Hoje, pelas 11 horas, irá
proceder-se à assinatura do “Master Agreement” entre a EDA e a empresa Younicos.
Como é conhecido, a Younicos já
trabalha no projeto de produção de energia limpa para a Graciosa desde há algum
tempo. Na cidade de Berlim, onde a empresa tem a sua sede, foi realizada uma
experiência em grande escala, onde foram feitos testes exaustivos e que
provaram ser possível desenvolver a ideia de produzir e armazenar energia a
partir de fontes alternativas.
Representará um investimento total de 25
milhões de euros e pretende substituir o consumo de combustíveis fósseis para
produção de energia por fontes amigas do ambiente, neste caso a eólica e a
solar que, combinadas, serão suficientes para produzir 100% das nossas necessidades
energéticas.
Sem dúvida nenhuma que a partir
de agora nada será como antes. A aposta que o Governo dos Açores tem feito no
ambiente tem dado resultados e este projeto, que foi distinguido com o Prémio
Solar Europeu, irá permitir a esta ilha tornar-se numa ilha verde a muito curto
prazo.
Este importante passo é,
decididamente, o culminar de um processo inovador, que exigiu muita
investigação e que, por isso, trará à Graciosa alguma notoriedade. Por outro
lado permitirá, também, deixar um legado importante para o futuro.
Seguramente que este projeto será
alargado a outras ilhas, tornando os Açores, cada vez mais, como um dos
melhores locais do mundo para se viver.
O equilíbrio que se pretende
manter nos Açores entre a natureza e o desenvolvimento do turismo tem vários
caminhos, especialmente nas ilhas de menor dimensão.
O Turismo em Espaço Rural pode
ser um contributo importante para diminuir a sazonalidade. É uma experiência
que permite conhecer o dia-a-dia da vida no meio rural e ir ao encontro das
origens culturais destas ilhas.
O Mergulho é, também, uma oferta
que está a crescer em todas as ilhas. Segundo a obra “Debaixo de Água: 24
lugares de mergulho que todos os mergulhadores devem conhecer”, publicado na
Alemanha, curiosamente o maior mercado mundial, os Açores estão entre os 24
melhores destinos de mergulho do mundo. Várias revistas da especialidade
relevam as potencialidades das paisagens submarinas do nosso mar, onde se
incluem baixas, cavernas, arcadas, ilhéus e naufrágios, que albergam uma
variedade enorme de peixes, algas e corais, difíceis de ver noutros locais.
A Observação de Aves, embora de
uma forma subtil, está também em franco crescimento nos Açores, nomeadamente no
Corvo e na Graciosa. São procuradas aves migratórias dos continentes Americano
e Euroasiático e outras espécies raras, como é o caso do Painho de Monteiro,
tão bem retratado no recém-lançado documentário de Pedro Carvalho “Em busca do
Painho de Monteiro”, que será transmitido em televisões nacionais e
estrangeiras. Neste momento estão identificadas cerca de 400 espécies
observadas na região.
A Observação de Cetáceos tem
vindo a evoluir de forma sustentada e ainda tem espaço para crescer mais no
futuro.
Os trilhos pedestres disseminados
por todas as ilhas, alguns deles sendo reaproveitamentos de antigos caminhos
para pessoas e animais, complementam a oferta turística e aproximam o turista
da natureza deslumbrante dos recantos das ilhas, abrangidos por esta rede.
Aproveitar as potencialidades
destas formas de turismo no futuro próximo é o repto que as ilhas da coesão têm
pela frente. A conquista de nichos de mercado com práticas amigas do ambiente é
a melhor forma para crescer de forma sustentada, provocando um impacte reduzido
na natureza. E é esse o caminho que devemos seguir.
Berta Cabral finalmente anunciou
que vai renunciar ao mandato como presidente da Câmara Municipal de Ponta
Delgada no final deste mês de julho. Foi um gesto que se adivinhava difícil,
mas lá chegou há sua hora. Esta notícia, já esperada, vem repor alguma
normalidade naquela edilidade, pois as ausências da sua presidente eram
demasiado evidentes e cada vez mais demoradas, para se dedicar quase em
exclusividade à sua candidatura a presidente do Governo Regional.
Mas, de facto, este abandono da
maior autarquia dos Açores já não é de agora. Em boa verdade tem sido o
vice-presidente a liderar informalmente a autarquia, com todos os
inconvenientes que essa indefinição acarreta, por isso é correto inferir-se que
Berta Cabral afinal já há muito tempo tinha abandonado a Câmara Municipal de
Ponta Delgada e os pontadelgadenses.
Esta estratégia de se manter a
todo o custo e até quase ao limite poderá, de certo modo, ter sustentado a
constante aparição na comunicação social da sua presidente e candidata, que, como
se sabe, gosta de juntar esta faceta mais vistosa da política a outras mais
inusitadas: a da promessa fácil e da satisfação de descontentamentos.
No fundo este comportamento de se
agarrar à cadeira do poder foi notoriamente prejudicial ao seu concelho, pelas
razões óbvias que estão à vista de todos e ainda por ter feito da Câmara Municipal
do seu concelho um posto de comando avançado de oposição ao Governo Regional.
Este voltar de costas constituiu um prejuízo evidente para a população.
Não há qualquer dúvida que a
Câmara Municipal de Ponta Delgada foi usada por Berta Cabral, de forma abusiva,
para satisfazer a ambição pessoal e política de chegar ao Governo Regional.
Fui convidado pelo Dr. Vasco
Cordeiro e pelo PS/Açores para encabeçar, pela primeira vez, a lista pelo
círculo eleitoral da Ilha Graciosa às próximas eleições regionais, que se
realizarão, previsivelmente, no próximo mês de outubro.
Aceitei esse desafio e fi-lo com
a convicção de que, apesar do muito que foi feito por todas ilhas dos Açores, é
preciso terminar estra obra imensa de mudar os Açores e a Graciosa para melhor.
Fi-lo também porque apesar de
estar orgulhoso do trabalho feito desde 2004, altura em que pela primeira vez
fui eleito para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, tenho a
humildade de reconhecer que é preciso fazer mais e melhor.
Por último, e com toda a certeza
a principal das razões, aceitei este desafio porque acredito no Vasco Cordeiro
e na sua capacidade para liderar um processo de renovação de um modo tranquilo
e com confiança. As suas ambições para os Açores são imensas, a sua vontade de
manter o estado social é inflexível e a sua coragem para enfrentar as
dificuldades é conhecida.
Nestas eleições Vasco Cordeiro perfila-se
como um candidato diferente de outros, nomeadamente do maior partido da
oposição. É jovem, mas tem experiência e capacidade políticas que nos dão
garantias para governar a região. É um acérrimo defensor da autonomia da nossa
região e já afirmou que, seja lá que partido for a dirigir o país, cerrará
fileiras para defender os interesses dos Açores e das suas populações. Esta sua
forma inquebrantável de defender este enorme património opõe-se claramente
àqueles que não se importam de se ajoelharem perante as sombras centralistas.
É por isso que não tenho dúvidas
que estas eleições serão as mais importantes das realizadas até aqui.
Quando saí do consultório do meu tio
Gregório, situado no Largo de Santo António, onde agora é a agência da Caixa
Geral de Depósitos, transportava na mão uma receita para o problema de pele que
tinha aparecido poucos dias atrás e na cabeça trazia a esperança de poder
debelar aquele ardor que me afligia, com a aplicação do medicamento prescrito.
Quando cheguei à farmácia Santos
Costa e entreguei a receita ao senhor Juvenal da Farmácia, como era mais
conhecido, é que percebi que não se tratava de uma receita tradicional, com o
nome de um medicamento que seria retirado de uma qualquer prateleira. Antes
pelo contrário. Era uma descrição de elementos químicos que combinados na dose
certa haveriam de ajudar a combater o problema.
A parte da frente da farmácia tinha
uma mesa que servia de balcão e que era a base de uma velha registadora. As
paredes estavam preenchidas com armários brancos repletos de medicamentos, meticulosamente
ordenados. Na dependência interior existia uma mesa grande no meio, com tampo
de mármore onde se podiam ver várias balanças, uma delas de precisão, um gral e
outros utensílios farmacêuticos e as paredes ao redor forradas de frascos e
potes, escuros como convinha, para manter a pureza dos ingredientes
farmacêuticos, todos identificados com uma etiqueta branca, debruada a vermelho.
Num dos lados estavam os adesivos, o algodão, a gaze, a tintura de iodo e o mercurocromo,
preparados para tratar das feridas de quem procurava aquela farmácia. Sobressaiam
também as caixas metalizadas com seringas e agulhas para a aplicação de
injeções. No chão existia um estrado de madeira e junto às prateleiras
podiam-se ver uns bancos pretos. A limpeza, o cheiro intenso a químicos e a
medicamentos, a cor branca do mobiliário e dos tampos das mesas, dava a ideia
de estarmos num lugar perfeitamente esterilizado, característica que é, aliás, comum
a outros estabelecimentos do género e a hospitais.
