30 de agosto de 2012

Tal como o tempo


Os Açorianos sempre estiveram atentos às questões ligadas à meteorologia. Podemos mesmo dizer que em cada Açoriano há também um meteorologista, tão habituados que estamos a acompanhar o tempo nas nossas ilhas. Dão-se palpites, indica-se quando roda o vento, conclui-se quando é que o tempo vira. Quem por cá por vive sabe muito bem que as alterações da natureza são rápidas e cíclicas.

É também conhecido que quando o tempo começa a piorar no Corvo ou nas Flores, mais dia, menos dia haveremos de levar com a nossa parte. É por isso que os Açorianos ficam colados ao televisor, à espera de “O tempo” na RTP-Açores e avaliam o que está a acontecer por lá para perspetivar o dia seguinte. É uma situação que acontece vezes sem conta.

Neste momento em que se aproxima o final do prazo para a entrega das listas de candidatos às próximas eleições regionais saem notícias, primeiro dos cabeças de lista e depois de toda a sua constituição.

Algumas vezes somos surpreendidos com os nomes de pessoas que nem vivem nos círculos eleitorais por onde concorrem, o que, quanto a mim, não contribui para a credibilização da política.

Mas a notícia mais inesperada foi a de que o PSD não consegue fazer uma lista que concorra pelo círculo eleitoral do Corvo.

É estranho um partido, que se constitui como alternativa de poder e se autointitula como um partido de implantação regional, não conseguir, junto do seu eleitorado daquela ilha, fazer uma lista para concorrer por aquele círculo eleitoral.

Mais estranho ainda é a solução que aquele partido arranjou: apoiar o líder do Partido Popular Monárquico, precisamente aquele que desalojou o PSD do panorama político daquela ilha, no que respeita às eleições regionais.

Tal como o mau tempo também a primeira derrota do PSD vem do ocidente.

23 de agosto de 2012

Sondagens e outras coisas mais


Chegados a este período de pré-campanha eleitoral é habitual os partidos encomendarem sondagens para, a partir das suas conclusões, poderem ajustar estratégias, escolher candidatos ou mesmo reverter o modo de atuação junto das populações que servem.

Como se percebe este tipo de estudo pode, efetivamente, ser importante para os partidos políticos e para o sucesso de uma campanha eleitoral que todos querem que resulte numa vitória. É um instrumento que pode apoiar as lideranças e ajudar no planeamento das campanhas eleitorais.

O que já não é muito correto é o aproveitamento distorcido e malicioso que é feito de sondagens, invertendo resultados para daí poderem tirar algum proveito político.

Já em 2004 o PSD exibia uns papeletes afirmando ser detentor de sondagens que lhe davam cerca de 60% das intenções dos votos dos Açorianos. Embora coligado com o PP, estas forças políticas ficaram-se apenas pelos 36,8%.

Em 2008 o PSD repetiu a proeza e optou por atirar cá para fora novas sondagens que lhe davam uma vitória inequívoca. Uma vez mais enganaram-se, porquanto não passaram dos 30,3%.

Agora em 2012 o PSD tenta, a todo o custo, fazer passar a mensagem da existência de sondagens favoráveis, mesmo tendo conhecimento de que todas as que existem, as deles e as das outras forças partidárias, atribuem-lhe, mais uma vez, uma derrota.

Por aqui se vê que o PSD não aprendeu com o passado, como seria bom-tom. Teima em utilizar este tipo de estratégia de uma maneira arrogante como forma de adquirir algum balanço.

É apenas uma ilusão que não leva a nada, porque as eleições ganham-se nas urnas. Aquela que será a verdadeira sondagem só sairá no dia 14 de outubro e essa, com toda a certeza, não falhará.

16 de agosto de 2012

Ilha de chegadas e de partidas


Sempre fomos habituados a este frenesim próprio de um lugar pequeno. Uns chegam, para cumprirem uma função ou uma missão, enquanto outros partem para outros destinos para aí realizarem outra função ou nova missão.

Sempre fomos habituados a este fado de ver partir os amigos cuja amizade foi feita com base neste forma simpática com que recebemos quem nos visita. Por aqui, quem acolhe tudo faz para receber bem e quem é acolhido entrega-se surpreendido pela simpatia desinteressada dos locais.

Ontem, dia 15 de agosto, pude assistir a mais uma festa de homenagem ao Padre Dinis Silveira, a escassos dez dias da sua partida, neste caso na paróquia de Nossa Senhora da Luz. A população, reconhecida pela entrega do seu pároco, compareceu em força e agradeceu, à sua maneira, o seu esforço e a sua dedicação. Já antes o povo da Ribeirinha e de Guadalupe tinham feito também a suas homenagens.

Sobre a obra deste operário de Deus deixada nesta ilha já muito se disse. Sem dúvida que este homem deixa-nos, nesta sua passagem pela ilha Graciosa, uma marca que perpetuará por muitas gerações. Foram várias as suas intervenções, desde a requalificação de igrejas, capelas e altares, até à recuperação de imagens divinas, construção de salas de velórios e centros paroquias. Ele de facto esteve em todas as frentes.

Apesar deste seu interesse pelo lado mais material das suas paróquias, o Padre Dinis nunca descurou o lado espiritual do seu rebanho. Antes pelo contrário. Recuperou tradições religiosas, empenhou-se em catequizar os mais jovens, animou os mais idosos, confortou os doentes e apoiou os mais frágeis da nossa sociedade.

Porventura esta sua conduta não terá agradado a todos e até poderá ter causado alguma ciumeira nos meios locais. Mas foi uma obra notável, só possível porque o Padre Dinis Silveira se entregou de corpo e alma à sua missão, não se desviando um milímetro do essencial.

No dia 25 de agosto partirá um amigo, mas a amizade ficará para sempre no coração dos Graciosenses.

9 de agosto de 2012

Graciosa mais verde


Hoje, pelas 11 horas, irá proceder-se à assinatura do “Master Agreement” entre a EDA e a empresa Younicos.

