirmou-se, mais uma vez, que nos Açores não há carnaval como o nosso.

Apesar do fulgor destes dias, a ausência da RTP-Açores na cobertura do desfile do domingo gordo causou alguma estranheza, ainda para mais quando se soube que se tratou de uma decisão da nova direção daquela estação que nada teve a ver com questões financeiras, justificação agora muito em voga, já que as despesas têm corrido, desde há muito, por conta da edilidade graciosense.

Nunca escondi que não concordava com o modelo que aquela estação implementou para as ilhas que não tem delegações da RTP-Açores: se querem cobertura dos vossos eventos e das vossas tradições então paguem os encargos com as deslocações dos profissionais. Aliás, já o manifestei numa reunião de uma comissão parlamentar em que participaram os seus responsáveis. E a fundamentação é muito simples. Não me parece que a Câmara de Ponta Delgada pague alguma coisa para ter a cobertura das Festas de Santo Cristo, ou que as Câmaras de Angra do Heroísmo ou a da Praia da Vitória se cheguem à frente para terem as suas festas concelhias transmitidas por aquele canal. Então porque que teremos nós de pagar?

Num momento em que se esgrime argumentos com os centralistas para justificar a existência de um canal como garante da nossa autonomia regional, coisas deste tipo representam, de facto, um retrocesso.

Este já passou. Para o ano há mais.

7 de fevereiro de 2013

Duas notícias


Passando em revista as últimas notícias, em pleno dia das comadres, duas sobressaem pela importância que têm para os Açores, muito embora sejam de sinais opostos.

A primeira prende-se com a aprovação no Parlamento Europeu de medidas para as pescas defendidas pelos Açores e a segunda tem a ver com as declarações do PSD sobre as dívidas da saúde.

No primeiro caso, a Região Autónoma dos Açores, soube-se agora, ganhou uma dura e longa batalha ao conseguir reservar a área à volta dos montes submarinos, para lá das 100 milhas, à frota de pesca açoriana, em exclusivo.

Esta pretensão antiga - e justa, diga-se - insere-se na estratégia que o Governo do Açores tem imprimido no sentido de ser a região a gerir os recursos marinhos existentes.

No caso das dívidas do Serviço Regional da Saúde, outro dos temas falados esta semana, ouvimos, sobretudo o PSD, tecer, durante vários dias, grandes considerações sobre o tema, que foi, inclusivamente, objeto de jornadas parlamentares.

Curiosamente estas manifestações do PSD surgem num momento em que o Governo dos Açores se prepara para, juntamente com todos os partidos políticos e parceiros sociais, celebrar um Compromisso para a Sustentabilidade do Serviço Regional de Saúde.
Esta colagem não será por acaso, certamente.

1 de fevereiro de 2013

Defender os Açores


Como se esperava, o Presidente do PS / Açores, Vasco Cordeiro, fez duas excelentes intervenções neste que foi o XV Congresso do partido, não tanto pela forma, que nesta altura pouco interessará, mas, sobretudo, pelo tom assertivo com que identificou as ameaças que aí vêm, pela esperança que incutiu nas palavras que dirigiu ao povo dos Açores nestes momentos de dificuldades e pela certeza que este conclave não servia para resolver questões internas ou disputas pelo poder, mas antes para procurar soluções para os problemas que estes novos tempos nos vão trazer.

Foram discursos para fora do partido, lembrando, aqui e ali, que os consensos alargados com os parceiros, sociais e políticos, só nos tornarão mais coesos.

Não haja dúvida nenhuma que os centralistas de Lisboa se preparam para assaltar o nosso mar de uma forma que, no dizer de Vasco Cordeiro, se assemelha à pirataria de outros tempos.

Agora, quando são conhecidas as potencialidades dos minérios existentes nos fundos açorianos, o Governo da República põe as garras de fora e tenta, a todo o custo, tirar proveitos à conta de atropelos à nossa autonomia política e administrativa.

Passos Coelho também se propõe alterar a Lei das Finanças das Regiões Autónomas. No meio de algumas propostas que vão no sentido de maior rigor e transparência que, para o nosso caso, são inócuas, o Governo Central quer baixar o diferencial fiscal de 30 para 20%, significando essa medida mais impostos para o açorianos, o que é verdadeiramente inaceitável para Vasco Cordeiro.

Vasco Cordeiro também se demarcou, e muito bem, do desmantelamento do estado social que o governo do PSD / PP está a preparar no continente.

Aqui, na Região Autónoma dos Açores, cabe-nos defender os que mais precisam, os mais desfavorecidos. É por isso que Vasco Cordeiro anunciou que irá manter todos os apoios sociais já existentes e aumentar o “cheque pequenino”, tal como o prometido na campanha eleitoral.

 Também foi anunciado o reforço de 30 milhões de euros na saúde, como forma de garantir a qualidade nesta importante área.

Temos de estar atentos e vigilantes para não sermos surpreendidos por manobras perpetradas nos corredores cinzentos do poder central.