O senhor Juvenal dirigiu-se à
dependência interior e com o seu olhar experiente chegou, rapidamente, aos
componentes descritos na receita e num ápice preparou o medicamento proposto
pelo meu tio que me haveria de trazer alivio para a minha maleita.
Naquele tempo era assim. Uma
parte do receituário de meu tio Gregório, único médico na ilha durante muitos
anos, era composta na própria farmácia. Com a cumplicidade do Dr. Gregório o
senhor Juvenal chegava mesmo a recomendar tratamentos, mas quando via que não
estava à altura para resolver a situação, era o primeiro a reencaminhar o
doente para o médico. Entre os dois havia uma relação de confiança que dava
segurança aos doentes. De um lado estava um homem licenciado em medicina e que
tinha, segundo dizem, um grande acerto nos diagnósticos e de outro estava um
ajudante de farmácia, que aprendeu à sua custa tudo o que sabia, mas, no fundo,
dotado de muitos conhecimentos que a longa experiência de mais de 40 anos de
atividade lhe tinha dado. A enorme competência profissional demonstrada ao
longo de toda a sua vida foi adquirida graças à sua dedicação e ao trabalho
árduo.
O senhor Juvenal começou a
trabalhar naquele estabelecimento quando tinha apenas 15 anos de idade, logo a
seguir ao seu exame da 4ª classe. Interrompeu esta atividade aos 19 anos para
cumprir o serviço militar no Batalhão Independente de Infantaria nº 17, onde recebeu
um Louvor.
No seu percurso foi ganhando
competências e estatuto. Passou a fazer domicílios para aplicação de injeções e
tratar de feridas dos doentes acamados, fazendo-se deslocar primeiro de
bicicleta, depois de mota e depois de carro. Mais tarde destacou-se na
manipulação dos químicos que compunham muitos dos medicamentos que dali saíam.
Fez também a contabilidade do estabelecimento.
Nesta sua profissão era chamado à
farmácia com muita frequência. Muitas das vezes essas chamadas eram feitas pela
noite dentro ou em períodos de invernia, para fornecer os medicamentos a quem
deles precisava, o que implicava algum sacrifício pessoal. Nesta profissão muitas
vezes o conforto de casa ou a participação em eventos sociais tinham de ser
interrompidos para acudir a quem necessitava, tal como ainda hoje acontece.
Em 1982 ingressa na Câmara
Municipal onde trabalhou até à sua morte, exercendo funções de carácter administrativo.
Para além destas atividades, o
senhor Juvenal era um grande produtor de vinho de cheiro. Desde muito cedo que
gostava de produzir o seu próprio vinho que era feito e armazenado numa adega
anexa a sua casa. O que sobejava do utilizado para consumo próprio era vendido,
nomeadamente exportado para a Terceira e S. Miguel, através do senhor
Bernardino. Para este mesmo comerciante comprava pipas e pipas de vinho por
toda a ilha, ajudando assim os pequenos vitivinicultores a escoar a produção
excedentária. Na semana anterior passava pelas casas das pessoas avisando-as do
dia do navio. No dia combinado passava novamente, mas desta vez de camioneta, e
carregava as pipas que os produtores tinham deixado à porta das suas adegas.
Por mês chegava a exportar 15 pipas de vinho, o que equivalia a 7.200 litros.
Antes de 1974 foi vereador da
Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa. Foi também diretor da Adega
Cooperativa da Ilha Graciosa, num período que aquela instituição tinha um peso
importante na economia da ilha.
Desempenhou o cargo de delegado
nesta ilha do Instituto de Apoio Comercial à Agricultura, Pecuária e
Silvicultura, no exercício do qual, segundo referia o seu Presidente da Direção
aquando da sua morte, ”foi notório o interesse com que sempre abordou os
problemas relacionados com a atividade deste Instituto”.
Na década de 70, altura em que se
verificou um grande surto migratório, passou a ser procurador de muitos
emigrantes residentes nos Estados Unidos da América e no Canadá. Nessa condição
tratava dos imóveis e de outras burocracias de muitos dos que tiveram de
procurar um melhor futuro noutras paragens. É sabido que esta função era
desempenhada sem qualquer contrapartida, pelo que o senhor Juvenal terá ajudado
muitas pessoas de modo gratuito, o que combinava muito bem com o seu feitio
generoso, sempre pronto para ajudar quem dele necessitava.
Estava eu a passar os olhos pelos
jornais logo pela manhã quando me deparei com uma notícia interessante: “Berta
Cabral garante mais apoios sociais à custa de menos festas e viagens”.
Vindo de quem vem este propósito
é, por demais, surpreendente. Todos conhecem, principalmente os micaelenses, a
queda que Berta Cabral tem por festas e arraiais. Ainda recentemente, quando
pressionada para suspender o seu trabalho, já a tempo parcial, como edil da
maior autarquia dos Açores, a presidente da câmara e candidata a presidente do
governo, apressou-se a disser que só sairia dessas funções depois das festas do
Espírito Santo, as quais terão sofrido um reforço de verbas este ano. Pela
amostra se percebe que estas festas são muito importantes para ela, se calhar
pela visibilidade que lhe proporciona.
Se atentarmos aos inúmeros atos públicos,
nesta muito fértil pré-campanha eleitoral, as festas tem servido de constante
cenário para as suas aparições, mesmo quando promovidas por instituições cujos
sócios não foram informados sobre a sua utilização abusiva como meio de
propaganda, comprometendo as pessoas que exercem honestamente cargos nos órgãos
sociais e os propósitos de equidistância e independência perante o poder
político que estas instituições devem ter.
No que respeita a viagens, bem aí
o que vemos é uma roda vida. Desde a Coreia do Sul, em representação da Associação
Nacional dos Municípios Portugueses, ou os Estados Unidos da América, em
representação da Câmara de Ponta Delgada, até ao Brasil, para assinar um
contrato com um arquiteto para uma obra que não se sabe se verá a luz do dia,
passando pelas inúmeras viagens entre ilhas, a atuação desta líder partidária
tem-se pautado exatamente por um vai vem constante, nalguns casos de duvidosa
utilidade.
Por isso é difícil entender este
título de notícia e estas oportunistas intenções, porquanto esta líder
partidária faz exatamente o contrário daquilo que apregoa.
Vasco Cordeiro, na qualidade de
candidato a Presidente do Governo, assume que o mar, a biodiversidade e a
localização estratégica destas ilhas, são fundamentais para o futuro dos
Açores.
Nos Açores, e especialmente nas
chamadas ilhas da coesão, os governos da responsabilidade do Partido Socialista
impuseram uma marca indelével moldada por uma estratégia de modernização e
desenvolvimento que já está a produzir frutos.
A infraestruturação das ilhas foi
um trabalho imenso perpetrado com base num plano de desenvolvimento harmonioso
de todo o arquipélago. Por aqui e por ali fizeram-se apostas nas aptidões
endógenas, como a agricultura e a pesca, capacitando cada uma das ilhas de modo
a poderem obter mais-valias, dinamizando, por esta via, as pequenas economias
insulares.
A aposta na requalificação da
indústria de laticínios, o melhoramento animal, a diversificação agrícola, a
construção de portos de pesca e a renovação da frota, são exemplos disso mesmo.
Estas medidas, em conjunto com a redução de custos e ajudas nos transportes,
tem facilitado as exportações destas ilhas mais pequenas.
Recentemente o governo regional
enveredou pelo terceiro pilar, o turismo. Mais uma vez o governo chegou-se à
frente nas ilhas com menores capacidades financeiras e substituiu a iniciativa
privada na construção de estruturas hoteleiras. Apostou-se, também, em pequenas
unidades de turismo rural, como forma de captar nichos de mercado ligados à
natureza. Os resultados não tardaram em aparecer com o crescimento sustentado
das dormidas nos estabelecimentos de hotelaria tradicionais.
Esta aposta neste setor emergente
tem sido devidamente acompanhada com medidas importantes na área do ambiente. O
reconhecimento das ilhas do Corvo, Graciosa e Flores como Reservas da Biosfera
pela UNESCO, os projetos na área de produção de energia limpa, como o caso do
projeto Younicos na Graciosa, dão uma
necessária notoriedade a este destino.
A par disso o Governo investiu na
gestão dos resíduos urbanos, exportando todos os que não são passíveis de
valorização. Criou também os parques naturais e o parque marinho que incluem
áreas protegidas, que se revelam fundamentais na preservação de algumas
espécies e contribuem para a reposição de stocks piscícolas.
Foi por tudo isso que em 2007 os
Açores chegaram ao topo, quando foram consideradas as segundas melhores ilhas
do mundo para o turismo sustentável pela prestigiada revista internacional
National Geographic, logo a seguir às ilhas Faroe, na Dinamarca.