Como é conhecido, a Younicos já trabalha no projeto de produção de energia limpa para a Graciosa desde há algum tempo. Na cidade de Berlim, onde a empresa tem a sua sede, foi realizada uma experiência em grande escala, onde foram feitos testes exaustivos e que provaram ser possível desenvolver a ideia de produzir e armazenar energia a partir de fontes alternativas.

 Representará um investimento total de 25 milhões de euros e pretende substituir o consumo de combustíveis fósseis para produção de energia por fontes amigas do ambiente, neste caso a eólica e a solar que, combinadas, serão suficientes para produzir 100% das nossas necessidades energéticas.

Sem dúvida nenhuma que a partir de agora nada será como antes. A aposta que o Governo dos Açores tem feito no ambiente tem dado resultados e este projeto, que foi distinguido com o Prémio Solar Europeu, irá permitir a esta ilha tornar-se numa ilha verde a muito curto prazo.

Este importante passo é, decididamente, o culminar de um processo inovador, que exigiu muita investigação e que, por isso, trará à Graciosa alguma notoriedade. Por outro lado permitirá, também, deixar um legado importante para o futuro.

Seguramente que este projeto será alargado a outras ilhas, tornando os Açores, cada vez mais, como um dos melhores locais do mundo para se viver.

2 de agosto de 2012

Turismo sustentado


O equilíbrio que se pretende manter nos Açores entre a natureza e o desenvolvimento do turismo tem vários caminhos, especialmente nas ilhas de menor dimensão.

O Turismo em Espaço Rural pode ser um contributo importante para diminuir a sazonalidade. É uma experiência que permite conhecer o dia-a-dia da vida no meio rural e ir ao encontro das origens culturais destas ilhas.

O Mergulho é, também, uma oferta que está a crescer em todas as ilhas. Segundo a obra “Debaixo de Água: 24 lugares de mergulho que todos os mergulhadores devem conhecer”, publicado na Alemanha, curiosamente o maior mercado mundial, os Açores estão entre os 24 melhores destinos de mergulho do mundo. Várias revistas da especialidade relevam as potencialidades das paisagens submarinas do nosso mar, onde se incluem baixas, cavernas, arcadas, ilhéus e naufrágios, que albergam uma variedade enorme de peixes, algas e corais, difíceis de ver noutros locais.

A Observação de Aves, embora de uma forma subtil, está também em franco crescimento nos Açores, nomeadamente no Corvo e na Graciosa. São procuradas aves migratórias dos continentes Americano e Euroasiático e outras espécies raras, como é o caso do Painho de Monteiro, tão bem retratado no recém-lançado documentário de Pedro Carvalho “Em busca do Painho de Monteiro”, que será transmitido em televisões nacionais e estrangeiras. Neste momento estão identificadas cerca de 400 espécies observadas na região.

A Observação de Cetáceos tem vindo a evoluir de forma sustentada e ainda tem espaço para crescer mais no futuro.

Os trilhos pedestres disseminados por todas as ilhas, alguns deles sendo reaproveitamentos de antigos caminhos para pessoas e animais, complementam a oferta turística e aproximam o turista da natureza deslumbrante dos recantos das ilhas, abrangidos por esta rede.

Aproveitar as potencialidades destas formas de turismo no futuro próximo é o repto que as ilhas da coesão têm pela frente. A conquista de nichos de mercado com práticas amigas do ambiente é a melhor forma para crescer de forma sustentada, provocando um impacte reduzido na natureza. E é esse o caminho que devemos seguir.

26 de julho de 2012

O abandono


Berta Cabral finalmente anunciou que vai renunciar ao mandato como presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada no final deste mês de julho. Foi um gesto que se adivinhava difícil, mas lá chegou há sua hora. Esta notícia, já esperada, vem repor alguma normalidade naquela edilidade, pois as ausências da sua presidente eram demasiado evidentes e cada vez mais demoradas, para se dedicar quase em exclusividade à sua candidatura a presidente do Governo Regional.

Mas, de facto, este abandono da maior autarquia dos Açores já não é de agora. Em boa verdade tem sido o vice-presidente a liderar informalmente a autarquia, com todos os inconvenientes que essa indefinição acarreta, por isso é correto inferir-se que Berta Cabral afinal já há muito tempo tinha abandonado a Câmara Municipal de Ponta Delgada e os pontadelgadenses.

Esta estratégia de se manter a todo o custo e até quase ao limite poderá, de certo modo, ter sustentado a constante aparição na comunicação social da sua presidente e candidata, que, como se sabe, gosta de juntar esta faceta mais vistosa da política a outras mais inusitadas: a da promessa fácil e da satisfação de descontentamentos.

No fundo este comportamento de se agarrar à cadeira do poder foi notoriamente prejudicial ao seu concelho, pelas razões óbvias que estão à vista de todos e ainda por ter feito da Câmara Municipal do seu concelho um posto de comando avançado de oposição ao Governo Regional. Este voltar de costas constituiu um prejuízo evidente para a população.   

Não há qualquer dúvida que a Câmara Municipal de Ponta Delgada foi usada por Berta Cabral, de forma abusiva, para satisfazer a ambição pessoal e política de chegar ao Governo Regional.

19 de julho de 2012

Regionais 2012


Fui convidado pelo Dr. Vasco Cordeiro e pelo PS/Açores para encabeçar, pela primeira vez, a lista pelo círculo eleitoral da Ilha Graciosa às próximas eleições regionais, que se realizarão, previsivelmente, no próximo mês de outubro.

Aceitei esse desafio e fi-lo com a convicção de que, apesar do muito que foi feito por todas ilhas dos Açores, é preciso terminar estra obra imensa de mudar os Açores e a Graciosa para melhor.

Fi-lo também porque apesar de estar orgulhoso do trabalho feito desde 2004, altura em que pela primeira vez fui eleito para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, tenho a humildade de reconhecer que é preciso fazer mais e melhor.

Por último, e com toda a certeza a principal das razões, aceitei este desafio porque acredito no Vasco Cordeiro e na sua capacidade para liderar um processo de renovação de um modo tranquilo e com confiança. As suas ambições para os Açores são imensas, a sua vontade de manter o estado social é inflexível e a sua coragem para enfrentar as dificuldades é conhecida.