A autonomia e os autonomistas têm agora a oportunidade de defender, em uníssono, as conquistas dos últimos 37 anos.

25 de janeiro de 2013

Médico do povo


 
Manuel Gregório Júnior

(12/04/1902 – 15/07/1986)

Cresci ao lado do meu primo e companheiro de brincadeiras, o Rui Manel, filho do Dr. Gregório. Nos períodos de férias passava, muitas vezes, as noites na sua casa para aproveitar e brincar até tarde e para recomeçar o divertimento bem cedo.

Foram belos tempos, aqueles. A imaginação e a criatividade produziam ideias para os jogos que nos entretinham dias a fio.

Correr de patins no enorme corredor, tocar piano no salão do fundo, jogar à bola no pátio ou lutar com espadas no quintal, eram os nossos passatempos favoritos.

Depois de vencidos pelo cansaço, a noite e o sono recuperador punha-nos aptos para, no dia seguinte, começar tudo de novo, com renovada energia.

O tio Gregório era um homem de hábitos. Noctívago desde que me lembro, nunca se deitava antes das quatro da manhã.

Passava as noites a passear na praça ou, quando o tempo não permitia, abrigado no bar situado por baixo do coreto ou então num qualquer clube jogando ou vendo jogar às cartas e ao dominó. Aquele costume de se deitar tarde fazia-o procurar os foliões ou os convivas de uma qualquer petiscada, para assim ganhar mais umas horas de companhia. Nos dias de maior invernia ou quando não encontrava ninguém a jeito, passeava no seu enorme corredor até à hora de se deitar.

Dava uma volta à ilha diariamente, com ele ao volante enquanto a sua saúde permitiu, ou então conduzido por alguém amigo depois de deixar de conduzir. Confessava que nesse passeio via sempre algo que lhe escapara nas vezes anteriores. Eram conhecidas as suas paragens, na companhia do Comandante Silveira, para ouvir o chilrear de um determinado pássaro que, segundo eles, os presenteava com uma exibição sempre à mesma hora. Já na fase final da sua vida cheguei a ter o privilégio de passear com ele e de ouvir as suas histórias e vivências contadas na primeira pessoa, com a sua inconfundível voz afável. 

Os graciosenses habituaram-se a vê-lo com um sobretudo ou uma gabardina por cima do seu fato com colete, polainas nos sapatos, chapéu na cabeça e sempre com uma varinha numa das mãos. No bolso interior do casaco transportava uma cigarreira de prata, onde colocava cuidadosamente os cigarros para o dia, e ainda uma boquilha para reduzir os efeitos nefastos do tabaco. Quando chegava a casa, colocava a varinha no bengaleiro e trocava o sobretudo ou gabardina por um robe cor de vinho.

O Dr. Gregório foi médico nesta ilha mais de quarenta anos, a grande maioria deles sozinho. Foi Delegado de Saúde, Médico Municipal e tinha consultório no rés-do-chão da sua casa. Era das consultas que deveria tirar a maior parte dos seus proveitos, mas isso nunca aconteceu porque não levava dinheiro. Aos pobres, quando lhe perguntavam quanto era a consulta, respondia “porque é que perguntas, se sabes que não me podes pagar?” Por outro lado ficava indignado quando os que podiam pagar não lhe perguntavam nada.   

Muitas noites o tio Gregório era procurado para acudir a quem sofria. Era frequente vê-lo sair noite dentro, muitas vezes já com a iluminação pública desligada, para tratar doentes. Entrava em casas de pobres e ricos, recebido quase como um salvador. As pessoas tinham fé nos seus conhecimentos para debelar as doenças que os afligiam

Dizem que era quase infalível nos seus diagnósticos, sempre feitos sem apoios de meios técnicos, porque não os havia. O seu estetoscópio, o toque com dois dedos e sua rara intuição, indicavam-lhe a origem do mal e o caminho a seguir para a cura, com uma prescrição que poderia ser um medicamento feito pelo senhor Juvenal “da Farmácia”, ou mesmo o chá mais indicado para aquela maleita. 

Um dia, devido à gravidade da situação e também pelo mau tempo que impedia a “gasolina” da baleia de evacuar um doente, resolveu fazer uma operação para a ablação do apêndice, como último recurso para salvar uma vida. A cirurgia correu bem, mas o tio Gregório apanhou um susto. Nesse dia tinha dado conta do desaparecimento da sua aliança que, chegou a temer, poderia, muito bem, estar no abdómen do seu doente. Felizmente que a dúvida foi desfeita quando verificou que a tinha guardado cuidadosamente antes da operação.