Esta paisagem verde retalhada e
delimitada pelo azul deste imenso mar, as tradicionais casas construídas com a
pedra negra dos nossos vulcões, constituem uma paisagem deslumbrante. A
simplicidade e a simpatia dos Açorianos completam este cenário único.
Usufruir de todas as potencialidades
minimizando os impactes negativos é o desafio que temos pela nossa frente.
Quando o navio Ponta Delgada se
aproximava do porto de Santa Cruz ou da Praia, surgia ao fundo uma lancha com o
Cabo do Mar a bordo que, com uma bandeira, sinalizava o local apropriado para o
comandante da embarcação mandar arrear a âncora. Esta manobra era fundamental
pois permitia aos conhecedores das baías escolher um bom fundo e dá-lo a
perceber ao comandante e assim evitar a perda de tão importante equipamento. A
partir do fundeadouro o serviço de desembarque e embarque fazia-se num lento
vaivém desta frágil embarcação de madeira.
De seguida a lancha voltava ao
cais e trocava o Cabo do Mar pelo senhor Valter Melo e dirigia-se novamente ao
navio, encostando-se à escada do portaló feita de madeira e cabos, dependurada no
través do navio. Com a ajuda de um dos marinheiros, que se colocava
estrategicamente no patamar ao fundo da escada, o senhor Valter era a primeira
pessoa a entrar no Ponta Delgada, sempre acompanhado por uma pasta com a
listagem dos passageiros a embarcar e outra papelada necessária ao despacho.
Naquela altura já havia grande azáfama, com os passageiros a prepararem-se para
o desembarque. O senhor Valter, passava pelo portaló em passo apressado e
perdia-se no convés por entre os passageiros em direção ao conferente de bordo para
tratar da burocracia. Depois, a partir do navio, acompanhava toda a operação de
desembarque e embarque dos passageiros e só regressava a terra na última
lancha, cerca de 2 horas depois da chegada.
Primeiro o senhor Valter foi
despachante oficial das Alfândegas. Depois da desativação daquele serviço nesta
ilha, nos anos 70, ingressa na Empresa Insulana de Navegação. Mais tarde
torna-se correspondente do Banco Português do Atlântico e inicia o percurso de
mediador de seguros, tendo sido agente da Tranquilidade, função que exerceu até
à sua reforma.
O senhor Valter Melo era daquele tipo
de pessoas que não deixava ninguém indiferente. Muito alegre e sempre
bem-disposto o senhor Valter destacava-se naturalmente em qualquer grupo, por
ser o centro de todas as atenções. Tinha uma enorme facilidade para contar uma
história e fazia humor a partir de uma qualquer banalidade. Conseguia arrancar
gargalhadas dos amigos com muita facilidade, mesmo com histórias que a partir
da boca de outros não teriam piada nenhuma. Estava sempre pronto para
participar em convívios com os amigos que, normalmente, acabavam com ele a
cantar músicas do reportório popular, sempre acompanhado pelo seu cunhado
Serra, de quem era, também, inseparável amigo.
Este seu registo de pessoa
divertida e bem-disposta contrastava, e muito, com a sua postura no campo
profissional, que encarava com muita seriedade e reconhecida competência, em
todas as funções que desempenhou ao longo da sua vida. Como é recomendável
conseguia sempre manter uma fronteira bem definida entre o trabalho e o
divertimento, nunca misturando as duas coisas.
Há alguns anos atrás foi-lhe diagnosticada
uma doença grave que o obrigou a diversas e prolongadas deslocações para o
respetivo tratamento. A grande maioria das pessoas, perante uma notícia destas,
claudicaria, com toda a certeza. A gravidade desta situação complicada nunca
lhe tirou a alegria de viver, nem amenizou o seu espírito brincalhão. Lutou diariamente
contra esta doença e no final saiu vencedor. Sem dúvida que a experiência de vida
deste homem e a sua reação à adversidade é um exemplo para todos nós, sobretudo
para aqueles que se deixam abater perante a primeira contrariedade.
O senhor Valter Melo tinha uma
grande paixão pelo “seu” Graciosa Futebol Clube. Naquele clube fez de tudo. Foi
jogador durante anos e anos. Lembro-me de o ver jogar, no Campo Grande ou no
Campo da Avenida. Na altura eu não tinha qualquer capacidade para avaliar um
jogador, mas dizem-me que foi grande nesta modalidade. Foi também dirigente,
incluindo presidente da direção. Aliás, deve ter desempenhado todos, ou quase
todos, os cargos existentes nos corpos sociais do clube.
Quando o clube estava instalado
na casa da senhora Carolina Maria, na Rua Dr. João de Deus Vieira, as festas de
aniversário daquela instituição ocorriam, muitas vezes, na sua casa de campo, a
Vivenda Verde, situada no Jardim. Eram momentos mágicos que pude assistir uma
ou outra vez, levado pela mão do meu irmão, e que agora gosto de recordar com
uma certa nostalgia.
Nos anos 80 foi preponderante na
decisão de se construir uma sede social de raiz, em parceria com outros adeptos
daquela instituição. Ele fez parte de um grupo de pessoas que meteu mãos à
obra, literalmente, e ajudou a construir aquele edifício que agora muito
orgulha os seus sócios.
Depois de deixar de jogar, ainda
fez uma perninha num clube criado quase por brincadeira, o Falta de Ar,
constituído por atletas já há muito retirados ou jogadores improváveis, que
participava em atividades locais, tendo, inclusivamente, vencido uma prova nas
Festas de Santo Cristo, perante os incrédulos jovens que faziam parte das equipas
regulares, onde eu próprio me incluía.
Vi-o também jogar voleibol, no
campo de S. Francisco nas tardes de verão, onde se assumia com líder e com quem
todos gostavam de jogar. Eram jogatanas animadíssimas em que a piada fácil,
especialidade do senhor Valter, alternava com as picardias próprias de jogos
muito disputados. As pessoas, depois dos seus trabalhos, juntavam-se ali, equipados
tal como estavam vestidos, marcavam o campo com cal e montavam a rede que
normalmente ficava guardada no saguão do tribunal, tal como a única bola
existente. Dividiam-se as pessoas em dois grupos e escolhia-se alguém da
assistência para dirigir o jogo em cima de um banco cinzento retirado das
sentinas, localizadas mesmo ali ao lado. Não interessava se o eleito percebia
ou não da matéria, o que era imprescindível é que fosse capaz de manter a
ordem. Juntava-se ali uma animada assistência que acompanhava o jogo que só
terminava ao cair da noite.
Era um grande animador dos bailes
do seu clube de sempre. Conseguia transformar facilmente uma noite sem brilho
num baile memorável. Com a sua maneira de ser e a sua alegria, arrastava os
presentes para as coreografias inventadas por ele na hora, ao ritmo das marchas
tocadas pelo conjunto do Graciosa Futebol Clube, onde se destacava a voz e a
trompete do saudoso Gasparinho, o saxofone do Acácio e a viola ritmo ou o órgão
elétrico tocados pelo Valdemiro.
Nos serões que passava no
Graciosa gostava de jogar à sueca ou ao dominó com o seu grupo de amigos. Foi
também ator de teatro no grupo da Filarmónica Recreio dos Artistas,
representando papéis que combinavam com a sua personalidade, ou seja,
divertidos.
O senhor Valter Melo foi um
animador invulgar e também um lutador que soube combater a adversidade com a única
arma que tinha: a alegria de viver. Sem dúvida que o seu percurso de vida
marcou várias gerações, uma das quais a minha.
Há dezasseis anos houve
uma mudança de paradigma na Ilha Graciosa. De uma postura resignada perante a
inércia do Governos que exerceram as suas funções até 1996 e a incapacidade
local para dinamizar a economia, que definhava lentamente, fator que levou, nos
anos oitenta, à emigração massiva de cerca de 25% de Graciosenses, que
procuraram lá fora oportunidades que lhes eram negadas na sua própria terra,
passámos para uma nova atitude que levou a uma completa infraestruturação da
ilha, tal como aconteceu no restante arquipélago, começando por áreas
fundamentais, como a energia, a educação ou a saúde, passando pela reabilitação
das estruturas de transportes marítimos e aéreos e da rede viária, chegando às
áreas económicas, como a agricultura com a construção da nova fábrica de
laticínios, ou as pescas com a construção do porto de abrigo, lota e casas de
aprestos ou ainda no turismo com a construção de um hotel de quatro estrelas,
culminando no apoio social, que andou até 1996 pelas ruas da amargura.
Foi com a convicção de
que o muito que foi feito é muito mais do que está por fazer, que o Governo dos
Açores esteve, no passado mês de junho, a cumprir mais uma visita estatutária à
Ilha Graciosa, dando um forte sinal às populações que as conquistas do estado
social são para manter e, nalguns casos, passíveis de reforço, apesar dos
ataques perpetrados por Lisboa.