Nestas eleições Vasco Cordeiro perfila-se como um candidato diferente de outros, nomeadamente do maior partido da oposição. É jovem, mas tem experiência e capacidade políticas que nos dão garantias para governar a região. É um acérrimo defensor da autonomia da nossa região e já afirmou que, seja lá que partido for a dirigir o país, cerrará fileiras para defender os interesses dos Açores e das suas populações. Esta sua forma inquebrantável de defender este enorme património opõe-se claramente àqueles que não se importam de se ajoelharem perante as sombras centralistas.

É por isso que não tenho dúvidas que estas eleições serão as mais importantes das realizadas até aqui.

18 de julho de 2012

Competente, dedicado e generoso


Juvenal Correia Teles

(14/02/1923 - 18/01/1996)

Quando saí do consultório do meu tio Gregório, situado no Largo de Santo António, onde agora é a agência da Caixa Geral de Depósitos, transportava na mão uma receita para o problema de pele que tinha aparecido poucos dias atrás e na cabeça trazia a esperança de poder debelar aquele ardor que me afligia, com a aplicação do medicamento prescrito.

Quando cheguei à farmácia Santos Costa e entreguei a receita ao senhor Juvenal da Farmácia, como era mais conhecido, é que percebi que não se tratava de uma receita tradicional, com o nome de um medicamento que seria retirado de uma qualquer prateleira. Antes pelo contrário. Era uma descrição de elementos químicos que combinados na dose certa haveriam de ajudar a combater o problema.

A parte da frente da farmácia tinha uma mesa que servia de balcão e que era a base de uma velha registadora. As paredes estavam preenchidas com armários brancos repletos de medicamentos, meticulosamente ordenados. Na dependência interior existia uma mesa grande no meio, com tampo de mármore onde se podiam ver várias balanças, uma delas de precisão, um gral e outros utensílios farmacêuticos e as paredes ao redor forradas de frascos e potes, escuros como convinha, para manter a pureza dos ingredientes farmacêuticos, todos identificados com uma etiqueta branca, debruada a vermelho. Num dos lados estavam os adesivos, o algodão, a gaze, a tintura de iodo e o mercurocromo, preparados para tratar das feridas de quem procurava aquela farmácia. Sobressaiam também as caixas metalizadas com seringas e agulhas para a aplicação de injeções. No chão existia um estrado de madeira e junto às prateleiras podiam-se ver uns bancos pretos. A limpeza, o cheiro intenso a químicos e a medicamentos, a cor branca do mobiliário e dos tampos das mesas, dava a ideia de estarmos num lugar perfeitamente esterilizado, característica que é, aliás, comum a outros estabelecimentos do género e a hospitais.

O senhor Juvenal dirigiu-se à dependência interior e com o seu olhar experiente chegou, rapidamente, aos componentes descritos na receita e num ápice preparou o medicamento proposto pelo meu tio que me haveria de trazer alivio para a minha maleita.

Naquele tempo era assim. Uma parte do receituário de meu tio Gregório, único médico na ilha durante muitos anos, era composta na própria farmácia. Com a cumplicidade do Dr. Gregório o senhor Juvenal chegava mesmo a recomendar tratamentos, mas quando via que não estava à altura para resolver a situação, era o primeiro a reencaminhar o doente para o médico. Entre os dois havia uma relação de confiança que dava segurança aos doentes. De um lado estava um homem licenciado em medicina e que tinha, segundo dizem, um grande acerto nos diagnósticos e de outro estava um ajudante de farmácia, que aprendeu à sua custa tudo o que sabia, mas, no fundo, dotado de muitos conhecimentos que a longa experiência de mais de 40 anos de atividade lhe tinha dado. A enorme competência profissional demonstrada ao longo de toda a sua vida foi adquirida graças à sua dedicação e ao trabalho árduo.

O senhor Juvenal começou a trabalhar naquele estabelecimento quando tinha apenas 15 anos de idade, logo a seguir ao seu exame da 4ª classe. Interrompeu esta atividade aos 19 anos para cumprir o serviço militar no Batalhão Independente de Infantaria nº 17, onde recebeu um Louvor.

No seu percurso foi ganhando competências e estatuto. Passou a fazer domicílios para aplicação de injeções e tratar de feridas dos doentes acamados, fazendo-se deslocar primeiro de bicicleta, depois de mota e depois de carro. Mais tarde destacou-se na manipulação dos químicos que compunham muitos dos medicamentos que dali saíam. Fez também a contabilidade do estabelecimento.

Nesta sua profissão era chamado à farmácia com muita frequência. Muitas das vezes essas chamadas eram feitas pela noite dentro ou em períodos de invernia, para fornecer os medicamentos a quem deles precisava, o que implicava algum sacrifício pessoal. Nesta profissão muitas vezes o conforto de casa ou a participação em eventos sociais tinham de ser interrompidos para acudir a quem necessitava, tal como ainda hoje acontece.

Em 1982 ingressa na Câmara Municipal onde trabalhou até à sua morte, exercendo funções de carácter administrativo.

Para além destas atividades, o senhor Juvenal era um grande produtor de vinho de cheiro. Desde muito cedo que gostava de produzir o seu próprio vinho que era feito e armazenado numa adega anexa a sua casa. O que sobejava do utilizado para consumo próprio era vendido, nomeadamente exportado para a Terceira e S. Miguel, através do senhor Bernardino. Para este mesmo comerciante comprava pipas e pipas de vinho por toda a ilha, ajudando assim os pequenos vitivinicultores a escoar a produção excedentária. Na semana anterior passava pelas casas das pessoas avisando-as do dia do navio. No dia combinado passava novamente, mas desta vez de camioneta, e carregava as pipas que os produtores tinham deixado à porta das suas adegas. Por mês chegava a exportar 15 pipas de vinho, o que equivalia a 7.200 litros.

Antes de 1974 foi vereador da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa. Foi também diretor da Adega Cooperativa da Ilha Graciosa, num período que aquela instituição tinha um peso importante na economia da ilha.