O escritor Augusto Gomes, aquando da sua morte, disse sobre ele: “Atendendo doentes de toda a ilha, os seus diagnósticos tornar-se-iam célebres pela infalibilidade. Salvou centenas de vidas. Seria fastidioso enumerar os casos quase lendários acerca do Dr. Gregório. Aliava à inegável competência profissional um espírito filantrópico e um desprendimento pelo fausto, pela opulência, não cobrando honorários. O povo adorava-o. Por quatro vezes teve o ensejo de o manifestar. Primeiro quando se deslocou a Ponta Delgada em tratamento, teve o seu regresso marcado por uma manifestação jubilosa, na qual se incorporaram milhares de pessoas. A segunda deu-se quando completou 70 anos. A terceira, aquando da inauguração do seu busto (…). E finalmente, a quarta e derradeira, ao derramar lágrimas de sincero pesar junto ao túmulo do seu filho dilecto, que tão relevantes serviços prestou à sua terra”.

Na mesma altura o senhor Raúl Correia da Silva escreveu: “Homem de carácter íntegro, de extrema bondade e de evidente modéstia, era detentor de uma inteligência invulgar, o que lhe permitiu concluir brilhantemente o curso de medicina, em Coimbra, no ano de 1929. De tal modo que, tendo-lhe sido dirigido convite para ocupar as funções de assistente da respectiva faculdade, a sua reconhecida modéstia entendeu por bem decliná-lo. Mas para além de Homem de bem, foi também médico de competência rara que, durante 40 anos, deu o melhor do seu talento e espalhou ininterruptamente a semente da caridade junto dos seus conterrâneos, já que não cobrava praticamente nada pelo exercício do seu múnus profissional, limitando-se aos parcos vencimentos que auferia pelo exercício dos cargos de delegado de saúde e de médico municipal”.

Estes dois testemunhos dizem muito sobre a personalidade deste homem e a sua ligação à Graciosa e aos graciosenses. Ficou mesmo conhecido como “médico do povo”, cognome que aceitava com uma indisfarçável humildade.

Esse mesmo povo, a quem ele deu muito, juntou-se e ergueu-lhe um busto de bronze, ainda em sua vida, cuja inauguração constituiu uma emocionante homenagem acompanhada por centenas de pessoas que deste modo quiseram agradecer tudo o que este homem fez pelos filhos da sua terra.

O teatro era uma das suas paixões. Encenou e representou várias peças de teatro levadas à cena na Graciosa e noutras ilhas dos Açores.

Foi agraciado pelo Presidente da República com a Ordem de Mérito, antes da revolução de 1974 e em 1979, com o Grau da Ordem de Benemerência. A Região Autónoma dos Açores, a título póstumo, atribuiu-lhe a Insígnia Honorifica, pelos relevantes serviços prestados à sua comunidade.

24 de janeiro de 2013

O Congresso


Na reunião magna dos socialistas açorianos, que decorrerá no próximo fim-de-semana, o Dr. Vasco Cordeiro, Presidente do PS, apresentará uma Moção de Orientação de Política Global intitulada “Renovação com Confiança por uma Autonomia com Futuro”.

O título deste documento diz muito sobre o seu conteúdo. Enfatiza-se a renovação de protagonistas, apela-se a uma nova geração de políticas para garantir a sustentabilidade da Autonomia dos Açores.

O Partido Socialista, como grande partido da Autonomia, honra-se do seu passado e da obra feita por todas essas ilhas.

No entanto este partido não se deslumbrou com o seu histórico nem se aquietou no conforto dos bons resultados das suas políticas.

Foi capaz de se renovar de uma forma exemplar, sobressaindo a união de todos em volta de um projeto político que só tem um dono: o povo açoriano.

Agora o Partido Socialista prepara-se para ganhar os desafios que tem pela frente nos próximos tempos, que não serão poucos, como se sabe.

O Governo da República tenta, a todo o custo, criar dificuldades em nome da sua linha de atuação austera, como não há memória.

O poder local, a lei das finanças regionais, a desresponsabilização nas funções do estado ou a tentativa de apropriação de ativos da Região, são alguns dos constrangimentos que já se advinham.

O PS é o partido melhor colocado para defender os Açores dos ataques centralistas neste momento difícil e foi por isso, sem qualquer dúvida, que os açorianos lhes deram um mandato inequívoco para governar a Região.

17 de janeiro de 2013

ALRAA - 16/01/2013


Mais uma semana negra


Esta semana Passos Coelho veio aos Açores fazer um discurso hermético e descolorido. Aliás, a especialidade do primeiro-ministro é pintar de cinzento tudo o que diz. Enfatizou as dificuldades do país com convicção e acenou, a medo, com melhoras lá para a frente, que ninguém, no seu prefeito juízo, consegue vislumbrar.

Esta sua intervenção no congresso do PSD mereceu tímidos aplausos dos militantes do seu partido, talvez desanimados e desiludidos com a ineficácia do seu líder na resolução desta crise, que ele garante não ser da sua responsabilidade, mas que todos os portugueses sabem que foi ele que a precipitou logo a partir da sua tomada de posse.