É mesmo assim. A humildade
que orienta a nossa ação política faz-nos reconhecer que não está tudo feito,
nem que somos os donos de toda a verdade ou que os virtuosos estão apenas do
nosso lado. Mas esta postura coerente nunca nos fará abdicar do enorme orgulho
que temos pelo trabalho imenso feito por todas as ilhas dos Açores, incluindo,
claro está, a Graciosa.
A inauguração do novo Centro
de Saúde, testemunhado por centenas de Graciosenses, foi, sem dúvida, o momento
mais importante desta visita. O moderno edifício, capaz de proporcionar um
serviço de melhor qualidade e com melhores condições para os profissionais e
utentes e com o dobro da área do anterior, vai substituir um outro, obsoleto e que
já não tinha condições para um cabal desempenho na prestação dos cuidados.
Fazendo parte
integrante de uma política responsável na preservação do ambiente foi
inaugurado o novo Centro de Processamento de Resíduos, que facilitará a gestão
deste problema, nomeadamente com a exportação de grande parte dos resíduos
produzidos, ficando naquela ilha apenas 25% e que serão passíveis de
valorização. Este processo culminará com a selagem das lixeiras a céu aberto e com
o encerramento e a recuperação do aterro sanitário existente mesmo ao lado da
pista do aeroporto e que dá uma imagem negativa a quem nos visita.
Enquanto o governo de
Passos Coelho fecha serviços da responsabilidade do Estado, como aconteceu recentemente
na Calheta de S. Jorge, com o encerramento da repartição de finanças, ou o que
se prepara para fazer no Nordeste ou na Povoação, com o encerramento dos
tribunais, o Governo Regional aposta em aproximar a administração regional aos Açorianos.
Por isso inaugurou o terceiro posto RIAC, este na freguesia da Luz, que irá
proporcionar à população o acesso a uma diversidade de serviços, incluindo a
marcação de consultas médicas, já a partir deste mês de julho.
O Lar de Idosos da
Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz foi também inaugurado depois de totalmente
requalificado, com a remoção das barreiras arquitetónicas e dotado de
equipamentos modernos que proporcionam uma melhor qualidade de vida aos seus utentes.
Foi inaugurado também
um miradouro no caminho florestal da Caldeira, que irá melhorar a oferta
turística.
Foi também inaugurada a
segunda fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, uma obra há muito pedida
pelos agricultores daquela zona e que irá servir várias explorações agrícolas.
Além da conclusão
destas obras e no âmbito do Conselho de Governo que decorreu durante aquela
visita, foram ainda tomadas decisões importantes, nomeadamente com vista a
reabilitar a Escola da Vila da Praia, a melhorar algumas vias de comunicação, apoiar
os espaços TIC, iniciar os procedimentos para o lançamento do concurso da
Marina da Barra, reabilitar moradias para realojar famílias carenciadas,
contratar mais um médico para o período do verão, implementar o serviço de
enfermagem ao domicílio aos sábados para evitar a ida de alguns doentes à
urgência, ajudar a Adega e Cooperativa na contratação de um plano financeiro
para a execução do seu projeto de modernização, lançar a terceira fase do
caminho agrícola Barreiro – Vales, entre outras.
Foram ainda
apresentados projetos de tecnologia de ponta, como o SuperDARN, que incluirá a
estação de radares da Graciosa numa vasta rede de 25 estações, ou a instalação
definitiva do programa meteorológico ARM.
Estas inaugurações e
estes anúncios de processos que estão em andamento ou prontos para arrancar,
fazem parte dos compromissos apresentadas a sufrágio em 2008. Não vamos cumprir
tudo, infelizmente, mas é preciso lembrar todos aqueles - já bem poucos,
felizmente – que dão saltinhos de alegria quando algo não corre como o previsto,
que o nível de cumprimento das promessas eleitorais que apresentamos aos
Graciosenses é muito elevado e é por isso, com toda a certeza, que o povo
daquela terra tem renovado a confiança em nós.
Enquanto avançamos e
preparamos o futuro cumprindo uma estratégia de desenvolvimento, temos pela
frente uma oposição que se entretém a puxar para trás, a denegrir aqueles que
não são como eles, a incentivar os mais incautos a ofender e a optar pelo
ataque pessoal, utilizando mentiras e meias verdades, que em nome da ética
política deveriam ser renegadas. As desmesuradas ambições pessoais não
justificam passar por cima dos outros sem qualquer pejo.
Na Graciosa é um pouco
isso que se passa. Alguns políticos, alguns ex-políticos, alguns dos que se
perfilam a candidatos a políticos e outros que tais, passam os dias, de esquina
em esquina, a engendrar como se pode deitar abaixo isto ou aquilo, quando eles
próprios, quando passaram pelos cargos que lhes permitiriam deixar a sua marca
ou a concretização das suas ideias para aquela ilha, deixaram-nos apenas uma
mão cheia de nada.
Muitos Graciosenses estão
a ficar imunes a estas táticas de guerrilha política. Cada vez vale menos a
pena tentar ludibriar o povo.
O Governo dos Açores terminou, na
passada semana, mais uma visita estatutária à Ilha Graciosa
Esta visita assume caraterísticas
especiais por ser a última do atual mandato. Apesar disso acho que esta
obrigação estatutária foi muito positiva para a Graciosa e para todos os
Graciosenses.
A inauguração de um novo Centro
de Saúde foi, sem dúvida, o ponto alto desta visita de Carlos César e do seu
governo. O moderno edifício, capaz de proporcionar um serviço de melhor
qualidade e com melhores condições para os profissionais e utentes, tem o dobro
da área do anterior e respeita as normas internacionais para edificações desta
tipologia.
Depois foi a vez de ser
inaugurado o novo Centro de Processamento de Resíduos, obra que irá contribuir,
e muito, para a qualidade ambiental desta ilha que foi reconhecida, em 2007,
como reserva da biosfera. A partir de agora vai ser possível selar as lixeiras
a céu aberto e o aterro sanitário construído mesmo à beira do aeroporto. Este
investimento irá permitir a exportação de 75% dos resíduos, enquanto o restante
irá ser reaproveitado.
Enquanto por esse país fora são
encerrados serviços da responsabilidade do governo de Passos Coelho, como
aconteceu também na Calheta de S. Jorge, no Nordeste ou na Povoação, com o encerramento
de serviços centrais, o Governo Regional aposta na aproximação da administração
regional aos cidadãos. Por isso inaugurou mais um posto RIAC na freguesia da
Luz, o terceiro a abrir nesta ilha, que irá proporcionar à população daquela
freguesia o acesso a uma diversidade de serviços concentrados naquele local,
incluindo a marcação de consultas médicas.
O Lar de Idosos da Santa Casa da
Misericórdia de Santa Cruz foi também inaugurado depois de totalmente
requalificado, com a remoção das barreiras arquitetónicas e dotado de
equipamentos modernos que proporcionam uma melhor qualidade de vida aos seus utentes.
Foi inaugurado também um
miradouro no caminho florestal da Caldeira, que irá aumentar a oferta
turística. Foi também inaugurada a segunda fase do caminho agrícola Barreiro –
Vales, um investimento há muito pedido pelos agricultores daquela zona.
Para além disso foram tomadas
decisões importantes, com vista a reabilitar a Escola da Vila da Praia,
melhorar as vias de comunicação, apoiar os espaços TIC, iniciar os
procedimentos para o lançamento do concurso da Marina da Barra, reabilitar
moradias para realojar famílias carenciadas, contratar mais um médico para o
período do verão, implementar o serviço de enfermagem ao domicílio aos sábados,
ajudar a Adega e Cooperativa na contratação de um plano financeiro para a
execução do seu projeto de modernização, lançar a terceira fase do caminho
agrícola Barreiro – Vales, entre outras.
É claro que a oposição apresenta
reticências, diz sempre que só são promessas, mas o certo é que, apesar dessas
dúvidas e desta sua visão distorcida, o Governo dos Açores continua a mostrar
obra feita. É pena, mas é a vida.
Perante a necessidade de lavrar e
endireitar a terra do meu pequeno quintal desde logo recebi da parte do meu
amigo Diogo e do seu cunhado Valentim a disponibilidade para me ajudarem nesta tarefa.
Lembrei, na altura, a existência de um tubo de gás subterrâneo, que, a partir
do outro lado do quintal, alimentava o esquentador e o fogão montados na
cozinha. Este alerta, no dizer do Diogo, exigia a minha presença na altura dos
trabalhos para indicar o local preciso, para aí procederem de modo a preservar
esse imprescindível tubo.
