Foi estranho para muita gente
acordar na passada segunda-feira e não ter na RTP Açores o Bom Dia do conhecido
Pedro Moura, tal como foi também triste para muitos Açorianos deixar de poder
ver o noticiário regional das 13 horas.
Esta é a demonstração de que o
plano do ministro Relvas já está em andamento, sem dó nem piedade. É mesmo
assim, cortar a direito sem preocupações com as obrigações de serviço público,
nem com o interesse dos Açorianos. E, o mais grave, é que ninguém consegue
explicar que ganhos financeiros se obtêm com esta alteração.
Curiosamente, hoje foi conhecido
um estudo de opinião, elaborado pela Norma Açores, onde 79% dos inquiridos não
concorda com a concentração da programação regional entre as 17 e as 23.30
horas.
O referido estudo, e passo a
citar a nota do Gabinete de Apoio à Comunicação Social, “aponta também para uma clara adesão do público açoriano à RTP Açores,
que surge em primeiro lugar em termos de notoriedade total (reconhecimento e
visualização), com 85,5%, sendo igualmente o canal mais visto do Grupo RTP nos
Açores; seguida da TVI com 79%, e da SIC com 75,3%, respetivamente. Dentro do
universo RTP, a RTP/Açores é, não só o canal que merece maior reconhecimento
dos açorianos (47,5% para a RTP/Açores contra 41,5% da RTP 1), como é também o
que é visto com maior regularidade (37% para a RTP/Açores, 18% para o Canal 1)”,
fim de citação.
Este estudo de opinião indica,
também, que o programa Bom Dia, agora extinto ao abrigo da imposição desta
“janela” da programação regional, era o programa mais visto pelos Açorianos,
seguido do Telejornal. Mais palavras para quê…
O receio é que, impelidos por
esta suposta concentração de meios e de recursos, frase muito em voga agora, se
comece, devagarinho e à falsa fé – como aconteceu agora – a promover o
esvaziamento, primeiro, dos correspondentes e, depois, dos centros de produção
mais periféricos, em nome da economia de escala. Com este caminho poderemos
estar a desenhar o fim desta estação que muito tem dado aos Açores e às suas
gentes.
Às voltas com esta questão anda o
PSD Açores, sem saber o que há-de fazer com este embaraço em que se meteu. E
tudo porque o PSD Açores se quer dar bem com Deus e com o Diabo, o que,
convenhamos, não é boa política.
Em casa preparava-se mais um
fim-de-semana na Praia. Era um ritual que levava o seu tempo, pois a viagem era
grande. Apesar de serem apenas seis quilómetros de distância, aquela viagem
parecia longa.
Com os poucos carros que
circulavam na ilha, os transportes coletivos e de cargas assumiam um papel
preponderante na movimentação de pessoas e bens entre as quatro freguesias da
Graciosa. As festas da ilha obrigavam a vários desdobramentos até levar a casa
os últimos passageiros. No período do Carnaval estas camionetas faziam as
visitas aos clubes e ainda transportavam os resistentes folgazões que, depois
do último baile deste período e já quando nascia um novo dia, davam um passeio
pela ilha. Existiam também algumas indústrias, tais como a cal, a telha e os
refrigerantes que requeriam transporte para a distribuição e exportação.
Fomos até à garagem e oficina do
senhor Diógenes, no Atalho, e esperámos pela hora de nos abrirem as portas da
gasta camioneta que nos haveria de levar nesta viagem. Tinha o motor na frente
e um capô de abrir para os lados. O corpo da camioneta desenvolvia-se para traz
do motor, o que lhe dava um ar de tartaruga, nome pela qual era popularmente conhecido
este meio de transporte. A lentidão poderia muito bem ser outra explicação para
esta alcunha. Os passageiros entraram e o condutor, com a ajuda do cobrador,
colocou no tejadilho várias encomendas e a mala do correio, que haveriam de ser
distribuídas pelos destinatários ao longo dos caminhos da ilha.
Compramos o respetivo bilhete, de
cor verde e encimado pelo nome de Diógenes da Silva Lima & Filhos Limitada,
cortado, com uma pequena régua de alumínio, numa diagonal até à indicação do
preço. Três escudos e cinquenta centavos era o custo desta viagem. Já com a
camioneta em andamento, vinha o cobrador, sempre com a sua mala de cabedal a
tiracolo, com uma espécie de alicate, fazer um furo no lugar correspondente ao
percurso.
A viagem começava com piso
razoável, mas grande parte do percurso ainda era feito em estrada de macadame. O
caminho do Quitadouro, em direção à Praia, começava logo com uma grande subida,
mas, mais ao menos a partir de meia viagem, no Formigueiro, havia uma descida
abrupta, o que levava o condutor a redobrar os cuidados para levar os seus
passageiros ao destino em segurança. A nossa tartaruga, de um modo esforçado,
lá conseguia dar conta do recado, e completava assim mais um percurso, que
terminava numa outra garagem, na Rua Rodrigues Sampaio, na Praia, onde o
condutor, com o seu olhar clínico ditado pela experiência, via os níveis de
óleo e de água e tratava de a pôr operacional para fazer mais uma viagem.
O senhor Diógenes a 22 de outubro
de 1941 adquire, por dezasseis contos, o negócio de fazendas e mercearias, com
sede na Rua Fontes Pereira de Melo, na Praia, filial da firma Costa e Medina
Limitada, para o qual trabalhava desde 1936.
Quando tinha 18 anos constrói o
seu primeiro autocarro, uma miniatura em madeira. Mal sabia ele que a sua vida
empresarial estaria ligada aos transportes coletivos até ao dia da sua morte.
Em 16 de junho de 1948 recebe o seu
primeiro táxi, um Austin. A 2 de agosto do ano seguinte recebe outro táxi,
também daquela marca. A 29 de janeiro de 1951 recebe mais um táxi, também
Austin e a 30 de março de 1954 recebe a quarta viatura para serviço de aluguer
com condutor.
Em 1954 compra um chassis de um
autocarro e trá-lo até à Graciosa no navio Lima. É colocado num batelão em
Santa Cruz, mas devido à fraca capacidade do pau de carga do porto, esse
batelão é rebocado por uma “gasolina” baleeira até à Praia, onde finalmente é
descarregado para terra firme. A carroçaria é feita na Graciosa pelos irmãos João
e Manuel Machado, em madeira e forrada posteriormente a alumínio. Até os
estofes eram feitos cá. Esta opção pela importação de chassis tinha a ver com a
inexistência de meios para descarregar um autocarro completo.
Na altura a empresa tinha a sede
na Praia. A primeira viagem desta camioneta dá-se a 23 de outubro de 1954, um
sábado, fazendo um percurso de 52 quilómetros e realizando uma receita de
614$50.
As frequências foram aumentando,
até que a partir de 9 de dezembro de 1957 passa a haver carreiras diárias.
A 24 de dezembro de 1955 recebe
mais dois chassis que foram novamente carroçados pelos irmãos Machado, um
destinado a carga e outro a passageiros. Curiosamente estes chassis saíram de
Lisboa no navio Terceirense, a 20 de novembro, mas não puderam desembarcar
devido ao mau estado do mar. Foram até Ponta Delgada e voltaram, desta vez no
navio Lima, tendo desembarcado nesta ilha na véspera de Natal daquele ano.
Em 1958 a sede passa para Santa
Cruz. Em 1968 dá-se uma alteração estatutária, passando a empresa a designar-se
Diógenes da Silva Lima e Filhos Limitada.
Enquanto vai desenvolvendo a sua
atividade nos transportes coletivos continua a investir nos táxis, chegando a
ter 10 em circulação, espalhados pelas praças das quatro freguesias. Este
negócio, no entanto, é abandonado a seguir à revolução de 1974. Mais tarde
termina também com o serviço de transporte de mercadorias.
Em 1980 transforma-se em Empresa
de Transportes Coletivos da Ilha Graciosa, já com a participação da Câmara
Municipal de Santa Cruz da Graciosa no capital social.
A vida deste empresário não foi
fácil. O recurso ao crédito e as dificuldades próprias da época, que desfasavam
o período do investimento do período do respetivo retorno, podiam afastar deste
tipo de negócio os menos afoitos, mas não o senhor Diógenes. Nunca se deu por
vencido e empenhou-se de corpo e alma neste seu projeto, que acabou mesmo por
ser o seu projeto de vida, enfrentando e minimizando todas as contrariedades
que surgiram.
As dificuldades nos transportes destes
equipamentos de grande dimensão eram resolvidas com imaginação. Se um batelão
não chegasse, juntava-se um outro e colocavam-se alguns postes de telefone,
atravessados, para dar mais consistência e equilíbrio a este meio de transporte
adaptado. A falta de peças suplentes era resolvida com muito trabalho.
