Da magna reunião do PSD-A que
ocorreu no passado fim-de-semana esperava-se muito mais. E esperava-se
sobretudo porque este partido tem legitimas ambições de chegar ao poder no
próximo escrutínio, que ocorrerá em outubro do corrente ano. No entanto quando
terminou este congresso os açorianos apenas puderam chegar a três conclusões
óbvias:
- a dra. Berta Cabral é devota do
Espírito Santo;
- Passos Coelho não sabe o
primeiro nome da dra. Berta Cabral;
-a dra. Berta Cabral quando fala
em mudança e renovação é a brincar.
A devoção que nutre pelo Espírito
Santo é de respeitar e ponto final. Agora o anúncio de que só deixará a Câmara
Municipal de Ponta Delgada depois das festas em seu louvor, deixa muitos
açorianos desconfiados relativamente a uma manobra, mais uma, de mero oportunismo
político. Foi dito que tem uma boa capacidade de trabalho e que consegue
conciliar as duas funções, autarca a tempo inteiro e candidata a presidente do
governo. Este dom da ubiquidade permite-lhe, segundo se infere das entrevistas
pós-congresso, dirigir uma autarquia e ao mesmo tempo andar de ilha em ilha em
campanha, restando ainda algum tempo para dar uns saltinhos ao estrangeiro.
Depois vem a troca do primeiro
nome da dra. Berta Cabral perpetrado pelo seu mentor, Passos Coelho. É vulgar
esquecermo-nos do último nome de pessoas amigas ou conhecidas, mas trocar o
primeiro é grave.
Por último vem a história da
renovação para a mudança. Já vi renovações mais ou menos, já vi renovações
tímidas ou renovações parciais, mas, sinceramente, nunca tinha visto uma
renovação que é uma espécie de regresso ao passado. Foi uma autêntica repescagem
de gente com mais de trinta anos de atividade política.
Quanto mais perto do período
eleitoral mais as coisas mudam, já se sabe. Mais empenho, mais ideias, mais
opiniões, mais visitas, mais sorrisos, mais palmadinhas nas costas, enfim, os
partidos apresentam-se com uma dinâmica diferente, com mais disponibilidade e
com maior sensibilidade para resolver os problemas dos cidadãos.
Embora haja quem não concorde, esta
postura é perfeitamente normal nas democracias. É nessa altura, no fim das
legislaturas, que os partidos políticos tentam passar a mensagem do que
defendem e o que farão caso vençam as eleições. Esta estratégia, sendo bem
aproveitada, pode até contribuir para a conceção dos manifestos eleitorais,
amplificando, deste modo, a vontade popular.
O problema é que nem sempre é
assim tão linear.
Há gente por aí que teima em
recorrer a qualquer meio para tentar aproveitar estes momentos para espalhar
inverdades de variadíssimas maneiras. Umas vezes a coberto de formas oficiais e
outras não. Não sendo invulgar é, no entanto, um método indigno destinado a ludibriar
as pessoas mais incautas que se atemorizam com estas posturas. Socorrem-se de
outros que, por sofrerem de partidarite aguda, lhes passam informações de forma
deturpada, fruto de recalcamentos antigos.
É assim. Daqui para a frente vamos
ver um pouco de tudo, infelizmente. Desde falsificações de documentos até
conspirações para se ver quem se vai tramar a seguir, algumas consumadas nas
próprias instituições que lhes pagam os salários, vamos ver de tudo.
Não podemos, no entanto, permitir
que esta prática vingue. Os partidos da nossa praça devem condenar liminarmente
estes processos baixos e rejeitar esta gente que, sem ponta de coragem para
assumir o que fazem, refugiam-se nestes métodos muito pouco éticos.
Por isso é necessário estarmos
todos atentos e não deixar passar impunemente estas manobras, venham de onde
vierem. Uns serão responsabilizados politicamente à boca das urnas, enquanto os
outros terão de assumir as consequências dos seus atos.
No dia 11 de julho de 1981 estava
a cumprir o serviço militar em S. Miguel. No quartel da Castanheira preparei-me
para ver na televisão do bar um momento importante para todos os Graciosenses:
a inauguração do aeroporto.
Nesse tempo, e até essa altura, a
mobilidade de pessoas e bens acontecia unicamente por via marítima. Eram os
tempos de glória do velhinho Ponta Delgada, que, até aí, aportava em todas
ilhas, primeiro de oriente para ocidente e depois ao contrário. Nos verões
havia o reforço das ligações marítimas feitas pelos barcos Espírito Santo,
Santo Amaro e Terra Alta, que, em vagarosas viagens, iam resolvendo as nossas
necessidades mais prementes, por vezes em condições bem severas, que faziam de
cada viagem uma aventura que, quando contada aos amigos, podia dar uma história.
Naquele dia todos os caminhos iam
dar ao novo aeroporto e a população acorreu em força, passando pela antiga
canada Nova, agora transformada numa bonita estrada, em direção á recém-construída
aerogare, para apreciar a primeira aterragem de um avião comercial nesta ilha e
depois ouvir os discursos da praxe, integrados na cerimónia oficial.
Estavam presentes as mais altas
individualidades dos Açores e o primeiro-ministro de Portugal, Dr. Pinto
Balsemão. Sinceramente não me recordo, de todo, da ordem das intervenções. Sei
que foi o senhor Gui, presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa
da altura, que chamou à atenção de todos os presentes e daqueles que viram através
da televisão, como eu. Fez um discurso interrompido, de quando em vez, por
silêncios em que fartas lágrimas escorriam pelo seu rosto. A emoção tomou conta
de muitos dos presentes, que, naquele momento, também sentiram um aperto no
peito. Foi a intervenção, de corpo e alma, de um homem que representava o seu
povo num momento histórico em que se rompia definitivamente com um isolamento
de séculos. O próprio primeiro-ministro referiu esse momento com uma contida
emoção.
O senhor Gui Louro foi um dos
fundadores nesta ilha do Partido Popular Democrático, agora designado por
Partido Social Democrata, e em 12 de dezembro de 1976, data das primeiras
eleições autárquicas após a revolução dos cravos, é eleito Presidente da Câmara
Municipal de Santa Cruz da Graciosa. Em 16 de dezembro de 1979 é reeleito e
exerce o cargo até ao dia da sua morte.
É na qualidade de responsável
autárquico que assiste a outros momentos importantes para a nossa ilha, como a
entrada em funcionamento do porto comercial e a inauguração do entreposto
frigorífico que, juntamente com o aeroporto, faziam parte dos primeiros grandes
investimentos perpetrados depois da conquista da autonomia dos Açores.
O sismo de 1980 foi outro
acontecimento que viveu enquanto exercia funções públicas. Foi um momento
dramático, sem dúvida, que exigiu dele uma entrega extraordinária tendo em
conta a necessidade de organizar todo o processo de reconstrução.
Impulsiona a constituição da
Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Ilha Graciosa, da qual foi
sócio fundador. Conta-se que no dia do desembarque da primeira viatura dos
bombeiros, feita ainda com o barco ancorado, o comandante do navio ter-se-á
recusado a fazer a descarga devido aos riscos que a operação envolvia e foi o
senhor Gui Louro que se deslocou ao porto para se responsabilizar pessoalmente
por aquela manobra. Hoje essa viatura, embora já fora de serviço, ainda ostenta
o seu nome.
Nas suas andanças na atividade
política foi ainda, durante um mês, Deputado na Assembleia Regional dos Açores.
Antes de se dedicar à vida
pública o senhor Gui foi funcionário do tribunal e, nessa qualidade, chega a
viver alguns anos na vizinha ilha Terceira. Quando regressa dedica-se ao
comércio e, mais tarde, concorre e exerce funções na Fundação Calouste Gulbenkian
que, como se sabe, tinha uma biblioteca itinerante que percorria toda a ilha na
busca de leitores. Nessa altura obtém a carteira profissional de solicitador
função que exerce em acumulação. Os conhecimentos que possuía nessa área
foram-lhe muito úteis aquando das expropriações dos terrenos onde foi
construído o aeroporto.