No dia e na hora combinadas lá
estavam os dois, com o respetivo trator. Iniciaram-se as manobras e eu,
entusiasmado pelo modo como aquilo estava a decorrer, nunca mais me lembrei do
malfadado tubo de gás. Escusado será dizer que o desastre aconteceu. De repente,
atrás do trator, surgem da terra duas pontas de tubo de cobre, uma delas
derramando abundantemente o combustível a partir da botija ligada na
extremidade desta canalização. Foi preciso agir rapidamente e fechar o gás para
evitar outro tipo de danos.
Depois do trabalho concluído e
ante o cenário de não ter fogão nem esquentador nos próximos dias e sem saber a
quem recorrer para resolver esta situação, lá fomos nós matar a sede ao Rivoli,
a escassos metros da minha casa.
Atrás do balcão estava, como estava
quase sempre, o loiro Cristovão, no seu inconfundível estilo de lobo-do-mar,
com barba farta e já com alguma falta de cabelo.
Apercebendo-se do meu desalento
logo o Cristovão quis saber o que se tinha passado. Ainda a remoer toda a culpa
que só a mim cabia, lá consegui explicar a embrulhada em que me tinha metido. A
resposta não tardou. Deu-me indicações para desligar a garrafa de gás e deixar
os tubos a arejar durante vinte e quatro horas, dando a conhecer que ele próprio
iria lá resolver a situação. De facto no dia seguinte lá surgiu o Cristovão, no
lote contiguo à minha casa, a bordo do seu Citroen Mehari amarelo, com uma
caixa de ferramentas e outros equipamentos. Soldou os tubos, testou a
canalização e enterrou-a tal com estava antes do acidente. Depois do serviço
feito e perante a pergunta sobre o custo do seu trabalho, o Cristovão
respondeu: “- Depois pagas um copo lá no café”.
Esta resposta diz muito sobre a personalidade
deste homem. Estava sempre pronto para ajudar, todos e em tudo. Era uma pessoa
desenrascada e, nessa qualidade, resolvia qualquer coisa, literalmente. Para
ele não havia impossível.
O Cristovão era natural da
vizinha ilha de S. Jorge, mas era da Graciosa que gostava de estar e de viver,
como afirmava frequentemente aos amigos.
Lembro-me de ver o Cristovão
construir o seu Rivoli. Quando subia a Avenida Mouzinho de Albuquerque, em
direção a casa, entrava naquelas obras, observava a evolução dos trabalhos e
via o entusiasmo que o Cristovão e a Rosa emprestavam a este seu projeto.
O Rivoli era muito pequeno. A
entrada dava para o corpo principal, em forma de L. À esquerda tinha um exíguo reservado,
ao fundo, por trás do pequeno balcão, situava-se a cozinha. As casas de banho
ficavam ao lado do balcão. O estabelecimento era forrado a madeira o que, em
conjunto com a ténue iluminação, dava um ambiente acolhedor.
Abriu ao público em plenas Festas
de Santo Cristo, em agosto de 1995. Atingiu tamanho sucesso que o obrigou,
apenas alguns dias depois, a interromper a atividade, tendo, para o efeito, colocado
na porta um elucidativo cartaz dizendo “Encerrado para organização”.
Por aquele estabelecimento
passaram alunos, professores, equipas desportivas, turistas, funcionários
deslocados, emigrantes e muitos, muitos Graciosenses.
Graças ao esforço e dedicação dos
seus donos, o Rivoli foi sala de estar, cantina e clube de festas de muita
gente. Eram frequentes a festas temáticas, acabando algumas em ambiente de
baile, depois de removido o respetivo mobiliário. Era lá que muitos jovens
festejavam os seus aniversários. Fidelizou muitos clientes, apesar da
exiguidade daquele estabelecimento. O que faltava em espaço restava em
simpatia.
Era impressionante a rapidez com
que faziam uma nova decoração, por exemplo, para o São Martinho ou o Dia das
Bruxas. E sempre decorações que surpreendiam. Depois das refeições viam-se, por
cima das mesas, tecidos, papéis, balões e outros adereços, a serem preparados
por clientes e amigos, sob a supervisão da Rosa e a complacência do Cristovão,
para serem colocados nos respetivos lugares, sempre com o objetivo de criar um
ambiente que agradasse às pessoas. Esse objetivo era sempre atingido,
invariavelmente.
O Cristovão cultivava a amizade,
sobretudo dos seus clientes. Era paciente com todos e sempre muito prestável.
Fazia de cada cliente um amigo para a vida. Em várias situações, quando já se
encontrava vencido pelo cansaço, deixava a chave e a responsabilidade da registadora
ao cuidado de um amigo e retirava-se para casa, para um merecido descanso.
O Cristovão fez outras coisas na
vida. Foi o representante dos produtos Olá para toda a ilha, em 2002 explorou o
bar do Clube Naval e a discoteca Vila Sacramento no ano seguinte. Foi ainda funcionário
da Casa Araújo. Nos seus tempos livres dedicava-se ao mar, onde gostava de
estar. Viajava com frequência no seu barco, acompanhado por amigos, entre as
ilhas do grupo central.
É, no entanto, no seu e nosso Rivoli
que se destacou mais, revelando aí qualidades humanas que tocaram fundo no
coração dos seus amigos quando tomaram conhecimento da sua inesperada partida.
O Partido Socialista tem um
imenso orgulho da obra feita pelos seus Governos por todas estas ilhas dos
Açores. A agricultura, a pesca e o turismo foram sujeitos a um forte
investimento para recuperar o tempo perdido. A par desta estratégia o Governo
dos Açores empenhou-se no reforço das estruturas portuárias e aeroportuárias, na
renovação e construção de uma rede viária moderna e segura. A construção de
novas escolas e a requalificação de muitas outras foi uma realidade, dotando a
região de um parque escolar de excelente qualidade. Os transportes marítimos de
passageiros foram reintroduzidos no período de verão, depois de terem sido
desmantelados nos anos 80, quando os destinos da região estavam nas mãos do PSD
de Berta Cabral, convém não esquecer. Foram também implementadas medidas de
proteção social importantes, como a introdução do complemento de pensão para
idosos, que abrange mais de trinta e cinco mil cidadãos e do apoio à aquisição
de medicamentos do qual usufruem mais de mil e trezentos Açorianos. Mas não foi
só. Os Governos da responsabilidade do Partido Socialista triplicaram os
centros de convívio, criaram mais vinte e duas creches e aumentaram o número de
lares de idosos e equipamentos de apoio domiciliário.
Na Ilha Graciosa estas alterações,
para muito melhor, também são visíveis, precisamente nestas mesmas áreas. Nesta
ilha também houve mudança da noite para o dia. Só não vê quem não quer.
Berta Cabral quando se desloca à
Graciosa, em trabalho partidário, teima em não reconhecer isso e reinventa
teorias com base em erros do passado, precisamente quando tinha
responsabilidades políticas importantes.
Desta vez Berta Cabral, e passo a
citar uma nota de imprensa publicada no Graciosa Online e com a ligação http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/graciosa/?k=Dupla-insularidade.rtp&post=40172,
“quis reconhecer o esforço da indústria, mas também incentivar os produtores,
que em 10 anos passaram de 1 milhão para 2,5 milhões de litros de leite por ano”,
fim de citação.
Ora, se fosse só isto era muito
pouco. No setor agrícola da Graciosa o Partido Socialista fez muito mais e orgulha-se
disso todos os dias. Reergueu das cinzas a produção de leite e colocou-a no
patamar dos 8 milhões de litros por ano e não dos 2,5 milhões referidos por
Berta Cabral naquela nota de imprensa. E mais. Ao contrário do que aconteceu
com a administração laranja que equacionou, entre 1992 e 1995, a possibilidade
de encerrar de vez a indústria de laticínios, o Partido Socialista, a partir de
1996, apostou na inversão desta tendência suicida e decidiu construir uma nova
e moderna fábrica que, neste momento, tem um enorme e inquestionável peso na
economia da ilha.
Como se vê a obra do Partido
Socialista, quer na Graciosa quer nas restantes Ilhas dos Açores, é muito maior
do que o PSD de Berta Cabral quer fazer parecer. O povo, na altura certa,
saberá fazer a destrinça entre o trigo e o joio.
Foi estranho para muita gente
acordar na passada segunda-feira e não ter na RTP Açores o Bom Dia do conhecido
Pedro Moura, tal como foi também triste para muitos Açorianos deixar de poder
ver o noticiário regional das 13 horas.
Esta é a demonstração de que o
plano do ministro Relvas já está em andamento, sem dó nem piedade. É mesmo
assim, cortar a direito sem preocupações com as obrigações de serviço público,
nem com o interesse dos Açorianos. E, o mais grave, é que ninguém consegue
explicar que ganhos financeiros se obtêm com esta alteração.
Curiosamente, hoje foi conhecido
um estudo de opinião, elaborado pela Norma Açores, onde 79% dos inquiridos não
concorda com a concentração da programação regional entre as 17 e as 23.30
horas.