Frequentemente as suas oficinas trabalhavam ininterruptamente, por vezes
inventando peças, para colocar o autocarro ao serviço logo pela manhã. São
conhecidas histórias de reparações feitas mesmo durante as viagens ou mudanças
de motor durante a noite para que no dia seguinte não faltasse transporte a
muitos Graciosenses que dele dependiam.
O senhor Diógenes foi um
empresário que teve uma vida de trabalho duro e de muita dedicação ao seu
negócio, que não lhe terá rendido muito em termos financeiros, mas certamente
que o preencheu. Podíamos vê-lo agarrado ao volante de uma das suas camionetas
a conduzir horas a fio, a supervisionar a sua oficina ou a vender bilhetes no
seu guichet. Era um homem que nunca parava.
Nos seus tempos livres gostava de
tocar violão e dançar modas de viola nas festas de Carnaval que aconteciam nos
clubes espalhados pela ilha.
A ousadia, a tenacidade e a
coragem com que tratou os seus negócios fazem dele um empresário que se
destacou na Ilha Graciosa e que importa recordar.
No Dia dos Açores, que se comemorou
este ano na Vila da Povoação, o Presidente Carlos César fez um discurso
brilhante, como sempre, mas este foi especial, a meu ver, talvez por ser o
último desta legislatura e por não ser candidato a Presidente do Governo dos
Açores nas próximas eleições de outubro.
É conhecida a sua posição firme
em defesa dos Açores e dos Açorianos. Carlos César nunca se coibiu de levantar
a voz sempre que esteve em causa a autonomia da região, independentemente da
cor política dos inquilinos de S. Bento. Sempre repeliu os ataques dos
centralistas que gravitam em todos os partidos políticos e que surgem à luz do
dia nos momentos em que podem fazer mossa.
A política de proximidade,
configurada no nosso modelo de autonomia, permitiu ao arquipélago
desenvolver-se mais rapidamente em áreas fundamentais, como a saúde, a educação
e o apoio social, que levavam décadas de atraso em relação ao resto do país.
É certo que foi nos últimos 16
anos que a Região Autónoma dos Açores conheceu um enorme crescimento fruto das
opções de investimento estratégico e do reconhecido rigor nas finanças
públicas. Daí a convergência com o país e a Europa em indicadores económicos e
sociais,que demonstram o acerto nas políticas
executadas pelo Partido Socialista. Mas, no seu discurso, Carlos César fez
referências às conquistas dos 36 anos, tantos os que tem a autonomia dos
Açores, sem nunca esquecer os que o antecederam, demonstrando um enorme sentido
de estado.
Por isso, por colocar os Açores
sempre em primeiro lugar e também por ser um grande político, no final da sua
intervenção, o Presidente do Governo Regional foi longamente aplaudido de pé
por quase todos os presentes.
Digo quase todos porque meia
dúzia ficou sentada, com os olhos colados ao chão e um envergonhado esboço de
aplauso sobre o regaço. Curiosamente são os mesmos que perpetraram uma
inexplicável guerra de lugares, com telefonemas em voz exacerbada para a
comunicação social pressionando-os para darem atenção a uma situação protocolar
que é, no fundo, perfeitamente normal. E logo estes, habituados que estão a
empurrar para ficarem mais à frente ou a atropelar todas as regras de ética para
terem mais uns minutinhos de antena.
Foi uma tentativa de estragar uma
festa de partilha e de união, que é património de todos os Açorianos. Não
conseguiram.
Nestes períodos de pré-campanha
eleitoral, vai lá saber-se porquê, há a tendência de se cometerem atropelos,
ficando relegado para segundo plano o bom senso recomendado para estes tempos de
luta partidária mais acesa e, por conseguinte, de maior fricção.
É muito pouco dignificante fazer
da pré-campanha apenas um frenético vai vem, onde parece não fazer mal, por
exemplo, aparecer sem ser convidado, ou instigar terceiros a usar cargos
associativos para promover campanhas partidárias em favor de um(a) candidato(a)
ou ainda tentar controlar a comunicação social passando por cima da sua
independência e idoneidade. Estes são alguns métodos – muito pouco inocentes,
diga-se – executados por políticos com pouco escrúpulos, pelos seus solícitos mandantes
ou pelos oportunistas, que surgem sempre à luz do dia de quatro em quatro anos,
curiosamente.
Mais do que nunca precisamos,
nesta altura, de ideias para o futuro desta região. Ideias claras e
consistentes, que obedeçam a uma estratégia coerente e transversal que promova
o crescimento, o emprego e a coesão social e económica.
Vasco Cordeiro tem feito esse
trabalho por essas ilhas, propondo outras políticas e novas abordagens para
novos problemas que assolam os Açores, Portugal e a Europa, mantendo um enorme
orgulho no trabalho desenvolvido pelo Partido Socialista nesta região nos
últimos dezasseis anos.
A política de solavancos e
assomos ao sabor das circunstâncias perpetrados pelo PSD e pela sua líder,
podem satisfazer momentaneamente alguma clientela aqui e ali, mas denota uma
grande irresponsabilidade e falta de sentido de estado.
Já passava das onze horas daquela
noite fria e chuvosa quando bateram à porta da casa do senhor António Maria, no
caminho Velho dos Fenais. Já estava habituado a que lhe batessem à porta, tanto
de dia como de noite. Era, quase sempre, um sinal de que alguém precisava dele
e dos seus conhecimentos adquiridos ao longo de uma vida de labuta. Tal como a
maioria das pessoas que vivem do amanho da terra e da criação de gado, o senhor
António Maria levantava-se muito cedo, para começar o seu duro dia, por isso
aquela hora era já tardia.
Ao longo de toda a sua vida foi
ganhando experiência no tratamento das mazelas e no acompanhamento dos partos dos
seus animais, que, por vezes, por não correrem bem requeriam a intervenção
humana para evitar perdas.
Ao mesmo tempo que a sua
exploração ia crescendo, também crescia a sua fama no que respeitava ao acerto
nos tratamentos dos animais e na resolução de partos mais difíceis. É claro
que, numa ilha desprovida de médico veterinário durante anos e anos, este homem
constituía uma mais-valia importante e, como tal, passou a ser muito procurado
pelos agricultores de toda a Graciosa.
Era o caso daquela noite. O João,
apercebendo-se que a melhor vaca da sua pequena manada, a “Caiada”, estava
prostrada numa altura em que devia estar a parir, não hesitou e agarrou na sua
motorizada Famel e meteu-se a caminho até aos Fenais.
O senhor António Maria veio à
porta e ouviu da boca do aflito dono da “Caiada” a descrição do problema. Este
ordenou que procurasse mais alguém para os ajudar e foi trocar o pijama por
roupa quente e um fato de água, pois a noite não estava para brincadeiras e
ainda por cima podia ser longa. De seguida mete-se na sua carrinha Peugeot, que
mais parecia uma farmácia ambulante, e põe-se a caminho da pastagem do João, lá
para os lados da Serra Branca.
Depois de algumas injeções e de
várias manobras, lá acabou por nascer o bezerro da “Caiada”, aparentemente
saudável. Já passava das três da manhã.
Muitas noites do senhor António
Maria da Cunha terão sido passadas assim, ajudando os outros de forma abnegada.
Aos agricultores com mais dificuldades nem o dinheiro dos medicamentos levava.
Como agricultor o senhor António
Maria fez um grande percurso, sempre na sua ilha Graciosa, apesar de ter feito
uma tentativa para emigrar com destino ao continente africano a chamamento de
um amigo, mas sem qualquer sucesso. Começou com uma pequena exploração, que
partilhava com a condução de um táxi, e foi crescendo, até ser a maior agricultor
desta ilha, já a tempo inteiro. Foi um dos pioneiros do melhoramento animal,
pois na tentativa de obter um melhor rendimento procurou noutros mercados
adquirir produtoras de raças com caraterísticas ideais para a produção de leite.
Mais tarde abandona a produção de leite e dedica-se exclusivamente à fileira da
carne.
Eram também conhecidos os enormes
bois, que exibia com orgulho, capazes de dar um melhor rendimento no trabalho
da terra, numa altura em que a mecanização era inexistente.
Foi pelas suas mãos que veio até
esta ilha um enorme arado que, puxado por 12 juntas de bois, revolvia a terra até
profundidades consideráveis tornando-a mais produtiva.
Sem sombra de dúvida que esta
postura inovadora, a sua experiência e a sua visão do futuro terão impulsionado
outros agricultores desta ilha. Quando falava em agricultura fazia-o com paixão
e isso via-se nos encontros públicos em que participava, onde tinha sempre uma
palavra a dizer e era ouvido com respeito e admiração.