Ficou também confirmado, através dos dados divulgados pelo Banco de Portugal na última terça-feira, que a recessão em 2013 vai ser mais grave do que se previa, com menos consumo e mais 88 mil postos de trabalho destruídos.

O desacerto deste governo, de matriz ultra liberal, é uma constante e, mais do que isso, é uma triste realidade que está a levar os portugueses ao desespero. Falham previsões atrás de previsões e continuam em frente. Faz lembrar a banda do Titanic que continuou a tocar enquanto o navio se afundava.

O relatório do FMI, encomendado pelo governo, contém uma série de propostas indiscritíveis que, a serem assumidas, irão esmagar, ainda mais, o rendimento dos portugueses. A OCDE também está por cá para colaborar na reforma do estado que, segundo se percebe, vai avançar a direito, sem esperar pela opinião de quem quer que fosse, tal como aconteceu com a reorganização das freguesias agora promulgada pelo Presidente da República.

A clima social por esse país fora é de tal gravidade que gente lúcida e com responsabilidade moral inatacável, como é o caso do Dr. Freitas do Amaral, já prevê a possível queda do governo de Passos Coelho.

Esta foi mais uma semana a correr mal.

11 de janeiro de 2013

Mestre da viola



A oficina do mestre José Juventino - com era mais conhecido o senhor José Gil de Ávila, por ter sido esse o nome de seu pai – ficava ao fundo da rua do Saco. Antes esteve situada na atual rua 25 de Abril e depois na rua Infante D. Henrique.

Adivinhava-se a sua localização pelo amontoado de tábuas encostadas às paredes, secando ao sol, para depois servirem de matéria-prima aos artistas daquela carpintaria e marcenaria, ele e os seus três filhos, que as transformariam em mobílias, armários, portas, janelas, mesas, cadeiras, soalhos, vasilhame ou cabos para utensílios agrícolas.

No seu interior, presas nas paredes ou espalhadas por cima dos bancos de trabalho, existiam várias ferramentas: serras, sutas, esquadros, maços, serrotes de ponta, serrotes de costas, berbequins manuais, plainas, martelos, etc.

Por cima do chão, que antes era nu e frio, acumulavam-se os cavacos de madeira nascidos na ranhura das plainas que, num vai vem frenético, iam dando forma e sentido à madeira. Durante a jornada, para não se perder muito tempo, empurravam-se as aparas e os cavacos para os cantos da tenda, mas no final de cada dia eram queimados mesmo ali do lado de fora da porta.

No teto viam-se alguns moldes e várias violas da terra carinhosamente construídas pelo mestre José Juventino. No início moldava pacientemente a rebelde madeira com que construía as violas com vapor que saía de panelas com água a ferver. Mais tarde construiu as suas próprias formas que, no fundo, lhe facilitavam a vida nesta atividade.

Dali saía quase tudo o que fosse possível moldar. Faziam trabalhos mais toscos, como coberturas de casas, ou moldes para as obras da Junta Geral, mas era na marcenaria que aquela oficina se destacava mais. O mestre José Juventino e os seus filhos deixaram nesta ilha, sobretudo nas casas mais abastadas, mobílias que ainda hoje são muito apreciadas.

Certo dia encomendaram-lhe um candeeiro tendo como corpo um fuso igual ao dos lagares. Depois de fazer as suas contas lá acabou por desenhar um esboço que o ajudaria a concretizar mais uma obra de arte. Apesar de ter pouca instrução, como era normal no tempo em que se criou, tinha conhecimentos empíricos de matemática capazes de o ajudarem a resolver alguns problemas ligados à sua profissão.

Era naquela oficina que vi fazerem piões que depois comprava para jogar com os meus amigos na escola ou na praça. Bocados de madeira amorfos iam-se enformando à custa da rotação do torno e da mão ágil do mestre José Juventino. Foi também nessa carpintaria que vi construir o meu primeiro carro de ladeira que utilizei em inúmeras brincadeiras durante vários anos da minha infância.

Dizem aqueles que o conheceram bem que gostava de fazer duas coisas na vida: trabalhar e tocar viola da terra. Só era visto de duas formas, ou curvado sobre a sua bancada ou então carregando a sua viola.

Andava de casa em casa, de clube em clube, ora tocando nas matanças do porco, ora animando os bailes com as modas de viola, onde mandava como ninguém. Nesta sua faceta era também muito bom.

Tinha conhecimentos musicais e isso dava-lhe mais traquejo e versatilidade para poder acompanhar o acordeão do José Berto, a voz do Joaquim dos Fados ou o piano da D. Nizalda Barcelos. 

Foi músico na centenária Filarmónica Recreio dos Artistas, onde também desempenhou cargos nos seus órgãos sociais. O trombone era o seu instrumento na banda que serviu durante longos anos.

Gostava muito de se juntar com os amigos em concorridas petiscadas que acabavam, quase sempre, em alegres cantorias acompanhadas pela sua inseparável viola.

