9 de maio de 2012

Gerir com paixão



Francisco da Cunha Vasconcelos Oliveira

(22/12/1939 – 31/03/1987)

Naquele dia 13 de agosto de 1976, quando eram sensivelmente duas horas da tarde, o iate Espírito Santo, com a matrícula SG-16-TL, saiu do porto das Velas, tal como fizera inúmeras vezes. Tinha acabado de descarregar a mercadoria vinda da Terceira e destinada àquela ilha, ficando ainda no porão muita carga destinada ao próximo porto de escala, desta vez no Pico.

O mar estava calmo naquela tarde de verão. A bordo seguiam também muitos passageiros que aproveitavam aquela ligação à vizinha ilha do Pico. À saída do porto, e quando nada fazia prever tal desfecho, o barco adornou suavemente, inundando a casa das máquinas e as salas repletas de passageiros. Esta situação terá sido provocada pela elevada concentração dos passageiros a bombordo do barco. A carga mais pesada, constituída por bidões com asfalto e ferro destinado à construção civil, terá corrido colocando a embarcação numa posição perigosa. Foi o pânico a bordo. De terra foi possível observar o acidente e por isso vieram várias pessoas e alguns barcos prestar socorro aos passageiros e tripulantes. Gente corajosa e anónima terá regressado várias vezes à inundada embarcação para retirar outros passageiros que se terão atrapalhado no meio de toda aquela confusão.

O balanço foi trágico. Neste acidente pereceram sete pessoas, seis eram passageiros e um fazia parte da tripulação. Depois das manobras de salvamento e da retirada dos corpos, o barco Espírito Santo foi rebocado até ao porto da Horta e, mais tarde, dirigiu-se para o estaleiro de Santo Amaro, no Pico, onde foi recuperado, tendo navegado até ao ano de 1992.

O senhor Francisco da Cunha era conhecido como um homem humilde, bondoso e de trato fácil. Naquela altura era gerente dos Transportes Marítimos Graciosenses, empresa com um capital social de cem contos, dividido equitativamente por vinte sócios. Mal foi conhecida a notícia do acidente o senhor Francisco tratou de ir, primeiro, até S. Jorge e, depois, até à Horta para se inteirar da situação, avaliar os danos e resolver o que tinha de ser resolvido. Foi uma árdua tarefa que desempenhou com zelo e rapidez, como o caso requeria.

Naquela data a empresa detinha apenas o velhinho Espírito Santo de madeira construído em frente à casa do Dr. Vinício Albuquerque, na Praia, pelo mestre Manuel Joaquim de Melo, que tinha vindo do Pico para esse efeito. O Fernão de Magalhães, também de madeira e vocacionado para o transporte de cargas, tinha saído do serviço nesse mesmo ano.

O senhor Francisco da Cunha não era um gerente qualquer. Para ele, gerir aquela empresa não era um trabalho na verdadeira aceção da palavra, era mesmo uma paixão, vivida intensamente na “onda” deste arriscado negócio. Essa entrega desmedida era visível nos bons momentos, quando se inebriava pelo reconhecimento que era atribuído à empresa pelos serviços que  emprestava ao Grupo Central dos Açores, e, também, nos momentos de enorme sofrimento, como foi o caso daquele fatídico dia. Era nesses momentos difíceis que consumia cigarros atrás de cigarros, como que para aliviar a tensão provocada pelas inúmeras preocupações que o iam consumindo.

Na qualidade de gerente, foi decisor nas diversas tentativas de fusão de pequenas empresas congéneres. A recusa em aderir a essas propostas esteve sempre ligada ao facto dos Transportes Marítimos Graciosenses poderem vir a perder peso na estrutura acionista e ser previsível a deslocalização da sede da futura empresa da sua tão amada Graciosa para outra ilha qualquer.

Esteve envolvido na elaboração de um projeto para a construção de uma nova e moderna embarcação, que chegou a apresentar e a discutir em várias assembleias gerais da empresa. As vicissitudes da vida desta empresa levaram-na noutro sentido. Em setembro de 1992, alguns anos depois da morte do senhor Francisco, o velhinho Espírito Santo, embora abrigado no interior do porto da Praia da Vitória, não conseguiu resistir às tempestades Boney e Charlie, que assolaram a Região quase em simultâneo, acabando por naufragar, desta vez de forma irremediável. Aqui, a empresa, devido à urgência que o caso implicava, optou por adquirir um barco de ferro na Noruega que tomou o seu lugar e, inclusivamente, o seu nome.

O senhor Francisco da Cunha foi também proprietário de um forno que, de um modo artesanal, fabricava telha regional que era vendida localmente e ainda exportada para outras ilhas do Grupo Central. Naquele tempo esta indústria tinha um peso importante na economia da Ilha Graciosa.

Trabalhou alguns anos na Santa Casa da Misericórdia da Vila da Praia da Graciosa. Depois ingressou na Conservatória do Registo Civil e Notariado de Santa Cruz da Graciosa, onde trabalhou até ao dia da sua morte.

3 de maio de 2012

A primeira vítima


Quer se goste ou não do estilo, o “Bom Dia” de Pedro Moura é uma programa de televisão que cumpre, na integra, a missão de serviço público nos Açores. Ninguém se admira de este ser dos mais vistos na RTP-Açores.

Quando as reportagens são de pequenas comunidades, das ilhas mais pequenas ou de assuntos menos relevantes e não cabem nos noticiários tradicionais, têm sempre à sua espera um lugarzinho no “Bom Dia”. Muitos são os entrevistados do Pedro Moura que nunca teriam hipóteses de aparecer no Telejornal e que ali têm espaço para apresentarem os seus projetos, recebendo, em troca, um apoio incondicional daquele jornalista, que valoriza o trabalho e empenho de muitas associações espalhadas por este arquipélago.

Sabe-se agora que a emissão do “Bom Dia” vai terminar. Assim, sem mais. De qualquer dos modos este tipo de programas já tinha sido condenado pela ordem, vinda de Lisboa, de concentração do horário de emissão. O “Bom Dia” de Pedro Moura é, assim, a primeira vítima da transformação da RTP-Açores numa mera janela.

O ministro Miguel Relvas não percebeu ou não quer perceber que a RTP-Açores não é um canal de televisão qualquer. Na sua génese esteve a coesão de uma região composta por nove ilhas e muito mar e, neste momento, a RTP-Açores representa um instrumento que contribui, e muito, para o fortalecimento da nossa Autonomia. Transformar o futuro da televisão dos Açores numa mera questão economicista é de muito mau gosto, sobretudo quando se sabe que o problema deste canal nem sequer reside aí.

Os Governos dos Açores do Partido Socialista sempre entenderam que o financiamento do serviço de rádio e televisão é da responsabilidade da República Portuguesa, mas, mesmo assim, criaram condições técnicas para que fosse possível cobrir com alguma qualidade e regularidade os acontecimentos de todas as ilhas, em nome da coesão regional.

Confrangedora é a posição do PSD-Açores sobre a televisão e rádio da região. Aliás, o PSD-Açores de Berta Cabral, quando esta questão se levantou, esteve sempre incompreensivelmente errático, daí ter revelado não uma, mas várias posições sobre esta matéria e sempre de modo a proteger o governo de Passos Coelho, atirando para trás das costas o superior interesse dos Açores. Primeiro o financiamento deveria vir da Lei das Finanças Regionais. Depois deveria ser o Estado Português a suportar a totalidade do financiamento. Agora dizem que a solução passa por uma empresa com capitais nacionais, regionais e privados.

Quando se esperava do PSD de Berta Cabral uma posição de força perante Passos Coelho e companhia, vê-se apenas submissão e incapacidade para reivindicar um direito que nos assiste.

26 de abril de 2012

Abril sempre


Na primavera de 1974 muitas foram as esperanças depositadas no futuro de Portugal. O país abria-se ao mundo, enquanto se dava por finda uma guerra que matou e mutilou muitos concidadãos. A educação foi alargada a todos tal como a saúde passou a ser um direito de todos os portugueses. Os trabalhadores conquistaram direitos até então proibidos. Foram o 13º e 14º meses, os vínculos às entidades patronais, o apoio na maternidade, a igualdade de oportunidades, a dignificação das carreiras profissionais, a valorização dos salários, os direitos de aposentação, o direito à greve, entre outros. A implementação de políticas de proximidade através do poder local e a liberdade de expressão foram também importantes conquistas.

Eram estes os ideais de Abril que levaram os corajosos militares à rua para derrubar um regime déspota e promotor de desigualdades a todos os níveis. O povo cedo percebeu o que estava em causa e, desde logo, deu o seu inteiro apoio ao Movimento das Forças Armadas nesta revolução dos cravos.