Apesar de ter apenas a instrução
primária gostava de escrever, sobretudo poesia, que declamava em eventos
públicos ou oferecia aos seus amigos.
Entre 1982 e 1985 foi Vereador da
Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa.
Nove anos após a sua morte a
Associação Equestre Graciosense associa o nome de António Maria da Cunha ao seu
picadeiro, numa merecida e rara homenagem a um homem que deu tudo à sua terra.
Em 2010, em sessão solene
realizada na ilha do Corvo, os órgãos próprios da Região Autónoma dos Açores
atribuem-lhe, a título póstumo, a Insígnia Autonómica de Mérito Industrial,
Comercial e Agrícola.
Este homem solidário e de vistas
largas morreu com aquilo com que começou, ou seja, quase nada, mas teve uma
vida muito preenchida, onde se destaca uma inusual dedicação aos outros,
sobretudo os mais desprotegidos.
Portugal nem sempre tem entendido
de forma perentória as declarações emitidas pelo primeiro-ministro Pedro Passos
Coelho, quando este intervém. Por isso tem sido recorrente vir novamente a
público, no dia seguinte, tentar explicar aquilo que tinha dito anteriormente.
Mesmo assim não é líquido que as explicações dadas sejam mais esclarecedoras do
que as declarações da véspera.
O caso talvez se explique pela forma
intensa com que gosta de falar aos portugueses e pela densidade das ideias que
pretende fazer passar.
As últimas declarações sobre o
desemprego foram desastrosas. Classificar este drama social como uma
oportunidade para mudar de vida, foi um erro de palmatória. As explicações do
dia seguinte até foram percetíveis, mas não apagaram aquela enviesada maneira
de ver um problema que afeta cada vez mais portugueses.
Abordar o tema do desemprego
desta forma constituiu uma ofensa a quem luta todos os dias para arranjar um
trabalho que lhe permita sustentar a família com o mínimo de dignidade.
Infelizmente os números nacionais indicam que a situação é dramática e, como
tal, este governo, da responsabilidade do PSD e do CDS/PP, deveria preocupar-se,
tão só, com a criação de oportunidades, mas de emprego.
Pulamos de recorde em recorde e as
políticas ativas para minimizar este pesadelo, que afeta muitos concidadãos,
tardam em aparecer. Ouvimos todos os dias alguns ministros desfilarem as suas
preocupações, mas na prática tudo continua na mesma, não se vislumbrando
soluções para minimizar os problemas por que passam muitos portugueses.
Este governo do PSD e do CDS/PP
está a esmagar a classe média, a criar dificuldades no acesso dos portugueses à
saúde e ao ensino. Todos os dias se assiste à destruição de postos de trabalho,
quer nas empresas, quer na função pública, atirando para o desemprego muitas
pessoas, a grande maioria sem direito a subsídio de desemprego, cujas regras
foram habilmente alteradas.
É notório que este governo de
Passos Coelho e de Paulo Portas estabeleceu como objetivo primeiro deixar empobrecer
este país. O mais grave é que está mesmo a conseguir.
Constatei, através da leitura do
jornal Açoriano Oriental, do passado dia 2 de maio, que o Plano Diretor
Municipal de Ponta Delgada tinha sido suspenso parcialmente pela edilidade para
que os proprietários de terrenos agrícolas possam expandir a área de instalação
de equipamentos de apoio à atividade agrícola para além dos 1.500 m2.
Essa suspensão, ainda segundo a notícia daquele jornal, foi aprovada apenas com
a abstenção do CDS/PP e, passo a citar, “responde a vários pedidos feitos pelos
próprios empresários agrícolas, sendo tida pela autarquia como uma forma de
apoiar os produtores, numa altura em que é difícil a captação de meios de
investimento económico”, fim de citação. A Câmara Municipal de Ponta Delgada
considera que esta suspensão é mesmo, e cito novamente, “um incentivo para que
os proprietários invistam mais nas suas explorações e possam apresentar
candidaturas a apoios financeiros para este fim”, citei.
Não sei de quem partiu esta
proposta de suspensão do Plano Diretor Municipal, mas salta à vista de todos
que os partidos que compõem a Assembleia Municipal de Ponta Delgada foram
praticamente unanimes quanto à necessidade de aprovar este documento, tendo em
conta os interesses dos agricultores do seu concelho.
A Câmara Municipal de Santa Cruz
da Graciosa, ainda muito recentemente, também apresentou um documento de teor
semelhante onde era proposto expandir a área de instalação de equipamentos para
além dos 750 m2, tendo em conta também alguns pedidos feitos a esta
autarquia.
Duas situações em tudo muito semelhantes,
mas que, no fundo, mereceram tratamento diferenciado pelos deputados
municipais. No concelho de Ponta Delgada a proposta foi viabilizada, enquanto
na Graciosa a suspensão do Plano Diretor Municipal apresentado pela Câmara
Municipal foi chumbada pela maioria do PSD.
Por isso quando a dra. Berta
Cabral jura a pés juntos que defenderá a agricultura e os agricultores, só
temos de ficar desconfiados porque o seu discurso não bate certo com a prática
do partido que dirige.
Naquele dia 13 de agosto de 1976,
quando eram sensivelmente duas horas da tarde, o iate Espírito Santo, com a
matrícula SG-16-TL, saiu do porto das Velas, tal como fizera inúmeras vezes. Tinha
acabado de descarregar a mercadoria vinda da Terceira e destinada àquela ilha,
ficando ainda no porão muita carga destinada ao próximo porto de escala, desta
vez no Pico.
O mar estava calmo naquela tarde
de verão. A bordo seguiam também muitos passageiros que aproveitavam aquela
ligação à vizinha ilha do Pico. À saída do porto, e quando nada fazia prever
tal desfecho, o barco adornou suavemente, inundando a casa das máquinas e as
salas repletas de passageiros. Esta situação terá sido provocada pela elevada
concentração dos passageiros a bombordo do barco. A carga mais pesada,
constituída por bidões com asfalto e ferro destinado à construção civil, terá corrido
colocando a embarcação numa posição perigosa. Foi o pânico a bordo. De terra
foi possível observar o acidente e por isso vieram várias pessoas e alguns
barcos prestar socorro aos passageiros e tripulantes. Gente corajosa e anónima
terá regressado várias vezes à inundada embarcação para retirar outros
passageiros que se terão atrapalhado no meio de toda aquela confusão.
O balanço foi trágico. Neste
acidente pereceram sete pessoas, seis eram passageiros e um fazia parte da
tripulação. Depois das manobras de salvamento e da retirada dos corpos, o barco
Espírito Santo foi rebocado até ao porto da Horta e, mais tarde, dirigiu-se
para o estaleiro de Santo Amaro, no Pico, onde foi recuperado, tendo navegado até
ao ano de 1992.
O senhor Francisco da Cunha era
conhecido como um homem humilde, bondoso e de trato fácil. Naquela altura era
gerente dos Transportes Marítimos Graciosenses, empresa com um capital social de
cem contos, dividido equitativamente por vinte sócios. Mal foi conhecida a
notícia do acidente o senhor Francisco tratou de ir, primeiro, até S. Jorge e,
depois, até à Horta para se inteirar da situação, avaliar os danos e resolver o
que tinha de ser resolvido. Foi uma árdua tarefa que desempenhou com zelo e
rapidez, como o caso requeria.
Naquela data a empresa detinha
apenas o velhinho Espírito Santo de madeira construído em frente à casa do Dr. Vinício
Albuquerque, na Praia, pelo mestre Manuel Joaquim de Melo, que tinha vindo do
Pico para esse efeito. O Fernão de Magalhães, também de madeira e vocacionado
para o transporte de cargas, tinha saído do serviço nesse mesmo ano.
O senhor Francisco da Cunha não
era um gerente qualquer. Para ele, gerir aquela empresa não era um trabalho na
verdadeira aceção da palavra, era mesmo uma paixão, vivida intensamente na
“onda” deste arriscado negócio. Essa entrega desmedida era visível nos bons
momentos, quando se inebriava pelo reconhecimento que era atribuído à empresa pelos
serviços queemprestava ao Grupo Central
dos Açores, e, também, nos momentos de enorme sofrimento, como foi o caso
daquele fatídico dia. Era nesses momentos difíceis que consumia cigarros atrás
de cigarros, como que para aliviar a tensão provocada pelas inúmeras
preocupações que o iam consumindo.
Na qualidade de gerente, foi
decisor nas diversas tentativas de fusão de pequenas empresas congéneres. A
recusa em aderir a essas propostas esteve sempre ligada ao facto dos
Transportes Marítimos Graciosenses poderem vir a perder peso na estrutura
acionista e ser previsível a deslocalização da sede da futura empresa da sua
tão amada Graciosa para outra ilha qualquer.