O referido estudo, e passo a
citar a nota do Gabinete de Apoio à Comunicação Social, “aponta também para uma clara adesão do público açoriano à RTP Açores,
que surge em primeiro lugar em termos de notoriedade total (reconhecimento e
visualização), com 85,5%, sendo igualmente o canal mais visto do Grupo RTP nos
Açores; seguida da TVI com 79%, e da SIC com 75,3%, respetivamente. Dentro do
universo RTP, a RTP/Açores é, não só o canal que merece maior reconhecimento
dos açorianos (47,5% para a RTP/Açores contra 41,5% da RTP 1), como é também o
que é visto com maior regularidade (37% para a RTP/Açores, 18% para o Canal 1)”,
fim de citação.
Este estudo de opinião indica,
também, que o programa Bom Dia, agora extinto ao abrigo da imposição desta
“janela” da programação regional, era o programa mais visto pelos Açorianos,
seguido do Telejornal. Mais palavras para quê…
O receio é que, impelidos por
esta suposta concentração de meios e de recursos, frase muito em voga agora, se
comece, devagarinho e à falsa fé – como aconteceu agora – a promover o
esvaziamento, primeiro, dos correspondentes e, depois, dos centros de produção
mais periféricos, em nome da economia de escala. Com este caminho poderemos
estar a desenhar o fim desta estação que muito tem dado aos Açores e às suas
gentes.
Às voltas com esta questão anda o
PSD Açores, sem saber o que há-de fazer com este embaraço em que se meteu. E
tudo porque o PSD Açores se quer dar bem com Deus e com o Diabo, o que,
convenhamos, não é boa política.
Em casa preparava-se mais um
fim-de-semana na Praia. Era um ritual que levava o seu tempo, pois a viagem era
grande. Apesar de serem apenas seis quilómetros de distância, aquela viagem
parecia longa.
Com os poucos carros que
circulavam na ilha, os transportes coletivos e de cargas assumiam um papel
preponderante na movimentação de pessoas e bens entre as quatro freguesias da
Graciosa. As festas da ilha obrigavam a vários desdobramentos até levar a casa
os últimos passageiros. No período do Carnaval estas camionetas faziam as
visitas aos clubes e ainda transportavam os resistentes folgazões que, depois
do último baile deste período e já quando nascia um novo dia, davam um passeio
pela ilha. Existiam também algumas indústrias, tais como a cal, a telha e os
refrigerantes que requeriam transporte para a distribuição e exportação.
Fomos até à garagem e oficina do
senhor Diógenes, no Atalho, e esperámos pela hora de nos abrirem as portas da
gasta camioneta que nos haveria de levar nesta viagem. Tinha o motor na frente
e um capô de abrir para os lados. O corpo da camioneta desenvolvia-se para traz
do motor, o que lhe dava um ar de tartaruga, nome pela qual era popularmente conhecido
este meio de transporte. A lentidão poderia muito bem ser outra explicação para
esta alcunha. Os passageiros entraram e o condutor, com a ajuda do cobrador,
colocou no tejadilho várias encomendas e a mala do correio, que haveriam de ser
distribuídas pelos destinatários ao longo dos caminhos da ilha.
Compramos o respetivo bilhete, de
cor verde e encimado pelo nome de Diógenes da Silva Lima & Filhos Limitada,
cortado, com uma pequena régua de alumínio, numa diagonal até à indicação do
preço. Três escudos e cinquenta centavos era o custo desta viagem. Já com a
camioneta em andamento, vinha o cobrador, sempre com a sua mala de cabedal a
tiracolo, com uma espécie de alicate, fazer um furo no lugar correspondente ao
percurso.
A viagem começava com piso
razoável, mas grande parte do percurso ainda era feito em estrada de macadame. O
caminho do Quitadouro, em direção à Praia, começava logo com uma grande subida,
mas, mais ao menos a partir de meia viagem, no Formigueiro, havia uma descida
abrupta, o que levava o condutor a redobrar os cuidados para levar os seus
passageiros ao destino em segurança. A nossa tartaruga, de um modo esforçado,
lá conseguia dar conta do recado, e completava assim mais um percurso, que
terminava numa outra garagem, na Rua Rodrigues Sampaio, na Praia, onde o
condutor, com o seu olhar clínico ditado pela experiência, via os níveis de
óleo e de água e tratava de a pôr operacional para fazer mais uma viagem.
O senhor Diógenes a 22 de outubro
de 1941 adquire, por dezasseis contos, o negócio de fazendas e mercearias, com
sede na Rua Fontes Pereira de Melo, na Praia, filial da firma Costa e Medina
Limitada, para o qual trabalhava desde 1936.
Quando tinha 18 anos constrói o
seu primeiro autocarro, uma miniatura em madeira. Mal sabia ele que a sua vida
empresarial estaria ligada aos transportes coletivos até ao dia da sua morte.
Em 16 de junho de 1948 recebe o seu
primeiro táxi, um Austin. A 2 de agosto do ano seguinte recebe outro táxi,
também daquela marca. A 29 de janeiro de 1951 recebe mais um táxi, também
Austin e a 30 de março de 1954 recebe a quarta viatura para serviço de aluguer
com condutor.
Em 1954 compra um chassis de um
autocarro e trá-lo até à Graciosa no navio Lima. É colocado num batelão em
Santa Cruz, mas devido à fraca capacidade do pau de carga do porto, esse
batelão é rebocado por uma “gasolina” baleeira até à Praia, onde finalmente é
descarregado para terra firme. A carroçaria é feita na Graciosa pelos irmãos João
e Manuel Machado, em madeira e forrada posteriormente a alumínio. Até os
estofes eram feitos cá. Esta opção pela importação de chassis tinha a ver com a
inexistência de meios para descarregar um autocarro completo.
Na altura a empresa tinha a sede
na Praia. A primeira viagem desta camioneta dá-se a 23 de outubro de 1954, um
sábado, fazendo um percurso de 52 quilómetros e realizando uma receita de
614$50.
As frequências foram aumentando,
até que a partir de 9 de dezembro de 1957 passa a haver carreiras diárias.
A 24 de dezembro de 1955 recebe
mais dois chassis que foram novamente carroçados pelos irmãos Machado, um
destinado a carga e outro a passageiros. Curiosamente estes chassis saíram de
Lisboa no navio Terceirense, a 20 de novembro, mas não puderam desembarcar
devido ao mau estado do mar. Foram até Ponta Delgada e voltaram, desta vez no
navio Lima, tendo desembarcado nesta ilha na véspera de Natal daquele ano.
Em 1958 a sede passa para Santa
Cruz. Em 1968 dá-se uma alteração estatutária, passando a empresa a designar-se
Diógenes da Silva Lima e Filhos Limitada.
Enquanto vai desenvolvendo a sua
atividade nos transportes coletivos continua a investir nos táxis, chegando a
ter 10 em circulação, espalhados pelas praças das quatro freguesias. Este
negócio, no entanto, é abandonado a seguir à revolução de 1974. Mais tarde
termina também com o serviço de transporte de mercadorias.
Em 1980 transforma-se em Empresa
de Transportes Coletivos da Ilha Graciosa, já com a participação da Câmara
Municipal de Santa Cruz da Graciosa no capital social.
A vida deste empresário não foi
fácil. O recurso ao crédito e as dificuldades próprias da época, que desfasavam
o período do investimento do período do respetivo retorno, podiam afastar deste
tipo de negócio os menos afoitos, mas não o senhor Diógenes. Nunca se deu por
vencido e empenhou-se de corpo e alma neste seu projeto, que acabou mesmo por
ser o seu projeto de vida, enfrentando e minimizando todas as contrariedades
que surgiram.
As dificuldades nos transportes destes
equipamentos de grande dimensão eram resolvidas com imaginação. Se um batelão
não chegasse, juntava-se um outro e colocavam-se alguns postes de telefone,
atravessados, para dar mais consistência e equilíbrio a este meio de transporte
adaptado. A falta de peças suplentes era resolvida com muito trabalho.
Frequentemente as suas oficinas trabalhavam ininterruptamente, por vezes
inventando peças, para colocar o autocarro ao serviço logo pela manhã. São
conhecidas histórias de reparações feitas mesmo durante as viagens ou mudanças
de motor durante a noite para que no dia seguinte não faltasse transporte a
muitos Graciosenses que dele dependiam.
O senhor Diógenes foi um
empresário que teve uma vida de trabalho duro e de muita dedicação ao seu
negócio, que não lhe terá rendido muito em termos financeiros, mas certamente
que o preencheu. Podíamos vê-lo agarrado ao volante de uma das suas camionetas
a conduzir horas a fio, a supervisionar a sua oficina ou a vender bilhetes no
seu guichet. Era um homem que nunca parava.
Nos seus tempos livres gostava de
tocar violão e dançar modas de viola nas festas de Carnaval que aconteciam nos
clubes espalhados pela ilha.