Nestes trinta e oito anos a democracia portuguesa sofreu contratempos, com avanços e recuos, mas nunca esteve tão ameaçada como agora.

Todos os dias o Governo da República impõe medidas que vão no sentido de desmantelar essas conquistas. Os trabalhadores a cada dia que passa perdem direitos que são inalienáveis, ou pelo menos eram até há bem pouco tempo.

A desregulamentação do trabalho, a mobilidade de qualquer maneira, os encargos com os despedimentos a preços de miséria, o corte dos subsídios de férias e de natal, o congelamento das reformas antecipadas, o aumento desmesurado de impostos, são o pão não de cada dia. Depois vem a perigosa tentativa de liquidação do Serviço Nacional de Saúde e as restrições do acesso à educação. A reforma autárquica, feita a régua e esquadro sem qualquer respeito pelas especificidades, vai destruir, de uma forma indecorosa, a matriz identitária de muitas comunidades.

Estas medidas não só colidem com o espírito de Abril, como foram elas o motivo pela qual os militares saíram às ruas deste país.

E não me venham com a desculpa da troika, porque grande parte destas armas com que o Governo de Passos Coelho combate o seu próprio povo, estão para lá do exigido pelo memorando assinado com as instâncias internacionais.

Compreendo aqueles que faltaram à cerimónia oficial das comemorações do 25 de Abril, porque ainda nos resta esse direito, o direito à indignação.

25 de abril de 2012

Pioneiro na hotelaria


Brivaldo Bettencourt Santos

(21/06/1895 – 17/11/1984)
Naquele tempo, crianças com éramos, parecíamos todos felizes. Nas férias brincávamos de manhã até à noite, apenas com uns intervalos para as refeições. Em altura de escola aproveitávamos os tempos que nos davam os nossos pais para brincar e jogar. E não se pense que eram brincadeiras simples. Exigiam de nós força, destreza física, resistência, imaginação e espírito de grupo.

Não tínhamos computador ou play station. Não havia televisão e os livros eram poucos. Mas mesmo assim tínhamos uma panóplia de jogos à nossa disposição, como a barra, o rato de sociedade, o pião, a navalha e, por último, o quartel-general, que nos entretinham durante todo o ano, revezando-se por épocas estabelecidas por nós de forma quase automática e de maneira a nunca fartar. Para além destes, ainda havia tempo para corridas com babosas no íngreme cerrado do senhor Carlos da Marina no Monte da Ajuda ou com carros de ladeira.

Quando íamos para os lados do Coval para mais umas corridas, passávamos pela Pensão Graciosa, do senhor Brivaldo Santos. Pela manhã aquele cheirinho a café de cevada, que vinha da sua afamada cozinha, invadia a rua.

Dos cinco quartos da Pensão Graciosa quatro ficavam no primeiro andar e um no rés-do-chão. Todos tinham um lavatório de louça encastrado em armações de ferro, onde se viam as toalhas impecavelmente dobradas. Das alvas camas sobressaía a dobra dos lençóis com lindos bordados. A escada e o corredor estavam forrados com plantas. No rés-do-chão havia uma loja que era usada pelos inúmeros caixeiros-viajantes que demandavam esta ilha, como mostruário dos seus produtos para serem apreciados pelos comerciantes locais.

Era nessa loja, quando não estava ocupada pelos clientes, que o filho, Valdemiro Santos, e o sobrinho, Luís Avelino, montavam uma sala de cinema, destinada a jovens, com filmes de oito milímetros, normalmente do Bucha e Estica. Um escudo era o suficiente para pagar a entrada e mais alguns centavos davam para um copo de sumo e as pipocas da praxe. Passávamos assim as tardes de domingo.

Muito antes, e tal como muitos jovens da sua idade, o senhor Brivaldo teve de emigrar, quando tinha apenas 18 ou 19 anos de idade. O Brasil foi o seu destino. Regressa quando perfaz 25 anos e emprega-se numa chapelaria instalada nos baixos da antiga casa do senhor Eurico Vieira da Costa.

No início dos anos vinte resolve abrir uma pensão. O Carapacho foi local escolhido para instalar o primeiro estabelecimento do género na ilha, impelido pelo despertar da procura das águas “milagrosas” daquela zona. Não deve ter sido fácil empreender tal estrutura num local que, na altura, era de difícil acesso. Em 1924 inaugura a Pensão Graciosa, na casa da família do senhor José Araújo. É nessa altura que a sua cozinha ganha fama. Passaram por lá excelentes cozinheiros como o Carlos Pereira Valentim ou o Caetano Álvaro da Cunha. Consta que este último terá sido convidado a ir até Lisboa pelo Presidente da República de então, General Craveiro Lopes, aquando da sua visita a esta ilha em julho de 1957, precisamente por ter gostado do que comeu. Caetano Álvaro da Cunha fez a sua carreira no Palácio de Belém, onde chegou a chefe de cozinha.

O senhor Brivaldo optou depois por reduzir a atividade e transferiu a Pensão Graciosa para o Coval, donde partimos para esta nossa pequena crónica.

Além da sua vida profissional, fez parte das primeiras direções do Graciosa Futebol Clube. No entanto é na Filarmónica Recreio dos Artistas, agora quase a completar cem anos de existência, que exerceu mais cargos. Foi mestre de sala, função que, naquele tempo, era considerada importante pelo papel na organização das festas, sobretudo bailes. Destacou-se também como ensaiador e ator do grupo de teatro daquela instituição, tendo, numa ou noutra qualidade, levado à cena, entre outras peças, “O Amigo de Peniche” e ”Na Boca do Lobo”. Ainda coreografou inúmeras fantasias de carnaval que se apresentavam em todos os clubes da ilha.

O senhor Brivaldo Bettencourt Santos foi, sem dúvida, um pioneiro na hotelaria e um dinamizador cultural, que merece ser destacado pelo espírito empreendedor e pela sua entrega ao serviço da comunidade Graciosense.

19 de abril de 2012

Regresso ao passado


Da magna reunião do PSD-A que ocorreu no passado fim-de-semana esperava-se muito mais. E esperava-se sobretudo porque este partido tem legitimas ambições de chegar ao poder no próximo escrutínio, que ocorrerá em outubro do corrente ano. No entanto quando terminou este congresso os açorianos apenas puderam chegar a três conclusões óbvias:

- a dra. Berta Cabral é devota do Espírito Santo;

- Passos Coelho não sabe o primeiro nome da dra. Berta Cabral;

-a dra. Berta Cabral quando fala em mudança e renovação é a brincar.

A devoção que nutre pelo Espírito Santo é de respeitar e ponto final. Agora o anúncio de que só deixará a Câmara Municipal de Ponta Delgada depois das festas em seu louvor, deixa muitos açorianos desconfiados relativamente a uma manobra, mais uma, de mero oportunismo político. Foi dito que tem uma boa capacidade de trabalho e que consegue conciliar as duas funções, autarca a tempo inteiro e candidata a presidente do governo. Este dom da ubiquidade permite-lhe, segundo se infere das entrevistas pós-congresso, dirigir uma autarquia e ao mesmo tempo andar de ilha em ilha em campanha, restando ainda algum tempo para dar uns saltinhos ao estrangeiro.

Depois vem a troca do primeiro nome da dra. Berta Cabral perpetrado pelo seu mentor, Passos Coelho. É vulgar esquecermo-nos do último nome de pessoas amigas ou conhecidas, mas trocar o primeiro é grave.  

Por último vem a história da renovação para a mudança. Já vi renovações mais ou menos, já vi renovações tímidas ou renovações parciais, mas, sinceramente, nunca tinha visto uma renovação que é uma espécie de regresso ao passado. Foi uma autêntica repescagem de gente com mais de trinta anos de atividade política.

Esta nunca nos tinha passado pela cabeça.

12 de abril de 2012

Do empenho à mentira


Quanto mais perto do período eleitoral mais as coisas mudam, já se sabe. Mais empenho, mais ideias, mais opiniões, mais visitas, mais sorrisos, mais palmadinhas nas costas, enfim, os partidos apresentam-se com uma dinâmica diferente, com mais disponibilidade e com maior sensibilidade para resolver os problemas dos cidadãos.

Embora haja quem não concorde, esta postura é perfeitamente normal nas democracias. É nessa altura, no fim das legislaturas, que os partidos políticos tentam passar a mensagem do que defendem e o que farão caso vençam as eleições. Esta estratégia, sendo bem aproveitada, pode até contribuir para a conceção dos manifestos eleitorais, amplificando, deste modo, a vontade popular.