Esteve envolvido na elaboração de
um projeto para a construção de uma nova e moderna embarcação, que chegou a
apresentar e a discutir em várias assembleias gerais da empresa. As
vicissitudes da vida desta empresa levaram-na noutro sentido. Em setembro de
1992, alguns anos depois da morte do senhor Francisco, o velhinho Espírito
Santo, embora abrigado no interior do porto da Praia da Vitória, não conseguiu
resistir às tempestades Boney e Charlie, que assolaram a Região quase em
simultâneo, acabando por naufragar, desta vez de forma irremediável. Aqui, a
empresa, devido à urgência que o caso implicava, optou por adquirir um barco de
ferro na Noruega que tomou o seu lugar e, inclusivamente, o seu nome.
O senhor Francisco da Cunha foi
também proprietário de um forno que, de um modo artesanal, fabricava telha
regional que era vendida localmente e ainda exportada para outras ilhas do
Grupo Central. Naquele tempo esta indústria tinha um peso importante na
economia da Ilha Graciosa.
Trabalhou alguns anos na Santa
Casa da Misericórdia da Vila da Praia da Graciosa. Depois ingressou na
Conservatória do Registo Civil e Notariado de Santa Cruz da Graciosa, onde
trabalhou até ao dia da sua morte.
Quer se goste ou não do estilo, o
“Bom Dia” de Pedro Moura é uma programa de televisão que cumpre, na integra, a
missão de serviço público nos Açores. Ninguém se admira de este ser dos mais
vistos na RTP-Açores.
Quando as reportagens são de
pequenas comunidades, das ilhas mais pequenas ou de assuntos menos relevantes e
não cabem nos noticiários tradicionais, têm sempre à sua espera um lugarzinho
no “Bom Dia”. Muitos são os entrevistados do Pedro Moura que nunca teriam
hipóteses de aparecer no Telejornal e que ali têm espaço para apresentarem os
seus projetos, recebendo, em troca, um apoio incondicional daquele jornalista,
que valoriza o trabalho e empenho de muitas associações espalhadas por este
arquipélago.
Sabe-se agora que a emissão do “Bom
Dia” vai terminar. Assim, sem mais. De qualquer dos modos este tipo de
programas já tinha sido condenado pela ordem, vinda de Lisboa, de concentração
do horário de emissão. O “Bom Dia” de Pedro Moura é, assim, a primeira vítima
da transformação da RTP-Açores numa mera janela.
O ministro Miguel Relvas não
percebeu ou não quer perceber que a RTP-Açores não é um canal de televisão
qualquer. Na sua génese esteve a coesão de uma região composta por nove ilhas e
muito mar e, neste momento, a RTP-Açores representa um instrumento que
contribui, e muito, para o fortalecimento da nossa Autonomia. Transformar o
futuro da televisão dos Açores numa mera questão economicista é de muito mau
gosto, sobretudo quando se sabe que o problema deste canal nem sequer reside aí.
Os Governos dos Açores do Partido
Socialista sempre entenderam que o financiamento do serviço de rádio e
televisão é da responsabilidade da República Portuguesa, mas, mesmo assim,
criaram condições técnicas para que fosse possível cobrir com alguma qualidade
e regularidade os acontecimentos de todas as ilhas, em nome da coesão regional.
Confrangedora é a posição do
PSD-Açores sobre a televisão e rádio da região. Aliás, o PSD-Açores de Berta
Cabral, quando esta questão se levantou, esteve sempre incompreensivelmente
errático, daí ter revelado não uma, mas várias posições sobre esta matéria e
sempre de modo a proteger o governo de Passos Coelho, atirando para trás das
costas o superior interesse dos Açores. Primeiro o financiamento deveria vir da
Lei das Finanças Regionais. Depois deveria ser o Estado Português a suportar a
totalidade do financiamento. Agora dizem que a solução passa por uma empresa
com capitais nacionais, regionais e privados.
Quando se esperava do PSD de
Berta Cabral uma posição de força perante Passos Coelho e companhia, vê-se
apenas submissão e incapacidade para reivindicar um direito que nos assiste.
Na primavera de 1974 muitas foram
as esperanças depositadas no futuro de Portugal. O país abria-se ao mundo,
enquanto se dava por finda uma guerra que matou e mutilou muitos concidadãos. A
educação foi alargada a todos tal como a saúde passou a ser um direito de todos
os portugueses. Os trabalhadores conquistaram direitos até então proibidos.
Foram o 13º e 14º meses, os vínculos às entidades patronais, o apoio na
maternidade, a igualdade de oportunidades, a dignificação das carreiras
profissionais, a valorização dos salários, os direitos de aposentação, o
direito à greve, entre outros. A implementação de políticas de proximidade
através do poder local e a liberdade de expressão foram também importantes
conquistas.
Eram estes os ideais de Abril que
levaram os corajosos militares à rua para derrubar um regime déspota e promotor
de desigualdades a todos os níveis. O povo cedo percebeu o que estava em causa
e, desde logo, deu o seu inteiro apoio ao Movimento das Forças Armadas nesta
revolução dos cravos.
Nestes trinta e oito anos a democracia
portuguesa sofreu contratempos, com avanços e recuos, mas nunca esteve tão
ameaçada como agora.
Todos os dias o Governo da
República impõe medidas que vão no sentido de desmantelar essas conquistas. Os
trabalhadores a cada dia que passa perdem direitos que são inalienáveis, ou
pelo menos eram até há bem pouco tempo.
A desregulamentação do trabalho,
a mobilidade de qualquer maneira, os encargos com os despedimentos a preços de
miséria, o corte dos subsídios de férias e de natal, o congelamento das
reformas antecipadas, o aumento desmesurado de impostos, são o pão não de cada
dia. Depois vem a perigosa tentativa de liquidação do Serviço Nacional de Saúde
e as restrições do acesso à educação. A reforma autárquica, feita a régua e
esquadro sem qualquer respeito pelas especificidades, vai destruir, de uma
forma indecorosa, a matriz identitária de muitas comunidades.
Estas medidas não só colidem com
o espírito de Abril, como foram elas o motivo pela qual os militares saíram às
ruas deste país.
E não me venham com a desculpa da
troika, porque grande parte destas
armas com que o Governo de Passos Coelho combate o seu próprio povo, estão para
lá do exigido pelo memorando assinado com as instâncias internacionais.
Compreendo aqueles que faltaram à
cerimónia oficial das comemorações do 25 de Abril, porque ainda nos resta esse
direito, o direito à indignação.
Naquele tempo, crianças com
éramos, parecíamos todos felizes. Nas férias brincávamos de manhã até à noite,
apenas com uns intervalos para as refeições. Em altura de escola aproveitávamos
os tempos que nos davam os nossos pais para brincar e jogar. E não se pense que
eram brincadeiras simples. Exigiam de nós força, destreza física, resistência,
imaginação e espírito de grupo.
Não tínhamos computador ou play
station. Não havia televisão e os livros eram poucos. Mas mesmo assim tínhamos
uma panóplia de jogos à nossa disposição, como a barra, o rato de sociedade, o pião,
a navalha e, por último, o quartel-general, que nos entretinham durante todo o
ano, revezando-se por épocas estabelecidas por nós de forma quase automática e de
maneira a nunca fartar. Para além destes, ainda havia tempo para corridas com
babosas no íngreme cerrado do senhor Carlos da Marina no Monte da Ajuda ou com
carros de ladeira.
Quando íamos para os lados do
Coval para mais umas corridas, passávamos pela Pensão Graciosa, do senhor
Brivaldo Santos. Pela manhã aquele cheirinho a café de cevada, que vinha da sua
afamada cozinha, invadia a rua.
Dos cinco quartos da Pensão
Graciosa quatro ficavam no primeiro andar e um no rés-do-chão. Todos tinham um
lavatório de louça encastrado em armações de ferro, onde se viam as toalhas
impecavelmente dobradas. Das alvas camas sobressaía a dobra dos lençóis com lindos
bordados. A escada e o corredor estavam forrados com plantas. No rés-do-chão
havia uma loja que era usada pelos inúmeros caixeiros-viajantes que demandavam esta
ilha, como mostruário dos seus produtos para serem apreciados pelos comerciantes
locais.
Era nessa loja, quando não estava
ocupada pelos clientes, que o filho, Valdemiro Santos, e o sobrinho, Luís Avelino,
montavam uma sala de cinema, destinada a jovens, com filmes de oito milímetros,
normalmente do Bucha e Estica. Um escudo era o suficiente para pagar a entrada
e mais alguns centavos davam para um copo de sumo e as pipocas da praxe.
Passávamos assim as tardes de domingo.
