O artigo “Já
leram o memorando da troika?”, do escritor e jornalista Domingos Freitas do
Amaral - cuja leitura recomendo e para o qual deixo uma ligação - dá que pensar
e deita por terra toda esta estratégia montada por Coelho, Portas e Gaspar,
para empobrecer este país de um modo irreversível, atemorizando os portugueses
com medidas que afinal não estão inscritas no memorando de entendimento que
Portugal assinou em 2011, ao contrário do que fazem o povo acreditar.
Esta gente é mais troikista que a troika, já se sabia. Esta gente, apesar destas duras medidas que
nos impõem todos os dias, não consegue atingir nenhum dos objetivos traçados
para resolver esta crise, ficamos a saber com a análise dos indicadores
económicos. A mensagem que este governo da república passa de que algumas
destas medidas são obrigações decorrentes do compromisso que Portugal assumiu
com as organizações internacionais que participaram no resgate financeiro, é mais
um truque falacioso.
Uma leitura mais atenta do
memorando, como é recomendado pelo escritor e jornalista referido, indica que
essa é mais uma mentira que nos impingem diariamente.
O povo deste país não foi capaz
de reagir quando foi apanhado por este turbilhão de ataques a muitos direitos
que foram adquiridos a partir da revolução de 1974. Os rumores, as incertezas,
o medo, têm sido armas usadas para encobrir a incompetência de um governo que
apenas quer fazer o papel de bonzinho perante a poderosa Alemanha.
Hoje as coisas mudaram. Por todo
o lado vê-se a revolta em crescendo e o movimento “Que se lixe a troika” trouxe
para as ruas de 40 cidades deste país, no passado dia 2 de março, cerca de um
milhão de indignados que exigiram deste governo uma mudança de rumo e
apresentaram um forte protesto contra estas medidas de austeridade.
Por isso a “Grândola Vila Morena”
do Zeca Afonso continua um hino, agora um hino de revolta que ressoa por este
país fora.
O Bloco de Esquerda promoveu na
passada semana, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, uma
interpelação ao Governo Regional sobre a defesa e sustentabilidade do Serviço
Regional de Saúde.
Esta figura está prevista no
regimento e, por esse facto, tem o Bloco de Esquerda toda a legitimidade para
trazer esse assunto à discussão, até porque este é um tema que interessa e é
importante para todos os Açorianos.
Como é conhecido o Governo dos
Açores, sabendo da importância deste assunto, encetou, muito recentemente,
conversações com todos os partidos políticos e outros parceiros no sentido de
receber contributos sobre a reforma o Serviço Regional de Saúde.
Quando se discute esta matéria,
normalmente surgem sempre as questões relativas à dívida do sector, por vezes
fora de contexto e de forma imprecisa, muito embora perceba a preocupação.
Hoje vive-se mais, hoje existem
mais meios complementares de diagnóstico, hoje as pessoas tratam melhor da sua
saúde. São fatores positivos, sem dúvida, mas absorvem cada vez mais recursos
financeiros.
Parece-me que ninguém tem dúvidas
que esta dívida resulta do enorme investimento, sem igual, na modernização do
sistema de saúde, que está disperso por nove ilhas, e na melhoria da
acessibilidade por parte de todos os Açorianos. Foi dinheiro gasto ou, melhor,
investido, nas pessoas e para as pessoas.
Esta reforma, como já foi dito
muitas vezes, não é necessária por ser este um mau serviço, mas antes para
continuar a ser um bom serviço e, sobretudo, sustentável.
É conhecida a vontade do Governo
dos Açores de manter a tendência gratuita do acesso ao Serviço Regional de
Saúde, porque, entende o Partido Socialista, que sustenta o Governo, as pessoas
são a razão de ser das suas políticas da saúde.
Via o Renato todos os dias,
saltitando entre o quiosque da Praça Fontes Pereira de Melo e os baixos da casa
do senhor Belchior. Era nesse dois sítios que estava quase sempre.
O único ofício que lhe conheci
foi o de engraxador. Com um banco e a sua caixa, que servia para arrumar os
utensílios da profissão e de base para colocar o pé com o calçado à espera de
atenção, procurava os clientes, sobretudo aos domingos, na Praça Fontes Pereira
de Melo, para lhes dar brilho nos sapatos. Enquanto limpava, dava graxa e
polia, o Renato conversava com os seus clientes, que eram todos seus
conhecidos, sobretudo sobre futebol.
No entanto o Renato, enquanto
rapaz, serviu em várias casas de Santa Cruz. Cuidava dos quintais, tratava dos
animais e fazia as “voltas” necessárias àquelas famílias. Nesse tempo ficou
conhecido por “guarda-joias”, talvez devido a alguma inconfidência logo
aproveitada pelos especialistas em atribuir alcunhas.
Era um homem magro e de baixa
estatura, podendo mesmo classificar-se com franzino. Andava bem penteado, muito
à conta da brilhantina que lhe alisava o cabelo. No canto da boca via-se quase
sempre um cigarro que também lhe amarelava os dedos.
Com o advento da democracia em
1974, os partidos de então, e eram muitos, faziam incursões por estas ilhas
debitando as suas ideias em inúmeras sessões de esclarecimentos. O Renato,
impulsionado por aquilo que era uma autêntica novidade para todos os graciosenses,
levou isso a peito de tal maneira que, quando bebia uns “copitos” a mais, era
vê-lo por cima do quiosque da praça em animado “comício” para deleite dos
transeuntes, sobretudo os notívagos, que faziam da praça a sua sala de estar.
Empenhava-se muito naquelas suas
intervenções, mas não ofendia ninguém. Quando queria reforçar uma ideia ou
mesmo repeti-la usava sempre a expressão “ou que seja”, o que levou algumas
pessoas a tratá-lo assim, pois, como se sabe e já aqui foi referido, as
alcunhas na Graciosa, por vezes, surgem do nada.