O senhor José Juventino foi um artista nestas duas artes que foram, sem dúvida, a paixão de uma vida.

10 de janeiro de 2013

Ano fora discurso novo


Confesso que não ouvi a mensagem de Ano Novo do nosso Presidente da República. Não a ouvi por nenhuma razão em especial ou movido por qualquer preconceito, mas apenas por não me despertar qualquer tipo curiosidade, até porque do mais alto magistrado da nação já não espero grande coisa, sentimento que comungo com uma grande parte dos portugueses.

Com esta minha linguagem acabei por levar uma chapada com luva branca, não só por não ter avaliado bem a intervenção política do Presidente da República naquela que seria a sua primeira aparição no novo ano, mas também por ter ignorado a sua capacidade de avaliar os danos que esta política de Passos, Gaspar e companhia provocam aos portugueses e de dar um puxão de orelhas a quem nos levou para este atoleiro em que se encontra Portugal.

Eu - que assumo ser um simples mortal que muitas vezes se engana e que vive carregado de dúvidas, ao contrário do Chefe da Nação - tenho de confessar que, mais uma vez, falhei.

O Presidente da República reconheceu as dificuldades do ano velho, confirmou que o ano novo vai ser difícil e corroborou a certeza que todos temos de que o país empobreceu e que vai empobrecer ainda mais por via do aumento imenso e nunca visto da carga fiscal.

Mas não foi só. Falhei logo a seguir - e isto só pode dizer que são falhanços a mais - quando pensei que o Dr. Mota Amaral iria deixar passar este “deita abaixo” sem qualquer reparo.

Num artigo publicado nas páginas do jornal Açoriano Oriental, com o título “OE 2013 – a prova de fogo”, o Dr. Mota Amaral desfere um ataque a Passos Coelho e aos seus ministros reconhecendo que a situação do país tem vindo a piorar, ao contrário do que o Governo diz, criticando-o duramente por ter sido mais troikista que a troika e por não ter cumprido o que prometeu na campanha, nomeadamente na questão dos cortes nos subsídios de férias e de natal e nas pensões.

Reconheço a coragem destes dois políticos, que, muito certamente, estarão incomodados com estas e outras políticas que podem conduzir a uma, já eminente, rutura social.

No entanto não posso compreender porque não usaram os mecanismos que estão ao seu dispor: o veto em Belém, no caso do primeiro e o voto contra em São Bento, no caso do segundo.

Vamos ver em 2014…

3 de janeiro de 2013

100 anos é muito tempo


Há cem anos atrás, gente de visão larga e de espírito empreendedor, gente daquelas que faz coisas, resolveu fundar uma filarmónica para animar as festas profanas e dignificar e acompanhar as manifestações da fé do nosso povo.

A Filarmónica Recreio dos Artistas surgiu numa cisão com outra filarmónica, a Liberdade, processo que não terá sido muito pacífico, havendo mesmo algumas ameaças de pancadaria e metendo o tribunal pelo meio.

Lembro-me da imensa atividade desta instituição. Era uma casa animada, em que, para além dos ensaios da sua filarmónica, decorriam a preparação das fantasias, os bailes e onde ensaiava também um grupo de teatro. No verão a sua cerca anexa servia para apresentações de teatro, para bailes e ainda para assistir ao cinema.

Hoje esta casa está bem viva, com inúmeras atividades, destinadas a diversas idades, desde crianças até aos mais maduros. A Filarmónica, como habitualmente a denominamos, e os seus dirigentes, tem contrariado aquela ideia pré-concebida e pessimista de que já não há quem se interesse por estas coisas.

Temos de agradecer às mulheres e aos homens que hoje dirigem esta e outras instituições, que lhes dão vida, temos de lhes agradecer por teimarem em seguir em frente, a ultrapassar as dificuldades, sem nunca virarem a cara á luta.

Mas, no entanto, nunca poderemos esquecer aquelas e aqueles que depois de cada crise a souberam reerguer. Não poderemos esquecer todos os que a trouxeram até aqui, desde sócios, músicos e dirigentes, de modo a que as novas gerações possam agora usufruir dela.

No dia 1 de janeiro estiveram os sócios de parabéns e, mais do que os sócios, estão a Graciosa e os Graciosenses de parabéns, porque podem contar com uma Filarmónica Recreio dos Artistas centenária e pronta para o futuro.

28 de dezembro de 2012

Contador de histórias



Gabriel Correia Pacheco de Melo

(07/01/1923)

A biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian corria as freguesias carregada de livros, proporcionando aos Graciosenses o acesso à leitura. Para uma grande parte da população esta era a única hipótese de contatar com os livros.

A carrinha, de marca Citroen, tinha um aspeto esquisito. Era forrada com uma espécie de chapa frisada, uma frente proeminente, com formas bem marcadas, mesmo tipo caixote, e com o tejadilho de abrir. Podia parecer invulgar mas era funcional. O seu interior guardava cerca de dois mil livros, meticulosamente arrumados, ficando os infantis nas prateleiras de baixo, os livros de ficção, biografias e de viagens ficavam ao meio e nas prateleiras superiores eram colocados os livros menos requisitados.