Muito antes, e tal como muitos
jovens da sua idade, o senhor Brivaldo teve de emigrar, quando tinha apenas 18
ou 19 anos de idade. O Brasil foi o seu destino. Regressa quando perfaz 25 anos
e emprega-se numa chapelaria instalada nos baixos da antiga casa do senhor
Eurico Vieira da Costa.
No início dos anos vinte resolve
abrir uma pensão. O Carapacho foi local escolhido para instalar o primeiro
estabelecimento do género na ilha, impelido pelo despertar da procura das águas
“milagrosas” daquela zona. Não deve ter sido fácil empreender tal estrutura num
local que, na altura, era de difícil acesso. Em 1924 inaugura a Pensão
Graciosa, na casa da família do senhor José Araújo. É nessa altura que a sua cozinha
ganha fama. Passaram por lá excelentes cozinheiros como o Carlos Pereira
Valentim ou o Caetano Álvaro da Cunha. Consta que este último terá sido
convidado a ir até Lisboa pelo Presidente da República de então, General
Craveiro Lopes, aquando da sua visita a esta ilha em julho de 1957,
precisamente por ter gostado do que comeu. Caetano Álvaro da Cunha fez a sua
carreira no Palácio de Belém, onde chegou a chefe de cozinha.
O senhor Brivaldo optou depois por
reduzir a atividade e transferiu a Pensão Graciosa para o Coval, donde partimos
para esta nossa pequena crónica.
Além da sua vida profissional, fez
parte das primeiras direções do Graciosa Futebol Clube. No entanto é na
Filarmónica Recreio dos Artistas, agora quase a completar cem anos de
existência, que exerceu mais cargos. Foi mestre de sala, função que, naquele
tempo, era considerada importante pelo papel na organização das festas,
sobretudo bailes. Destacou-se também como ensaiador e ator do grupo de teatro
daquela instituição, tendo, numa ou noutra qualidade, levado à cena, entre
outras peças, “O Amigo de Peniche” e ”Na Boca do Lobo”. Ainda coreografou
inúmeras fantasias de carnaval que se apresentavam em todos os clubes da ilha.
O senhor Brivaldo Bettencourt Santos
foi, sem dúvida, um pioneiro na hotelaria e um dinamizador cultural, que merece
ser destacado pelo espírito empreendedor e pela sua entrega ao serviço da
comunidade Graciosense.
Da magna reunião do PSD-A que
ocorreu no passado fim-de-semana esperava-se muito mais. E esperava-se
sobretudo porque este partido tem legitimas ambições de chegar ao poder no
próximo escrutínio, que ocorrerá em outubro do corrente ano. No entanto quando
terminou este congresso os açorianos apenas puderam chegar a três conclusões
óbvias:
- a dra. Berta Cabral é devota do
Espírito Santo;
- Passos Coelho não sabe o
primeiro nome da dra. Berta Cabral;
-a dra. Berta Cabral quando fala
em mudança e renovação é a brincar.
A devoção que nutre pelo Espírito
Santo é de respeitar e ponto final. Agora o anúncio de que só deixará a Câmara
Municipal de Ponta Delgada depois das festas em seu louvor, deixa muitos
açorianos desconfiados relativamente a uma manobra, mais uma, de mero oportunismo
político. Foi dito que tem uma boa capacidade de trabalho e que consegue
conciliar as duas funções, autarca a tempo inteiro e candidata a presidente do
governo. Este dom da ubiquidade permite-lhe, segundo se infere das entrevistas
pós-congresso, dirigir uma autarquia e ao mesmo tempo andar de ilha em ilha em
campanha, restando ainda algum tempo para dar uns saltinhos ao estrangeiro.
Depois vem a troca do primeiro
nome da dra. Berta Cabral perpetrado pelo seu mentor, Passos Coelho. É vulgar
esquecermo-nos do último nome de pessoas amigas ou conhecidas, mas trocar o
primeiro é grave.
Por último vem a história da
renovação para a mudança. Já vi renovações mais ou menos, já vi renovações
tímidas ou renovações parciais, mas, sinceramente, nunca tinha visto uma
renovação que é uma espécie de regresso ao passado. Foi uma autêntica repescagem
de gente com mais de trinta anos de atividade política.
Quanto mais perto do período
eleitoral mais as coisas mudam, já se sabe. Mais empenho, mais ideias, mais
opiniões, mais visitas, mais sorrisos, mais palmadinhas nas costas, enfim, os
partidos apresentam-se com uma dinâmica diferente, com mais disponibilidade e
com maior sensibilidade para resolver os problemas dos cidadãos.
Embora haja quem não concorde, esta
postura é perfeitamente normal nas democracias. É nessa altura, no fim das
legislaturas, que os partidos políticos tentam passar a mensagem do que
defendem e o que farão caso vençam as eleições. Esta estratégia, sendo bem
aproveitada, pode até contribuir para a conceção dos manifestos eleitorais,
amplificando, deste modo, a vontade popular.
O problema é que nem sempre é
assim tão linear.
Há gente por aí que teima em
recorrer a qualquer meio para tentar aproveitar estes momentos para espalhar
inverdades de variadíssimas maneiras. Umas vezes a coberto de formas oficiais e
outras não. Não sendo invulgar é, no entanto, um método indigno destinado a ludibriar
as pessoas mais incautas que se atemorizam com estas posturas. Socorrem-se de
outros que, por sofrerem de partidarite aguda, lhes passam informações de forma
deturpada, fruto de recalcamentos antigos.
É assim. Daqui para a frente vamos
ver um pouco de tudo, infelizmente. Desde falsificações de documentos até
conspirações para se ver quem se vai tramar a seguir, algumas consumadas nas
próprias instituições que lhes pagam os salários, vamos ver de tudo.
Não podemos, no entanto, permitir
que esta prática vingue. Os partidos da nossa praça devem condenar liminarmente
estes processos baixos e rejeitar esta gente que, sem ponta de coragem para
assumir o que fazem, refugiam-se nestes métodos muito pouco éticos.
Por isso é necessário estarmos
todos atentos e não deixar passar impunemente estas manobras, venham de onde
vierem. Uns serão responsabilizados politicamente à boca das urnas, enquanto os
outros terão de assumir as consequências dos seus atos.
No dia 11 de julho de 1981 estava
a cumprir o serviço militar em S. Miguel. No quartel da Castanheira preparei-me
para ver na televisão do bar um momento importante para todos os Graciosenses:
a inauguração do aeroporto.
Nesse tempo, e até essa altura, a
mobilidade de pessoas e bens acontecia unicamente por via marítima. Eram os
tempos de glória do velhinho Ponta Delgada, que, até aí, aportava em todas
ilhas, primeiro de oriente para ocidente e depois ao contrário. Nos verões
havia o reforço das ligações marítimas feitas pelos barcos Espírito Santo,
Santo Amaro e Terra Alta, que, em vagarosas viagens, iam resolvendo as nossas
necessidades mais prementes, por vezes em condições bem severas, que faziam de
cada viagem uma aventura que, quando contada aos amigos, podia dar uma história.
Naquele dia todos os caminhos iam
dar ao novo aeroporto e a população acorreu em força, passando pela antiga
canada Nova, agora transformada numa bonita estrada, em direção á recém-construída
aerogare, para apreciar a primeira aterragem de um avião comercial nesta ilha e
depois ouvir os discursos da praxe, integrados na cerimónia oficial.
Estavam presentes as mais altas
individualidades dos Açores e o primeiro-ministro de Portugal, Dr. Pinto
Balsemão. Sinceramente não me recordo, de todo, da ordem das intervenções. Sei
que foi o senhor Gui, presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa
da altura, que chamou à atenção de todos os presentes e daqueles que viram através
da televisão, como eu. Fez um discurso interrompido, de quando em vez, por
silêncios em que fartas lágrimas escorriam pelo seu rosto. A emoção tomou conta
de muitos dos presentes, que, naquele momento, também sentiram um aperto no
peito. Foi a intervenção, de corpo e alma, de um homem que representava o seu
povo num momento histórico em que se rompia definitivamente com um isolamento
de séculos. O próprio primeiro-ministro referiu esse momento com uma contida
emoção.
O senhor Gui Louro foi um dos
fundadores nesta ilha do Partido Popular Democrático, agora designado por
Partido Social Democrata, e em 12 de dezembro de 1976, data das primeiras
eleições autárquicas após a revolução dos cravos, é eleito Presidente da Câmara
Municipal de Santa Cruz da Graciosa. Em 16 de dezembro de 1979 é reeleito e
exerce o cargo até ao dia da sua morte.