Desempenhou o cargo de delegado nesta ilha do Instituto de Apoio Comercial à Agricultura, Pecuária e Silvicultura, no exercício do qual, segundo referia o seu Presidente da Direção aquando da sua morte, ”foi notório o interesse com que sempre abordou os problemas relacionados com a atividade deste Instituto”.

Na década de 70, altura em que se verificou um grande surto migratório, passou a ser procurador de muitos emigrantes residentes nos Estados Unidos da América e no Canadá. Nessa condição tratava dos imóveis e de outras burocracias de muitos dos que tiveram de procurar um melhor futuro noutras paragens. É sabido que esta função era desempenhada sem qualquer contrapartida, pelo que o senhor Juvenal terá ajudado muitas pessoas de modo gratuito, o que combinava muito bem com o seu feitio generoso, sempre pronto para ajudar quem dele necessitava.

12 de julho de 2012

Fazer o que se diz e ignorar o que se faz

Estava eu a passar os olhos pelos jornais logo pela manhã quando me deparei com uma notícia interessante: “Berta Cabral garante mais apoios sociais à custa de menos festas e viagens”.

Vindo de quem vem este propósito é, por demais, surpreendente. Todos conhecem, principalmente os micaelenses, a queda que Berta Cabral tem por festas e arraiais. Ainda recentemente, quando pressionada para suspender o seu trabalho, já a tempo parcial, como edil da maior autarquia dos Açores, a presidente da câmara e candidata a presidente do governo, apressou-se a disser que só sairia dessas funções depois das festas do Espírito Santo, as quais terão sofrido um reforço de verbas este ano. Pela amostra se percebe que estas festas são muito importantes para ela, se calhar pela visibilidade que lhe proporciona.

Se atentarmos aos inúmeros atos públicos, nesta muito fértil pré-campanha eleitoral, as festas tem servido de constante cenário para as suas aparições, mesmo quando promovidas por instituições cujos sócios não foram informados sobre a sua utilização abusiva como meio de propaganda, comprometendo as pessoas que exercem honestamente cargos nos órgãos sociais e os propósitos de equidistância e independência perante o poder político que estas instituições devem ter.

No que respeita a viagens, bem aí o que vemos é uma roda vida. Desde a Coreia do Sul, em representação da Associação Nacional dos Municípios Portugueses, ou os Estados Unidos da América, em representação da Câmara de Ponta Delgada, até ao Brasil, para assinar um contrato com um arquiteto para uma obra que não se sabe se verá a luz do dia, passando pelas inúmeras viagens entre ilhas, a atuação desta líder partidária tem-se pautado exatamente por um vai vem constante, nalguns casos de duvidosa utilidade.   

Por isso é difícil entender este título de notícia e estas oportunistas intenções, porquanto esta líder partidária faz exatamente o contrário daquilo que apregoa.

5 de julho de 2012

O turismo e as potencialidades naturais

Vasco Cordeiro, na qualidade de candidato a Presidente do Governo, assume que o mar, a biodiversidade e a localização estratégica destas ilhas, são fundamentais para o futuro dos Açores.

Nos Açores, e especialmente nas chamadas ilhas da coesão, os governos da responsabilidade do Partido Socialista impuseram uma marca indelével moldada por uma estratégia de modernização e desenvolvimento que já está a produzir frutos.

A infraestruturação das ilhas foi um trabalho imenso perpetrado com base num plano de desenvolvimento harmonioso de todo o arquipélago. Por aqui e por ali fizeram-se apostas nas aptidões endógenas, como a agricultura e a pesca, capacitando cada uma das ilhas de modo a poderem obter mais-valias, dinamizando, por esta via, as pequenas economias insulares.

A aposta na requalificação da indústria de laticínios, o melhoramento animal, a diversificação agrícola, a construção de portos de pesca e a renovação da frota, são exemplos disso mesmo. Estas medidas, em conjunto com a redução de custos e ajudas nos transportes, tem facilitado as exportações destas ilhas mais pequenas.

Recentemente o governo regional enveredou pelo terceiro pilar, o turismo. Mais uma vez o governo chegou-se à frente nas ilhas com menores capacidades financeiras e substituiu a iniciativa privada na construção de estruturas hoteleiras. Apostou-se, também, em pequenas unidades de turismo rural, como forma de captar nichos de mercado ligados à natureza. Os resultados não tardaram em aparecer com o crescimento sustentado das dormidas nos estabelecimentos de hotelaria tradicionais.

Esta aposta neste setor emergente tem sido devidamente acompanhada com medidas importantes na área do ambiente. O reconhecimento das ilhas do Corvo, Graciosa e Flores como Reservas da Biosfera pela UNESCO, os projetos na área de produção de energia limpa, como o caso do projeto Younicos na Graciosa, dão uma necessária notoriedade a este destino.

A par disso o Governo investiu na gestão dos resíduos urbanos, exportando todos os que não são passíveis de valorização. Criou também os parques naturais e o parque marinho que incluem áreas protegidas, que se revelam fundamentais na preservação de algumas espécies e contribuem para a reposição de stocks piscícolas.

Foi por tudo isso que em 2007 os Açores chegaram ao topo, quando foram consideradas as segundas melhores ilhas do mundo para o turismo sustentável pela prestigiada revista internacional National Geographic, logo a seguir às ilhas Faroe, na Dinamarca.

Esta paisagem verde retalhada e delimitada pelo azul deste imenso mar, as tradicionais casas construídas com a pedra negra dos nossos vulcões, constituem uma paisagem deslumbrante. A simplicidade e a simpatia dos Açorianos completam este cenário único.

Usufruir de todas as potencialidades minimizando os impactes negativos é o desafio que temos pela nossa frente.