Terão sido milhares os livros emprestados nesta ilha por este serviço criado pela Fundação Calouste Gulbenkian que, deste modo, se substituída ao estado numa das suas funções mais básicas. No país foram emprestados por esta instituição cerca de 95 milhões de livros, segundo uma notícia da Lusa/RTP.

A gestão da viatura e do armazém, que deveria ter o triplo da capacidade da biblioteca itinerante, era feita por um auxiliar e também por um encarregado, cuja função mais relevante era a de orientar as escolhas dos leitores. Não se exigia ao encarregado qualquer formação específica, apenas um boa cultura geral, o gosto pela leitura e uma boa capacidade para lidar com o público.

O senhor Gabriel Melo tinha todas essas competências. Durante os vinte e dois anos em que exerceu esta atividade recebia como ninguém os seus “clientes” e incutia-lhes o gosto pela leitura, não só lúdica mas também formativa e informativa.

Foi nesta sua função que tive o primeiro contato com o senhor Gabriel Melo. Ainda me lembro o modo afável com que recebia as crianças e jovens da minha idade e lhes emitia os cartões onde eram registados os empréstimos dos livros. Aliás este seu modo terno e sempre bem-disposto com que tratava as pessoas ainda o acompanha hoje em dia. Era também ele que distribuía gratuitamente os livros de estudo pelos estudantes com mais dificuldades.

O senhor Gabriel fez o liceu no Brasil e é nesse país que inicia o seu percurso laboral. Foi funcionário no Gabinete Português durante alguns meses e depois transita para o Consulado de Portugal em Salvador da Baía onde trabalhou durante dois anos.

Em 1946, quando resolve voltar à sua terra, esteve no Brasil à espera de transporte até Lisboa durante três longos meses. Chegado à capital portuguesa esperou ainda mais dois meses para apanhar navio para os Açores. Eram os resquícios da II Grande Guerra Mundial a ditar as regras numa altura em que faltava tudo. Casa quatro anos depois de cá chegar e desse casamento resultaram três filhos.

Já na sua terra natal desenvolve uma intensa atividade social, sendo um dos fundadores do Clube Central e Recreativo de Guadalupe, de onde nasceram, por sua vez, o Sporting Clube de Guadalupe e a Filarmónica União Progresso de Guadalupe, dos quais também fez parte dos seus corpos sociais.

O surgimento do clube teve uma pequena história. O senhor Gabriel e um amigo, depois de autorizados a utilizar a casa de sua mãe para bailar, preparavam-se para proceder às respetivas limpezas na manhã seguinte. Durante a noite o senhor Gabriel pensou que seria do agrado da população a freguesia poder dispor de um clube definitivo e identifica a atual sede como um dos melhores sítios para a instalar, mesmo estando sem soalho e um pouco degradada. Nessa manhã e antes de procederem às limpezas na casa de sua mãe, conforme estava combinado, seguem até casa do procurador e fecham o negócio por 40 contos. E foi com este impulso que o Clube Central e Recreativo de Guadalupe é fundado a 31 de julho de 1955.

O Sporting Clube de Guadalupe também surge pela vontade deste homem que achava que um clube desportivo na sua freguesia traria algum movimento, apesar de ter sido dissuadido por amigos que o assustaram com os problemas que uma estrutura deste género poderia trazer. Não se atemorizou e procura o terreno para construir um campo de futebol para o clube que ajuda a inaugurar em 22 de abril de 1962.

No ano seguinte, mais precisamente no dia 29 de setembro, juntamente com os Guadalupenses que achavam que a freguesia mais rica e mais populosa da ilha necessitava de uma filarmónica que lhe desse prestígio, ajudou a fundar a Filarmónica União Progresso de Guadalupe.   

Foi o primeiro ganadero da Graciosa e, por essa via, foi o percursor das touradas nesta ilha. Com apenas dois toiros promoveu o gosto pela festa brava, que hoje ainda persiste e se encontra enraizado como uma tradição do nosso povo. Também se dedicou á exportação de gado vivo para o continente português durante cerca de 20 anos, atividade que, como se sabe, dinamizava a economia da ilha.

Em 1980 é eleito Presidente da Junta de Freguesia de Guadalupe, cargo que exerce até 1983.

Tem um gosto especial por viagens. Para além de conhecer muito o nosso país, conhece também o Brasil, onde viveu alguns anos, a Espanha, a Itália, o Reino Unido, a França e os Estados Unidos.

Tem um jeito muito especial para contar histórias de todo o tipo, mas distingue-se nas histórias verídicas. Nestes tempos de correria, em que não se pára para pensar e em que as preocupações com questões materiais se sobrepõem às coisas simples da vida, é um prazer ouvir histórias verídicas da nossa e de outras gerações e o senhor Gabriel fá-lo como ninguém. Conta-as umas atrás das outras.