É na qualidade de responsável
autárquico que assiste a outros momentos importantes para a nossa ilha, como a
entrada em funcionamento do porto comercial e a inauguração do entreposto
frigorífico que, juntamente com o aeroporto, faziam parte dos primeiros grandes
investimentos perpetrados depois da conquista da autonomia dos Açores.
O sismo de 1980 foi outro
acontecimento que viveu enquanto exercia funções públicas. Foi um momento
dramático, sem dúvida, que exigiu dele uma entrega extraordinária tendo em
conta a necessidade de organizar todo o processo de reconstrução.
Impulsiona a constituição da
Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Ilha Graciosa, da qual foi
sócio fundador. Conta-se que no dia do desembarque da primeira viatura dos
bombeiros, feita ainda com o barco ancorado, o comandante do navio ter-se-á
recusado a fazer a descarga devido aos riscos que a operação envolvia e foi o
senhor Gui Louro que se deslocou ao porto para se responsabilizar pessoalmente
por aquela manobra. Hoje essa viatura, embora já fora de serviço, ainda ostenta
o seu nome.
Nas suas andanças na atividade
política foi ainda, durante um mês, Deputado na Assembleia Regional dos Açores.
Antes de se dedicar à vida
pública o senhor Gui foi funcionário do tribunal e, nessa qualidade, chega a
viver alguns anos na vizinha ilha Terceira. Quando regressa dedica-se ao
comércio e, mais tarde, concorre e exerce funções na Fundação Calouste Gulbenkian
que, como se sabe, tinha uma biblioteca itinerante que percorria toda a ilha na
busca de leitores. Nessa altura obtém a carteira profissional de solicitador
função que exerce em acumulação. Os conhecimentos que possuía nessa área
foram-lhe muito úteis aquando das expropriações dos terrenos onde foi
construído o aeroporto.
Nos seus tempos livres gostava de
participar em caçadas com os amigos, que acabavam, invariavelmente, em alegres
jantaradas. O mergulho também era uma das suas paixões, chegando a dizer aos
seus mais próximos que era no mar que se sentia verdadeiramente livre. Dedicava
também algum tempo a tratar da sua coleção de selos.
O senhor Gui Louro foi um
político determinado e que acreditava no que fazia. Era intransigente quando
estava em causa a defesa da sua amada ilha. Ao mesmo tempo era um sonhador e homem
de paixões. Pela sua terra fez o melhor que soube e pôde, sem nunca esperar nada
em troca.
Quando a presidente do PSD-Açores
vem à Graciosa é em campanha, já sabemos. Noutra condição nunca cá põe os pés,
mas isso é uma opção dela e temos de respeitar.
Normalmente escolhe estes
momentos para dizer umas coisas que nem lembram ao diabo. Desta vez deu a ideia
que quer resolver os problemas dos agricultores e da agricultura Graciosense.
É caso para perguntar:
. Onde andava esta senhora quando
o leite era pago irregularmente e com mais de 12 meses de atraso?
. Onde estava quando a fábrica de
laticínios fechou por não ter condições para laborar e os produtores ficaram
sem rendimento e sem saber o que fazer ao leite?
. Onde andava quando o leite
produzido na Graciosa era pago muito abaixo do preço pago em outras ilhas?
. Onde andava quando a Adega
Cooperativa foi asfixiada financeiramente, pelo Governo do PSD, ao ponto de ter
de encerrar portas?
. Onde andava esta senhora quando
a agricultura definhava, sem quaisquer produções alternativas?
Estava no Governo. Podem dar as
cambalhotas que quiserem para fazer passar a ideia que a Dra. Berta Cabral nada
tinha a ver com isto, mas, o que é um facto indesmentível, é que fazia parte do
Governo Regional da responsabilidade do PSD ou gravitava à sua volta. Por mais
que os seus apoiantes queiram e tentem, nunca o poderão esconder.
Esta é que é a verdade. A Dra.
Berta Cabral, naquele tempo em que os agricultores Graciosenses lutavam para
sobreviver, podia fazer muito por eles, se quisesse, mas não fez absolutamente
nada para evitar o colapso iminente de um setor que não tinha futuro à vista. Por
isso nunca poderá isentar-se de responsabilidades na quase liquidação de um
setor que foi necessário reerguer das cinzas a partir de 1996.
Hoje, felizmente, a Dra. Berta
Cabral pode ver, quando por cá passa, uma agricultura moderna, com agricultores
jovens e confiantes no futuro, com investimentos que rivalizam com os melhores
dos Açores. Pode ver uma ilha que conquistou um elevado estatuto sanitário e
com um rendimento por hectare superior à média regional. Pode ver a nova e
moderna fábrica de laticínios, cuja construção o Governo a que pertenceu nunca
teve a coragem de fazer. Pode ver que os produtores de leite recebem a tempo e
horas, tal como pode apreciar investimentos em floricultura e horticultura,
inexistentes no seu tempo. E pode constatar, ainda, que existem projetos
importantes em desenvolvimento como a Adega e Cooperativa, o Centro de Recria
ou o Matadouro Industrial.
Ainda não há muito tempo esteve
cá e falou muito bem deste setor, tal como o tinha feito a Dra. Maria do Céu
Patrão Neves, mas agora mudou repentinamente de opinião. Porque será? Só pode
ser por as coisas não lhe estarem a correr de feição.
A presidente do PSD-Açores, nesta
sua frenética pré-campanha, preocupa-se em estar com estes e com aqueles,
prometendo tudo, numa estratégia de agradar a todos, que, como se sabe, é
contrária ao sentido de estado que um candidato
a presidente do Governo deve ter.
Confesso que não estive particularmente
atento ao que se passou no congresso do PSD, mas, inevitavelmente, acabei por
ouvir algumas intervenções, pois as televisões, nestes momentos altos da vida
dos partidos, trazem até às nossas salas tudo o que se passa nessas reuniões
magnas, com direito a repetições devidamente acompanhadas pelos comentários dos
especialistas na matéria.
Uma dessas intervenções foi a
líder do PSD-Açores, porque ela é, no fundo, candidata à chefia do governo dos Açores
e como tal é preciso perceber o que diz, o que pensa e o que pretende, muito embora,
por vezes, seja difícil encontrar coerência entre o que diz e o que faz ou fez.
Mesmo os apoiantes do PSD-Açores
deviam estar à espera de um momento de afirmação da estratégia política, para
levar os Açores para frente. Esperava-se a definição clara de políticas a
aplicar caso vença as próximas eleições, mas o que se ouviu foi mais do mesmo e
nada de novo. Umas ideias aqui e outras ali, algumas redundâncias, mas sem uma
linha condutora programática fiável, que fizesse acalmar as suas próprias hostes
que já desesperam por posições mais concretas.
Percebemos, nessa intervenção,
que a líder do PSD-Açores receia a dureza negocial do primeiro-ministro.
Ouvimos a vontade de fazer descer as tarifas aéreas, só não soubemos ,como, nem
ouvimos a justificação porque, quando foi Diretora Regional dos Transportes,
presidente da SATA ou Secretária Regional das Finanças, as passagens aéreas
eram, mesmo assim, mais caras do que agora, apesar do petróleo ser seis vezes
mais barato. Definiu-se também como uma grande lutadora nas disputas eleitorais
passadas e aí só me veio à memória as autárquicas de 2009, onde os resultados
dos Açores, para a líder do PSD, resumiam-se a Ponta Delgada. O resto era com
os outros, os derrotados.
Como se vê é muito pouco. Esperava-se,
sinceramente, muito mais neste congresso da líder do PSD-Açores. Vamos ter de
aguardar por uma próxima oportunidade.
O sol já ia alto quando a vigia
do Pico Negro dá o sinal de baleia à vista e passa de imediato a informação ao
seu colega do Monte da Ajuda. Este agarra no foguete, apressa-se para o
exterior chegando a brasa do cigarro à pólvora que fez o foguete subir e
disferir, com estrondo, um forte sinal ouvido em toda a freguesia. Era esta a
indicação que muitos esperavam para, numa correria louca, se porem o mais
rápido possível junto do seu bote, na Barra ou na Calheta para começar mais um
dia de caça ao cachalote.
O Rodrigues era um homem alto e
forte. Sustentava a sua família com a baleação e complementava o rendimento com
proveitos advindos do mergulho. Era trancador, porventura o posto mais difícil nas
companhas pois é ele que, por força da sua função, estava mais perto do
imprevisível cachalote e era da sua perícia que dependia o sustento dos
restantes tripulantes.
Em reação ao sinal o Rodrigues foi
até sua casa na rua das Violas, agarrou apressadamente no farnel e, de calças
arregaçadas, correu até à Barra onde descalçou e arriou o bote com a ajuda dos
seus colegas que, entretanto, foram chegando.