Nos seus tempos livres gostava de
participar em caçadas com os amigos, que acabavam, invariavelmente, em alegres
jantaradas. O mergulho também era uma das suas paixões, chegando a dizer aos
seus mais próximos que era no mar que se sentia verdadeiramente livre. Dedicava
também algum tempo a tratar da sua coleção de selos.
O senhor Gui Louro foi um
político determinado e que acreditava no que fazia. Era intransigente quando
estava em causa a defesa da sua amada ilha. Ao mesmo tempo era um sonhador e homem
de paixões. Pela sua terra fez o melhor que soube e pôde, sem nunca esperar nada
em troca.
Quando a presidente do PSD-Açores
vem à Graciosa é em campanha, já sabemos. Noutra condição nunca cá põe os pés,
mas isso é uma opção dela e temos de respeitar.
Normalmente escolhe estes
momentos para dizer umas coisas que nem lembram ao diabo. Desta vez deu a ideia
que quer resolver os problemas dos agricultores e da agricultura Graciosense.
É caso para perguntar:
. Onde andava esta senhora quando
o leite era pago irregularmente e com mais de 12 meses de atraso?
. Onde estava quando a fábrica de
laticínios fechou por não ter condições para laborar e os produtores ficaram
sem rendimento e sem saber o que fazer ao leite?
. Onde andava quando o leite
produzido na Graciosa era pago muito abaixo do preço pago em outras ilhas?
. Onde andava quando a Adega
Cooperativa foi asfixiada financeiramente, pelo Governo do PSD, ao ponto de ter
de encerrar portas?
. Onde andava esta senhora quando
a agricultura definhava, sem quaisquer produções alternativas?
Estava no Governo. Podem dar as
cambalhotas que quiserem para fazer passar a ideia que a Dra. Berta Cabral nada
tinha a ver com isto, mas, o que é um facto indesmentível, é que fazia parte do
Governo Regional da responsabilidade do PSD ou gravitava à sua volta. Por mais
que os seus apoiantes queiram e tentem, nunca o poderão esconder.
Esta é que é a verdade. A Dra.
Berta Cabral, naquele tempo em que os agricultores Graciosenses lutavam para
sobreviver, podia fazer muito por eles, se quisesse, mas não fez absolutamente
nada para evitar o colapso iminente de um setor que não tinha futuro à vista. Por
isso nunca poderá isentar-se de responsabilidades na quase liquidação de um
setor que foi necessário reerguer das cinzas a partir de 1996.
Hoje, felizmente, a Dra. Berta
Cabral pode ver, quando por cá passa, uma agricultura moderna, com agricultores
jovens e confiantes no futuro, com investimentos que rivalizam com os melhores
dos Açores. Pode ver uma ilha que conquistou um elevado estatuto sanitário e
com um rendimento por hectare superior à média regional. Pode ver a nova e
moderna fábrica de laticínios, cuja construção o Governo a que pertenceu nunca
teve a coragem de fazer. Pode ver que os produtores de leite recebem a tempo e
horas, tal como pode apreciar investimentos em floricultura e horticultura,
inexistentes no seu tempo. E pode constatar, ainda, que existem projetos
importantes em desenvolvimento como a Adega e Cooperativa, o Centro de Recria
ou o Matadouro Industrial.
Ainda não há muito tempo esteve
cá e falou muito bem deste setor, tal como o tinha feito a Dra. Maria do Céu
Patrão Neves, mas agora mudou repentinamente de opinião. Porque será? Só pode
ser por as coisas não lhe estarem a correr de feição.
A presidente do PSD-Açores, nesta
sua frenética pré-campanha, preocupa-se em estar com estes e com aqueles,
prometendo tudo, numa estratégia de agradar a todos, que, como se sabe, é
contrária ao sentido de estado que um candidato
a presidente do Governo deve ter.
Confesso que não estive particularmente
atento ao que se passou no congresso do PSD, mas, inevitavelmente, acabei por
ouvir algumas intervenções, pois as televisões, nestes momentos altos da vida
dos partidos, trazem até às nossas salas tudo o que se passa nessas reuniões
magnas, com direito a repetições devidamente acompanhadas pelos comentários dos
especialistas na matéria.
Uma dessas intervenções foi a
líder do PSD-Açores, porque ela é, no fundo, candidata à chefia do governo dos Açores
e como tal é preciso perceber o que diz, o que pensa e o que pretende, muito embora,
por vezes, seja difícil encontrar coerência entre o que diz e o que faz ou fez.
Mesmo os apoiantes do PSD-Açores
deviam estar à espera de um momento de afirmação da estratégia política, para
levar os Açores para frente. Esperava-se a definição clara de políticas a
aplicar caso vença as próximas eleições, mas o que se ouviu foi mais do mesmo e
nada de novo. Umas ideias aqui e outras ali, algumas redundâncias, mas sem uma
linha condutora programática fiável, que fizesse acalmar as suas próprias hostes
que já desesperam por posições mais concretas.
Percebemos, nessa intervenção,
que a líder do PSD-Açores receia a dureza negocial do primeiro-ministro.
Ouvimos a vontade de fazer descer as tarifas aéreas, só não soubemos ,como, nem
ouvimos a justificação porque, quando foi Diretora Regional dos Transportes,
presidente da SATA ou Secretária Regional das Finanças, as passagens aéreas
eram, mesmo assim, mais caras do que agora, apesar do petróleo ser seis vezes
mais barato. Definiu-se também como uma grande lutadora nas disputas eleitorais
passadas e aí só me veio à memória as autárquicas de 2009, onde os resultados
dos Açores, para a líder do PSD, resumiam-se a Ponta Delgada. O resto era com
os outros, os derrotados.
Como se vê é muito pouco. Esperava-se,
sinceramente, muito mais neste congresso da líder do PSD-Açores. Vamos ter de
aguardar por uma próxima oportunidade.
O sol já ia alto quando a vigia
do Pico Negro dá o sinal de baleia à vista e passa de imediato a informação ao
seu colega do Monte da Ajuda. Este agarra no foguete, apressa-se para o
exterior chegando a brasa do cigarro à pólvora que fez o foguete subir e
disferir, com estrondo, um forte sinal ouvido em toda a freguesia. Era esta a
indicação que muitos esperavam para, numa correria louca, se porem o mais
rápido possível junto do seu bote, na Barra ou na Calheta para começar mais um
dia de caça ao cachalote.
O Rodrigues era um homem alto e
forte. Sustentava a sua família com a baleação e complementava o rendimento com
proveitos advindos do mergulho. Era trancador, porventura o posto mais difícil nas
companhas pois é ele que, por força da sua função, estava mais perto do
imprevisível cachalote e era da sua perícia que dependia o sustento dos
restantes tripulantes.
Em reação ao sinal o Rodrigues foi
até sua casa na rua das Violas, agarrou apressadamente no farnel e, de calças
arregaçadas, correu até à Barra onde descalçou e arriou o bote com a ajuda dos
seus colegas que, entretanto, foram chegando.
O bote Cristovão Manuel, já com o
mestre José Vieira Goulart ao leme e à força dos remadores rumou até meio da
baía para aí ser apanhado e rebocado pela Estefânia Correia, pois não havia
tempo a perder. O mesmo terá acontecido com o bote saído da Calheta, que se pôs
a jeito de ser apanhado pela Estefânia no rumo entre a Barra e o local onde o
cachalote tinha sido avistado, lá para os lados do Pico Negro.
Havia uma sinalética própria
desta atividade, num jogo de bandeiras que anunciavam se já existia baleia
trancada ou mesmo morta. Nesse dia nada tinha sido indicado, pelo que se previa
um calmo regresso a casa, muito embora de mãos a abanar.
Mas não foi isso que aconteceu,
infelizmente.
Já passava das oito horas da
noite quando me apercebi do exagerado movimento na minha rua, que era a mesma
do Hospital.
A eletricidade ainda estava ligada
mas lá fora imaginava uma noite de trevas. Ouviam-se vozes apressadas, ruído de
automóveis e, depois, o choro de mulheres que subiam a rua. Algo não estava bem.