4 de julho de 2012

Animador invulgar e lutador

Valter da Cunha Melo

(12/02/1934 – 22/03/2011)

Quando o navio Ponta Delgada se aproximava do porto de Santa Cruz ou da Praia, surgia ao fundo uma lancha com o Cabo do Mar a bordo que, com uma bandeira, sinalizava o local apropriado para o comandante da embarcação mandar arrear a âncora. Esta manobra era fundamental pois permitia aos conhecedores das baías escolher um bom fundo e dá-lo a perceber ao comandante e assim evitar a perda de tão importante equipamento. A partir do fundeadouro o serviço de desembarque e embarque fazia-se num lento vaivém desta frágil embarcação de madeira.

De seguida a lancha voltava ao cais e trocava o Cabo do Mar pelo senhor Valter Melo e dirigia-se novamente ao navio, encostando-se à escada do portaló feita de madeira e cabos, dependurada no través do navio. Com a ajuda de um dos marinheiros, que se colocava estrategicamente no patamar ao fundo da escada, o senhor Valter era a primeira pessoa a entrar no Ponta Delgada, sempre acompanhado por uma pasta com a listagem dos passageiros a embarcar e outra papelada necessária ao despacho. Naquela altura já havia grande azáfama, com os passageiros a prepararem-se para o desembarque. O senhor Valter, passava pelo portaló em passo apressado e perdia-se no convés por entre os passageiros em direção ao conferente de bordo para tratar da burocracia. Depois, a partir do navio, acompanhava toda a operação de desembarque e embarque dos passageiros e só regressava a terra na última lancha, cerca de 2 horas depois da chegada.

Primeiro o senhor Valter foi despachante oficial das Alfândegas. Depois da desativação daquele serviço nesta ilha, nos anos 70, ingressa na Empresa Insulana de Navegação. Mais tarde torna-se correspondente do Banco Português do Atlântico e inicia o percurso de mediador de seguros, tendo sido agente da Tranquilidade, função que exerceu até à sua reforma.

O senhor Valter Melo era daquele tipo de pessoas que não deixava ninguém indiferente. Muito alegre e sempre bem-disposto o senhor Valter destacava-se naturalmente em qualquer grupo, por ser o centro de todas as atenções. Tinha uma enorme facilidade para contar uma história e fazia humor a partir de uma qualquer banalidade. Conseguia arrancar gargalhadas dos amigos com muita facilidade, mesmo com histórias que a partir da boca de outros não teriam piada nenhuma. Estava sempre pronto para participar em convívios com os amigos que, normalmente, acabavam com ele a cantar músicas do reportório popular, sempre acompanhado pelo seu cunhado Serra, de quem era, também, inseparável amigo.

Este seu registo de pessoa divertida e bem-disposta contrastava, e muito, com a sua postura no campo profissional, que encarava com muita seriedade e reconhecida competência, em todas as funções que desempenhou ao longo da sua vida. Como é recomendável conseguia sempre manter uma fronteira bem definida entre o trabalho e o divertimento, nunca misturando as duas coisas.

Há alguns anos atrás foi-lhe diagnosticada uma doença grave que o obrigou a diversas e prolongadas deslocações para o respetivo tratamento. A grande maioria das pessoas, perante uma notícia destas, claudicaria, com toda a certeza. A gravidade desta situação complicada nunca lhe tirou a alegria de viver, nem amenizou o seu espírito brincalhão. Lutou diariamente contra esta doença e no final saiu vencedor. Sem dúvida que a experiência de vida deste homem e a sua reação à adversidade é um exemplo para todos nós, sobretudo para aqueles que se deixam abater perante a primeira contrariedade.

O senhor Valter Melo tinha uma grande paixão pelo “seu” Graciosa Futebol Clube. Naquele clube fez de tudo. Foi jogador durante anos e anos. Lembro-me de o ver jogar, no Campo Grande ou no Campo da Avenida. Na altura eu não tinha qualquer capacidade para avaliar um jogador, mas dizem-me que foi grande nesta modalidade. Foi também dirigente, incluindo presidente da direção. Aliás, deve ter desempenhado todos, ou quase todos, os cargos existentes nos corpos sociais do clube.

Quando o clube estava instalado na casa da senhora Carolina Maria, na Rua Dr. João de Deus Vieira, as festas de aniversário daquela instituição ocorriam, muitas vezes, na sua casa de campo, a Vivenda Verde, situada no Jardim. Eram momentos mágicos que pude assistir uma ou outra vez, levado pela mão do meu irmão, e que agora gosto de recordar com uma certa nostalgia.

Nos anos 80 foi preponderante na decisão de se construir uma sede social de raiz, em parceria com outros adeptos daquela instituição. Ele fez parte de um grupo de pessoas que meteu mãos à obra, literalmente, e ajudou a construir aquele edifício que agora muito orgulha os seus sócios.

Depois de deixar de jogar, ainda fez uma perninha num clube criado quase por brincadeira, o Falta de Ar, constituído por atletas já há muito retirados ou jogadores improváveis, que participava em atividades locais, tendo, inclusivamente, vencido uma prova nas Festas de Santo Cristo, perante os incrédulos jovens que faziam parte das equipas regulares, onde eu próprio me incluía.

Vi-o também jogar voleibol, no campo de S. Francisco nas tardes de verão, onde se assumia com líder e com quem todos gostavam de jogar. Eram jogatanas animadíssimas em que a piada fácil, especialidade do senhor Valter, alternava com as picardias próprias de jogos muito disputados. As pessoas, depois dos seus trabalhos, juntavam-se ali, equipados tal como estavam vestidos, marcavam o campo com cal e montavam a rede que normalmente ficava guardada no saguão do tribunal, tal como a única bola existente. Dividiam-se as pessoas em dois grupos e escolhia-se alguém da assistência para dirigir o jogo em cima de um banco cinzento retirado das sentinas, localizadas mesmo ali ao lado. Não interessava se o eleito percebia ou não da matéria, o que era imprescindível é que fosse capaz de manter a ordem. Juntava-se ali uma animada assistência que acompanhava o jogo que só terminava ao cair da noite.

Era um grande animador dos bailes do seu clube de sempre. Conseguia transformar facilmente uma noite sem brilho num baile memorável. Com a sua maneira de ser e a sua alegria, arrastava os presentes para as coreografias inventadas por ele na hora, ao ritmo das marchas tocadas pelo conjunto do Graciosa Futebol Clube, onde se destacava a voz e a trompete do saudoso Gasparinho, o saxofone do Acácio e a viola ritmo ou o órgão elétrico tocados pelo Valdemiro.