O problema é que nem sempre é assim tão linear.

Há gente por aí que teima em recorrer a qualquer meio para tentar aproveitar estes momentos para espalhar inverdades de variadíssimas maneiras. Umas vezes a coberto de formas oficiais e outras não. Não sendo invulgar é, no entanto, um método indigno destinado a ludibriar as pessoas mais incautas que se atemorizam com estas posturas. Socorrem-se de outros que, por sofrerem de partidarite aguda, lhes passam informações de forma deturpada, fruto de recalcamentos antigos.

É assim. Daqui para a frente vamos ver um pouco de tudo, infelizmente. Desde falsificações de documentos até conspirações para se ver quem se vai tramar a seguir, algumas consumadas nas próprias instituições que lhes pagam os salários, vamos ver de tudo.

Não podemos, no entanto, permitir que esta prática vingue. Os partidos da nossa praça devem condenar liminarmente estes processos baixos e rejeitar esta gente que, sem ponta de coragem para assumir o que fazem, refugiam-se nestes métodos muito pouco éticos.   

Por isso é necessário estarmos todos atentos e não deixar passar impunemente estas manobras, venham de onde vierem. Uns serão responsabilizados politicamente à boca das urnas, enquanto os outros terão de assumir as consequências dos seus atos.

10 de abril de 2012

Político determinado



Gui Heber Bettencourt Louro

(13/02/1936 – 16/04/1982)

No dia 11 de julho de 1981 estava a cumprir o serviço militar em S. Miguel. No quartel da Castanheira preparei-me para ver na televisão do bar um momento importante para todos os Graciosenses: a inauguração do aeroporto.

Nesse tempo, e até essa altura, a mobilidade de pessoas e bens acontecia unicamente por via marítima. Eram os tempos de glória do velhinho Ponta Delgada, que, até aí, aportava em todas ilhas, primeiro de oriente para ocidente e depois ao contrário. Nos verões havia o reforço das ligações marítimas feitas pelos barcos Espírito Santo, Santo Amaro e Terra Alta, que, em vagarosas viagens, iam resolvendo as nossas necessidades mais prementes, por vezes em condições bem severas, que faziam de cada viagem uma aventura que, quando contada aos amigos, podia dar uma história.

Naquele dia todos os caminhos iam dar ao novo aeroporto e a população acorreu em força, passando pela antiga canada Nova, agora transformada numa bonita estrada, em direção á recém-construída aerogare, para apreciar a primeira aterragem de um avião comercial nesta ilha e depois ouvir os discursos da praxe, integrados na cerimónia oficial.

Estavam presentes as mais altas individualidades dos Açores e o primeiro-ministro de Portugal, Dr. Pinto Balsemão. Sinceramente não me recordo, de todo, da ordem das intervenções. Sei que foi o senhor Gui, presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa da altura, que chamou à atenção de todos os presentes e daqueles que viram através da televisão, como eu. Fez um discurso interrompido, de quando em vez, por silêncios em que fartas lágrimas escorriam pelo seu rosto. A emoção tomou conta de muitos dos presentes, que, naquele momento, também sentiram um aperto no peito. Foi a intervenção, de corpo e alma, de um homem que representava o seu povo num momento histórico em que se rompia definitivamente com um isolamento de séculos. O próprio primeiro-ministro referiu esse momento com uma contida emoção.

O senhor Gui Louro foi um dos fundadores nesta ilha do Partido Popular Democrático, agora designado por Partido Social Democrata, e em 12 de dezembro de 1976, data das primeiras eleições autárquicas após a revolução dos cravos, é eleito Presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa. Em 16 de dezembro de 1979 é reeleito e exerce o cargo até ao dia da sua morte.

É na qualidade de responsável autárquico que assiste a outros momentos importantes para a nossa ilha, como a entrada em funcionamento do porto comercial e a inauguração do entreposto frigorífico que, juntamente com o aeroporto, faziam parte dos primeiros grandes investimentos perpetrados depois da conquista da autonomia dos Açores.

O sismo de 1980 foi outro acontecimento que viveu enquanto exercia funções públicas. Foi um momento dramático, sem dúvida, que exigiu dele uma entrega extraordinária tendo em conta a necessidade de organizar todo o processo de reconstrução.



Impulsiona a constituição da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Ilha Graciosa, da qual foi sócio fundador. Conta-se que no dia do desembarque da primeira viatura dos bombeiros, feita ainda com o barco ancorado, o comandante do navio ter-se-á recusado a fazer a descarga devido aos riscos que a operação envolvia e foi o senhor Gui Louro que se deslocou ao porto para se responsabilizar pessoalmente por aquela manobra. Hoje essa viatura, embora já fora de serviço, ainda ostenta o seu nome.

Nas suas andanças na atividade política foi ainda, durante um mês, Deputado na Assembleia Regional dos Açores.

Antes de se dedicar à vida pública o senhor Gui foi funcionário do tribunal e, nessa qualidade, chega a viver alguns anos na vizinha ilha Terceira. Quando regressa dedica-se ao comércio e, mais tarde, concorre e exerce funções na Fundação Calouste Gulbenkian que, como se sabe, tinha uma biblioteca itinerante que percorria toda a ilha na busca de leitores. Nessa altura obtém a carteira profissional de solicitador função que exerce em acumulação. Os conhecimentos que possuía nessa área foram-lhe muito úteis aquando das expropriações dos terrenos onde foi construído o aeroporto.  

Nos seus tempos livres gostava de participar em caçadas com os amigos, que acabavam, invariavelmente, em alegres jantaradas. O mergulho também era uma das suas paixões, chegando a dizer aos seus mais próximos que era no mar que se sentia verdadeiramente livre. Dedicava também algum tempo a tratar da sua coleção de selos.

O senhor Gui Louro foi um político determinado e que acreditava no que fazia. Era intransigente quando estava em causa a defesa da sua amada ilha. Ao mesmo tempo era um sonhador e homem de paixões. Pela sua terra fez o melhor que soube e pôde, sem nunca esperar nada em troca.

5 de abril de 2012

Agradar a todos já não pega


Quando a presidente do PSD-Açores vem à Graciosa é em campanha, já sabemos. Noutra condição nunca cá põe os pés, mas isso é uma opção dela e temos de respeitar.

Normalmente escolhe estes momentos para dizer umas coisas que nem lembram ao diabo. Desta vez deu a ideia que quer resolver os problemas dos agricultores e da agricultura Graciosense.

É caso para perguntar:

. Onde andava esta senhora quando o leite era pago irregularmente e com mais de 12 meses de atraso?

. Onde estava quando a fábrica de laticínios fechou por não ter condições para laborar e os produtores ficaram sem rendimento e sem saber o que fazer ao leite?

. Onde andava quando o leite produzido na Graciosa era pago muito abaixo do preço pago em outras ilhas?

. Onde andava quando a Adega Cooperativa foi asfixiada financeiramente, pelo Governo do PSD, ao ponto de ter de encerrar portas?

. Onde andava esta senhora quando a agricultura definhava, sem quaisquer produções alternativas?

Estava no Governo. Podem dar as cambalhotas que quiserem para fazer passar a ideia que a Dra. Berta Cabral nada tinha a ver com isto, mas, o que é um facto indesmentível, é que fazia parte do Governo Regional da responsabilidade do PSD ou gravitava à sua volta. Por mais que os seus apoiantes queiram e tentem, nunca o poderão esconder.

Esta é que é a verdade. A Dra. Berta Cabral, naquele tempo em que os agricultores Graciosenses lutavam para sobreviver, podia fazer muito por eles, se quisesse, mas não fez absolutamente nada para evitar o colapso iminente de um setor que não tinha futuro à vista. Por isso nunca poderá isentar-se de responsabilidades na quase liquidação de um setor que foi necessário reerguer das cinzas a partir de 1996.

Hoje, felizmente, a Dra. Berta Cabral pode ver, quando por cá passa, uma agricultura moderna, com agricultores jovens e confiantes no futuro, com investimentos que rivalizam com os melhores dos Açores. Pode ver uma ilha que conquistou um elevado estatuto sanitário e com um rendimento por hectare superior à média regional. Pode ver a nova e moderna fábrica de laticínios, cuja construção o Governo a que pertenceu nunca teve a coragem de fazer. Pode ver que os produtores de leite recebem a tempo e horas, tal como pode apreciar investimentos em floricultura e horticultura, inexistentes no seu tempo. E pode constatar, ainda, que existem projetos importantes em desenvolvimento como a Adega e Cooperativa, o Centro de Recria ou o Matadouro Industrial.