No dia 7 de janeiro de 2013 o senhor Gabriel comemorará o seu nonagésimo aniversário, mantendo uma invejável boa disposição e um espírito jovem, que sempre o tem acompanhado ao longo da sua vida.

27 de dezembro de 2012

O Pai Natal


Neste período do ano lembro sempre, com uma certa nostalgia, os tempos em que acreditava no Pai Natal. Naquele tempo os diversos comerciantes, com a criatividade que os caraterizavam, tinham um Pai Natal que distribuía pelas casas dos seus clientes a prendas previamente adquiridas nos seus estabelecimentos.

A espera fazia-se em “pulgas”, com o pijama já envergado e com o rosto colado à janela da frente. Era um momento mágico, aquele em que o homenzinho de barbas brancas satisfazia uma parte, muito pequena diga-se, dos desejos da criançada.

Passada a idade da inocência e em que deixamos de acreditar em tudo o que nos dizem, mantenho o hábito de, nesta época natalícia e de transição para um novo ano, pedir a concretização de alguns desejos, muitos deles repetentes.

Queria que acabasse a fome e a guerra no mundo. Queria que o dinheiro gasto em armamento fosse todinho para a cura de doenças que ceifam vidas. Pretendia que o ser humano fosse mais justo e mais fraterno. Desejava acabar com a malvadez e a hipocrisia, tão abundante nos tempos que correm. Acho que não é pedir muito…

Mas ao aproximar-me do ano 2013 e pelo que os portugueses sofreram neste ano que agora termina, tenho mais uns desejos.

Queria que o Passos Coelho deixasse os pensionistas em paz e acabasse com as ameaças veladas de mais cortes nas suas pensões. Queria que o Presidente Cavaco Silva tivesse um sobressalto, nem que fosse cívico. Gostaria que os enfermos continuassem a ser tratados das suas maleitas e a ter acesso aos remédios de que precisam. Desejava que aos idosos continuassem a ser dispensados acompanhamento e carinho na última etapa das suas vidas. Queria que o governo não vendesse a RTP, que não deixasse morrer as universidades e que devolvesse os submarinos aos alemães.

Daqui a um ano cá estarei, se tiver vida e saúde, para renovar a esperança e os desejos que não forem concretizados. Bom Ano.

20 de dezembro de 2012

Diferenças


Estando sob a intervenção internacional para financiar o país, ficamos, indiscutivelmente, numa condição de estado com a soberania hipotecada, já se sabia.

Sempre que se pensa em algo de mais construtivo, como foi o caso recente da pretensão de aumentar o salário mínimo nacional, logo o governo de Passos Coelho se apressou a dizer que tem de pedir autorização à troika, que, por sua vez, depois de analisar o problema dá o seu veredicto.

Mas o país vai assim. Assiste-se ao falhanço de todas as metas negociadas no memorando de assistência financeira, apesar da enorme e desproporcionada carga fiscal a que estamos todos sujeitos, mas, mesmo assim, o ministro das finanças vem dizer que não, que acertamos em quase todas e as que falhamos foi, mesmo assim, por muito pouco.

Mas para esta confusão toda contribuem os membros deste governo e todos os líderes europeus bem como as organizações internacionais que não se cansam de dizer isto e aquilo e depois o seu contrário.

Merkel veio dizer que vamos no bom caminho. Depois vem a diretora do FMI dizer que é preciso prudência. Mais tarde a OCDE diz que não vamos conseguir. O Presidente do BCE vem dizer que o pior já passou. Depois vem Paulo Portas afirmar que já passamos o meio da ponte. Mais tarde ouvimos Merkel dizer que, afinal, está descontente com a prestação dos países periféricos, como Portugal. Enquanto isto Passos Coelho tem a certeza que este é o caminho certo, mesmo assistindo ao desmantelamento de empresas e destruição de emprego a cada dia que passa.

Não haja dúvida que a chanceler da Alemanha concorda com a gigantesca carga fiscal que os países em dificuldades impõem aos seus cidadãos. Essa tem sido, de facto, a sua receita.

A senhora Merkel tem confirmado que esta é a via para a recuperação e não se cansa de propalar essa ideia em todas as aparições públicas que faz fora do seu país, mas quando fala para os seus concidadãos, para os seus eleitores, a sua opinião muda completamente. Lá, no seu país, Merkel descarta qualquer aumento da carga fiscal para a classe média, que considera o motor do desenvolvimento. O que se percebe é que na Alemanha a senhora Merkel quer uma classe média e média alta pujante para estimular o consumo e assim proporcionar o crescimento. Para os outros a receita é precisamente o contrário: o empobrecimento da classe média que, por sua vez, diminui o consumo, contribuindo, assim, para a destruição de mais empregos.

Estas diferenças de entendimento, estas interpretações dúbias não faziam parte do pensamento dos construtores da Europa, com toda a certeza.