Nos serões que passava no Graciosa gostava de jogar à sueca ou ao dominó com o seu grupo de amigos. Foi também ator de teatro no grupo da Filarmónica Recreio dos Artistas, representando papéis que combinavam com a sua personalidade, ou seja, divertidos.

O senhor Valter Melo foi um animador invulgar e também um lutador que soube combater a adversidade com a única arma que tinha: a alegria de viver. Sem dúvida que o seu percurso de vida marcou várias gerações, uma das quais a minha.

3 de julho de 2012

Intervenção na Assembleia Legislativa da R.A. dos Açores


Há dezasseis anos houve uma mudança de paradigma na Ilha Graciosa. De uma postura resignada perante a inércia do Governos que exerceram as suas funções até 1996 e a incapacidade local para dinamizar a economia, que definhava lentamente, fator que levou, nos anos oitenta, à emigração massiva de cerca de 25% de Graciosenses, que procuraram lá fora oportunidades que lhes eram negadas na sua própria terra, passámos para uma nova atitude que levou a uma completa infraestruturação da ilha, tal como aconteceu no restante arquipélago, começando por áreas fundamentais, como a energia, a educação ou a saúde, passando pela reabilitação das estruturas de transportes marítimos e aéreos e da rede viária, chegando às áreas económicas, como a agricultura com a construção da nova fábrica de laticínios, ou as pescas com a construção do porto de abrigo, lota e casas de aprestos ou ainda no turismo com a construção de um hotel de quatro estrelas, culminando no apoio social, que andou até 1996 pelas ruas da amargura.      


Foi com a convicção de que o muito que foi feito é muito mais do que está por fazer, que o Governo dos Açores esteve, no passado mês de junho, a cumprir mais uma visita estatutária à Ilha Graciosa, dando um forte sinal às populações que as conquistas do estado social são para manter e, nalguns casos, passíveis de reforço, apesar dos ataques perpetrados por Lisboa.


É mesmo assim. A humildade que orienta a nossa ação política faz-nos reconhecer que não está tudo feito, nem que somos os donos de toda a verdade ou que os virtuosos estão apenas do nosso lado. Mas esta postura coerente nunca nos fará abdicar do enorme orgulho que temos pelo trabalho imenso feito por todas as ilhas dos Açores, incluindo, claro está, a Graciosa.


A inauguração do novo Centro de Saúde, testemunhado por centenas de Graciosenses, foi, sem dúvida, o momento mais importante desta visita. O moderno edifício, capaz de proporcionar um serviço de melhor qualidade e com melhores condições para os profissionais e utentes e com o dobro da área do anterior, vai substituir um outro, obsoleto e que já não tinha condições para um cabal desempenho na prestação dos cuidados.


Fazendo parte integrante de uma política responsável na preservação do ambiente foi inaugurado o novo Centro de Processamento de Resíduos, que facilitará a gestão deste problema, nomeadamente com a exportação de grande parte dos resíduos produzidos, ficando naquela ilha apenas 25% e que serão passíveis de valorização. Este processo culminará com a selagem das lixeiras a céu aberto e com o encerramento e a recuperação do aterro sanitário existente mesmo ao lado da pista do aeroporto e que dá uma imagem negativa a quem nos visita.


Enquanto o governo de Passos Coelho fecha serviços da responsabilidade do Estado, como aconteceu recentemente na Calheta de S. Jorge, com o encerramento da repartição de finanças, ou o que se prepara para fazer no Nordeste ou na Povoação, com o encerramento dos tribunais, o Governo Regional aposta em aproximar a administração regional aos Açorianos. Por isso inaugurou o terceiro posto RIAC, este na freguesia da Luz, que irá proporcionar à população o acesso a uma diversidade de serviços, incluindo a marcação de consultas médicas, já a partir deste mês de julho.  


O Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz foi também inaugurado depois de totalmente requalificado, com a remoção das barreiras arquitetónicas e dotado de equipamentos modernos que proporcionam uma melhor qualidade de vida aos seus utentes.


Foi inaugurado também um miradouro no caminho florestal da Caldeira, que irá melhorar a oferta turística.


Foi também inaugurada a segunda fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, uma obra há muito pedida pelos agricultores daquela zona e que irá servir várias explorações agrícolas.


Além da conclusão destas obras e no âmbito do Conselho de Governo que decorreu durante aquela visita, foram ainda tomadas decisões importantes, nomeadamente com vista a reabilitar a Escola da Vila da Praia, a melhorar algumas vias de comunicação, apoiar os espaços TIC, iniciar os procedimentos para o lançamento do concurso da Marina da Barra, reabilitar moradias para realojar famílias carenciadas, contratar mais um médico para o período do verão, implementar o serviço de enfermagem ao domicílio aos sábados para evitar a ida de alguns doentes à urgência, ajudar a Adega e Cooperativa na contratação de um plano financeiro para a execução do seu projeto de modernização, lançar a terceira fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, entre outras.


Foram ainda apresentados projetos de tecnologia de ponta, como o SuperDARN, que incluirá a estação de radares da Graciosa numa vasta rede de 25 estações, ou a instalação definitiva do programa meteorológico ARM.


Estas inaugurações e estes anúncios de processos que estão em andamento ou prontos para arrancar, fazem parte dos compromissos apresentadas a sufrágio em 2008. Não vamos cumprir tudo, infelizmente, mas é preciso lembrar todos aqueles - já bem poucos, felizmente – que dão saltinhos de alegria quando algo não corre como o previsto, que o nível de cumprimento das promessas eleitorais que apresentamos aos Graciosenses é muito elevado e é por isso, com toda a certeza, que o povo daquela terra tem renovado a confiança em nós.