Ainda não há muito tempo esteve cá e falou muito bem deste setor, tal como o tinha feito a Dra. Maria do Céu Patrão Neves, mas agora mudou repentinamente de opinião. Porque será? Só pode ser por as coisas não lhe estarem a correr de feição.

A presidente do PSD-Açores, nesta sua frenética pré-campanha, preocupa-se em estar com estes e com aqueles, prometendo tudo, numa estratégia de agradar a todos, que, como se sabe, é contrária ao sentido de estado que um candidato a presidente do Governo deve ter.

29 de março de 2012

Muita parra e pouca uva


Confesso que não estive particularmente atento ao que se passou no congresso do PSD, mas, inevitavelmente, acabei por ouvir algumas intervenções, pois as televisões, nestes momentos altos da vida dos partidos, trazem até às nossas salas tudo o que se passa nessas reuniões magnas, com direito a repetições devidamente acompanhadas pelos comentários dos especialistas na matéria.

Uma dessas intervenções foi a líder do PSD-Açores, porque ela é, no fundo, candidata à chefia do governo dos Açores e como tal é preciso perceber o que diz, o que pensa e o que pretende, muito embora, por vezes, seja difícil encontrar coerência entre o que diz e o que faz ou fez.

Mesmo os apoiantes do PSD-Açores deviam estar à espera de um momento de afirmação da estratégia política, para levar os Açores para frente. Esperava-se a definição clara de políticas a aplicar caso vença as próximas eleições, mas o que se ouviu foi mais do mesmo e nada de novo. Umas ideias aqui e outras ali, algumas redundâncias, mas sem uma linha condutora programática fiável, que fizesse acalmar as suas próprias hostes que já desesperam por posições mais concretas.

Percebemos, nessa intervenção, que a líder do PSD-Açores receia a dureza negocial do primeiro-ministro. Ouvimos a vontade de fazer descer as tarifas aéreas, só não soubemos ,como, nem ouvimos a justificação porque, quando foi Diretora Regional dos Transportes, presidente da SATA ou Secretária Regional das Finanças, as passagens aéreas eram, mesmo assim, mais caras do que agora, apesar do petróleo ser seis vezes mais barato. Definiu-se também como uma grande lutadora nas disputas eleitorais passadas e aí só me veio à memória as autárquicas de 2009, onde os resultados dos Açores, para a líder do PSD, resumiam-se a Ponta Delgada. O resto era com os outros, os derrotados.

Como se vê é muito pouco. Esperava-se, sinceramente, muito mais neste congresso da líder do PSD-Açores. Vamos ter de aguardar por uma próxima oportunidade.

27 de março de 2012

O sobrevivente da Barra



Firmínio Rodrigues Picanço

(23/11/1931 – 23/12/2005)

O sol já ia alto quando a vigia do Pico Negro dá o sinal de baleia à vista e passa de imediato a informação ao seu colega do Monte da Ajuda. Este agarra no foguete, apressa-se para o exterior chegando a brasa do cigarro à pólvora que fez o foguete subir e disferir, com estrondo, um forte sinal ouvido em toda a freguesia. Era esta a indicação que muitos esperavam para, numa correria louca, se porem o mais rápido possível junto do seu bote, na Barra ou na Calheta para começar mais um dia de caça ao cachalote.

O Rodrigues era um homem alto e forte. Sustentava a sua família com a baleação e complementava o rendimento com proveitos advindos do mergulho. Era trancador, porventura o posto mais difícil nas companhas pois é ele que, por força da sua função, estava mais perto do imprevisível cachalote e era da sua perícia que dependia o sustento dos restantes tripulantes.

Em reação ao sinal o Rodrigues foi até sua casa na rua das Violas, agarrou apressadamente no farnel e, de calças arregaçadas, correu até à Barra onde descalçou e arriou o bote com a ajuda dos seus colegas que, entretanto, foram chegando.   

O bote Cristovão Manuel, já com o mestre José Vieira Goulart ao leme e à força dos remadores rumou até meio da baía para aí ser apanhado e rebocado pela Estefânia Correia, pois não havia tempo a perder. O mesmo terá acontecido com o bote saído da Calheta, que se pôs a jeito de ser apanhado pela Estefânia no rumo entre a Barra e o local onde o cachalote tinha sido avistado, lá para os lados do Pico Negro.

Havia uma sinalética própria desta atividade, num jogo de bandeiras que anunciavam se já existia baleia trancada ou mesmo morta. Nesse dia nada tinha sido indicado, pelo que se previa um calmo regresso a casa, muito embora de mãos a abanar.

Mas não foi isso que aconteceu, infelizmente.

Já passava das oito horas da noite quando me apercebi do exagerado movimento na minha rua, que era a mesma do Hospital.

A eletricidade ainda estava ligada mas lá fora imaginava uma noite de trevas. Ouviam-se vozes apressadas, ruído de automóveis e, depois, o choro de mulheres que subiam a rua. Algo não estava bem.

Meu pai resolveu sair para saber o que se passava, enquanto nós, eu e a minha mãe, esperávamos ansiosamente por explicações sobre o que estava a acontecer. Sim - disse meu pai no regresso - era mesmo grave. Tinha havido um acidente na caça à baleia e já existiam mortos e alguns desaparecidos.

Ficamos a tentar imaginar o que poderia ter sucedido, enquanto as horas passavam vagarosamente. As perguntas surgiam às catadupas e as respostas tardavam. O que poderia ter corrido mal?

Com o alvorecer e depois de uma noite em branco repleta de pensamentos sombrios e a imaginar o sofrimento daqueles que tinham familiares nas embarcações envolvidas, vieram as primeiras explicações.

Depois da faina a lancha Estefânia Correia fez o reboque dos botes baleeiros de regresso aos portos, tal como o fizera em muitas outras ocasiões. Deixou o primeiro na Calheta e trouxe o Cristovão Manuel até à Barra onde era varado normalmente.

Começava a escurecer e, por isso, a entrada na Barra não era fácil, muito embora a existência de dois pontos de luz, alimentados a petróleo, davam a indicação precisa do enfiamento correto para entrar de uma forma segura.

A manobra não terá corrido como se esperava. O Cristovão Manuel, empurrado pela onda na carreira da Barra, terá ultrapassado a Estefânia Correia. O mestre José Vieira Goulart, oficial do bote, prevendo o desfecho, ainda tentou a todo o custo aguentar o leme em direção a terra, mantendo o bote na esteira da onda. Não dava tempo, era preciso cortar o cabo. Correu por cima dos bancos de machado em punho, mas era tarde demais. O cabo esticou e o bote voltou-se com os seus sete tripulantes a bordo. Não é difícil imaginar o pânico daqueles homens que, embora habituados às condições adversas do mar que lhes dava o pão, terão sido apanhados de surpresa, no início daquela noite de novembro de 1967. Temendo serem atingidos pela lancha que circulava às voltas procurando sobreviventes e enredados na palamenta do bote baleeiro constituída por remos, pás, velas, mastros, selhas, cabos e ainda desorientados por não enxergarem a ilha que lhes poderia trazer a salvação, estes homens lutaram até à exaustão, constando mesmo que alguns, desesperadamente, terão nadado em direção oposta à da terra até ao limite das suas forças.

Morreram o mestre José Vieira Goulart (oficial do bote), Arnaldo de Sousa, Izalino Nunes, Gabriel Machado, Albino Horta e José Soares. Sobreviveu o Firmínio Rodrigues Picanço, aquele que, afinal, estava sempre mais perto do perigo. A sua destreza dentro de água ditada pelos anos de experiência como mergulhador e a frieza com que encarou o sinistro terão sido cruciais para escapar ao destino dos companheiros.

O ano de 1967 ficará indelevelmente marcado na nossa memória coletiva por este desastre.

22 de março de 2012

Turismo nos Açores - do oito ao oitenta


Quis o PSD – Açores levar ao Plenário da Assembleia Legislativa uma interpelação ao Governo Regional sobre o setor do turismo na Região Autónoma dos Açores.

Estranha-se, no entanto, que para um partido que critica tanto a política de turismo do Governo Regional dos Açores, apenas agora tenha trazido este tema à baila para debate.

Terá sido por acaso? Claro que não. Cedo se percebeu que esta figura regimental foi aproveitada pelo partido proponente para atacar e tentar diminuir o Secretário Regional da Economia que, como se sabe, é o candidato do Partido Socialista a Presidente do próximo Governo dos Açores que sairá das próximas eleições regionais que ocorrerão em outubro próximo.