O bote Cristovão Manuel, já com o
mestre José Vieira Goulart ao leme e à força dos remadores rumou até meio da
baía para aí ser apanhado e rebocado pela Estefânia Correia, pois não havia
tempo a perder. O mesmo terá acontecido com o bote saído da Calheta, que se pôs
a jeito de ser apanhado pela Estefânia no rumo entre a Barra e o local onde o
cachalote tinha sido avistado, lá para os lados do Pico Negro.
Havia uma sinalética própria
desta atividade, num jogo de bandeiras que anunciavam se já existia baleia
trancada ou mesmo morta. Nesse dia nada tinha sido indicado, pelo que se previa
um calmo regresso a casa, muito embora de mãos a abanar.
Mas não foi isso que aconteceu,
infelizmente.
Já passava das oito horas da
noite quando me apercebi do exagerado movimento na minha rua, que era a mesma
do Hospital.
A eletricidade ainda estava ligada
mas lá fora imaginava uma noite de trevas. Ouviam-se vozes apressadas, ruído de
automóveis e, depois, o choro de mulheres que subiam a rua. Algo não estava bem.
Meu pai resolveu sair para saber
o que se passava, enquanto nós, eu e a minha mãe, esperávamos ansiosamente por explicações
sobre o que estava a acontecer. Sim - disse meu pai no regresso - era mesmo
grave. Tinha havido um acidente na caça à baleia e já existiam mortos e alguns
desaparecidos.
Ficamos a tentar imaginar o que
poderia ter sucedido, enquanto as horas passavam vagarosamente. As perguntas
surgiam às catadupas e as respostas tardavam. O que poderia ter corrido mal?
Com o alvorecer e depois de uma
noite em branco repleta de pensamentos sombrios e a imaginar o sofrimento
daqueles que tinham familiares nas embarcações envolvidas, vieram as primeiras
explicações.
Depois da faina a lancha Estefânia
Correia fez o reboque dos botes baleeiros de regresso aos portos, tal como o
fizera em muitas outras ocasiões. Deixou o primeiro na Calheta e trouxe o Cristovão
Manuel até à Barra onde era varado normalmente.
Começava a escurecer e, por isso,
a entrada na Barra não era fácil, muito embora a existência de dois pontos de
luz, alimentados a petróleo, davam a indicação precisa do enfiamento correto
para entrar de uma forma segura.
A manobra não terá corrido como
se esperava. O Cristovão Manuel, empurrado pela onda na carreira da Barra, terá
ultrapassado a Estefânia Correia. O mestre José Vieira Goulart, oficial do
bote, prevendo o desfecho, ainda tentou a todo o custo aguentar o leme em
direção a terra, mantendo o bote na esteira da onda. Não dava tempo, era
preciso cortar o cabo. Correu por cima dos bancos de machado em punho, mas era
tarde demais. O cabo esticou e o bote voltou-se com os seus sete tripulantes a
bordo. Não é difícil imaginar o pânico daqueles homens que, embora habituados
às condições adversas do mar que lhes dava o pão, terão sido apanhados de
surpresa, no início daquela noite de novembro de 1967. Temendo serem atingidos
pela lancha que circulava às voltas procurando sobreviventes e enredados na
palamenta do bote baleeiro constituída por remos, pás, velas, mastros, selhas,
cabos e ainda desorientados por não enxergarem a ilha que lhes poderia trazer a
salvação, estes homens lutaram até à exaustão, constando mesmo que alguns,
desesperadamente, terão nadado em direção oposta à da terra até ao limite das
suas forças.
Morreram o mestre José Vieira
Goulart (oficial do bote), Arnaldo de Sousa, Izalino Nunes, Gabriel Machado,
Albino Horta e José Soares. Sobreviveu o Firmínio Rodrigues Picanço, aquele
que, afinal, estava sempre mais perto do perigo. A sua destreza dentro de água
ditada pelos anos de experiência como mergulhador e a frieza com que encarou o
sinistro terão sido cruciais para escapar ao destino dos companheiros.
O ano de 1967 ficará indelevelmente
marcado na nossa memória coletiva por este desastre.
Quis o PSD – Açores levar ao
Plenário da Assembleia Legislativa uma interpelação ao Governo Regional sobre o
setor do turismo na Região Autónoma dos Açores.
Estranha-se, no entanto, que para
um partido que critica tanto a política de turismo do Governo Regional dos
Açores, apenas agora tenha trazido este tema à baila para debate.
Terá sido por acaso? Claro que
não. Cedo se percebeu que esta figura regimental foi aproveitada pelo partido
proponente para atacar e tentar diminuir o Secretário Regional da Economia que,
como se sabe, é o candidato do Partido Socialista a Presidente do próximo
Governo dos Açores que sairá das próximas eleições regionais que ocorrerão em outubro
próximo.
Mas penso que este gesto terá
saído como mais um tiro no pé. E têm sido tantos, ultimamente, que até já lhes perdi
a conta.
Um partido como o PSD, que já
governou esta região duas décadas, não se poderá proteger das responsabilidades
que tem, agora que se encontra na oposição.
É preciso lembrar – e temos de
fazê-lo agora com mais acuidade porque neste período pré-eleitoral algumas
pessoas revelam sintomas agudos de memória curta – que o PSD deteve o poder
durante muitos anos e, nessa altura, enjeitou a oportunidade desta região se
afirmar no turismo.
Naqueles tempos não se
construíram hotéis porque não tínhamos turistas, mas também é verdade que não
tínhamos turistas porque não tínhamos hotéis. E vivíamos assim, enredados nesta
teia imobilizadora que nos atirou para uma situação dramática.
Apesar disto o PSD chegou a ter
um Secretário Regional do Turismo, imagine-se. Aos Açores não vinham turistas,
nos Açores não existiam estabelecimentos hoteleiros, mas, mesmo assim, o PSD tinha um gabinete completo para tratar
de uma pasta que, na prática, não existia. Isto não é para qualquer um…
Foi assim que o Partido
Socialista encontrou os Açores em 1996. Estava tudo por fazer e em todas as
ilhas.
Foi preciso dinamizar a
iniciativa privada, apostar na construção de hotéis de qualidade, promover o
destino, ao mesmo tempo que se qualificava a restauração. Nalgumas ilhas, como
é o caso da Graciosa, o Governo substituiu, e muito bem, a iniciativa privada
na construção de empreendimentos quando o empresariado se mostrava sem
capacidade financeira para o fazer.
Os resultados estão bem à vista
de todos e só não vê quem não quer. O número de turistas aumentou
exponencialmente, aumentando o número de trabalhadores neste setor, tal como
aumentou o rendimento desta atividade, contributos importantes para o
crescimento do Produto Interno Bruto da Região Autónoma dos Açores.
Passamos do oito ao oitenta. Foi
uma tarefa hercúlea, que orgulha, e em muito, os Governos do Partido
Socialista.
Berta Cabral veio a público regozijar-se
da boa situação financeira da “sua” Câmara Municipal, com base num ranking
saído no Anuário Financeiro dos Municípios. Que era bem gerida, que estava de perfeita
saúde, que tinha um dos menores endividamentos per capita, que se encontrava entre as melhores do país e sei lá o
que mais. Só coisas boas.
No dia da entrevista, onde essa
revelação inusitada foi feita, notei grande candura na postura da presidente da
Câmara de Ponta Delgada, o que, sinceramente, fez-me lembrar que quando a
esmola é grande até o santo desconfia.
Pouco depois os Açorianos vieram
a saber que houve um engano e que afinal não era bem assim, antes pelo
contrário. A Câmara de Ponta Delgada não estava entre as melhores 50,
infelizmente. O endividamento por munícipe afinal era o dobro da que se
encontrava em 50º lugar desse ranking, o que atira aquele município, afinal,
para as calendas gregas da tal
listagem, num lugar nada honroso.
Até o professor Marcelo Rebelo de
Sousa, comentador domingueiro, ficou inebriado com a prestação da sua
companheira de partido, que, depois, veio a verificar-se, tratar-se de um flop nunca desmentido, apenas porque
dava jeito.
Foi com estupefação que
assistimos ao silêncio depois de tamanho engano com se isso fosse de somenos
importância. Os Açorianos não merecem este tipo de comportamento branqueador.
Se foi por a dra. Berta Cabral ignorar
a verdadeira situação financeira da sua edilidade, é grave, mas se foi uma ação
premeditada então trata-se de um ato inqualificável e impróprio para quem tem
ambições políticas.
Nestas coisas a verdade vem
sempre ao de cima, diz o nosso sábio povo. Descobre-se o logro e cai a máscara,
digo eu.