Enquanto avançamos e preparamos o futuro cumprindo uma estratégia de desenvolvimento, temos pela frente uma oposição que se entretém a puxar para trás, a denegrir aqueles que não são como eles, a incentivar os mais incautos a ofender e a optar pelo ataque pessoal, utilizando mentiras e meias verdades, que em nome da ética política deveriam ser renegadas. As desmesuradas ambições pessoais não justificam passar por cima dos outros sem qualquer pejo.


Na Graciosa é um pouco isso que se passa. Alguns políticos, alguns ex-políticos, alguns dos que se perfilam a candidatos a políticos e outros que tais, passam os dias, de esquina em esquina, a engendrar como se pode deitar abaixo isto ou aquilo, quando eles próprios, quando passaram pelos cargos que lhes permitiriam deixar a sua marca ou a concretização das suas ideias para aquela ilha, deixaram-nos apenas uma mão cheia de nada.


Muitos Graciosenses estão a ficar imunes a estas táticas de guerrilha política. Cada vez vale menos a pena tentar ludibriar o povo.


Horta, Sala das Sessões, 3 de julho de 2012.

28 de junho de 2012

Visita com frutos


O Governo dos Açores terminou, na passada semana, mais uma visita estatutária à Ilha Graciosa

Esta visita assume caraterísticas especiais por ser a última do atual mandato. Apesar disso acho que esta obrigação estatutária foi muito positiva para a Graciosa e para todos os Graciosenses.

A inauguração de um novo Centro de Saúde foi, sem dúvida, o ponto alto desta visita de Carlos César e do seu governo. O moderno edifício, capaz de proporcionar um serviço de melhor qualidade e com melhores condições para os profissionais e utentes, tem o dobro da área do anterior e respeita as normas internacionais para edificações desta tipologia.

Depois foi a vez de ser inaugurado o novo Centro de Processamento de Resíduos, obra que irá contribuir, e muito, para a qualidade ambiental desta ilha que foi reconhecida, em 2007, como reserva da biosfera. A partir de agora vai ser possível selar as lixeiras a céu aberto e o aterro sanitário construído mesmo à beira do aeroporto. Este investimento irá permitir a exportação de 75% dos resíduos, enquanto o restante irá ser reaproveitado.

Enquanto por esse país fora são encerrados serviços da responsabilidade do governo de Passos Coelho, como aconteceu também na Calheta de S. Jorge, no Nordeste ou na Povoação, com o encerramento de serviços centrais, o Governo Regional aposta na aproximação da administração regional aos cidadãos. Por isso inaugurou mais um posto RIAC na freguesia da Luz, o terceiro a abrir nesta ilha, que irá proporcionar à população daquela freguesia o acesso a uma diversidade de serviços concentrados naquele local, incluindo a marcação de consultas médicas.   

O Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz foi também inaugurado depois de totalmente requalificado, com a remoção das barreiras arquitetónicas e dotado de equipamentos modernos que proporcionam uma melhor qualidade de vida aos seus utentes.

Foi inaugurado também um miradouro no caminho florestal da Caldeira, que irá aumentar a oferta turística. Foi também inaugurada a segunda fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, um investimento há muito pedido pelos agricultores daquela zona.

Para além disso foram tomadas decisões importantes, com vista a reabilitar a Escola da Vila da Praia, melhorar as vias de comunicação, apoiar os espaços TIC, iniciar os procedimentos para o lançamento do concurso da Marina da Barra, reabilitar moradias para realojar famílias carenciadas, contratar mais um médico para o período do verão, implementar o serviço de enfermagem ao domicílio aos sábados, ajudar a Adega e Cooperativa na contratação de um plano financeiro para a execução do seu projeto de modernização, lançar a terceira fase do caminho agrícola Barreiro – Vales, entre outras.

É claro que a oposição apresenta reticências, diz sempre que só são promessas, mas o certo é que, apesar dessas dúvidas e desta sua visão distorcida, o Governo dos Açores continua a mostrar obra feita. É pena, mas é a vida.

20 de junho de 2012

Sempre pronto para ajudar

Cristovão Eduardo da Paz Martins
 (30/12/1959 - 12/11/2004)
Perante a necessidade de lavrar e endireitar a terra do meu pequeno quintal desde logo recebi da parte do meu amigo Diogo e do seu cunhado Valentim a disponibilidade para me ajudarem nesta tarefa. Lembrei, na altura, a existência de um tubo de gás subterrâneo, que, a partir do outro lado do quintal, alimentava o esquentador e o fogão montados na cozinha. Este alerta, no dizer do Diogo, exigia a minha presença na altura dos trabalhos para indicar o local preciso, para aí procederem de modo a preservar esse imprescindível tubo.

No dia e na hora combinadas lá estavam os dois, com o respetivo trator. Iniciaram-se as manobras e eu, entusiasmado pelo modo como aquilo estava a decorrer, nunca mais me lembrei do malfadado tubo de gás. Escusado será dizer que o desastre aconteceu. De repente, atrás do trator, surgem da terra duas pontas de tubo de cobre, uma delas derramando abundantemente o combustível a partir da botija ligada na extremidade desta canalização. Foi preciso agir rapidamente e fechar o gás para evitar outro tipo de danos.

Depois do trabalho concluído e ante o cenário de não ter fogão nem esquentador nos próximos dias e sem saber a quem recorrer para resolver esta situação, lá fomos nós matar a sede ao Rivoli, a escassos metros da minha casa.

Atrás do balcão estava, como estava quase sempre, o loiro Cristovão, no seu inconfundível estilo de lobo-do-mar, com barba farta e já com alguma falta de cabelo.

Apercebendo-se do meu desalento logo o Cristovão quis saber o que se tinha passado. Ainda a remoer toda a culpa que só a mim cabia, lá consegui explicar a embrulhada em que me tinha metido. A resposta não tardou. Deu-me indicações para desligar a garrafa de gás e deixar os tubos a arejar durante vinte e quatro horas, dando a conhecer que ele próprio iria lá resolver a situação. De facto no dia seguinte lá surgiu o Cristovão, no lote contiguo à minha casa, a bordo do seu Citroen Mehari amarelo, com uma caixa de ferramentas e outros equipamentos. Soldou os tubos, testou a canalização e enterrou-a tal com estava antes do acidente. Depois do serviço feito e perante a pergunta sobre o custo do seu trabalho, o Cristovão respondeu: “- Depois pagas um copo lá no café”.