Mas penso que este gesto terá saído como mais um tiro no pé. E têm sido tantos, ultimamente, que até já lhes perdi a conta.

Um partido como o PSD, que já governou esta região duas décadas, não se poderá proteger das responsabilidades que tem, agora que se encontra na oposição.

É preciso lembrar – e temos de fazê-lo agora com mais acuidade porque neste período pré-eleitoral algumas pessoas revelam sintomas agudos de memória curta – que o PSD deteve o poder durante muitos anos e, nessa altura, enjeitou a oportunidade desta região se afirmar no turismo.

Naqueles tempos não se construíram hotéis porque não tínhamos turistas, mas também é verdade que não tínhamos turistas porque não tínhamos hotéis. E vivíamos assim, enredados nesta teia imobilizadora que nos atirou para uma situação dramática.

Apesar disto o PSD chegou a ter um Secretário Regional do Turismo, imagine-se. Aos Açores não vinham turistas, nos Açores não existiam estabelecimentos hoteleiros, mas, mesmo assim,  o PSD tinha um gabinete completo para tratar de uma pasta que, na prática, não existia. Isto não é para qualquer um…

Foi assim que o Partido Socialista encontrou os Açores em 1996. Estava tudo por fazer e em todas as ilhas.

Foi preciso dinamizar a iniciativa privada, apostar na construção de hotéis de qualidade, promover o destino, ao mesmo tempo que se qualificava a restauração. Nalgumas ilhas, como é o caso da Graciosa, o Governo substituiu, e muito bem, a iniciativa privada na construção de empreendimentos quando o empresariado se mostrava sem capacidade financeira para o fazer.

Os resultados estão bem à vista de todos e só não vê quem não quer. O número de turistas aumentou exponencialmente, aumentando o número de trabalhadores neste setor, tal como aumentou o rendimento desta atividade, contributos importantes para o crescimento do Produto Interno Bruto da Região Autónoma dos Açores.

Passamos do oito ao oitenta. Foi uma tarefa hercúlea, que orgulha, e em muito, os Governos do Partido Socialista.

15 de março de 2012

O logro


Berta Cabral veio a público regozijar-se da boa situação financeira da “sua” Câmara Municipal, com base num ranking saído no Anuário Financeiro dos Municípios. Que era bem gerida, que estava de perfeita saúde, que tinha um dos menores endividamentos per capita, que se encontrava entre as melhores do país e sei lá o que mais. Só coisas boas.

No dia da entrevista, onde essa revelação inusitada foi feita, notei grande candura na postura da presidente da Câmara de Ponta Delgada, o que, sinceramente, fez-me lembrar que quando a esmola é grande até o santo desconfia.

Pouco depois os Açorianos vieram a saber que houve um engano e que afinal não era bem assim, antes pelo contrário. A Câmara de Ponta Delgada não estava entre as melhores 50, infelizmente. O endividamento por munícipe afinal era o dobro da que se encontrava em 50º lugar desse ranking, o que atira aquele município, afinal, para as calendas gregas da tal listagem, num lugar nada honroso.

Até o professor Marcelo Rebelo de Sousa, comentador domingueiro, ficou inebriado com a prestação da sua companheira de partido, que, depois, veio a verificar-se, tratar-se de um flop nunca desmentido, apenas porque dava jeito.

Foi com estupefação que assistimos ao silêncio depois de tamanho engano com se isso fosse de somenos importância. Os Açorianos não merecem este tipo de comportamento branqueador.

Se foi por a dra. Berta Cabral ignorar a verdadeira situação financeira da sua edilidade, é grave, mas se foi uma ação premeditada então trata-se de um ato inqualificável e impróprio para quem tem ambições políticas.

Nestas coisas a verdade vem sempre ao de cima, diz o nosso sábio povo. Descobre-se o logro e cai a máscara, digo eu.

14 de março de 2012

Humilde e culto




Edmundo da Cunha Ribeiro

(04/03/1910 – 09/08/1987)

Era na sua tenda situada na rua Serpa Pinto, por baixo do granel do senhor Francisco Barcelos, que estava sempre. De avental marcado por nódoas das tintas que usava, permanecia invariavelmente sentado de corpo curvado atrás da sua banca de trabalho, repleta de utensílios próprios da profissão. Passava horas seguidas, agarrado aos sapatos, moldando as solas, cozendo ou polindo, rodeado pelas suas ferramentas espalhadas pela banca, sempre ao alcance das suas necessidades. E sapatos, muitos sapatos, depositados num recanto da tenda esperando a sua vez para merecerem os cuidados deste artífice.

Este era o sapateiro a quem a minha família entregava os sapatos para as devidas reparações. Normalmente calhava-me a mim levar os ditos em mau estado, quase sempre de biqueira aberta devido às jogatanas no campo de S. Francisco, mais conhecido pelo campo da Rata, ou então de sola gasta pelo uso intensivo, para os ir buscar uns dias depois já como novos, prontos para mais uma temporada.

A tenda do senhor Edmundo, como era conhecida a sua oficina, funcionava, também, como ponto de encontro de muitos Graciosenses.

O chão era de cimento frio, que contrastava com o calor humano que reinava naquele espaço. Nas paredes viam-se alguns cartazes amarelados pelo tempo. Tinha um banco corrido num dos lados onde se sentavam todos aqueles que procuravam saber as novas, que, naquele tempo demoravam a chegar, trazidas pelos frequentadores e clientes que eram também os seus amigos. Num dos cantos ficava uma cadeira de vimes, mais confortável, que estava informalmente reservada ao Dr. Gregório ou ao Comandante Silveira, duas figuras de referência que não dispensavam uma presença diária naquele espaço. Por ali passavam médicos, comerciantes, sacerdotes, estudantes, carteiros, professores, etc.. Uma amálgama de gente que refletia a sociedade Graciosense.

Antes da revolução dos cravos era ali que se discutiam intensamente os assuntos que estavam na berra. Era ali que chegavam outras maneiras de ver o mundo, porque muitos dos frequentadores ouviam rádios não controlados pelo antigo regime e por aí sabiam a verdade, nua e crua, sobre o que se passava no nosso país e no mundo. Era ali que se abordavam os assuntos políticos, mais ou menos em surdina.

Acredito piamente que aquele espaço deve ter merecido a atenção da polícia política, pois muito do que lá se dizia, comentava e discutia, não era, de todo, bem visto pelo regime da altura.

Depois de Abril, com o advento das comunicações e da televisão o nosso mundo mudou, mudaram também o país, a região e a nossa ilha, mas a tenda do senhor Edmundo manteve-se inalterável. Era um local de culto para os seus frequentadores que continuaram a abordagem dos mesmos temas, só que de maneira mais desassombrada. Era o valor da liberdade.

O senhor Edmundo tocou trombone anos a fio na Filarmónica Recreio dos Artistas e terá pertencido aos seus corpos sociais, dando, assim, um contributo para a cultura Graciosense. Era um pescador de calhau exímio e, diz quem o conheceu, fazia uma caldeira muito apreciada pelos amigos. Estava sempre pronto para pregar umas partidas aos mais incautos que por ali passavam.

Apesar da modéstia e humildade o senhor Edmundo era um homem culto e que cultivava a verdadeira amizade.

8 de março de 2012

Petições


Partilho da opinião de que as petições públicas são um instrumento importante nas sociedades modernas. Qualquer cidadão ou grupos de cidadãos podem, por esta via, invocar a atenção dos poderes públicos para uma situação ou uma questão tida como pertinente por parte de quem subscreve.

Esta é uma das grandes conquistas plasmadas nos documentos fundamentais, a Constituição Portuguesa e o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores.

Curiosamente têm surgido ultimamente muitas petições, o que faz denotar a maturidade da democracia e a participação dos cidadãos nas decisões sobre políticas que afetam a sua ilha, a sua região ou o seu país.

Recentemente surgiram nos noticiários duas petições, que chamaram a atenção por serem inusitadas, na minha opinião meramente pessoal. Uma destina-se à destituição do Presidente da Republica e outra à antecipação das Eleições Regionais.

O Dr. Cavaco Silva foi eleito em janeiro de 2011 com 53,14% dos votos expressos e, por isso, quer se concorde ou não com ele, está a ocupar um cargo com a legitimidade que tão larga maioria lhe deu nas urnas.

Nas Eleições Regionais de 2008 o Partido Socialista venceu com 49,92% dos votos expressos, atingindo uma nova maioria absoluta indiscutível que lhe garantiu a governação por mais estes quatro anos.