Meu pai resolveu sair para saber
o que se passava, enquanto nós, eu e a minha mãe, esperávamos ansiosamente por explicações
sobre o que estava a acontecer. Sim - disse meu pai no regresso - era mesmo
grave. Tinha havido um acidente na caça à baleia e já existiam mortos e alguns
desaparecidos.
Ficamos a tentar imaginar o que
poderia ter sucedido, enquanto as horas passavam vagarosamente. As perguntas
surgiam às catadupas e as respostas tardavam. O que poderia ter corrido mal?
Com o alvorecer e depois de uma
noite em branco repleta de pensamentos sombrios e a imaginar o sofrimento
daqueles que tinham familiares nas embarcações envolvidas, vieram as primeiras
explicações.
Depois da faina a lancha Estefânia
Correia fez o reboque dos botes baleeiros de regresso aos portos, tal como o
fizera em muitas outras ocasiões. Deixou o primeiro na Calheta e trouxe o Cristovão
Manuel até à Barra onde era varado normalmente.
Começava a escurecer e, por isso,
a entrada na Barra não era fácil, muito embora a existência de dois pontos de
luz, alimentados a petróleo, davam a indicação precisa do enfiamento correto
para entrar de uma forma segura.
A manobra não terá corrido como
se esperava. O Cristovão Manuel, empurrado pela onda na carreira da Barra, terá
ultrapassado a Estefânia Correia. O mestre José Vieira Goulart, oficial do
bote, prevendo o desfecho, ainda tentou a todo o custo aguentar o leme em
direção a terra, mantendo o bote na esteira da onda. Não dava tempo, era
preciso cortar o cabo. Correu por cima dos bancos de machado em punho, mas era
tarde demais. O cabo esticou e o bote voltou-se com os seus sete tripulantes a
bordo. Não é difícil imaginar o pânico daqueles homens que, embora habituados
às condições adversas do mar que lhes dava o pão, terão sido apanhados de
surpresa, no início daquela noite de novembro de 1967. Temendo serem atingidos
pela lancha que circulava às voltas procurando sobreviventes e enredados na
palamenta do bote baleeiro constituída por remos, pás, velas, mastros, selhas,
cabos e ainda desorientados por não enxergarem a ilha que lhes poderia trazer a
salvação, estes homens lutaram até à exaustão, constando mesmo que alguns,
desesperadamente, terão nadado em direção oposta à da terra até ao limite das
suas forças.
Morreram o mestre José Vieira
Goulart (oficial do bote), Arnaldo de Sousa, Izalino Nunes, Gabriel Machado,
Albino Horta e José Soares. Sobreviveu o Firmínio Rodrigues Picanço, aquele
que, afinal, estava sempre mais perto do perigo. A sua destreza dentro de água
ditada pelos anos de experiência como mergulhador e a frieza com que encarou o
sinistro terão sido cruciais para escapar ao destino dos companheiros.
O ano de 1967 ficará indelevelmente
marcado na nossa memória coletiva por este desastre.
Quis o PSD – Açores levar ao
Plenário da Assembleia Legislativa uma interpelação ao Governo Regional sobre o
setor do turismo na Região Autónoma dos Açores.
Estranha-se, no entanto, que para
um partido que critica tanto a política de turismo do Governo Regional dos
Açores, apenas agora tenha trazido este tema à baila para debate.
Terá sido por acaso? Claro que
não. Cedo se percebeu que esta figura regimental foi aproveitada pelo partido
proponente para atacar e tentar diminuir o Secretário Regional da Economia que,
como se sabe, é o candidato do Partido Socialista a Presidente do próximo
Governo dos Açores que sairá das próximas eleições regionais que ocorrerão em outubro
próximo.
Mas penso que este gesto terá
saído como mais um tiro no pé. E têm sido tantos, ultimamente, que até já lhes perdi
a conta.
Um partido como o PSD, que já
governou esta região duas décadas, não se poderá proteger das responsabilidades
que tem, agora que se encontra na oposição.
É preciso lembrar – e temos de
fazê-lo agora com mais acuidade porque neste período pré-eleitoral algumas
pessoas revelam sintomas agudos de memória curta – que o PSD deteve o poder
durante muitos anos e, nessa altura, enjeitou a oportunidade desta região se
afirmar no turismo.
Naqueles tempos não se
construíram hotéis porque não tínhamos turistas, mas também é verdade que não
tínhamos turistas porque não tínhamos hotéis. E vivíamos assim, enredados nesta
teia imobilizadora que nos atirou para uma situação dramática.
Apesar disto o PSD chegou a ter
um Secretário Regional do Turismo, imagine-se. Aos Açores não vinham turistas,
nos Açores não existiam estabelecimentos hoteleiros, mas, mesmo assim, o PSD tinha um gabinete completo para tratar
de uma pasta que, na prática, não existia. Isto não é para qualquer um…
Foi assim que o Partido
Socialista encontrou os Açores em 1996. Estava tudo por fazer e em todas as
ilhas.
Foi preciso dinamizar a
iniciativa privada, apostar na construção de hotéis de qualidade, promover o
destino, ao mesmo tempo que se qualificava a restauração. Nalgumas ilhas, como
é o caso da Graciosa, o Governo substituiu, e muito bem, a iniciativa privada
na construção de empreendimentos quando o empresariado se mostrava sem
capacidade financeira para o fazer.
Os resultados estão bem à vista
de todos e só não vê quem não quer. O número de turistas aumentou
exponencialmente, aumentando o número de trabalhadores neste setor, tal como
aumentou o rendimento desta atividade, contributos importantes para o
crescimento do Produto Interno Bruto da Região Autónoma dos Açores.
Passamos do oito ao oitenta. Foi
uma tarefa hercúlea, que orgulha, e em muito, os Governos do Partido
Socialista.
Berta Cabral veio a público regozijar-se
da boa situação financeira da “sua” Câmara Municipal, com base num ranking
saído no Anuário Financeiro dos Municípios. Que era bem gerida, que estava de perfeita
saúde, que tinha um dos menores endividamentos per capita, que se encontrava entre as melhores do país e sei lá o
que mais. Só coisas boas.
No dia da entrevista, onde essa
revelação inusitada foi feita, notei grande candura na postura da presidente da
Câmara de Ponta Delgada, o que, sinceramente, fez-me lembrar que quando a
esmola é grande até o santo desconfia.
Pouco depois os Açorianos vieram
a saber que houve um engano e que afinal não era bem assim, antes pelo
contrário. A Câmara de Ponta Delgada não estava entre as melhores 50,
infelizmente. O endividamento por munícipe afinal era o dobro da que se
encontrava em 50º lugar desse ranking, o que atira aquele município, afinal,
para as calendas gregas da tal
listagem, num lugar nada honroso.
Até o professor Marcelo Rebelo de
Sousa, comentador domingueiro, ficou inebriado com a prestação da sua
companheira de partido, que, depois, veio a verificar-se, tratar-se de um flop nunca desmentido, apenas porque
dava jeito.
Foi com estupefação que
assistimos ao silêncio depois de tamanho engano com se isso fosse de somenos
importância. Os Açorianos não merecem este tipo de comportamento branqueador.
Se foi por a dra. Berta Cabral ignorar
a verdadeira situação financeira da sua edilidade, é grave, mas se foi uma ação
premeditada então trata-se de um ato inqualificável e impróprio para quem tem
ambições políticas.
Nestas coisas a verdade vem
sempre ao de cima, diz o nosso sábio povo. Descobre-se o logro e cai a máscara,
digo eu.
Era na sua tenda situada na rua
Serpa Pinto, por baixo do granel do senhor Francisco Barcelos, que estava
sempre. De avental marcado por nódoas das tintas que usava, permanecia invariavelmente
sentado de corpo curvado atrás da sua banca de trabalho, repleta de utensílios
próprios da profissão. Passava horas seguidas, agarrado aos sapatos, moldando
as solas, cozendo ou polindo, rodeado pelas suas ferramentas espalhadas pela
banca, sempre ao alcance das suas necessidades. E sapatos, muitos sapatos,
depositados num recanto da tenda esperando a sua vez para merecerem os cuidados
deste artífice.