A ousadia, a tenacidade e a
coragem com que tratou os seus negócios fazem dele um empresário que se
destacou na Ilha Graciosa e que importa recordar.
No Dia dos Açores, que se comemorou
este ano na Vila da Povoação, o Presidente Carlos César fez um discurso
brilhante, como sempre, mas este foi especial, a meu ver, talvez por ser o
último desta legislatura e por não ser candidato a Presidente do Governo dos
Açores nas próximas eleições de outubro.
É conhecida a sua posição firme
em defesa dos Açores e dos Açorianos. Carlos César nunca se coibiu de levantar
a voz sempre que esteve em causa a autonomia da região, independentemente da
cor política dos inquilinos de S. Bento. Sempre repeliu os ataques dos
centralistas que gravitam em todos os partidos políticos e que surgem à luz do
dia nos momentos em que podem fazer mossa.
A política de proximidade,
configurada no nosso modelo de autonomia, permitiu ao arquipélago
desenvolver-se mais rapidamente em áreas fundamentais, como a saúde, a educação
e o apoio social, que levavam décadas de atraso em relação ao resto do país.
É certo que foi nos últimos 16
anos que a Região Autónoma dos Açores conheceu um enorme crescimento fruto das
opções de investimento estratégico e do reconhecido rigor nas finanças
públicas. Daí a convergência com o país e a Europa em indicadores económicos e
sociais,que demonstram o acerto nas políticas
executadas pelo Partido Socialista. Mas, no seu discurso, Carlos César fez
referências às conquistas dos 36 anos, tantos os que tem a autonomia dos
Açores, sem nunca esquecer os que o antecederam, demonstrando um enorme sentido
de estado.
Por isso, por colocar os Açores
sempre em primeiro lugar e também por ser um grande político, no final da sua
intervenção, o Presidente do Governo Regional foi longamente aplaudido de pé
por quase todos os presentes.
Digo quase todos porque meia
dúzia ficou sentada, com os olhos colados ao chão e um envergonhado esboço de
aplauso sobre o regaço. Curiosamente são os mesmos que perpetraram uma
inexplicável guerra de lugares, com telefonemas em voz exacerbada para a
comunicação social pressionando-os para darem atenção a uma situação protocolar
que é, no fundo, perfeitamente normal. E logo estes, habituados que estão a
empurrar para ficarem mais à frente ou a atropelar todas as regras de ética para
terem mais uns minutinhos de antena.
Foi uma tentativa de estragar uma
festa de partilha e de união, que é património de todos os Açorianos. Não
conseguiram.
Nestes períodos de pré-campanha
eleitoral, vai lá saber-se porquê, há a tendência de se cometerem atropelos,
ficando relegado para segundo plano o bom senso recomendado para estes tempos de
luta partidária mais acesa e, por conseguinte, de maior fricção.
É muito pouco dignificante fazer
da pré-campanha apenas um frenético vai vem, onde parece não fazer mal, por
exemplo, aparecer sem ser convidado, ou instigar terceiros a usar cargos
associativos para promover campanhas partidárias em favor de um(a) candidato(a)
ou ainda tentar controlar a comunicação social passando por cima da sua
independência e idoneidade. Estes são alguns métodos – muito pouco inocentes,
diga-se – executados por políticos com pouco escrúpulos, pelos seus solícitos mandantes
ou pelos oportunistas, que surgem sempre à luz do dia de quatro em quatro anos,
curiosamente.
Mais do que nunca precisamos,
nesta altura, de ideias para o futuro desta região. Ideias claras e
consistentes, que obedeçam a uma estratégia coerente e transversal que promova
o crescimento, o emprego e a coesão social e económica.
Vasco Cordeiro tem feito esse
trabalho por essas ilhas, propondo outras políticas e novas abordagens para
novos problemas que assolam os Açores, Portugal e a Europa, mantendo um enorme
orgulho no trabalho desenvolvido pelo Partido Socialista nesta região nos
últimos dezasseis anos.
A política de solavancos e
assomos ao sabor das circunstâncias perpetrados pelo PSD e pela sua líder,
podem satisfazer momentaneamente alguma clientela aqui e ali, mas denota uma
grande irresponsabilidade e falta de sentido de estado.
Já passava das onze horas daquela
noite fria e chuvosa quando bateram à porta da casa do senhor António Maria, no
caminho Velho dos Fenais. Já estava habituado a que lhe batessem à porta, tanto
de dia como de noite. Era, quase sempre, um sinal de que alguém precisava dele
e dos seus conhecimentos adquiridos ao longo de uma vida de labuta. Tal como a
maioria das pessoas que vivem do amanho da terra e da criação de gado, o senhor
António Maria levantava-se muito cedo, para começar o seu duro dia, por isso
aquela hora era já tardia.
Ao longo de toda a sua vida foi
ganhando experiência no tratamento das mazelas e no acompanhamento dos partos dos
seus animais, que, por vezes, por não correrem bem requeriam a intervenção
humana para evitar perdas.
Ao mesmo tempo que a sua
exploração ia crescendo, também crescia a sua fama no que respeitava ao acerto
nos tratamentos dos animais e na resolução de partos mais difíceis. É claro
que, numa ilha desprovida de médico veterinário durante anos e anos, este homem
constituía uma mais-valia importante e, como tal, passou a ser muito procurado
pelos agricultores de toda a Graciosa.
Era o caso daquela noite. O João,
apercebendo-se que a melhor vaca da sua pequena manada, a “Caiada”, estava
prostrada numa altura em que devia estar a parir, não hesitou e agarrou na sua
motorizada Famel e meteu-se a caminho até aos Fenais.
O senhor António Maria veio à
porta e ouviu da boca do aflito dono da “Caiada” a descrição do problema. Este
ordenou que procurasse mais alguém para os ajudar e foi trocar o pijama por
roupa quente e um fato de água, pois a noite não estava para brincadeiras e
ainda por cima podia ser longa. De seguida mete-se na sua carrinha Peugeot, que
mais parecia uma farmácia ambulante, e põe-se a caminho da pastagem do João, lá
para os lados da Serra Branca.
Depois de algumas injeções e de
várias manobras, lá acabou por nascer o bezerro da “Caiada”, aparentemente
saudável. Já passava das três da manhã.
Muitas noites do senhor António
Maria da Cunha terão sido passadas assim, ajudando os outros de forma abnegada.
Aos agricultores com mais dificuldades nem o dinheiro dos medicamentos levava.
Como agricultor o senhor António
Maria fez um grande percurso, sempre na sua ilha Graciosa, apesar de ter feito
uma tentativa para emigrar com destino ao continente africano a chamamento de
um amigo, mas sem qualquer sucesso. Começou com uma pequena exploração, que
partilhava com a condução de um táxi, e foi crescendo, até ser a maior agricultor
desta ilha, já a tempo inteiro. Foi um dos pioneiros do melhoramento animal,
pois na tentativa de obter um melhor rendimento procurou noutros mercados
adquirir produtoras de raças com caraterísticas ideais para a produção de leite.
Mais tarde abandona a produção de leite e dedica-se exclusivamente à fileira da
carne.
Eram também conhecidos os enormes
bois, que exibia com orgulho, capazes de dar um melhor rendimento no trabalho
da terra, numa altura em que a mecanização era inexistente.
Foi pelas suas mãos que veio até
esta ilha um enorme arado que, puxado por 12 juntas de bois, revolvia a terra até
profundidades consideráveis tornando-a mais produtiva.
Sem sombra de dúvida que esta
postura inovadora, a sua experiência e a sua visão do futuro terão impulsionado
outros agricultores desta ilha. Quando falava em agricultura fazia-o com paixão
e isso via-se nos encontros públicos em que participava, onde tinha sempre uma
palavra a dizer e era ouvido com respeito e admiração.
Apesar de ter apenas a instrução
primária gostava de escrever, sobretudo poesia, que declamava em eventos
públicos ou oferecia aos seus amigos.
Entre 1982 e 1985 foi Vereador da
Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa.
Nove anos após a sua morte a
Associação Equestre Graciosense associa o nome de António Maria da Cunha ao seu
picadeiro, numa merecida e rara homenagem a um homem que deu tudo à sua terra.
Em 2010, em sessão solene
realizada na ilha do Corvo, os órgãos próprios da Região Autónoma dos Açores
atribuem-lhe, a título póstumo, a Insígnia Autonómica de Mérito Industrial,
Comercial e Agrícola.
Este homem solidário e de vistas
largas morreu com aquilo com que começou, ou seja, quase nada, mas teve uma
vida muito preenchida, onde se destaca uma inusual dedicação aos outros,
sobretudo os mais desprotegidos.
Portugal nem sempre tem entendido
de forma perentória as declarações emitidas pelo primeiro-ministro Pedro Passos
Coelho, quando este intervém. Por isso tem sido recorrente vir novamente a
público, no dia seguinte, tentar explicar aquilo que tinha dito anteriormente.