O povo, convocado a decidir, foi muito claro e escolheu quem queria para Presidente da República e antes, em 2008, apurou o partido que lhe dava mais garantias para dirigir os Açores.

Num e noutro caso o povo vai ser chamado novamente a decidir e é nesse contexto que fará o julgamento e não de outra forma, mesmo que desse mais jeito a este ou a aquele partido.

Alterar as regras parece-me a subversão da democracia, porquanto foi esta democracia, com as virtudes e os defeitos que encerra, que proporcionou a prerrogativa dos cidadãos utilizarem esta figura de participação cívica. Não a desvirtuemos.

1 de março de 2012

O desemprego como arma


Na passada semana ficamos a saber que o desemprego nos Açores se situava nos 15,1 %, valor mais alto do que o registado no conjunto do país.

Logo tivemos quem se apressasse a atacar o Governo Regional dos Açores acusando-o de não ter conseguido estancar este drama que afeta muitos Açorianos, sobretudo o mais os jovens. Basta folhear os jornais e logo se veem os títulos garrafais de crónicas dos comentadores políticos dizendo isso mesmo.

Esta reação era esperada. Ainda recentemente vimos caras com ares de consternação apenas pelo facto de na Região Autónoma dos Açores não ser encontrado um “buraquinho” nas contas públicas que fizesse render alguns votos. Agora o desemprego também é usado como arma de arremesso. Infelizmente alguma oposição funciona assim, tipo, quanto pior, melhor.

Fala-se muito dos jovens na busca de emprego, como se isto fosse um dado novo. As coisas não mudaram muito para os jovens, mas existem diferenças que importa revelar. Todos têm acesso ao ensino superior e quando isso não acontece existe uma enorme oferta de cursos técnico profissionais, que os qualificam e abrem portas ao mercado de trabalho. Quando acabam a licenciatura tem acesso a um primeiro contato com esse mercado através dos programas Estagiar, que, curiosamente, tem colocado muitos dos estagiários nas empresas onde cumpriram esse programa. Hoje qualquer jovem licenciado ou com formação profissional tem acesso a programas de empreendedorismo ou de criação do auto emprego.

Este flagelo do desemprego, usado indevidamente para caçar uns votos aqui e outros ali, tem afetado as regiões ultraperiféricas da Europa de uma maneira assustadora.

Nas diversas crónicas feitas por gente da oposição, nunca vi referências que remetessem o aumento do desemprego para a diminuição drástica do consumo, a redução do investimento, ou a falta de liquidez da banca para alavancar a economia, situações criadas pelo Governo Central que se orgulha, todos os dias, de, em matéria de cortes, ir muito mais além do que exige a troika.

Pela via das dificuldades de acesso ao crédito houve uma redução enorme da atividade no setor construção civil. O aumento brutal dos impostos fez diminuir drasticamente o rendimento das famílias, afetando o consumo e por isso o setor de comércio e serviços registou uma quebra sem precedentes. É por esse facto que todos os dias trabalhadores do comércio ou da construção civil engrossam os números de desempregados e isso deve-se às políticas desacertadas impostas pelo Governo da República, como facilmente se depreende.

O Governo Regional se não tivesse executado um Plano Regional de Emprego, se não tivesse criado mais de 21 mil novos empregos em 10 anos, se não criasse programas para empregabilidade para mulheres e jovens, se não apostasse na formação profissional e se não consolidasse o tecido empresarial, certamente que agora o problema do desemprego teria contornos muito mais graves.

E mais. O Governo Regional, enquanto esta conjuntura externa adversa atingia os Açores, tratou de minimizar os estragos, atacando o problema em várias frentes, nas empresas e nas famílias, passando pela agricultura e pescas e criando o Programa para a Promoção do Emprego e Competitividade para uma resposta imediata.

Uns, aproveitando a boleia desta conjuntura nacional e internacional desfavorável, tentam, desesperadamente, colar os seus efeitos nefastos ao Governo Regional sem apresentar uma única proposta para alterar esta situação, enquanto outros, por entre as dificuldades impostas, respondem aos problemas que assolam os Açores e Açorianos com confiança e determinação.

29 de fevereiro de 2012

Oriolando de Sousa Machado Correia da Silva

Oriolando de Sousa Machado Correia da Silva

(06/11/1938 – 31/03/2008)

A primeira vez que ouvi o Cântico Negro de José Régio, já lá vão uns bons anos, foi pela voz do Oriolando. Creio que ninguém fica indiferente a estas poderosas estrofes, mas confesso que este cântico ganhou um lugar de honra nos meus gostos literários, muito por culpa de uma declamação que senti, na altura, ser perfeita, pelo tom, pelo ritmo e pela sensibilidade de quem o dizia.

Com o seu timbre forte mas, ao mesmo tempo, melodioso, o Oriolando declamava este e outros poemas como ninguém.

Também cantava acrescentando sentimento às interpretações que fazia, desde músicas do reportório popular até às mais eruditas, passando pelas de intervenção política mais conhecidas.

Era um notívago assumido e nessa condição era frequente vê-lo em convívios com os inúmeros amigos, que, quase sempre, proporcionavam momentos dedicados ao canto, à declamação ou a discorrer sobre História, de que tanto gostava, ou em simples cavaqueira. 

Assisti, no palco da antiga cerca da Filarmónica Recreio dos Artistas, aos ensaios de uma peça de teatro dirigida pelo senhor Brivaldo Santos, onde o Oriolando tinha um papel importante que representava com proficiência. Nesse tempo o teatro fascinava os miúdos que, sem mexer uma palha, assistiam incrédulos aos intermináveis ensaios, onde os atores se comportavam como autênticos profissionais.

Era um eloquente orador e, nessa qualidade, era convidado com muita frequência para dissertar em cerimónias públicas, efemérides ou lançamentos literários.

Defendia os ideais de esquerda. Esta era a sua posição política que, no verão quente de 1975, lhe terá causado alguns dissabores, que soube enfrentar com coragem e determinação, rendendo-lhe, mais tarde, o respeito e admiração quer dos companheiros quer dos que não pensavam como ele.

Durante a sua vida participou ativamente na vida pública do seu concelho, tendo sido deputado municipal.

Encontrou na História a sua paixão. Nos últimos tempos fez investigação e chegou a pôr em causa alguns conhecimentos dados como certos da história da Graciosa, com fundamentos válidos e que apresentava com sabedoria.

Foi também genealogista, tendo sido um dos grandes mentores e impulsionadores dos vários encontros regionais destes especialistas realizados na Ilha Graciosa.

Profissionalmente foi solicitador e, nessa qualidade, participou em inúmeros atos onde se destacava pela sua oratória e conhecimentos jurídicos.

Esteve também imbuído do espírito associativo e, como tal, fez parte de diversos corpos sociais de clubes locais e foi também sócio fundador da Cooperativa Rádio Graciosa e o primeiro presidente da sua Assembleia Geral.

Embora sem grandes habilitações académicas este autodidata era um homem de saberes que ombreava com os demais na valorização da cultura e das tradições.

23 de fevereiro de 2012

O Carnaval ainda é o que era


Por estas alturas do ano recordo sempre uma conversa que ouvi da boca de um senhor de provecta idade que afirmava que, para ele, o dia mais triste do ano era aquele em que terminava o Carnaval. Sentia-se a veracidade nestas palavras por serem ditas de maneira sentida.

Os Graciosenses, de uma ou de outra forma, gostam do Carnaval, que, por cá, é festejado de uma forma diferente, com caraterísticas muito enraizadas e que, felizmente, tem sido mantidas ao longo dos anos por gente anónima que dedica muito do seu tempo às atividades dos clubes que proliferam pela ilha.

Esta festa é transversal a toda a sociedade. Desde crianças até aos idosos, todos se divertem à sua maneira e ao seu ritmo.

A alegria é uma constante. Vive-se cada dia de festa de forma intensa, deitando para trás das costas as amarguras que estes tempos difíceis nos têm trazido.

Os bailes de salão têm o seu início logo a seguir ao Natal, às vezes antes, e são frequentados por várias gerações de Graciosenses e de forasteiros, que aproveitam estes momentos para se divertirem, revisitarem velhas amizades e conviverem. Muitos destes bailes terminam já depois do nascer do sol, sempre de forma ordeira apesar de alguns excessos próprios destes momentos.

Os grupos de fantasias, vestidas a rigor e quase sempre com cores garridas, percorrem todos os clubes da ilha executando coreografias mais ou menos simples - porque a folia não combina com grandes rigores técnicos - apresentando, deste modo, o contributo que dão a esta festa que é, no fundo, de todos.