Este era o sapateiro a quem a
minha família entregava os sapatos para as devidas reparações. Normalmente calhava-me
a mim levar os ditos em mau estado, quase sempre de biqueira aberta devido às
jogatanas no campo de S. Francisco, mais conhecido pelo campo da Rata, ou então
de sola gasta pelo uso intensivo, para os ir buscar uns dias depois já como
novos, prontos para mais uma temporada.
A tenda do senhor Edmundo, como
era conhecida a sua oficina, funcionava, também, como ponto de encontro de
muitos Graciosenses.
O chão era de cimento frio, que
contrastava com o calor humano que reinava naquele espaço. Nas paredes viam-se
alguns cartazes amarelados pelo tempo. Tinha um banco corrido num dos lados
onde se sentavam todos aqueles que procuravam saber as novas, que, naquele tempo
demoravam a chegar, trazidas pelos frequentadores e clientes que eram também os
seus amigos. Num dos cantos ficava uma cadeira de vimes, mais confortável, que
estava informalmente reservada ao Dr. Gregório ou ao Comandante Silveira, duas
figuras de referência que não dispensavam uma presença diária naquele espaço.
Por ali passavam médicos, comerciantes, sacerdotes, estudantes, carteiros,
professores, etc.. Uma amálgama de gente que refletia a sociedade Graciosense.
Antes da revolução dos cravos era
ali que se discutiam intensamente os assuntos que estavam na berra. Era ali que
chegavam outras maneiras de ver o mundo, porque muitos dos frequentadores
ouviam rádios não controlados pelo antigo regime e por aí sabiam a verdade, nua
e crua, sobre o que se passava no nosso país e no mundo. Era ali que se abordavam
os assuntos políticos, mais ou menos em surdina.
Acredito piamente que aquele
espaço deve ter merecido a atenção da polícia política, pois muito do que lá se
dizia, comentava e discutia, não era, de todo, bem visto pelo regime da altura.
Depois de Abril, com o advento
das comunicações e da televisão o nosso mundo mudou, mudaram também o país, a
região e a nossa ilha, mas a tenda do senhor Edmundo manteve-se inalterável.
Era um local de culto para os seus frequentadores que continuaram a abordagem
dos mesmos temas, só que de maneira mais desassombrada. Era o valor da
liberdade.
O senhor Edmundo tocou trombone
anos a fio na Filarmónica Recreio dos Artistas e terá pertencido aos seus
corpos sociais, dando, assim, um contributo para a cultura Graciosense. Era um
pescador de calhau exímio e, diz quem o conheceu, fazia uma caldeira muito
apreciada pelos amigos. Estava sempre pronto para pregar umas partidas aos mais
incautos que por ali passavam.
Apesar da modéstia e humildade o
senhor Edmundo era um homem culto e que cultivava a verdadeira amizade.
Partilho da opinião de que as
petições públicas são um instrumento importante nas sociedades modernas.
Qualquer cidadão ou grupos de cidadãos podem, por esta via, invocar a atenção
dos poderes públicos para uma situação ou uma questão tida como pertinente por
parte de quem subscreve.
Esta é uma das grandes conquistas
plasmadas nos documentos fundamentais, a Constituição Portuguesa e o Estatuto
Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores.
Curiosamente têm surgido
ultimamente muitas petições, o que faz denotar a maturidade da democracia e a
participação dos cidadãos nas decisões sobre políticas que afetam a sua ilha, a
sua região ou o seu país.
Recentemente surgiram nos
noticiários duas petições, que chamaram a atenção por serem inusitadas, na minha
opinião meramente pessoal. Uma destina-se à destituição do Presidente da
Republica e outra à antecipação das Eleições Regionais.
O Dr. Cavaco Silva foi eleito em
janeiro de 2011 com 53,14% dos votos expressos e, por isso, quer se concorde ou
não com ele, está a ocupar um cargo com a legitimidade que tão larga maioria
lhe deu nas urnas.
Nas Eleições Regionais de 2008 o
Partido Socialista venceu com 49,92% dos votos expressos, atingindo uma nova
maioria absoluta indiscutível que lhe garantiu a governação por mais estes
quatro anos.
O povo, convocado a decidir, foi
muito claro e escolheu quem queria para Presidente da República e antes, em
2008, apurou o partido que lhe dava mais garantias para dirigir os Açores.
Num e noutro caso o povo vai ser
chamado novamente a decidir e é nesse contexto que fará o julgamento e não de
outra forma, mesmo que desse mais jeito a este ou a aquele partido.
Alterar as regras parece-me a
subversão da democracia, porquanto foi esta democracia, com as virtudes e os
defeitos que encerra, que proporcionou a prerrogativa dos cidadãos utilizarem esta
figura de participação cívica. Não a desvirtuemos.
Na passada semana ficamos a saber
que o desemprego nos Açores se situava nos 15,1 %, valor mais alto do que o
registado no conjunto do país.
Logo tivemos quem se apressasse a
atacar o Governo Regional dos Açores acusando-o de não ter conseguido estancar
este drama que afeta muitos Açorianos, sobretudo o mais os jovens. Basta
folhear os jornais e logo se veem os títulos garrafais de crónicas dos
comentadores políticos dizendo isso mesmo.
Esta reação era esperada. Ainda
recentemente vimos caras com ares de consternação apenas pelo facto de na Região
Autónoma dos Açores não ser encontrado um “buraquinho” nas contas públicas que
fizesse render alguns votos. Agora o desemprego também é usado como arma de
arremesso. Infelizmente alguma oposição funciona assim, tipo, quanto pior,
melhor.
Fala-se muito dos jovens na busca
de emprego, como se isto fosse um dado novo. As coisas não mudaram muito para
os jovens, mas existem diferenças que importa revelar. Todos têm acesso ao
ensino superior e quando isso não acontece existe uma enorme oferta de cursos
técnico profissionais, que os qualificam e abrem portas ao mercado de trabalho.
Quando acabam a licenciatura tem acesso a um primeiro contato com esse mercado
através dos programas Estagiar, que, curiosamente, tem colocado muitos dos
estagiários nas empresas onde cumpriram esse programa. Hoje qualquer jovem
licenciado ou com formação profissional tem acesso a programas de
empreendedorismo ou de criação do auto emprego.
Este flagelo do desemprego, usado
indevidamente para caçar uns votos aqui e outros ali, tem afetado as regiões
ultraperiféricas da Europa de uma maneira assustadora.
Nas diversas crónicas feitas por
gente da oposição, nunca vi referências que remetessem o aumento do desemprego para
a diminuição drástica do consumo, a redução do investimento, ou a falta de
liquidez da banca para alavancar a economia, situações criadas pelo Governo Central
que se orgulha, todos os dias, de, em matéria de cortes, ir muito mais além do
que exige a troika.
Pela via das dificuldades de
acesso ao crédito houve uma redução enorme da atividade no setor construção
civil. O aumento brutal dos impostos fez diminuir drasticamente o rendimento
das famílias, afetando o consumo e por isso o setor de comércio e serviços registou
uma quebra sem precedentes. É por esse facto que todos os dias trabalhadores do
comércio ou da construção civil engrossam os números de desempregados e isso
deve-se às políticas desacertadas impostas pelo Governo da República, como
facilmente se depreende.
O Governo Regional se não tivesse
executado um Plano Regional de Emprego, se não tivesse criado mais de 21 mil
novos empregos em 10 anos, se não criasse programas para empregabilidade para
mulheres e jovens, se não apostasse na formação profissional e se não
consolidasse o tecido empresarial, certamente que agora o problema do
desemprego teria contornos muito mais graves.
E mais. O Governo Regional,
enquanto esta conjuntura externa adversa atingia os Açores, tratou de minimizar
os estragos, atacando o problema em várias frentes, nas empresas e nas
famílias, passando pela agricultura e pescas e criando o Programa para a Promoção
do Emprego e Competitividade para uma resposta imediata.