Era adepto do Graciosa Futebol
Clube, onde chegou a jogar. Certo dia, o treinador mandou-o, na segunda parte,
saltar do banco para jogar a ponta de lança. O defesa Reinaldo Tristão, pai e
avô de dois guarda-redes do mesmo clube, colocou-lhe a bola no meio campo e o
Renato, com o seu passo miudeiro, isolou-se e correu em direção à baliza à
guarda do Antero. Quando se viu só à frente da guarda-redes do Santa Cruz Sport
Clube desferiu um remate e o Antero, fazendo o que lhe competia, atirou-se para
o lado esquerdo e defendeu … a bota de travessas do Renato, enquanto a bola
seguiu, menos veloz mas mais certeira, em direção à baliza, fazendo assim um
golo de antologia, que o seu autor nunca mais esqueceu, nem nunca deixou de
contar sempre que se falava de futebol.
O Renato, ainda novo, teve
necessidade de receber tratamento na vizinha Ilha Terceira. Foi aí que acabou
por encontrar-se com a morte de uma forma trágica e inesperada.
O peso que o sector das pescas representa na economia dos
Açores (3,6% do PIB e cerca de 20% das exportações) atribui à Região enormes
responsabilidades na sua gestão e, sobretudo, na preservação.
Os Governos dos Açores constituíram como objetivo prioritário
nesta área a proteção da nossa Zona Económica Exclusiva, porque sempre foi
reconhecido que, para além de uma atividade importante do ponto de vista da
economia regional, configura-se também importante em termos sociais e mesmo
culturais.
A perseverança neste desígnio, há muito reivindicado, deu
frutos e permitiu aos Açores, muito recentemente, recuperar a exclusividade
para a frota açoriana das zonas em redor dos montes submarinos, situadas para
além das 100 milhas da nossa ZEE.
A aprovação da não obrigatoriedade de imposição das quotas
individuais transferíveis, também veio ao encontro das pretensões do Governo
dos Açores, garantindo, por esta via, que a gestão destas questões tenha a sua
sede na Região Autónoma dos Açores.
A grande evolução verificada nos equipamentos (casas de
aprestos, gruas, e pórticos de varagem), nos portos de pesca (com a construção
de novos e intervenções nos existentes), a renovação da frota e a formação,
trouxeram enormes benefícios, nomeadamente criando melhores condições de
segurança, de trabalho e de habitabilidade, acentuaram a pressão sobre os
recursos, que, sabe-se agora, são sensíveis e finitos.
Sem dúvida que estes fatores contribuíram para a dignificação
da classe e consequente rejuvenescimento dos seus profissionais.
Por outro lado as oscilações nas capturas, nomeadamente na
pesca demersal, vieram levantar outra questão que tem estado na ordem do dia: a
gestão dos recursos. Aqui a Região também viu a União Europeia reconhecer a
necessidade de financiar a investigação nesta importante fileira, dando a
conhecer aos utilizadores do mar a sua real situação.
São estes avanços que nos permitem acreditar no futuro deste
setor.
Passamos mais um Carnaval na
Graciosa. Exatamente como aconteceu em todos os outros, logo houve quem se
apressasse a tecer algumas considerações, tais como “o nosso carnaval já não é
o que era”, “o carnaval está a desvirtuar-se a cada ano que passa”, “as roupas
já são importadas”, “no meu tempo é que era bom”, etc.
Mas uma coisa é certa: na
Graciosa fez-se mais um carnaval e cumpriu-se a tradição. Também se fez jus à
fama do gosto que os graciosenses nutrem pela folia e confirmou-se, mais uma
vez, que nos Açores não há carnaval como o nosso.
Apesar do fulgor destes dias, a
ausência da RTP-Açores na cobertura do desfile do domingo gordo causou alguma
estranheza, ainda para mais quando se soube que se tratou de uma decisão da
nova direção daquela estação que nada teve a ver com questões financeiras,
justificação agora muito em voga, já que as despesas têm corrido, desde há
muito, por conta da edilidade graciosense.
Nunca escondi que não concordava
com o modelo que aquela estação implementou para as ilhas que não tem
delegações da RTP-Açores: se querem cobertura dos vossos eventos e das vossas
tradições então paguem os encargos com as deslocações dos profissionais. Aliás,
já o manifestei numa reunião de uma comissão parlamentar em que participaram os
seus responsáveis. E a fundamentação é muito simples. Não me parece que a
Câmara de Ponta Delgada pague alguma coisa para ter a cobertura das Festas de
Santo Cristo, ou que as Câmaras de Angra do Heroísmo ou a da Praia da Vitória
se cheguem à frente para terem as suas festas concelhias transmitidas por
aquele canal. Então porque que teremos nós de pagar?
Num momento em que se esgrime
argumentos com os centralistas para justificar a existência de um canal como
garante da nossa autonomia regional, coisas deste tipo representam, de facto,
um retrocesso.
Passando em revista as últimas
notícias, em pleno dia das comadres, duas sobressaem pela importância que têm
para os Açores, muito embora sejam de sinais opostos.
A primeira prende-se com a
aprovação no Parlamento Europeu de medidas para as pescas defendidas pelos
Açores e a segunda tem a ver com as declarações do PSD sobre as dívidas da
saúde.
No primeiro caso, a Região
Autónoma dos Açores, soube-se agora, ganhou uma dura e longa batalha ao
conseguir reservar a área à volta dos montes submarinos, para lá das 100 milhas,
à frota de pesca açoriana, em exclusivo.
Esta pretensão antiga - e justa,
diga-se - insere-se na estratégia que o Governo do Açores tem imprimido no
sentido de ser a região a gerir os recursos marinhos existentes.
No caso das dívidas do Serviço
Regional da Saúde, outro dos temas falados esta semana, ouvimos, sobretudo o
PSD, tecer, durante vários dias, grandes considerações sobre o tema, que foi, inclusivamente,
objeto de jornadas parlamentares.