As pessoas que têm passado pela experiência de viver estes dias connosco não ficam indiferentes e reconhecem que estes momentos são inesquecíveis, pela alegria contagiante, pela diversão pura e, sobretudo, por serem muito bem recebidas.

Por isso a nostalgia sentida pelo senhor que vos falei há pouco não deve ser rara. Muitos Graciosenses e muitas pessoas que nos visitam sentirão o mesmo.

Resta-nos a certeza de que para o ano haverá mais.

16 de fevereiro de 2012

As pescas e o futuro


As pescas desenvolveram-se nos últimos anos por via do melhoramento da frota, da construção e reparação de portos e de outras estruturas de apoio e da formação dos seus profissionais.

Nos últimos 10 anos (2001-2010) o número de pescadores nos Açores quase que duplicou, contrariando a tendência nacional, e isso devido à melhoria das condições de trabalho proporcionado a uma classe que abandonou a pesca de subsistência, ou a meio-tempo, e fez da atividade uma profissão digna e com bom rendimento.

É certo também que a pesca descarregada tem oscilado um pouco, dada a imprevisibilidade própria desta atividade que depende de diversos fatores, mas a tendência do valor dessas capturas tem vindo a crescer, muito embora com algumas exceções, como foram os casos de 2009 e 2011.

Pela leitura dos dados disponíveis verifica-se que apesar de, na sua globalidade, a pesca demersal ter vindo a ter apenas uma ligeira quebra, nota-se grande declínio nalgumas espécies deste grupo (de 1996 a 2011), quer na quantidade quer em qualidade, como são os casos do Boca Negra, do Congro, do Goraz, do Pargo e do Peixão.

Em tempos pensava-se que os recursos marinhos dos Açores eram ilimitados e que os problemas com a conservação de stocks não eram connosco.

Hoje, todos os intervenientes na fileira da pesca estão perfeitamente conscientes que é preciso manter as atuais e criar outras medidas preventivas para se evitar problemas de reposição de algumas espécies demersais.

Para esta visão realista terá contribuído, e em muito, o Departamento de Oceanografia e Pescas, que tem produzido importantes estudos na área da gestão dos recursos marinhos, reconhecidos a nível internacional e efetuado ensaios com sucesso, como é o caso da recuperação do banco de pesca Condor.

É fundamental garantir a sustentabilidade deste sector, com a aplicação das medidas de precaução já previstas, juntando outras, nomeadamente as que protegem as pequenas frotas de pesca artesanal das ilhas mais pequenas, porque a pesca contribuí com 3,6% para o Produto Interno Bruto da Região e ocupa, direta ou indiretamente, cerca de 5% da população ativa.

A atividade tem ainda um peso económico e social mais importante em algumas ilhas ou em comunidades mais pequenas.

Foi por estas razões que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista criou um grupo de trabalho, do qual fiz parte, para analisar esta problemática, apresentando as suas conclusões e elaborando uma bateria de recomendações tendo em vista a preservação dos recursos e a melhoria dos rendimentos dos profissionais da pesca.

Mais do que falar é preciso agir. E é para isso que cá estamos.

15 de fevereiro de 2012

O Gasparinho

Gaspar Manuel dos Santos Cordeiro
(04/09/1952 – 25/07/2011)

Em finais de julho passado fomos surpreendidos com a morte do Gasparinho, pouco tempo depois de ter sido assolado pela doença.
Por mais que queiramos nunca estamos preparados para enfrentar a morte como um desígnio da natureza, sobretudo quando esta nos rouba alguém a quem queremos muito e que muito ainda tinha para dar.
Era o caso do Gasparinho. Na Ilha Graciosa todos gostávamos dele. Para isso terá contribuído a sua maneira de ser, a sua maneira de agir e, sobretudo, a humildade e a bondade que colocava no relacionamento com os outros.

Na farmácia, onde trabalhou cerca de 40 anos, era um excelente profissional, dando sempre uma palavra a quem procurava aquele estabelecimento. Gente idosa e fragilizada pela doença constituí a maior franja de utentes de qualquer farmácia e, por vezes, aquando da compra de mais um medicamento para lutar contra a doença ou retardar e tratar os efeitos da velhice, uma voz amiga pode fazer toda a diferença. E era aí que o Gasparinho era exímio. Sem se deixar levar pelos lamentos de quem sofria, dava a cada um dos “seus clientes” uma palavra de alento e de coragem.

A música era uma das suas grandes paixões. Foi trompetista na Filarmónica Recreios dos Artistas, onde tocou com o pai, um tio e um irmão. Tocou guitarra e deu a voz nos conjuntos Selvagens do Rimo e Ritmo 2000, com quem gravou dois discos, Terra de Gente e Mar e Ritmo 2000 ao vivo nos Estados Unidos. Andou ainda muitos anos a animar os bailes de carnaval tocando no conjunto do Graciosa Futebol Clube.

Tinha uma voz inconfundível, que se sobrepunha em suave melodia aos instrumentos musicais permitindo ouvir os bonitos temas que gostava de interpretar, desde fados até aos temas populares, acompanhado sempre pela sua guitarra, que tocava com desvelo. Com a sua trompete dourada dava show nos bailes tradicionais e quando se juntava ao Acácio e ao Valdemiro, em improvisos nas frequentes tertúlias, completava uma tripla de se lhe tirar o chapéu. Quem assistiu a estes momentos nunca os esquecerá. Foram noites e noites animadas por estes verdadeiros artistas.

Ouvi o Gasparinho cantar pela última vez na Gala do Desporto Açoriana, com os KontraBanda, no que agora, à distância, me parece uma espécie de despedida.

Foi também um grande jogador de futebol. Sempre o conheci a jogar a defesa central no seu clube de sempre, o Graciosa Futebol Clube, que serviu - como atleta, como músico ou como dirigente – até ao dia da sua morte, altura em que era Presidente da Direção.

Como jogador era conhecido pela elegância que punha em campo. Jogava muito bem, de cabeça e com os pés. Era muito astuto na leitura do jogo e com um comportamento irrepreensível. Como capitão da equipa dava alento aos colegas nas horas dos fracassos e rejubilava nas vitórias. Era ele que empurrava a equipa para a frente, literalmente.

O Gasparinho tinha várias qualidades e talentos, mas distinguiu-se, sobretudo, por ter sido um grande Homem.

9 de fevereiro de 2012

Ameaças


A autonomia política e administrativa foi a conquista maior que os Açores obtiveram a partir da revolução de abril de 1974. O mote tinha sido dado por anos de lutas infrutíferas, mas quando surgiu a oportunidade, os açorianos não a enjeitaram. Este é um dado adquirido reconhecido por todos.

Essa prerrogativa, ansiada há muito pelos açorianos, permitiu que estas ilhas, abandonadas pelo estado centralista que nos governava até então, se desenvolvessem.

Foram os seus governos que, legitimados pelo voto popular, traçaram estratégias para recuperar o tempo perdido.

Nos últimos anos, já com os governos do Partido Socialista e com o importante financiamento dos fundos comunitários, concretizou-se a infraestruturação da região, em áreas fundamentais, como a agricultura, a pesca, o turismo, o comércio, os transportes e a indústria. Em paralelo, foram também implementadas políticas públicas importantes, na área social, na gestão de resíduos, na produção de energia com base em fontes renováveis, na preservação do ambiente, entre outras.

A estratégia produziu efeitos rapidamente porquanto estes setores, depois de uma reestruturação, consolidaram-se e hoje contribuem ativamente para os progressivos ganhos da economia regional. O número de empresas aumentou assim como aumentou o número de pessoas empregadas, notando-se, sobretudo, um reforço da empregabilidade feminina.

Ficamos mais fortes, mais autossuficientes, mas, como parte integrante da Europa, ficamos, também, mais expostos às ameaças que surgem do exterior.  

Hoje estamos a enfrentar esta crise atípica que abala a Europa, e muitos outros países do mundo, que tem como principal caraterística a imprevisibilidade dos seus efeitos nefastos.

O Governo dos Açores, e muito bem, tem centralizado a sua ação, nestes conturbados tempos, no apoio às famílias e às empresas. A decisão de colocar sempre as pessoas em primeiro lugar, confirma e reforça o lema que tem acompanhado o Partido Socialista desde que está a exercer o poder.

Mas esta crise traz outras ameaças. Poderá despertar nos centralistas – de todos os partidos, diga-se – sentimentos recalcados e que surgem á luz do dia logo na primeira oportunidade.