Uns, aproveitando a boleia desta conjuntura
nacional e internacional desfavorável, tentam, desesperadamente, colar os seus
efeitos nefastos ao Governo Regional sem apresentar uma única proposta para
alterar esta situação, enquanto outros, por entre as dificuldades impostas,
respondem aos problemas que assolam os Açores e Açorianos com confiança e
determinação.
A primeira vez que ouvi o Cântico
Negro de José Régio, já lá vão uns bons anos, foi pela voz do Oriolando. Creio
que ninguém fica indiferente a estas poderosas estrofes, mas confesso que este
cântico ganhou um lugar de honra nos meus gostos literários, muito por culpa de
uma declamação que senti, na altura, ser perfeita, pelo tom, pelo ritmo e pela
sensibilidade de quem o dizia.
Com o seu timbre forte mas, ao
mesmo tempo, melodioso, o Oriolando declamava este e outros poemas como ninguém.
Também cantava acrescentando
sentimento às interpretações que fazia, desde músicas do reportório popular até
às mais eruditas, passando pelas de intervenção política mais conhecidas.
Era um notívago assumido e nessa
condição era frequente vê-lo em convívios com os inúmeros amigos, que, quase
sempre, proporcionavam momentos dedicados ao canto, à declamação ou a discorrer
sobre História, de que tanto gostava, ou em simples cavaqueira.
Assisti, no palco da antiga cerca
da Filarmónica Recreio dos Artistas, aos ensaios de uma peça de teatro dirigida
pelo senhor Brivaldo Santos, onde o Oriolando tinha um papel importante que
representava com proficiência. Nesse tempo o teatro fascinava os miúdos que,
sem mexer uma palha, assistiam incrédulos aos intermináveis ensaios, onde os
atores se comportavam como autênticos profissionais.
Era um eloquente orador e, nessa
qualidade, era convidado com muita frequência para dissertar em cerimónias
públicas, efemérides ou lançamentos literários.
Defendia os ideais de esquerda. Esta
era a sua posição política que, no verão quente de 1975, lhe terá causado
alguns dissabores, que soube enfrentar com coragem e determinação,
rendendo-lhe, mais tarde, o respeito e admiração quer dos companheiros quer dos
que não pensavam como ele.
Durante a sua vida participou
ativamente na vida pública do seu concelho, tendo sido deputado municipal.
Encontrou na História a sua
paixão. Nos últimos tempos fez investigação e chegou a pôr em causa alguns
conhecimentos dados como certos da história da Graciosa, com fundamentos válidos
e que apresentava com sabedoria.
Foi também genealogista, tendo
sido um dos grandes mentores e impulsionadores dos vários encontros regionais
destes especialistas realizados na Ilha Graciosa.
Profissionalmente foi solicitador
e, nessa qualidade, participou em inúmeros atos onde se destacava pela sua
oratória e conhecimentos jurídicos.
Esteve também imbuído do espírito
associativo e, como tal, fez parte de diversos corpos sociais de clubes locais
e foi também sócio fundador da Cooperativa Rádio Graciosa e o primeiro presidente
da sua Assembleia Geral.
Embora sem grandes habilitações
académicas este autodidata era um homem de saberes que ombreava com os demais
na valorização da cultura e das tradições.
Por estas alturas do ano recordo
sempre uma conversa que ouvi da boca de um senhor de provecta idade que
afirmava que, para ele, o dia mais triste do ano era aquele em que terminava o
Carnaval. Sentia-se a veracidade nestas palavras por serem ditas de maneira
sentida.
Os Graciosenses, de uma ou de
outra forma, gostam do Carnaval, que, por cá, é festejado de uma forma
diferente, com caraterísticas muito enraizadas e que, felizmente, tem sido
mantidas ao longo dos anos por gente anónima que dedica muito do seu tempo às
atividades dos clubes que proliferam pela ilha.
Esta festa é transversal a toda a
sociedade. Desde crianças até aos idosos, todos se divertem à sua maneira e ao
seu ritmo.
A alegria é uma constante.
Vive-se cada dia de festa de forma intensa, deitando para trás das costas as
amarguras que estes tempos difíceis nos têm trazido.
Os bailes de salão têm o seu
início logo a seguir ao Natal, às vezes antes, e são frequentados por várias
gerações de Graciosenses e de forasteiros, que aproveitam estes momentos para
se divertirem, revisitarem velhas amizades e conviverem. Muitos destes bailes
terminam já depois do nascer do sol, sempre de forma ordeira apesar de alguns
excessos próprios destes momentos.
Os grupos de fantasias, vestidas
a rigor e quase sempre com cores garridas, percorrem todos os clubes da ilha
executando coreografias mais ou menos simples - porque a folia não combina com
grandes rigores técnicos - apresentando, deste modo, o contributo que dão a
esta festa que é, no fundo, de todos.
As pessoas que têm passado pela
experiência de viver estes dias connosco não ficam indiferentes e reconhecem
que estes momentos são inesquecíveis, pela alegria contagiante, pela diversão
pura e, sobretudo, por serem muito bem recebidas.
Por isso a nostalgia sentida pelo
senhor que vos falei há pouco não deve ser rara. Muitos Graciosenses e muitas
pessoas que nos visitam sentirão o mesmo.
Resta-nos a certeza de que para o
ano haverá mais.
As pescas desenvolveram-se nos
últimos anos por via do melhoramento da frota, da construção e reparação de
portos e de outras estruturas de apoio e da formação dos seus profissionais.
Nos últimos 10 anos (2001-2010) o
número de pescadores nos Açores quase que duplicou, contrariando a tendência
nacional, e isso devido à melhoria das condições de trabalho proporcionado a
uma classe que abandonou a pesca de subsistência, ou a meio-tempo, e fez da
atividade uma profissão digna e com bom rendimento.
É certo também que a pesca
descarregada tem oscilado um pouco, dada a imprevisibilidade própria desta
atividade que depende de diversos fatores, mas a tendência do valor dessas
capturas tem vindo a crescer, muito embora com algumas exceções, como foram os
casos de 2009 e 2011.
Pela leitura dos dados
disponíveis verifica-se que apesar de, na sua globalidade, a pesca demersal ter
vindo a ter apenas uma ligeira quebra, nota-se grande declínio nalgumas
espécies deste grupo (de 1996 a 2011), quer na quantidade quer em qualidade,
como são os casos do Boca Negra, do Congro, do Goraz, do Pargo e do Peixão.
Em tempos pensava-se que os
recursos marinhos dos Açores eram ilimitados e que os problemas com a
conservação de stocks não eram
connosco.
Hoje, todos os intervenientes na
fileira da pesca estão perfeitamente conscientes que é preciso manter as atuais
e criar outras medidas preventivas para se evitar problemas de reposição de
algumas espécies demersais.
Para esta visão realista terá
contribuído, e em muito, o Departamento de Oceanografia e Pescas, que tem
produzido importantes estudos na área da gestão dos recursos marinhos,
reconhecidos a nível internacional e efetuado ensaios com sucesso, como é o
caso da recuperação do banco de pesca Condor.
É fundamental garantir a
sustentabilidade deste sector, com a aplicação das medidas de precaução já
previstas, juntando outras, nomeadamente as que protegem as pequenas frotas de
pesca artesanal das ilhas mais pequenas, porque a pesca contribuí com 3,6% para
o Produto Interno Bruto da Região e ocupa, direta ou indiretamente, cerca de 5%
da população ativa.
A atividade tem ainda um peso
económico e social mais importante em algumas ilhas ou em comunidades mais
pequenas.
Foi por estas razões que o Grupo
Parlamentar do Partido Socialista criou um grupo de trabalho, do qual fiz
parte, para analisar esta problemática, apresentando as suas conclusões e
elaborando uma bateria de recomendações tendo em vista a preservação dos
recursos e a melhoria dos rendimentos dos profissionais da pesca.
Mais do que falar é preciso agir.
E é para isso que cá estamos.
Gaspar Manuel dos
Santos Cordeiro (04/09/1952 –
25/07/2011)
Em finais de julho passado fomos
surpreendidos com a morte do Gasparinho, pouco tempo depois de ter sido
assolado pela doença.