Curiosamente estas manifestações
do PSD surgem num momento em que o Governo dos Açores se prepara para,
juntamente com todos os partidos políticos e parceiros sociais, celebrar um
Compromisso para a Sustentabilidade do Serviço Regional de Saúde.
Como se esperava, o Presidente do
PS / Açores, Vasco Cordeiro, fez duas excelentes intervenções neste que foi o
XV Congresso do partido, não tanto pela forma, que nesta altura pouco
interessará, mas, sobretudo, pelo tom assertivo com que identificou as ameaças
que aí vêm, pela esperança que incutiu nas palavras que dirigiu ao povo dos
Açores nestes momentos de dificuldades e pela certeza que este conclave não
servia para resolver questões internas ou disputas pelo poder, mas antes para
procurar soluções para os problemas que estes novos tempos nos vão trazer.
Foram discursos para fora do
partido, lembrando, aqui e ali, que os consensos alargados com os parceiros,
sociais e políticos, só nos tornarão mais coesos.
Não haja dúvida nenhuma que os
centralistas de Lisboa se preparam para assaltar o nosso mar de uma forma que,
no dizer de Vasco Cordeiro, se assemelha à pirataria de outros tempos.
Agora, quando são conhecidas as
potencialidades dos minérios existentes nos fundos açorianos, o Governo da
República põe as garras de fora e tenta, a todo o custo, tirar proveitos à
conta de atropelos à nossa autonomia política e administrativa.
Passos Coelho também se propõe
alterar a Lei das Finanças das Regiões Autónomas. No meio de algumas propostas que
vão no sentido de maior rigor e transparência que, para o nosso caso, são
inócuas, o Governo Central quer baixar o diferencial fiscal de 30 para 20%,
significando essa medida mais impostos para o açorianos, o que é
verdadeiramente inaceitável para Vasco Cordeiro.
Vasco Cordeiro também se
demarcou, e muito bem, do desmantelamento do estado social que o governo do PSD
/ PP está a preparar no continente.
Aqui, na Região Autónoma dos
Açores, cabe-nos defender os que mais precisam, os mais desfavorecidos. É por
isso que Vasco Cordeiro anunciou que irá manter todos os apoios sociais já
existentes e aumentar o “cheque pequenino”, tal como o prometido na campanha
eleitoral.
Também foi anunciado o reforço de 30 milhões
de euros na saúde, como forma de garantir a qualidade nesta importante área.
Temos de estar atentos e
vigilantes para não sermos surpreendidos por manobras perpetradas nos
corredores cinzentos do poder central.
A autonomia e os autonomistas têm
agora a oportunidade de defender, em uníssono, as conquistas dos últimos 37
anos.
Cresci ao lado do meu primo e
companheiro de brincadeiras, o Rui Manel,
filho do Dr. Gregório. Nos períodos de férias passava, muitas vezes, as noites
na sua casa para aproveitar e brincar até tarde e para recomeçar o divertimento
bem cedo.
Foram belos tempos, aqueles. A
imaginação e a criatividade produziam ideias para os jogos que nos entretinham
dias a fio.
Correr de patins no enorme
corredor, tocar piano no salão do fundo, jogar à bola no pátio ou lutar com
espadas no quintal, eram os nossos passatempos favoritos.
Depois de vencidos pelo cansaço,
a noite e o sono recuperador punha-nos aptos para, no dia seguinte, começar tudo
de novo, com renovada energia.
O tio Gregório era um homem de
hábitos. Noctívago desde que me lembro, nunca se deitava antes das quatro da
manhã.
Passava as noites a passear na
praça ou, quando o tempo não permitia, abrigado no bar situado por baixo do
coreto ou então num qualquer clube jogando ou vendo jogar às cartas e ao
dominó. Aquele costume de se deitar tarde fazia-o procurar os foliões ou os
convivas de uma qualquer petiscada, para assim ganhar mais umas horas de
companhia. Nos dias de maior invernia ou quando não encontrava ninguém a jeito,
passeava no seu enorme corredor até à hora de se deitar.
Dava uma volta à ilha
diariamente, com ele ao volante enquanto a sua saúde permitiu, ou então conduzido
por alguém amigo depois de deixar de conduzir. Confessava que nesse passeio via
sempre algo que lhe escapara nas vezes anteriores. Eram conhecidas as suas
paragens, na companhia do Comandante Silveira, para ouvir o chilrear de um
determinado pássaro que, segundo eles, os presenteava com uma exibição sempre à
mesma hora. Já na fase final da sua vida cheguei a ter o privilégio de passear
com ele e de ouvir as suas histórias e vivências contadas na primeira pessoa, com
a sua inconfundível voz afável.
Os graciosenses habituaram-se a
vê-lo com um sobretudo ou uma gabardina por cima do seu fato com colete,
polainas nos sapatos, chapéu na cabeça e sempre com uma varinha numa das mãos. No
bolso interior do casaco transportava uma cigarreira de prata, onde colocava
cuidadosamente os cigarros para o dia, e ainda uma boquilha para reduzir os
efeitos nefastos do tabaco. Quando chegava a casa, colocava a varinha no
bengaleiro e trocava o sobretudo ou gabardina por um robe cor de vinho.
O Dr. Gregório foi médico nesta
ilha mais de quarenta anos, a grande maioria deles sozinho. Foi Delegado de
Saúde, Médico Municipal e tinha consultório no rés-do-chão da sua casa. Era das
consultas que deveria tirar a maior parte dos seus proveitos, mas isso nunca
aconteceu porque não levava dinheiro. Aos pobres, quando lhe perguntavam quanto
era a consulta, respondia “porque é que perguntas, se sabes que não me podes
pagar?” Por outro lado ficava indignado quando os que podiam pagar não lhe
perguntavam nada.