Mesmo assim não é líquido que as explicações dadas sejam mais esclarecedoras do
que as declarações da véspera.
O caso talvez se explique pela forma
intensa com que gosta de falar aos portugueses e pela densidade das ideias que
pretende fazer passar.
As últimas declarações sobre o
desemprego foram desastrosas. Classificar este drama social como uma
oportunidade para mudar de vida, foi um erro de palmatória. As explicações do
dia seguinte até foram percetíveis, mas não apagaram aquela enviesada maneira
de ver um problema que afeta cada vez mais portugueses.
Abordar o tema do desemprego
desta forma constituiu uma ofensa a quem luta todos os dias para arranjar um
trabalho que lhe permita sustentar a família com o mínimo de dignidade.
Infelizmente os números nacionais indicam que a situação é dramática e, como
tal, este governo, da responsabilidade do PSD e do CDS/PP, deveria preocupar-se,
tão só, com a criação de oportunidades, mas de emprego.
Pulamos de recorde em recorde e as
políticas ativas para minimizar este pesadelo, que afeta muitos concidadãos,
tardam em aparecer. Ouvimos todos os dias alguns ministros desfilarem as suas
preocupações, mas na prática tudo continua na mesma, não se vislumbrando
soluções para minimizar os problemas por que passam muitos portugueses.
Este governo do PSD e do CDS/PP
está a esmagar a classe média, a criar dificuldades no acesso dos portugueses à
saúde e ao ensino. Todos os dias se assiste à destruição de postos de trabalho,
quer nas empresas, quer na função pública, atirando para o desemprego muitas
pessoas, a grande maioria sem direito a subsídio de desemprego, cujas regras
foram habilmente alteradas.
É notório que este governo de
Passos Coelho e de Paulo Portas estabeleceu como objetivo primeiro deixar empobrecer
este país. O mais grave é que está mesmo a conseguir.
Constatei, através da leitura do
jornal Açoriano Oriental, do passado dia 2 de maio, que o Plano Diretor
Municipal de Ponta Delgada tinha sido suspenso parcialmente pela edilidade para
que os proprietários de terrenos agrícolas possam expandir a área de instalação
de equipamentos de apoio à atividade agrícola para além dos 1.500 m2.
Essa suspensão, ainda segundo a notícia daquele jornal, foi aprovada apenas com
a abstenção do CDS/PP e, passo a citar, “responde a vários pedidos feitos pelos
próprios empresários agrícolas, sendo tida pela autarquia como uma forma de
apoiar os produtores, numa altura em que é difícil a captação de meios de
investimento económico”, fim de citação. A Câmara Municipal de Ponta Delgada
considera que esta suspensão é mesmo, e cito novamente, “um incentivo para que
os proprietários invistam mais nas suas explorações e possam apresentar
candidaturas a apoios financeiros para este fim”, citei.
Não sei de quem partiu esta
proposta de suspensão do Plano Diretor Municipal, mas salta à vista de todos
que os partidos que compõem a Assembleia Municipal de Ponta Delgada foram
praticamente unanimes quanto à necessidade de aprovar este documento, tendo em
conta os interesses dos agricultores do seu concelho.
A Câmara Municipal de Santa Cruz
da Graciosa, ainda muito recentemente, também apresentou um documento de teor
semelhante onde era proposto expandir a área de instalação de equipamentos para
além dos 750 m2, tendo em conta também alguns pedidos feitos a esta
autarquia.
Duas situações em tudo muito semelhantes,
mas que, no fundo, mereceram tratamento diferenciado pelos deputados
municipais. No concelho de Ponta Delgada a proposta foi viabilizada, enquanto
na Graciosa a suspensão do Plano Diretor Municipal apresentado pela Câmara
Municipal foi chumbada pela maioria do PSD.
Por isso quando a dra. Berta
Cabral jura a pés juntos que defenderá a agricultura e os agricultores, só
temos de ficar desconfiados porque o seu discurso não bate certo com a prática
do partido que dirige.
Naquele dia 13 de agosto de 1976,
quando eram sensivelmente duas horas da tarde, o iate Espírito Santo, com a
matrícula SG-16-TL, saiu do porto das Velas, tal como fizera inúmeras vezes. Tinha
acabado de descarregar a mercadoria vinda da Terceira e destinada àquela ilha,
ficando ainda no porão muita carga destinada ao próximo porto de escala, desta
vez no Pico.
O mar estava calmo naquela tarde
de verão. A bordo seguiam também muitos passageiros que aproveitavam aquela
ligação à vizinha ilha do Pico. À saída do porto, e quando nada fazia prever
tal desfecho, o barco adornou suavemente, inundando a casa das máquinas e as
salas repletas de passageiros. Esta situação terá sido provocada pela elevada
concentração dos passageiros a bombordo do barco. A carga mais pesada,
constituída por bidões com asfalto e ferro destinado à construção civil, terá corrido
colocando a embarcação numa posição perigosa. Foi o pânico a bordo. De terra
foi possível observar o acidente e por isso vieram várias pessoas e alguns
barcos prestar socorro aos passageiros e tripulantes. Gente corajosa e anónima
terá regressado várias vezes à inundada embarcação para retirar outros
passageiros que se terão atrapalhado no meio de toda aquela confusão.
O balanço foi trágico. Neste
acidente pereceram sete pessoas, seis eram passageiros e um fazia parte da
tripulação. Depois das manobras de salvamento e da retirada dos corpos, o barco
Espírito Santo foi rebocado até ao porto da Horta e, mais tarde, dirigiu-se
para o estaleiro de Santo Amaro, no Pico, onde foi recuperado, tendo navegado até
ao ano de 1992.
O senhor Francisco da Cunha era
conhecido como um homem humilde, bondoso e de trato fácil. Naquela altura era
gerente dos Transportes Marítimos Graciosenses, empresa com um capital social de
cem contos, dividido equitativamente por vinte sócios. Mal foi conhecida a
notícia do acidente o senhor Francisco tratou de ir, primeiro, até S. Jorge e,
depois, até à Horta para se inteirar da situação, avaliar os danos e resolver o
que tinha de ser resolvido. Foi uma árdua tarefa que desempenhou com zelo e
rapidez, como o caso requeria.
Naquela data a empresa detinha
apenas o velhinho Espírito Santo de madeira construído em frente à casa do Dr. Vinício
Albuquerque, na Praia, pelo mestre Manuel Joaquim de Melo, que tinha vindo do
Pico para esse efeito. O Fernão de Magalhães, também de madeira e vocacionado
para o transporte de cargas, tinha saído do serviço nesse mesmo ano.
O senhor Francisco da Cunha não
era um gerente qualquer. Para ele, gerir aquela empresa não era um trabalho na
verdadeira aceção da palavra, era mesmo uma paixão, vivida intensamente na
“onda” deste arriscado negócio. Essa entrega desmedida era visível nos bons
momentos, quando se inebriava pelo reconhecimento que era atribuído à empresa pelos
serviços queemprestava ao Grupo Central
dos Açores, e, também, nos momentos de enorme sofrimento, como foi o caso
daquele fatídico dia. Era nesses momentos difíceis que consumia cigarros atrás
de cigarros, como que para aliviar a tensão provocada pelas inúmeras
preocupações que o iam consumindo.
Na qualidade de gerente, foi
decisor nas diversas tentativas de fusão de pequenas empresas congéneres. A
recusa em aderir a essas propostas esteve sempre ligada ao facto dos
Transportes Marítimos Graciosenses poderem vir a perder peso na estrutura
acionista e ser previsível a deslocalização da sede da futura empresa da sua
tão amada Graciosa para outra ilha qualquer.
Esteve envolvido na elaboração de
um projeto para a construção de uma nova e moderna embarcação, que chegou a
apresentar e a discutir em várias assembleias gerais da empresa. As
vicissitudes da vida desta empresa levaram-na noutro sentido. Em setembro de
1992, alguns anos depois da morte do senhor Francisco, o velhinho Espírito
Santo, embora abrigado no interior do porto da Praia da Vitória, não conseguiu
resistir às tempestades Boney e Charlie, que assolaram a Região quase em
simultâneo, acabando por naufragar, desta vez de forma irremediável. Aqui, a
empresa, devido à urgência que o caso implicava, optou por adquirir um barco de
ferro na Noruega que tomou o seu lugar e, inclusivamente, o seu nome.
O senhor Francisco da Cunha foi
também proprietário de um forno que, de um modo artesanal, fabricava telha
regional que era vendida localmente e ainda exportada para outras ilhas do
Grupo Central. Naquele tempo esta indústria tinha um peso importante na
economia da Ilha Graciosa.
Trabalhou alguns anos na Santa
Casa da Misericórdia da Vila da Praia da Graciosa. Depois ingressou na
Conservatória do Registo Civil e Notariado de Santa Cruz da Graciosa, onde
trabalhou até ao dia da sua morte.