Por mais que queiramos nunca
estamos preparados para enfrentar a morte como um desígnio da natureza,
sobretudo quando esta nos rouba alguém a quem queremos muito e que muito ainda
tinha para dar.
Era o caso do Gasparinho. Na Ilha
Graciosa todos gostávamos dele. Para isso terá contribuído a sua maneira de ser,
a sua maneira de agir e, sobretudo, a humildade e a bondade que colocava no
relacionamento com os outros.
Na farmácia, onde trabalhou cerca
de 40 anos, era um excelente profissional, dando sempre uma palavra a quem
procurava aquele estabelecimento. Gente idosa e fragilizada pela doença
constituí a maior franja de utentes de qualquer farmácia e, por vezes, aquando
da compra de mais um medicamento para lutar contra a doença ou retardar e
tratar os efeitos da velhice, uma voz amiga pode fazer toda a diferença. E era
aí que o Gasparinho era exímio. Sem se deixar levar pelos lamentos de quem
sofria, dava a cada um dos “seus clientes” uma palavra de alento e de coragem.
A música era uma das suas grandes
paixões. Foi trompetista na Filarmónica Recreios dos Artistas, onde tocou com o
pai, um tio e um irmão. Tocou guitarra e deu a voz nos conjuntos Selvagens do
Rimo e Ritmo 2000, com quem gravou dois discos, Terra de Gente e Mar e Ritmo
2000 ao vivo nos Estados Unidos. Andou ainda muitos anos a animar os bailes de
carnaval tocando no conjunto do Graciosa Futebol Clube.
Tinha uma voz inconfundível, que
se sobrepunha em suave melodia aos instrumentos musicais permitindo ouvir os
bonitos temas que gostava de interpretar, desde fados até aos temas populares,
acompanhado sempre pela sua guitarra, que tocava com desvelo. Com a sua
trompete dourada dava show nos bailes
tradicionais e quando se juntava ao Acácio e ao Valdemiro, em improvisos nas
frequentes tertúlias, completava uma tripla de se lhe tirar o chapéu. Quem
assistiu a estes momentos nunca os esquecerá. Foram noites e noites animadas
por estes verdadeiros artistas.
Ouvi o Gasparinho cantar pela
última vez na Gala do Desporto Açoriana, com os KontraBanda, no que agora, à
distância, me parece uma espécie de despedida.
Foi também um grande jogador de
futebol. Sempre o conheci a jogar a defesa central no seu clube de sempre, o Graciosa
Futebol Clube, que serviu - como atleta, como músico ou como dirigente – até ao
dia da sua morte, altura em que era Presidente da Direção.
Como jogador era conhecido pela elegância
que punha em campo. Jogava muito bem, de cabeça e com os pés. Era muito astuto
na leitura do jogo e com um comportamento irrepreensível. Como capitão da
equipa dava alento aos colegas nas horas dos fracassos e rejubilava nas
vitórias. Era ele que empurrava a equipa para a frente, literalmente.
O Gasparinho tinha várias
qualidades e talentos, mas distinguiu-se, sobretudo, por ter sido um grande Homem.
A autonomia política e
administrativa foi a conquista maior que os Açores obtiveram a partir da
revolução de abril de 1974. O mote tinha sido dado por anos de lutas
infrutíferas, mas quando surgiu a oportunidade, os açorianos não a enjeitaram.
Este é um dado adquirido reconhecido por todos.
Essa prerrogativa, ansiada há
muito pelos açorianos, permitiu que estas ilhas, abandonadas pelo estado
centralista que nos governava até então, se desenvolvessem.
Foram os seus governos que,
legitimados pelo voto popular, traçaram estratégias para recuperar o tempo
perdido.
Nos últimos anos, já com os
governos do Partido Socialista e com o importante financiamento dos fundos
comunitários, concretizou-se a infraestruturação da região, em áreas
fundamentais, como a agricultura, a pesca, o turismo, o comércio, os
transportes e a indústria. Em paralelo, foram também implementadas políticas
públicas importantes, na área social, na gestão de resíduos, na produção de
energia com base em fontes renováveis, na preservação do ambiente, entre
outras.
A estratégia produziu efeitos
rapidamente porquanto estes setores, depois de uma reestruturação,
consolidaram-se e hoje contribuem ativamente para os progressivos ganhos da
economia regional. O número de empresas aumentou assim como aumentou o número
de pessoas empregadas, notando-se, sobretudo, um reforço da empregabilidade
feminina.
Ficamos mais fortes, mais autossuficientes,
mas, como parte integrante da Europa, ficamos, também, mais expostos às ameaças
que surgem do exterior.
Hoje estamos a enfrentar esta
crise atípica que abala a Europa, e muitos outros países do mundo, que tem como
principal caraterística a imprevisibilidade dos seus efeitos nefastos.
O Governo dos Açores, e muito
bem, tem centralizado a sua ação, nestes conturbados tempos, no apoio às famílias
e às empresas. A decisão de colocar sempre as pessoas em primeiro lugar,
confirma e reforça o lema que tem acompanhado o Partido Socialista desde que
está a exercer o poder.
Mas esta crise traz outras
ameaças. Poderá despertar nos centralistas – de todos os partidos, diga-se –
sentimentos recalcados e que surgem á luz do dia logo na primeira oportunidade.
Não acredito que a autonomia
esteja em risco, mas não tenho dúvidas que os ataques surgirão, a breve trecho,
a reboque da polémica do “buraco” da Madeira.
Só há duas coisas a fazer: cerrar
fileiras e resistir.
As medidas de austeridade eram
esperadas e toda a gente sabia que era preciso inverter a tendência de se
gastar mais do que se pode. Não era um problema único de Portugal. O mesmo se
passava e passa noutros países por essa Europa fora e pelo mundo.
O governo de José Sócrates caiu
porque a oposição não pactuava com mais austeridade, nomeadamente a que estava
prevista no chamado PEC 4.
Depois de jurar, a pés juntos,
que a via para resolver o défice não passava pelo reforço do plano de austeridade,
eis-nos perante um governo que, utilizando o medo como arma, ultrapassa, e em
muito, o que está acordado com a troika.
E fá-lo sem qualquer pejo, como
aconteceu logo a seguir ao acordo de concertação social onde o governo
assegurou que em matéria laboral se tinha ido mais além do acordado.
Fá-lo também com consciência de
que a austeridade não chega de igual modo a todos. Veja-se o caso do Banco de
Portugal, dos novos contratos para cargos governamentais, que preveem 14 meses, sem, no entanto, lhes chamar subsídios de
férias e de natal ou das recentes nomeações para a EDP onde a contenção
salarial é coisa que não existe.
Este orgulho de ir até ao limite
do razoável, atropelando direitos laborais e desmantelando o estado social
faz-nos perceber que o poder está nas mãos de neoliberais que, neste momento,
apenas querem mostrar serviço à dupla Merkel - Sarkosy.
Poderíamos ficar aqui a fazer
considerações de vária ordem e esquecer o essencial. O grande problema é que,
neste momento, muita gente passa por dificuldades. Estes cortes generalizados,
por vezes cegos, estão a originar o desmoronar de pequenas e médias empresas,
mandando para o desemprego milhares de pessoas. Retirar dinheiro à economia
neste momento agudiza a crise e não há pastéis de nata que nos valham.
Aqui nos Açores, apesar de termos
as contas em ordem, estamos também a apanhar por tabela. A crise está aí,
ninguém duvida.
O PSD, cá como lá, apesar da
pouca margem de manobra, tenta, a todo o custo, dar a paternidade desta crise
aos adversários políticos esquecendo-se que o povo tem os olhos bem abertos e
já não vai em balelas.
Homem multifacetado que deu muito de si e do seu saber aos outros
(09/01/1925 – 02/05/1995)
O senhor Luíz Coelho era bastante
alto e aproveitava esse fator para, nos finais de tarde do período estival,
fazer alguns pontos nos jogos de voleibol que se prolongavam até ao anoitecer.