Muitas noites o tio Gregório era
procurado para acudir a quem sofria. Era frequente vê-lo sair noite dentro,
muitas vezes já com a iluminação pública desligada, para tratar doentes.
Entrava em casas de pobres e ricos, recebido quase como um salvador. As pessoas
tinham fé nos seus conhecimentos para debelar as doenças que os afligiam
Dizem que era quase infalível nos
seus diagnósticos, sempre feitos sem apoios de meios técnicos, porque não os
havia. O seu estetoscópio, o toque com dois dedos e sua rara intuição,
indicavam-lhe a origem do mal e o caminho a seguir para a cura, com uma
prescrição que poderia ser um medicamento feito pelo senhor Juvenal “da
Farmácia”, ou mesmo o chá mais indicado para aquela maleita.
Um dia, devido à gravidade da
situação e também pelo mau tempo que impedia a “gasolina” da baleia de evacuar
um doente, resolveu fazer uma operação para a ablação do apêndice, como último
recurso para salvar uma vida. A cirurgia correu bem, mas o tio Gregório apanhou
um susto. Nesse dia tinha dado conta do desaparecimento da sua aliança que,
chegou a temer, poderia, muito bem, estar no abdómen do seu doente. Felizmente
que a dúvida foi desfeita quando verificou que a tinha guardado cuidadosamente
antes da operação.
O escritor Augusto Gomes, aquando
da sua morte, disse sobre ele: “Atendendo doentes de toda a ilha, os seus
diagnósticos tornar-se-iam célebres pela infalibilidade. Salvou centenas de
vidas. Seria fastidioso enumerar os casos quase lendários acerca do Dr.
Gregório. Aliava à inegável competência profissional um espírito filantrópico e
um desprendimento pelo fausto, pela opulência, não cobrando honorários. O povo
adorava-o. Por quatro vezes teve o ensejo de o manifestar. Primeiro quando se
deslocou a Ponta Delgada em tratamento, teve o seu regresso marcado por uma
manifestação jubilosa, na qual se incorporaram milhares de pessoas. A segunda
deu-se quando completou 70 anos. A terceira, aquando da inauguração do seu
busto (…). E finalmente, a quarta e derradeira, ao derramar lágrimas de sincero
pesar junto ao túmulo do seu filho dilecto, que tão relevantes serviços prestou
à sua terra”.
Na mesma altura o senhor Raúl
Correia da Silva escreveu: “Homem de carácter íntegro, de extrema bondade e de
evidente modéstia, era detentor de uma inteligência invulgar, o que lhe
permitiu concluir brilhantemente o curso de medicina, em Coimbra, no ano de
1929. De tal modo que, tendo-lhe sido dirigido convite para ocupar as funções
de assistente da respectiva faculdade, a sua reconhecida modéstia entendeu por
bem decliná-lo. Mas para além de Homem de bem, foi também médico de competência
rara que, durante 40 anos, deu o melhor do seu talento e espalhou
ininterruptamente a semente da caridade junto dos seus conterrâneos, já que não
cobrava praticamente nada pelo exercício do seu múnus profissional,
limitando-se aos parcos vencimentos que auferia pelo exercício dos cargos de
delegado de saúde e de médico municipal”.
Estes dois testemunhos dizem
muito sobre a personalidade deste homem e a sua ligação à Graciosa e aos
graciosenses. Ficou mesmo conhecido como “médico do povo”, cognome que aceitava
com uma indisfarçável humildade.
Esse mesmo povo, a quem ele deu
muito, juntou-se e ergueu-lhe um busto de bronze, ainda em sua vida, cuja
inauguração constituiu uma emocionante homenagem acompanhada por centenas de
pessoas que deste modo quiseram agradecer tudo o que este homem fez pelos
filhos da sua terra.
O teatro era uma das suas
paixões. Encenou e representou várias peças de teatro levadas à cena na
Graciosa e noutras ilhas dos Açores.
Foi agraciado pelo Presidente da
República com a Ordem de Mérito, antes da revolução de 1974 e em 1979, com o
Grau da Ordem de Benemerência. A Região Autónoma dos Açores, a título póstumo,
atribuiu-lhe a Insígnia Honorifica, pelos relevantes serviços prestados à sua
comunidade.
Na reunião magna dos socialistas
açorianos, que decorrerá no próximo fim-de-semana, o Dr. Vasco Cordeiro,
Presidente do PS, apresentará uma Moção de Orientação de Política Global
intitulada “Renovação com Confiança por uma Autonomia com Futuro”.
O título deste documento diz
muito sobre o seu conteúdo. Enfatiza-se a renovação de protagonistas, apela-se
a uma nova geração de políticas para garantir a sustentabilidade da Autonomia
dos Açores.
O Partido Socialista, como grande
partido da Autonomia, honra-se do seu passado e da obra feita por todas essas
ilhas.
No entanto este partido não se
deslumbrou com o seu histórico nem se aquietou no conforto dos bons resultados
das suas políticas.
Foi capaz de se renovar de uma
forma exemplar, sobressaindo a união de todos em volta de um projeto político
que só tem um dono: o povo açoriano.
Agora o Partido Socialista
prepara-se para ganhar os desafios que tem pela frente nos próximos tempos, que
não serão poucos, como se sabe.
O Governo da República tenta, a todo
o custo, criar dificuldades em nome da sua linha de atuação austera, como não
há memória.
O poder local, a lei das finanças
regionais, a desresponsabilização nas funções do estado ou a tentativa de
apropriação de ativos da Região, são alguns dos constrangimentos que já se
advinham.
O PS é o partido melhor colocado
para defender os Açores dos ataques centralistas neste momento difícil e foi
por isso, sem qualquer dúvida, que os açorianos lhes deram um mandato
inequívoco para governar a Região.
Esta semana Passos Coelho veio
aos Açores fazer um discurso hermético e descolorido. Aliás, a especialidade do
primeiro-ministro é pintar de cinzento tudo o que diz. Enfatizou as
dificuldades do país com convicção e acenou, a medo, com melhoras lá para a
frente, que ninguém, no seu prefeito juízo, consegue vislumbrar.