Não acredito que a autonomia esteja em risco, mas não tenho dúvidas que os ataques surgirão, a breve trecho, a reboque da polémica do “buraco” da Madeira.

Só há duas coisas a fazer: cerrar fileiras e resistir.

2 de fevereiro de 2012

Para além do limite


As medidas de austeridade eram esperadas e toda a gente sabia que era preciso inverter a tendência de se gastar mais do que se pode. Não era um problema único de Portugal. O mesmo se passava e passa noutros países por essa Europa fora e pelo mundo.

O governo de José Sócrates caiu porque a oposição não pactuava com mais austeridade, nomeadamente a que estava prevista no chamado PEC 4.

Depois de jurar, a pés juntos, que a via para resolver o défice não passava pelo reforço do plano de austeridade, eis-nos perante um governo que, utilizando o medo como arma, ultrapassa, e em muito, o que está acordado com a troika.

E fá-lo sem qualquer pejo, como aconteceu logo a seguir ao acordo de concertação social onde o governo assegurou que em matéria laboral se tinha ido mais além do acordado.

Fá-lo também com consciência de que a austeridade não chega de igual modo a todos. Veja-se o caso do Banco de Portugal, dos novos contratos para cargos governamentais, que preveem 14 meses, sem, no entanto, lhes chamar subsídios de férias e de natal ou das recentes nomeações para a EDP onde a contenção salarial é coisa que não existe.

Este orgulho de ir até ao limite do razoável, atropelando direitos laborais e desmantelando o estado social faz-nos perceber que o poder está nas mãos de neoliberais que, neste momento, apenas querem mostrar serviço à dupla Merkel - Sarkosy.

Poderíamos ficar aqui a fazer considerações de vária ordem e esquecer o essencial. O grande problema é que, neste momento, muita gente passa por dificuldades. Estes cortes generalizados, por vezes cegos, estão a originar o desmoronar de pequenas e médias empresas, mandando para o desemprego milhares de pessoas. Retirar dinheiro à economia neste momento agudiza a crise e não há pastéis de nata que nos valham. 

Aqui nos Açores, apesar de termos as contas em ordem, estamos também a apanhar por tabela. A crise está aí, ninguém duvida.

O PSD, cá como lá, apesar da pouca margem de manobra, tenta, a todo o custo, dar a paternidade desta crise aos adversários políticos esquecendo-se que o povo tem os olhos bem abertos e já não vai em balelas.

31 de janeiro de 2012

Luíz José Coelho



Homem multifacetado que deu muito de si e do seu saber aos outros

(09/01/1925 – 02/05/1995)

O senhor Luíz Coelho era bastante alto e aproveitava esse fator para, nos finais de tarde do período estival, fazer alguns pontos nos jogos de voleibol que se prolongavam até ao anoitecer. Apesar de serem jogos informais, feitos com a roupa que se trazia no corpo, eram levados muito a sério.

O campo de S. Francisco enchia-se de gente - uns a jogar e outros a assistir, como eu - num convívio em que as piadas disferidas durante o jogo, no recinto ou fora dele, por vezes despoletavam pequenas escaramuças logo desfeitas pelo bom senso dos participantes mais calmos, como era o caso dele.

Profissionalmente esteve sempre ligado a máquinas e a motores. Era disso que gostava.

Foi responsável técnico pela Central Elétrica da Câmara Municipal durante muitos anos. Naquele tempo a eletricidade era desligada à 1 da manhã. Para avisar a população de que estava perto dessa hora era feito um sinal de luz por duas vezes. Quando esse sinal tinha mais uma componente todos sabiam que havia um problema nos motores e que o funcionário requeria a presença urgente do senhor Luíz Coelho para o resolver. Nesse tempo isso acontecia com muita frequência.

Era funcionário da Rádio Farol que fornecia importante apoio à navegação aérea. Nunca percebi porquê, mas aquela estrutura era um ponto de visita e, quando lá ia alguém, o senhor Luíz Coelho explicava como aquilo funcionava e mostrava com orgulho os motores impecavelmente mantidos que, segundo as suas exemplificações, arrancavam quando faltasse a energia da rede pública.

Os seus conhecimentos fizeram com que fosse chamado a dar apoio técnico à fábrica de conservas do senhor Manuel Barcelos e à primeira máquina debulhadora que veio para a Graciosa.

Era um amante do mar. Ao leme da sua lancha “Júpiter” facultava alguns passeios aos visitantes e chegou a colaborar em algumas expedições de carater científico ao redor da Graciosa.

Participou ainda na gestão da companhia baleeira do Mota (Pico) e foi presidente da direção do Santa Cruz Sport Club.

Foi também diretor da Adega Cooperativa da Ilha Graciosa, numa altura em que o vinho verdelho e a aguardente davam prestígio a esta ilha.

Era, também, um radioamador reconhecido a nível regional. No âmbito desta atividade lúdica prestava apoio aos habitantes da ilha quando falhavam as comunicações.

No sismo de 1 de janeiro de 1980 as comunicações claudicaram e foi através do senhor Luiz Coelho que as autoridades souberam o que se tinha passado na Graciosa, como foi através dele que os graciosenses ficaram a saber da catástrofe que se tinha abatido na Terceira e S. Jorge. Eu próprio, apanhado na Terceira por esse desastre natural e perante a inoperância do telefone, só tive notícias da minha família e dos estragos que afetaram sobretudo a zona sul da ilha, através de um contato que alguém terá feito com o senhor Luíz Coelho.

Era um “engenhocas”. Improvisava, mas, o que é certo e sabido, é que arranjava solução para tudo. A sua oficina, de fazer inveja a muitos profissionais, tinha ferramentas de todos os géneros, mas quando a reparação exigia um utensílio especial, lá estava ele a inventá-lo na medida certa.

Naquele tempo, quase ninguém tomava decisões sobre equipamentos, motores ou automóveis, sem receber a sua “aprovação” e, claro, de forma gratuita.

Luíz José Coelho foi um homem multifacetado que deu muito de si e do seu saber aos outros, por isso tem lugar cativo na galeria dos Graciosenses que se destacaram.

26 de janeiro de 2012

Desilusão


Desde 2004 que a Agraprome (Associação Graciosense de Promoção de Eventos), nessa altura ainda em fase de constituição, organiza, com alguma frequência, eventos de natureza subaquática, por acreditar que os mares dos Açores constituem um património de valor incalculável. A beleza dos seus fundos conjugada com a temperatura amena das suas águas, a excelente visibilidade e a biodiversidade, fazem dos Açores um destino de eleição para mergulhadores de diversos níveis, desde os principiantes até aos que exigem maiores níveis de dificuldade, passando pelo mergulho técnico.

Foram três fóruns sobre turismo subaquático, dois campeonatos nacionais e três open’s internacionais de fotografia subaquática, organizações que abriram os mares da Graciosa e dos Açores a inúmeros mergulhadores que transformaram muitas fotografias em autênticas obras de arte, algumas plasmadas num livro que aquela associação publicou em 2008, denominado “Graciosa, a capital do mergulho”.

Tem sido uma aposta certa, sem dúvida. A partir de determinado momento este mercado passou a ser visto de outro modo e agora promove-se os Açores como destino de mergulho em diversas feiras mundiais.

Prevê-se o aumento da procura nos próximos anos no nosso país, por isso temos de estar atentos e trabalhar no sentido captar parte desse crescimento.

É para isso que a Agraprome trabalha e foi por isso que apresentou, em meados de 2011, uma candidatura para organizar o 1º Campeonato da Europa de Fotografia Subaquática, ao conselho geral da Confederação Mundial de Atividades Subaquáticas que se realizou em Roma.

Já abordei estas questões diversas vezes, neste e noutros lugares, mas agora, infelizmente, pelas piores razões.

A Agraprome tinha muitas expectativas nesta prova. Era um passo importante para a consolidação da internacionalização dos eventos deste género realizados na Graciosa e nos Açores, pois previa-se a participação de, pelo menos, 16 países do continente europeu e eram esperados também jornalistas de revistas e sites da especialidade. Era de facto uma jornada importante e que trazia, implicitamente, uma grande responsabilidade aos organizadores, já habituados a esse peso.

Depois de atribuída a sua organização e de anunciada a data da sua realização, soube-se agora que esta prova foi cancelada pelo facto da Federação Portuguesa ter sido sancionada com uma suspensão de 2 anos.

Foi uma desilusão, não haja dúvida. Foi um contratempo com que a Agraprome não contava, de todo.

Mas nestas coisas a adversidade põe à prova as instituições e fortalece-as.