Apesar de serem jogos informais, feitos com a roupa que se trazia no corpo,
eram levados muito a sério.
O campo de S. Francisco enchia-se
de gente - uns a jogar e outros a assistir, como eu - num convívio em que as
piadas disferidas durante o jogo, no recinto ou fora dele, por vezes
despoletavam pequenas escaramuças logo desfeitas pelo bom senso dos
participantes mais calmos, como era o caso dele.
Profissionalmente esteve sempre
ligado a máquinas e a motores. Era disso que gostava.
Foi responsável técnico pela
Central Elétrica da Câmara Municipal durante muitos anos. Naquele tempo a
eletricidade era desligada à 1 da manhã. Para avisar a população de que estava
perto dessa hora era feito um sinal de luz por duas vezes. Quando esse sinal
tinha mais uma componente todos sabiam que havia um problema nos motores e que
o funcionário requeria a presença urgente do senhor Luíz Coelho para o
resolver. Nesse tempo isso acontecia com muita frequência.
Era funcionário da Rádio Farol
que fornecia importante apoio à navegação aérea. Nunca percebi porquê, mas
aquela estrutura era um ponto de visita e, quando lá ia alguém, o senhor Luíz
Coelho explicava como aquilo funcionava e mostrava com orgulho os motores
impecavelmente mantidos que, segundo as suas exemplificações, arrancavam quando
faltasse a energia da rede pública.
Os seus conhecimentos fizeram com
que fosse chamado a dar apoio técnico à fábrica de conservas do senhor Manuel
Barcelos e à primeira máquina debulhadora que veio para a Graciosa.
Era um amante do mar. Ao leme da
sua lancha “Júpiter” facultava alguns passeios aos visitantes e chegou a
colaborar em algumas expedições de carater científico ao redor da Graciosa.
Participou ainda na gestão da
companhia baleeira do Mota (Pico) e foi presidente da direção do Santa Cruz
Sport Club.
Foi também diretor da Adega
Cooperativa da Ilha Graciosa, numa altura em que o vinho verdelho e a
aguardente davam prestígio a esta ilha.
Era, também, um radioamador
reconhecido a nível regional. No âmbito desta atividade lúdica prestava apoio
aos habitantes da ilha quando falhavam as comunicações.
No sismo de 1 de janeiro de 1980
as comunicações claudicaram e foi através do senhor Luiz Coelho que as
autoridades souberam o que se tinha passado na Graciosa, como foi através dele
que os graciosenses ficaram a saber da catástrofe que se tinha abatido na
Terceira e S. Jorge. Eu próprio, apanhado na Terceira por esse desastre natural
e perante a inoperância do telefone, só tive notícias da minha família e dos
estragos que afetaram sobretudo a zona sul da ilha, através de um contato que
alguém terá feito com o senhor Luíz Coelho.
Era um “engenhocas”. Improvisava,
mas, o que é certo e sabido, é que arranjava solução para tudo. A sua oficina,
de fazer inveja a muitos profissionais, tinha ferramentas de todos os géneros, mas
quando a reparação exigia um utensílio especial, lá estava ele a inventá-lo na
medida certa.
Naquele tempo, quase ninguém
tomava decisões sobre equipamentos, motores ou automóveis, sem receber a sua
“aprovação” e, claro, de forma gratuita.
Luíz José Coelho foi um homem multifacetado que deu muito de
si e do seu saber aos outros, por isso tem lugar cativo na galeria dos
Graciosenses que se destacaram.
Desde 2004 que a Agraprome
(Associação Graciosense de Promoção de Eventos), nessa altura ainda em fase de
constituição, organiza, com alguma frequência, eventos de natureza subaquática,
por acreditar que os mares dos Açores constituem um património de valor
incalculável. A beleza dos seus fundos conjugada com a temperatura amena das
suas águas, a excelente visibilidade e a biodiversidade, fazem dos Açores um
destino de eleição para mergulhadores de diversos níveis, desde os
principiantes até aos que exigem maiores níveis de dificuldade, passando pelo
mergulho técnico.
Foram três fóruns sobre turismo
subaquático, dois campeonatos nacionais e três open’s internacionais de
fotografia subaquática, organizações que abriram os mares da Graciosa e dos Açores
a inúmeros mergulhadores que transformaram muitas fotografias em autênticas
obras de arte, algumas plasmadas num livro que aquela associação publicou em
2008, denominado “Graciosa, a capital do mergulho”.
Tem sido uma aposta certa, sem
dúvida. A partir de determinado momento este mercado passou a ser visto de
outro modo e agora promove-se os Açores como destino de mergulho em diversas
feiras mundiais.
Prevê-se o aumento da procura nos
próximos anos no nosso país, por isso temos de estar atentos e trabalhar no
sentido captar parte desse crescimento.
É para isso que a Agraprome
trabalha e foi por isso que apresentou, em meados de 2011, uma candidatura para
organizar o 1º Campeonato da Europa de Fotografia Subaquática, ao conselho
geral da Confederação Mundial de Atividades Subaquáticas que se realizou em
Roma.
Já abordei estas questões
diversas vezes, neste e noutros lugares, mas agora, infelizmente, pelas piores
razões.
A Agraprome tinha muitas
expectativas nesta prova. Era um passo importante para a consolidação da
internacionalização dos eventos deste género realizados na Graciosa e nos
Açores, pois previa-se a participação de, pelo menos, 16 países do continente
europeu e eram esperados também jornalistas de revistas e sites da especialidade. Era de facto uma jornada importante e que
trazia, implicitamente, uma grande responsabilidade aos organizadores, já
habituados a esse peso.
Depois de atribuída a sua
organização e de anunciada a data da sua realização, soube-se agora que esta
prova foi cancelada pelo facto da Federação Portuguesa ter sido sancionada com
uma suspensão de 2 anos.
Foi uma desilusão, não haja
dúvida. Foi um contratempo com que a Agraprome não contava, de todo.
Mas nestas coisas a adversidade
põe à prova as instituições e fortalece-as.
Hoje foi inaugurado mais um reservatório para abastecimento
de água aos agricultores da Ilha Graciosa.
Com uma capacidade de 250 metros cúbicos, irá beneficiar 30
explorações com uma superfície de 210 hectares, este reservatório situa-se no
caminho do Pinheiro, na Praia, e custou 53,9 mil euros.
Aparecer na televisão todos os
dias é uma tentação. Dar a ideia da omnipresença pode fazer bem ao ego e
transmitir a ideia de dinamismo, entrega e defesa da causa pública.
Mas há limites, impostos, mais
que não seja, pelo bom senso, que nestas coisas por vezes é bom conselheiro. Não
vale tudo por uns momentos de fama.
Tal exposição mediática, por
vezes frenética, só deveria acontecer quando se tem algo para dizer ou uma boa
nova para anunciar, porque as pessoas estão fartas de opacidades e de joguetes
feitos apenas para benefício próprio e, desculpem a expressão, maribando-se para aqueles que deveriam
ser os verdadeiros destinatários da sua ação política.
Quando se esgotam ideias há quem
se empenhe em utilizar as ideias dos outros. Foi o caso da divulgação de que o
novo envelope financeiro seria igual ao atual quadro comunitário de apoio,
anunciado como se fosse uma conquista, quando essa informação já tinha sido
disponibilizada pelo Governo dos Açores em junho de 2011. É o outro caso
recente da defesa do POSEI para os transportes, como se fosse uma ideia
original, quando a verdade é que outros já o tinham defendido no passado.
Enfim, tem-se visto de tudo,
coisas incríveis, como estas, e que configuram um vazio de imaginação. Agora,
quanto mais nos aproximamos das eleições regionais, as coisas vão-se agravando,
sem sombra de dúvida.
É ver numa ilha desta região uma
líder partidária inaugurar uma obra de um município, que não o dela, descerrando
placa e tudo. É ver, noutro concelho, que também não é o dela, a mesma líder
partidária falar num jantar de idosos pago pelo município dirigido pelo mesmo
partido.