Esta sua intervenção no congresso
do PSD mereceu tímidos aplausos dos militantes do seu partido, talvez desanimados
e desiludidos com a ineficácia do seu líder na resolução desta crise, que ele
garante não ser da sua responsabilidade, mas que todos os portugueses sabem que
foi ele que a precipitou logo a partir da sua tomada de posse.
Ficou também confirmado, através
dos dados divulgados pelo Banco de Portugal na última terça-feira, que a
recessão em 2013 vai ser mais grave do que se previa, com menos consumo e mais
88 mil postos de trabalho destruídos.
O desacerto deste governo, de
matriz ultra liberal, é uma constante e, mais do que isso, é uma triste
realidade que está a levar os portugueses ao desespero. Falham previsões atrás
de previsões e continuam em frente. Faz lembrar a banda do Titanic que
continuou a tocar enquanto o navio se afundava.
O relatório do FMI, encomendado
pelo governo, contém uma série de propostas indiscritíveis que, a serem
assumidas, irão esmagar, ainda mais, o rendimento dos portugueses. A OCDE
também está por cá para colaborar na reforma do estado que, segundo se percebe,
vai avançar a direito, sem esperar pela opinião de quem quer que fosse, tal
como aconteceu com a reorganização das freguesias agora promulgada pelo
Presidente da República.
A clima social por esse país fora
é de tal gravidade que gente lúcida e com responsabilidade moral inatacável,
como é o caso do Dr. Freitas do Amaral, já prevê a possível queda do governo de
Passos Coelho.
A oficina do mestre José
Juventino - com era mais conhecido o senhor José Gil de Ávila, por ter sido esse
o nome de seu pai – ficava ao fundo da rua do Saco. Antes esteve situada na
atual rua 25 de Abril e depois na rua Infante D. Henrique.
Adivinhava-se a sua localização
pelo amontoado de tábuas encostadas às paredes, secando ao sol, para depois
servirem de matéria-prima aos artistas daquela carpintaria e marcenaria, ele e
os seus três filhos, que as transformariam em mobílias, armários, portas,
janelas, mesas, cadeiras, soalhos, vasilhame ou cabos para utensílios agrícolas.
No seu interior, presas nas
paredes ou espalhadas por cima dos bancos de trabalho, existiam várias ferramentas:
serras, sutas, esquadros, maços, serrotes de ponta, serrotes de costas, berbequins
manuais, plainas, martelos, etc.
Por cima do chão, que antes era nu
e frio, acumulavam-se os cavacos de madeira nascidos na ranhura das plainas
que, num vai vem frenético, iam dando forma e sentido à madeira. Durante a
jornada, para não se perder muito tempo, empurravam-se as aparas e os cavacos para
os cantos da tenda, mas no final de cada dia eram queimados mesmo ali do lado
de fora da porta.
No teto viam-se alguns moldes e
várias violas da terra carinhosamente construídas pelo mestre José Juventino. No
início moldava pacientemente a rebelde madeira com que construía as violas com
vapor que saía de panelas com água a ferver. Mais tarde construiu as suas
próprias formas que, no fundo, lhe facilitavam a vida nesta atividade.
Dali saía quase tudo o que fosse
possível moldar. Faziam trabalhos mais toscos, como coberturas de casas, ou
moldes para as obras da Junta Geral, mas era na marcenaria que aquela oficina se
destacava mais. O mestre José Juventino e os seus filhos deixaram nesta ilha,
sobretudo nas casas mais abastadas, mobílias que ainda hoje são muito
apreciadas.
Certo dia encomendaram-lhe um candeeiro
tendo como corpo um fuso igual ao dos lagares. Depois de fazer as suas contas
lá acabou por desenhar um esboço que o ajudaria a concretizar mais uma obra de
arte. Apesar de ter pouca instrução, como era normal no tempo em que se criou,
tinha conhecimentos empíricos de matemática capazes de o ajudarem a resolver
alguns problemas ligados à sua profissão.
Era naquela oficina que vi fazerem
piões que depois comprava para jogar com os meus amigos na escola ou na praça.
Bocados de madeira amorfos iam-se enformando à custa da rotação do torno e da
mão ágil do mestre José Juventino. Foi também nessa carpintaria que vi
construir o meu primeiro carro de ladeira que utilizei em inúmeras brincadeiras
durante vários anos da minha infância.
Dizem aqueles que o conheceram
bem que gostava de fazer duas coisas na vida: trabalhar e tocar viola da terra.
Só era visto de duas formas, ou curvado sobre a sua bancada ou então carregando
a sua viola.
Andava de casa em casa, de clube
em clube, ora tocando nas matanças do porco, ora animando os bailes com as
modas de viola, onde mandava como ninguém. Nesta sua faceta era também muito
bom.
Tinha conhecimentos musicais e
isso dava-lhe mais traquejo e versatilidade para poder acompanhar o acordeão do
José Berto, a voz do Joaquim dos Fados ou o piano da D. Nizalda Barcelos.
Foi músico na centenária
Filarmónica Recreio dos Artistas, onde também desempenhou cargos nos seus
órgãos sociais. O trombone era o seu instrumento na banda que serviu durante
longos anos.
Gostava muito de se juntar com os
amigos em concorridas petiscadas que acabavam, quase sempre, em alegres
cantorias acompanhadas pela sua inseparável viola.
O senhor José Juventino foi um
artista nestas duas artes que foram, sem dúvida, a paixão de uma vida.
Confesso que não ouvi a mensagem
de Ano Novo do nosso Presidente da República. Não a ouvi por nenhuma razão em
especial ou movido por qualquer preconceito, mas apenas por não me despertar
qualquer tipo curiosidade, até porque do mais alto magistrado da nação já não
espero grande coisa, sentimento que comungo com uma grande parte dos
portugueses.