14 de dezembro de 2012

Alegre e conversador


Manuel da Ajuda Pereira Lima

(08/11/1943 – 01/03/2007)

O isolamento das nossas ilhas sempre foi combatido com fortes tradições muito enraizadas no nosso povo. Na Graciosa a música sempre ocupou um lugar de destaque no panorama cultural.

Antigamente existiam alguns divertimentos, como os diversos jogos de cartas e dominó, mas pelos bailes os Graciosenses deixavam tudo. Novos e velhos, todos gostavam de bailar e de cantar. Era desta maneira salutar que o nosso povo se divertia e confraternizava.

Nos bailes de carnaval, na matança do porco ou integrando grupos folclóricos, habituamo-nos a vê-los de viola a tiracolo, dedilhando e cantando músicas do reportório popular. Eram homens e mulheres, quase sempre bons foliões, que ocupavam os tempos que restavam da dura labuta do dia-a-dia divertindo os outros e fazendo o que mais gostavam: tocar.

O Manuel da Ajuda era um deles. Tocava muito bem a viola da terra. É impressionante ver tocar este instrumento. Com 12 de cordas (existe também uma versão com 15 cordas), a viola da terra emite uma sonoridade peculiar que se conjuga harmoniosamente com outros instrumentos musicais.

A aprendizagem da viola da terra era feita de um modo empírico, vendo os outros ou experimentando uma e outra vez, com muita persistência e dedicação. O Manuel da Ajuda também se fez executante assim, depois do senhor Manuel do Júlio lhe ter transmitido o gosto por este instrumento e lhe ter dado os primeiros ensinamentos.

A viola da terra é tipicamente Açoriana. Embora muito semelhante ao violão, é mais pequena e tem dois corações na boca, com as pontas opostas, que, dizem os entendidos, representam o amor entre duas pessoas que estão separadas fisicamente.

Desde o início que o Manuel da Ajuda tocou nas danças do senhor Francisco Sampaio. Foi membro do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Praia. Tocava também em grupos de Reis pelos caminhos da Graciosa, visitando, nas frias noites de inverno, as casas em festa, espalhando alegria e boa disposição a quem os recebia. Era também muito solicitado para animar os bailes de carnaval com as modas de viola.

Em 1988 participou num concerto com 24 violas da terra, na freguesia de Guadalupe, dirigido pelo incontornável Padre Simões Borges.

Era agricultor de profissão. Vivia do rendimento que lhe dava o gado bovino que pastoreava nas suas terras.

Gostava muito de pescar. Dizem os mais próximos que o Manuel da Ajuda tinha errado na profissão, pois gostava tanto do mar que deveria ter sido pescador. Aos familiares e amigos terá dito que quando chegasse a idade da reforma iria dedicar-se à pesca. Infelizmente não chegou a gozar esse privilégio porque a morte, com os seus ditames, roubou-lhe esse sonho.

Era muito alegre e divertido e um bom conversador. Com os seus colegas da música, o Manuel Zagaia e o José Helder, entre outros participava em tertúlias que eram momentos de pura diversão, como acontecia frequentemente na tasca do senhor Álvaro.

13 de dezembro de 2012

Mais um jornal que morreu


O jornal “A União” desapareceu como diário, talvez na qualidade de mais uma vítima desta conjuntura económica desfavorável que atravessamos. Depois de 120 anos a escrever a história e histórias dos Açores, atravessando momentos altos e outros baixos, certamente, encerra assim, sem mais nem menos, um dos ícones da comunicação social da nossa região.

Nesta quadra de Natal, sempre propícia a encontros com familiares e amigos e em que as conversas são, quase sempre, alinhadas por lembranças alegres da nossa infância, recordo este diário vespertino que sempre cobriu a velha secretária lá de casa.

O carteiro deixava na nossa residência um molhe com uma ou duas semanas de edições do jornal, normalmente atadas com um barbante cor de canela. Chegavam-nos desatualizados, mas valia a pena. Abria-nos a janela do mundo.

Foi este jornal que acolheu um suplemento sobre a Graciosa. Foi neste jornal que me habituei a ver e a ler artigos de meu pai ou títulos de secções, ou do próprio jornal, desenhados pelo seu punho. Foi também neste jornal que publiquei pela primeira vez, uma crónica desportiva, no caso, que esperei ansiosamente apenas para a reler e apreciar, embevecido, o meu nome escrito no seu rodapé.

O seu desaparecimento é uma notícia triste para todos nós e ainda para mais recebida nesta altura que devia ser de alegria e de confraternização, altura, também, em que há mais harmonia e em que pensamos mais nos outros.

É triste porque ficamos todos mais pobres. É muito mais triste, ainda, para aqueles que perderam o seu ganha-pão, apesar de terem dado tudo de si para que esta situação nunca acontecesse.

Assim morreu mais um jornal. A nossa democracia ficou muito mais pobre.