Era na sua tenda situada na rua
Serpa Pinto, por baixo do granel do senhor Francisco Barcelos, que estava
sempre. De avental marcado por nódoas das tintas que usava, permanecia invariavelmente
sentado de corpo curvado atrás da sua banca de trabalho, repleta de utensílios
próprios da profissão. Passava horas seguidas, agarrado aos sapatos, moldando
as solas, cozendo ou polindo, rodeado pelas suas ferramentas espalhadas pela
banca, sempre ao alcance das suas necessidades. E sapatos, muitos sapatos,
depositados num recanto da tenda esperando a sua vez para merecerem os cuidados
deste artífice.
Este era o sapateiro a quem a
minha família entregava os sapatos para as devidas reparações. Normalmente calhava-me
a mim levar os ditos em mau estado, quase sempre de biqueira aberta devido às
jogatanas no campo de S. Francisco, mais conhecido pelo campo da Rata, ou então
de sola gasta pelo uso intensivo, para os ir buscar uns dias depois já como
novos, prontos para mais uma temporada.
A tenda do senhor Edmundo, como
era conhecida a sua oficina, funcionava, também, como ponto de encontro de
muitos Graciosenses.
O chão era de cimento frio, que
contrastava com o calor humano que reinava naquele espaço. Nas paredes viam-se
alguns cartazes amarelados pelo tempo. Tinha um banco corrido num dos lados
onde se sentavam todos aqueles que procuravam saber as novas, que, naquele tempo
demoravam a chegar, trazidas pelos frequentadores e clientes que eram também os
seus amigos. Num dos cantos ficava uma cadeira de vimes, mais confortável, que
estava informalmente reservada ao Dr. Gregório ou ao Comandante Silveira, duas
figuras de referência que não dispensavam uma presença diária naquele espaço.
Por ali passavam médicos, comerciantes, sacerdotes, estudantes, carteiros,
professores, etc.. Uma amálgama de gente que refletia a sociedade Graciosense.
Antes da revolução dos cravos era
ali que se discutiam intensamente os assuntos que estavam na berra. Era ali que
chegavam outras maneiras de ver o mundo, porque muitos dos frequentadores
ouviam rádios não controlados pelo antigo regime e por aí sabiam a verdade, nua
e crua, sobre o que se passava no nosso país e no mundo. Era ali que se abordavam
os assuntos políticos, mais ou menos em surdina.
Acredito piamente que aquele
espaço deve ter merecido a atenção da polícia política, pois muito do que lá se
dizia, comentava e discutia, não era, de todo, bem visto pelo regime da altura.
Depois de Abril, com o advento
das comunicações e da televisão o nosso mundo mudou, mudaram também o país, a
região e a nossa ilha, mas a tenda do senhor Edmundo manteve-se inalterável.
Era um local de culto para os seus frequentadores que continuaram a abordagem
dos mesmos temas, só que de maneira mais desassombrada. Era o valor da
liberdade.
O senhor Edmundo tocou trombone
anos a fio na Filarmónica Recreio dos Artistas e terá pertencido aos seus
corpos sociais, dando, assim, um contributo para a cultura Graciosense. Era um
pescador de calhau exímio e, diz quem o conheceu, fazia uma caldeira muito
apreciada pelos amigos. Estava sempre pronto para pregar umas partidas aos mais
incautos que por ali passavam.
Apesar da modéstia e humildade o
senhor Edmundo era um homem culto e que cultivava a verdadeira amizade.
Partilho da opinião de que as
petições públicas são um instrumento importante nas sociedades modernas.
Qualquer cidadão ou grupos de cidadãos podem, por esta via, invocar a atenção
dos poderes públicos para uma situação ou uma questão tida como pertinente por
parte de quem subscreve.
Esta é uma das grandes conquistas
plasmadas nos documentos fundamentais, a Constituição Portuguesa e o Estatuto
Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores.
Curiosamente têm surgido
ultimamente muitas petições, o que faz denotar a maturidade da democracia e a
participação dos cidadãos nas decisões sobre políticas que afetam a sua ilha, a
sua região ou o seu país.
Recentemente surgiram nos
noticiários duas petições, que chamaram a atenção por serem inusitadas, na minha
opinião meramente pessoal. Uma destina-se à destituição do Presidente da
Republica e outra à antecipação das Eleições Regionais.
O Dr. Cavaco Silva foi eleito em
janeiro de 2011 com 53,14% dos votos expressos e, por isso, quer se concorde ou
não com ele, está a ocupar um cargo com a legitimidade que tão larga maioria
lhe deu nas urnas.
Nas Eleições Regionais de 2008 o
Partido Socialista venceu com 49,92% dos votos expressos, atingindo uma nova
maioria absoluta indiscutível que lhe garantiu a governação por mais estes
quatro anos.
O povo, convocado a decidir, foi
muito claro e escolheu quem queria para Presidente da República e antes, em
2008, apurou o partido que lhe dava mais garantias para dirigir os Açores.
Num e noutro caso o povo vai ser
chamado novamente a decidir e é nesse contexto que fará o julgamento e não de
outra forma, mesmo que desse mais jeito a este ou a aquele partido.
Alterar as regras parece-me a
subversão da democracia, porquanto foi esta democracia, com as virtudes e os
defeitos que encerra, que proporcionou a prerrogativa dos cidadãos utilizarem esta
figura de participação cívica. Não a desvirtuemos.
Na passada semana ficamos a saber
que o desemprego nos Açores se situava nos 15,1 %, valor mais alto do que o
registado no conjunto do país.
Logo tivemos quem se apressasse a
atacar o Governo Regional dos Açores acusando-o de não ter conseguido estancar
este drama que afeta muitos Açorianos, sobretudo o mais os jovens. Basta
folhear os jornais e logo se veem os títulos garrafais de crónicas dos
comentadores políticos dizendo isso mesmo.
Esta reação era esperada. Ainda
recentemente vimos caras com ares de consternação apenas pelo facto de na Região
Autónoma dos Açores não ser encontrado um “buraquinho” nas contas públicas que
fizesse render alguns votos. Agora o desemprego também é usado como arma de
arremesso. Infelizmente alguma oposição funciona assim, tipo, quanto pior,
melhor.
Fala-se muito dos jovens na busca
de emprego, como se isto fosse um dado novo. As coisas não mudaram muito para
os jovens, mas existem diferenças que importa revelar. Todos têm acesso ao
ensino superior e quando isso não acontece existe uma enorme oferta de cursos
técnico profissionais, que os qualificam e abrem portas ao mercado de trabalho.
Quando acabam a licenciatura tem acesso a um primeiro contato com esse mercado
através dos programas Estagiar, que, curiosamente, tem colocado muitos dos
estagiários nas empresas onde cumpriram esse programa. Hoje qualquer jovem
licenciado ou com formação profissional tem acesso a programas de
empreendedorismo ou de criação do auto emprego.
Este flagelo do desemprego, usado
indevidamente para caçar uns votos aqui e outros ali, tem afetado as regiões
ultraperiféricas da Europa de uma maneira assustadora.
Nas diversas crónicas feitas por
gente da oposição, nunca vi referências que remetessem o aumento do desemprego para
a diminuição drástica do consumo, a redução do investimento, ou a falta de
liquidez da banca para alavancar a economia, situações criadas pelo Governo Central
que se orgulha, todos os dias, de, em matéria de cortes, ir muito mais além do
que exige a troika.
Pela via das dificuldades de
acesso ao crédito houve uma redução enorme da atividade no setor construção
civil. O aumento brutal dos impostos fez diminuir drasticamente o rendimento
das famílias, afetando o consumo e por isso o setor de comércio e serviços registou
uma quebra sem precedentes. É por esse facto que todos os dias trabalhadores do
comércio ou da construção civil engrossam os números de desempregados e isso
deve-se às políticas desacertadas impostas pelo Governo da República, como
facilmente se depreende.
O Governo Regional se não tivesse
executado um Plano Regional de Emprego, se não tivesse criado mais de 21 mil
novos empregos em 10 anos, se não criasse programas para empregabilidade para
mulheres e jovens, se não apostasse na formação profissional e se não
consolidasse o tecido empresarial, certamente que agora o problema do
desemprego teria contornos muito mais graves.
E mais. O Governo Regional,
enquanto esta conjuntura externa adversa atingia os Açores, tratou de minimizar
os estragos, atacando o problema em várias frentes, nas empresas e nas
famílias, passando pela agricultura e pescas e criando o Programa para a Promoção
do Emprego e Competitividade para uma resposta imediata.
Uns, aproveitando a boleia desta conjuntura
nacional e internacional desfavorável, tentam, desesperadamente, colar os seus
efeitos nefastos ao Governo Regional sem apresentar uma única proposta para
alterar esta situação, enquanto outros, por entre as dificuldades impostas,
respondem aos problemas que assolam os Açores e Açorianos com confiança e
determinação.