Com esta minha linguagem acabei
por levar uma chapada com luva branca, não só por não ter avaliado bem a
intervenção política do Presidente da República naquela que seria a sua
primeira aparição no novo ano, mas também por ter ignorado a sua capacidade de
avaliar os danos que esta política de Passos, Gaspar e companhia provocam aos
portugueses e de dar um puxão de orelhas a quem nos levou para este atoleiro em
que se encontra Portugal.
Eu - que assumo ser um simples
mortal que muitas vezes se engana e que vive carregado de dúvidas, ao contrário
do Chefe da Nação - tenho de confessar que, mais uma vez, falhei.
O Presidente da República
reconheceu as dificuldades do ano velho, confirmou que o ano novo vai ser
difícil e corroborou a certeza que todos temos de que o país empobreceu e que
vai empobrecer ainda mais por via do aumento imenso e nunca visto da carga
fiscal.
Mas não foi só. Falhei logo a
seguir - e isto só pode dizer que são falhanços a mais - quando pensei que o
Dr. Mota Amaral iria deixar passar este “deita abaixo” sem qualquer reparo.
Num artigo publicado nas páginas
do jornal Açoriano Oriental, com o título “OE 2013 – a prova de fogo”, o Dr.
Mota Amaral desfere um ataque a Passos Coelho e aos seus ministros reconhecendo
que a situação do país tem vindo a piorar, ao contrário do que o Governo diz,
criticando-o duramente por ter sido mais troikista
que a troika e por não ter cumprido o
que prometeu na campanha, nomeadamente na questão dos cortes nos subsídios de
férias e de natal e nas pensões.
Reconheço a coragem destes dois
políticos, que, muito certamente, estarão incomodados com estas e outras
políticas que podem conduzir a uma, já eminente, rutura social.
No entanto não posso compreender
porque não usaram os mecanismos que estão ao seu dispor: o veto em Belém, no
caso do primeiro e o voto contra em São Bento, no caso do segundo.
Há cem anos atrás, gente de visão
larga e de espírito empreendedor, gente daquelas que faz coisas, resolveu fundar
uma filarmónica para animar as festas profanas e dignificar e acompanhar as
manifestações da fé do nosso povo.
A Filarmónica Recreio dos Artistas
surgiu numa cisão com outra filarmónica, a Liberdade, processo que não terá
sido muito pacífico, havendo mesmo algumas ameaças de pancadaria e metendo o
tribunal pelo meio.
Lembro-me da imensa atividade desta
instituição. Era uma casa animada, em que, para além dos ensaios da sua
filarmónica, decorriam a preparação das fantasias, os bailes e onde ensaiava também
um grupo de teatro. No verão a sua cerca anexa servia para apresentações de
teatro, para bailes e ainda para assistir ao cinema.
Hoje esta casa está bem viva, com
inúmeras atividades, destinadas a diversas idades, desde crianças até aos mais
maduros. A Filarmónica, como habitualmente a denominamos, e os seus dirigentes,
tem contrariado aquela ideia pré-concebida e pessimista de que já não há quem
se interesse por estas coisas.
Temos de agradecer às mulheres e aos
homens que hoje dirigem esta e outras instituições, que lhes dão vida, temos de
lhes agradecer por teimarem em seguir em frente, a ultrapassar as dificuldades,
sem nunca virarem a cara á luta.
Mas, no entanto, nunca poderemos esquecer
aquelas e aqueles que depois de cada crise a souberam reerguer. Não poderemos
esquecer todos os que a trouxeram até aqui, desde sócios, músicos e dirigentes,
de modo a que as novas gerações possam agora usufruir dela.
No dia 1 de janeiro estiveram os
sócios de parabéns e, mais do que os sócios, estão a Graciosa e os Graciosenses
de parabéns, porque podem contar com uma Filarmónica Recreio dos Artistas
centenária e pronta para o futuro.
A biblioteca itinerante da
Fundação Calouste Gulbenkian corria as freguesias carregada de livros,
proporcionando aos Graciosenses o acesso à leitura. Para uma grande parte da
população esta era a única hipótese de contatar com os livros.
A carrinha, de marca Citroen,
tinha um aspeto esquisito. Era forrada com uma espécie de chapa frisada, uma
frente proeminente, com formas bem marcadas, mesmo tipo caixote, e com o
tejadilho de abrir. Podia parecer invulgar mas era funcional. O seu interior
guardava cerca de dois mil livros, meticulosamente arrumados, ficando os
infantis nas prateleiras de baixo, os livros de ficção, biografias e de viagens
ficavam ao meio e nas prateleiras superiores eram colocados os livros menos
requisitados.
Terão sido milhares os livros
emprestados nesta ilha por este serviço criado pela Fundação Calouste
Gulbenkian que, deste modo, se substituída ao estado numa das suas funções mais
básicas. No país foram emprestados por esta instituição cerca de 95 milhões de
livros, segundo uma notícia da Lusa/RTP.
A gestão da viatura e do armazém,
que deveria ter o triplo da capacidade da biblioteca itinerante, era feita por
um auxiliar e também por um encarregado, cuja função mais relevante era a de
orientar as escolhas dos leitores. Não se exigia ao encarregado qualquer
formação específica, apenas um boa cultura geral, o gosto pela leitura e uma boa
capacidade para lidar com o público.
O senhor Gabriel Melo tinha todas
essas competências. Durante os vinte e dois anos em que exerceu esta atividade
recebia como ninguém os seus “clientes” e incutia-lhes o gosto pela leitura,
não só lúdica mas também formativa e informativa.
Foi nesta sua função que tive o
primeiro contato com o senhor Gabriel Melo. Ainda me lembro o modo afável com
que recebia as crianças e jovens da minha idade e lhes emitia os cartões onde
eram registados os empréstimos dos livros. Aliás este seu modo terno e sempre
bem-disposto com que tratava as pessoas ainda o acompanha hoje em dia. Era também
ele que distribuía gratuitamente os livros de estudo pelos estudantes com mais
dificuldades.