Não estou a ver em que qualidade isso
possa ter acontecido. Se foi como líder de um partido político, é, então, porque
já não há discernimento…
O senhor Manuel Barcelos foi um
empreendedor com visão de futuro. Perante as dificuldades da altura em que
viveu, soube erguer uma conserveira, que primeiro se instalou no edifício da
Casa do Povo da Praia e depois foi transferida para uma fábrica construída de
raiz, na Rochela onde está hoje sedeada uma empresa de construção civil. Estava
dotada de equipamento moderno e uma boa rede de frio. Construiu também uma
frota de vários atuneiros, com uma capacidade apreciável para capturas de atum.
Para quem não conheceu é difícil
imaginar a azáfama no porto da Praia e na linha de fabricação que a atividade
da empresa provocava.
Na revista Açores – Madeira,
publicada em 1955, Manuel Barcelos era caracterizado como “Braço forte e visão rasgada; incansável e exemplar homem de trabalho”
e mais à frente refere que ”vai dotar a
sua estimada ilha Graciosa com uma Fábrica de Conservas que ficará a ser a mais
importante dos Açores e uma das melhores do País”. No mesmo artigo, aquela
revista refere, e passo a citar, “a nova
fábrica, que ocupará uma área de 5 mil metros quadrados, e cujo custo,
devidamente apetrechada, orçará por cerca de 3 mil contos, constitui, de
verdade, um grandioso empreendimento a que o nome e a ação do seu realizador
ficarão honrosamente ligados”.
Se vivesse hoje, com os apoios
que existem, decerto que este empresário estaria entre os melhores e com uma
carreira de sucesso, porque a sua capacidade empreendedora foi sempre maior que
as dificuldades que o perseguiram.
Vale a pena também referir outras
qualidades, invulgares para aquele tempo. Graças o seu apurado sentido de
responsabilidade, fazia honra em cumprir com os descontos para a segurança social
dos seus trabalhadores, de tal modo que hoje muita gente, sobretudo mulheres,
tem a sua reforma devido a essa preocupação para com o próximo.
Era prática corrente daquele
empresário, também, dar trabalho aos homens em pomares e outros prédios, quando
a fábrica não laborava, garantindo àqueles o seu ganha-pão em permanência,
facto que também era raro naquele tempo e muito relevante, mesmo tendo
consciência do prejuízo que isso lhe acarretava.
O senhor Barcelos foi derrotado
pela falta de condições que reinava naquele tempo, nomeadamente pelas avarias
nos equipamentos e pela ausência de um porto de abrigo que possibilitasse o
alargamento da safra a mais alguns meses.
As suas qualidades fazem dele um
cidadão de reconhecido valor e mérito, com grandes capacidades empreendedoras e
dotado de um notável e invulgar sentido de justiça social.
O estado português vendeu, há
poucos dias, uma participação na empresa Eletricidade de Portugal (EDP),
conforme estava previsto no memorando de entendimento com as organizações
internacionais, aquando do pedido de assistência financeira.
Desta venda espero que o país
tenha saído a ganhar e que, conforme muitos recearam, não tenha sido vendida a
preço inferior ao seu valor. Acredito que os interesses de Portugal deverão ter
sido acautelados, para bem de todos nós.
Neste processo de privatizações
outras empresas se seguirão, umas com mais implicações para os Açorianos do que
outras, como tem sido muito falado e, ainda muito mais, discutido na
comunicação social que tem dado um enfase especial a este tema, como aquele a
que se assistiu no caso da RTP, que tem implicações diretas na nossa RTP
Açores, ou no caso da ANA, que está ligada a questões como investimento e
gestão em aeroportos da responsabilidade da república.
Depois de um procedimento deste
nível, em que o estado sai voluntariamente de uma empresa que passa para a esfera
da iniciativa privada, o que se espera é que também se afaste de maneira a
deixar de influenciar a sua gestão, como é lógico e, diga-se com todo o rigor,
legítimo.
Na EDP não terá sido bem assim.
Quando se esperava uma atitude consentânea com a de um proprietário que acaba de
vender, surgem as nomeações para o Conselho de Supervisão onde estão incluídos,
proporcionalmente como convém, membros dos dois partidos que dominam o governo
e ainda de mais alguém que é muto próximo do Presidente da República. E claro,
alguns acumularão vencimentos milionários com as pensões mais pequenas, é
certo, mas já de si milionárias também.
Isto está a acontecer numa
empresa agora privatizada, imaginem o que virá a acontecer às outras.
Veja-se o recente caso das Águas
de Portugal, onde se constata a nomeação de autarcas do PSD e do PP, um deles
com um processo pendente nos tribunais precisamente em litígio com a empresa
que agora vai administrar.
Mais uma vez Passos Coelho faz
precisamente o contrário do que defendeu e prometeu na campanha eleitoral que o
levou à vitória. O problema é que esta sua postura está a tornar-se crónica.
O Luís Costa, autor do blogue Graciosa
Online, lançou a ideia e fez-me o convite. Claro que aceitei, mesmo correndo o
risco de poder não estar à altura deste desafio.
Pretende-se com esta rubrica
falar um pouco das pessoas que, de uma maneira ou de outra, contribuíram ou
contribuem para o desenvolvimento social, desportivo, cultural e económico da
nossa ilha.
A abordagem deste tema terá uma
formatação simples e tratará o assunto mais pela perspetiva de como a minha geração
viu e vê estes nossos concidadãos, sem grandes recortes históricos ou
formalismos literários.
O ser humano tem a memória curta,
já sabemos, mas é nossa obrigação, pelo menos cívica, de reconhecer e lembrar
as contribuições que mulheres e homens deram para que possamos todos usufruir
de um futuro melhor.
Iremos recordar pessoas
diferentes, de estratos sociais distintos. Vamos ter por aqui gente mais ou
menos simples, com mais ou menos valor, uns com estudos e outros não, mas,
garantidamente, terão em comum o amor pela Graciosa.
Não é intenção de nenhum de nós
rivalizar com quem quer que seja. Apenas queremos dar mais um contributo ao
reconhecimento e ao valor.
A mobilidade de pessoas e bens e
o turismo interno constituem, sem dúvida, uma mais-valia para a nossa região.
No período estival quando nos
abeiramos de qualquer porto dos Açores verificamos, por entre o buliço natural
daqueles espaços de partida e de chegada, que muitos dos viajantes são jovens
ou idosos que aproveitam os programas de mobilidade interna que foram
instituídos pelo Governo Regional.
Foi esta abertura que tornou as
festividades da região mais atractivas e com cartazes mais apelativos, com apostas
direcionadas aos diversos públicos destinatários, nomeadamente o mais jovem.
Não consigo entender como ninguém
se tenha lembrado disto mais cedo, nomeadamente aqueles que agora se dizem
iluminados e a transbordar de soluções para tudo o que seja problema. Não me
sai da cabeça como é que numa região arquipelágica como a nossa os governantes
da altura não tenham percebido que o mar que nos separa é o mesmo que nos
poderá unir. Não percebo como se pôs fim ao transporte marítimo de passageiros
de forma unilateral, sem ao menos ter uma alternativa fiável.
Enfim, foram decisões que
tornaram a vida dos açorianos muito mais difícil, mais isolada e de horizontes
mais fechados.
Hoje em dia, esquecidas que estão
estas falhas de governação que nos custaram muito caro, veem-se e leem-se
afirmações que tentam branquear o passado, como se tivéssemos memória curta.
É difícil acreditar nas pessoas
que estiveram no governo no passado e foram os responsáveis pela estatização da
economia dos Açores e pela liquidação do serviço público de transportes
marítimos de passageiros, venham agora, de mansinho, defender a iniciativa
privada e a criação de uma região económica.
Nos tempos em que o PSD dirigiu
esta região a população ativa era mais reduzida e existiam muito menos
empresas. Em 1996 tínhamos para cada dois funcionários públicos três na
privada. Agora essa relação é de cinco empregados na privada para dois
funcionários públicos. Por aqui se vê a diferença.
Chega-se assim à conclusão que
estas parangonas são apenas fogachos políticos de baixo teor de credibilidade.