O senhor Gabriel fez o liceu no
Brasil e é nesse país que inicia o seu percurso laboral. Foi funcionário no
Gabinete Português durante alguns meses e depois transita para o Consulado de
Portugal em Salvador da Baía onde trabalhou durante dois anos.
Em 1946, quando resolve voltar à
sua terra, esteve no Brasil à espera de transporte até Lisboa durante três
longos meses. Chegado à capital portuguesa esperou ainda mais dois meses para
apanhar navio para os Açores. Eram os resquícios da II Grande Guerra Mundial a
ditar as regras numa altura em que faltava tudo. Casa quatro anos depois de cá
chegar e desse casamento resultaram três filhos.
Já na sua terra natal desenvolve
uma intensa atividade social, sendo um dos fundadores do Clube Central e
Recreativo de Guadalupe, de onde nasceram, por sua vez, o Sporting Clube de
Guadalupe e a Filarmónica União Progresso de Guadalupe, dos quais também fez
parte dos seus corpos sociais.
O surgimento do clube teve uma
pequena história. O senhor Gabriel e um amigo, depois de autorizados a utilizar
a casa de sua mãe para bailar, preparavam-se para proceder às respetivas
limpezas na manhã seguinte. Durante a noite o senhor Gabriel pensou que seria do
agrado da população a freguesia poder dispor de um clube definitivo e
identifica a atual sede como um dos melhores sítios para a instalar, mesmo
estando sem soalho e um pouco degradada. Nessa manhã e antes de procederem às
limpezas na casa de sua mãe, conforme estava combinado, seguem até casa do
procurador e fecham o negócio por 40 contos. E foi com este impulso que o Clube
Central e Recreativo de Guadalupe é fundado a 31 de julho de 1955.
O Sporting Clube de Guadalupe
também surge pela vontade deste homem que achava que um clube desportivo na sua
freguesia traria algum movimento, apesar de ter sido dissuadido por amigos que
o assustaram com os problemas que uma estrutura deste género poderia trazer. Não
se atemorizou e procura o terreno para construir um campo de futebol para o
clube que ajuda a inaugurar em 22 de abril de 1962.
No ano seguinte, mais
precisamente no dia 29 de setembro, juntamente com os Guadalupenses que achavam
que a freguesia mais rica e mais populosa da ilha necessitava de uma
filarmónica que lhe desse prestígio, ajudou a fundar a Filarmónica União
Progresso de Guadalupe.
Foi o primeiro ganadero da Graciosa e, por essa via,
foi o percursor das touradas nesta ilha. Com apenas dois toiros promoveu o
gosto pela festa brava, que hoje ainda persiste e se encontra enraizado como
uma tradição do nosso povo. Também se dedicou á exportação de gado vivo para o
continente português durante cerca de 20 anos, atividade que, como se sabe,
dinamizava a economia da ilha.
Em 1980 é eleito Presidente da
Junta de Freguesia de Guadalupe, cargo que exerce até 1983.
Tem um gosto especial por
viagens. Para além de conhecer muito o nosso país, conhece também o Brasil,
onde viveu alguns anos, a Espanha, a Itália, o Reino Unido, a França e os
Estados Unidos.
Tem um jeito muito especial para
contar histórias de todo o tipo, mas distingue-se nas histórias verídicas.
Nestes tempos de correria, em que não se pára para pensar e em que as
preocupações com questões materiais se sobrepõem às coisas simples da vida, é
um prazer ouvir histórias verídicas da nossa e de outras gerações e o senhor
Gabriel fá-lo como ninguém. Conta-as umas atrás das outras.
No dia 7 de janeiro de 2013 o
senhor Gabriel comemorará o seu nonagésimo aniversário, mantendo uma invejável
boa disposição e um espírito jovem, que sempre o tem acompanhado ao longo da
sua vida.
Neste período do ano lembro
sempre, com uma certa nostalgia, os tempos em que acreditava no Pai Natal.
Naquele tempo os diversos comerciantes, com a criatividade que os
caraterizavam, tinham um Pai Natal que distribuía pelas casas dos seus clientes
a prendas previamente adquiridas nos seus estabelecimentos.
A espera fazia-se em “pulgas”,
com o pijama já envergado e com o rosto colado à janela da frente. Era um
momento mágico, aquele em que o homenzinho de barbas brancas satisfazia uma
parte, muito pequena diga-se, dos desejos da criançada.
Passada a idade da inocência e em
que deixamos de acreditar em tudo o que nos dizem, mantenho o hábito de, nesta
época natalícia e de transição para um novo ano, pedir a concretização de
alguns desejos, muitos deles repetentes.
Queria que acabasse a fome e a
guerra no mundo. Queria que o dinheiro gasto em armamento fosse todinho para a
cura de doenças que ceifam vidas. Pretendia que o ser humano fosse mais justo e
mais fraterno. Desejava acabar com a malvadez e a hipocrisia, tão abundante nos
tempos que correm. Acho que não é pedir muito…
Mas ao aproximar-me do ano 2013 e
pelo que os portugueses sofreram neste ano que agora termina, tenho mais uns desejos.
Queria que o Passos Coelho
deixasse os pensionistas em paz e acabasse com as ameaças veladas de mais
cortes nas suas pensões. Queria que o Presidente Cavaco Silva tivesse um
sobressalto, nem que fosse cívico. Gostaria que os enfermos continuassem a ser
tratados das suas maleitas e a ter acesso aos remédios de que precisam.
Desejava que aos idosos continuassem a ser dispensados acompanhamento e carinho
na última etapa das suas vidas. Queria que o governo não vendesse a RTP, que
não deixasse morrer as universidades e que devolvesse os submarinos aos alemães.
Daqui a um ano cá estarei, se
tiver vida e saúde, para renovar a esperança e os desejos que não forem
concretizados. Bom Ano.
Estando sob a intervenção
internacional para financiar o país, ficamos, indiscutivelmente, numa condição
de estado com a soberania hipotecada, já se sabia.
Sempre que se pensa em algo de
mais construtivo, como foi o caso recente da pretensão de aumentar o salário
mínimo nacional, logo o governo de Passos Coelho se apressou a dizer que tem de
pedir autorização à troika, que, por
sua vez, depois de analisar o problema dá o seu veredicto.
Mas o país vai assim. Assiste-se
ao falhanço de todas as metas negociadas no memorando de assistência
financeira, apesar da enorme e desproporcionada carga fiscal a que estamos
todos sujeitos, mas, mesmo assim, o ministro das finanças vem dizer que não,
que acertamos em quase todas e as que falhamos foi, mesmo assim, por muito
pouco.
Mas para esta confusão toda
contribuem os membros deste governo e todos os líderes europeus bem como as
organizações internacionais que não se cansam de dizer isto e aquilo e depois o
seu contrário.
Merkel veio dizer que vamos no
bom caminho. Depois vem a diretora do FMI dizer que é preciso prudência. Mais
tarde a OCDE diz que não vamos conseguir. O Presidente do BCE vem dizer que o
pior já passou. Depois vem Paulo Portas afirmar que já passamos o meio da
ponte. Mais tarde ouvimos Merkel dizer que, afinal, está descontente com a
prestação dos países periféricos, como Portugal. Enquanto isto Passos Coelho
tem a certeza que este é o caminho certo, mesmo assistindo ao desmantelamento
de empresas e destruição de emprego a cada dia que passa.
Não haja dúvida que a chanceler
da Alemanha concorda com a gigantesca carga fiscal que os países em
dificuldades impõem aos seus cidadãos. Essa tem sido, de facto, a sua receita.
A senhora Merkel tem confirmado
que esta é a via para a recuperação e não se cansa de propalar essa ideia em
todas as aparições públicas que faz fora do seu país, mas quando fala para os
seus concidadãos, para os seus eleitores, a sua opinião muda completamente. Lá,
no seu país, Merkel descarta qualquer aumento da carga fiscal para a classe
média, que considera o motor do desenvolvimento. O que se percebe é que na
Alemanha a senhora Merkel quer uma classe média e média alta pujante para
estimular o consumo e assim proporcionar o crescimento. Para os outros a
receita é precisamente o contrário: o empobrecimento da classe média que, por
sua vez, diminui o consumo, contribuindo, assim, para a destruição de mais
empregos.
Estas diferenças de entendimento,
estas interpretações dúbias não faziam parte do pensamento dos construtores da
Europa, com toda a certeza.
O isolamento das nossas ilhas
sempre foi combatido com fortes tradições muito enraizadas no nosso povo. Na
Graciosa a música sempre ocupou um lugar de destaque no panorama cultural.
Antigamente existiam alguns
divertimentos, como os diversos jogos de cartas e dominó, mas pelos bailes os
Graciosenses deixavam tudo. Novos e velhos, todos gostavam de bailar e de
cantar. Era desta maneira salutar que o nosso povo se divertia e confraternizava.
Nos bailes de carnaval, na
matança do porco ou integrando grupos folclóricos, habituamo-nos a vê-los de
viola a tiracolo, dedilhando e cantando músicas do reportório popular. Eram
homens e mulheres, quase sempre bons foliões, que ocupavam os tempos que
restavam da dura labuta do dia-a-dia divertindo os outros e fazendo o que mais
gostavam: tocar.
O Manuel da Ajuda era um deles.
Tocava muito bem a viola da terra. É impressionante ver tocar este instrumento.
Com 12 de cordas (existe também uma versão com 15 cordas), a viola da terra
emite uma sonoridade peculiar que se conjuga harmoniosamente com outros
instrumentos musicais.
A aprendizagem da viola da terra era
feita de um modo empírico, vendo os outros ou experimentando uma e outra vez,
com muita persistência e dedicação. O Manuel da Ajuda também se fez executante
assim, depois do senhor Manuel do Júlio lhe ter transmitido o gosto por este
instrumento e lhe ter dado os primeiros ensinamentos.
A viola da terra é tipicamente
Açoriana. Embora muito semelhante ao violão, é mais pequena e tem dois corações
na boca, com as pontas opostas, que, dizem os entendidos, representam o amor
entre duas pessoas que estão separadas fisicamente.
Desde o início que o Manuel da
Ajuda tocou nas danças do senhor Francisco Sampaio. Foi membro do Grupo
Folclórico da Casa do Povo da Praia. Tocava também em grupos de Reis pelos
caminhos da Graciosa, visitando, nas frias noites de inverno, as casas em
festa, espalhando alegria e boa disposição a quem os recebia. Era também muito
solicitado para animar os bailes de carnaval com as modas de viola.
Em 1988 participou num concerto
com 24 violas da terra, na freguesia de Guadalupe, dirigido pelo incontornável
Padre Simões Borges.
Era agricultor de profissão. Vivia
do rendimento que lhe dava o gado bovino que pastoreava nas suas terras.
Gostava muito de pescar. Dizem os
mais próximos que o Manuel da Ajuda tinha errado na profissão, pois gostava
tanto do mar que deveria ter sido pescador. Aos familiares e amigos terá dito
que quando chegasse a idade da reforma iria dedicar-se à pesca. Infelizmente
não chegou a gozar esse privilégio porque a morte, com os seus ditames,
roubou-lhe esse sonho.
Era muito alegre e divertido e um
bom conversador. Com os seus colegas da música, o Manuel Zagaia e o José
Helder, entre outros participava em tertúlias que eram momentos de pura diversão,
como acontecia frequentemente na tasca do senhor Álvaro.