Esta resposta diz muito sobre a personalidade deste homem. Estava sempre pronto para ajudar, todos e em tudo. Era uma pessoa desenrascada e, nessa qualidade, resolvia qualquer coisa, literalmente. Para ele não havia impossível.

O Cristovão era natural da vizinha ilha de S. Jorge, mas era da Graciosa que gostava de estar e de viver, como afirmava frequentemente aos amigos.

Lembro-me de ver o Cristovão construir o seu Rivoli. Quando subia a Avenida Mouzinho de Albuquerque, em direção a casa, entrava naquelas obras, observava a evolução dos trabalhos e via o entusiasmo que o Cristovão e a Rosa emprestavam a este seu projeto.

O Rivoli era muito pequeno. A entrada dava para o corpo principal, em forma de L. À esquerda tinha um exíguo reservado, ao fundo, por trás do pequeno balcão, situava-se a cozinha. As casas de banho ficavam ao lado do balcão. O estabelecimento era forrado a madeira o que, em conjunto com a ténue iluminação, dava um ambiente acolhedor.

Abriu ao público em plenas Festas de Santo Cristo, em agosto de 1995. Atingiu tamanho sucesso que o obrigou, apenas alguns dias depois, a interromper a atividade, tendo, para o efeito, colocado na porta um elucidativo cartaz dizendo “Encerrado para organização”.

Por aquele estabelecimento passaram alunos, professores, equipas desportivas, turistas, funcionários deslocados, emigrantes e muitos, muitos Graciosenses.

Graças ao esforço e dedicação dos seus donos, o Rivoli foi sala de estar, cantina e clube de festas de muita gente. Eram frequentes a festas temáticas, acabando algumas em ambiente de baile, depois de removido o respetivo mobiliário. Era lá que muitos jovens festejavam os seus aniversários. Fidelizou muitos clientes, apesar da exiguidade daquele estabelecimento. O que faltava em espaço restava em simpatia.

Era impressionante a rapidez com que faziam uma nova decoração, por exemplo, para o São Martinho ou o Dia das Bruxas. E sempre decorações que surpreendiam. Depois das refeições viam-se, por cima das mesas, tecidos, papéis, balões e outros adereços, a serem preparados por clientes e amigos, sob a supervisão da Rosa e a complacência do Cristovão, para serem colocados nos respetivos lugares, sempre com o objetivo de criar um ambiente que agradasse às pessoas. Esse objetivo era sempre atingido, invariavelmente.

O Cristovão cultivava a amizade, sobretudo dos seus clientes. Era paciente com todos e sempre muito prestável. Fazia de cada cliente um amigo para a vida. Em várias situações, quando já se encontrava vencido pelo cansaço, deixava a chave e a responsabilidade da registadora ao cuidado de um amigo e retirava-se para casa, para um merecido descanso.

O Cristovão fez outras coisas na vida. Foi o representante dos produtos Olá para toda a ilha, em 2002 explorou o bar do Clube Naval e a discoteca Vila Sacramento no ano seguinte. Foi ainda funcionário da Casa Araújo. Nos seus tempos livres dedicava-se ao mar, onde gostava de estar. Viajava com frequência no seu barco, acompanhado por amigos, entre as ilhas do grupo central.

É, no entanto, no seu e nosso Rivoli que se destacou mais, revelando aí qualidades humanas que tocaram fundo no coração dos seus amigos quando tomaram conhecimento da sua inesperada partida.

14 de junho de 2012

A obra é maior do que dizem


O Partido Socialista tem um imenso orgulho da obra feita pelos seus Governos por todas estas ilhas dos Açores. A agricultura, a pesca e o turismo foram sujeitos a um forte investimento para recuperar o tempo perdido. A par desta estratégia o Governo dos Açores empenhou-se no reforço das estruturas portuárias e aeroportuárias, na renovação e construção de uma rede viária moderna e segura. A construção de novas escolas e a requalificação de muitas outras foi uma realidade, dotando a região de um parque escolar de excelente qualidade. Os transportes marítimos de passageiros foram reintroduzidos no período de verão, depois de terem sido desmantelados nos anos 80, quando os destinos da região estavam nas mãos do PSD de Berta Cabral, convém não esquecer. Foram também implementadas medidas de proteção social importantes, como a introdução do complemento de pensão para idosos, que abrange mais de trinta e cinco mil cidadãos e do apoio à aquisição de medicamentos do qual usufruem mais de mil e trezentos Açorianos. Mas não foi só. Os Governos da responsabilidade do Partido Socialista triplicaram os centros de convívio, criaram mais vinte e duas creches e aumentaram o número de lares de idosos e equipamentos de apoio domiciliário.

Na Ilha Graciosa estas alterações, para muito melhor, também são visíveis, precisamente nestas mesmas áreas. Nesta ilha também houve mudança da noite para o dia. Só não vê quem não quer.

Berta Cabral quando se desloca à Graciosa, em trabalho partidário, teima em não reconhecer isso e reinventa teorias com base em erros do passado, precisamente quando tinha responsabilidades políticas importantes.

Desta vez Berta Cabral, e passo a citar uma nota de imprensa publicada no Graciosa Online e com a ligação http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/graciosa/?k=Dupla-insularidade.rtp&post=40172, “quis reconhecer o esforço da indústria, mas também incentivar os produtores, que em 10 anos passaram de 1 milhão para 2,5 milhões de litros de leite por ano”, fim de citação.

Ora, se fosse só isto era muito pouco. No setor agrícola da Graciosa o Partido Socialista fez muito mais e orgulha-se disso todos os dias. Reergueu das cinzas a produção de leite e colocou-a no patamar dos 8 milhões de litros por ano e não dos 2,5 milhões referidos por Berta Cabral naquela nota de imprensa. E mais. Ao contrário do que aconteceu com a administração laranja que equacionou, entre 1992 e 1995, a possibilidade de encerrar de vez a indústria de laticínios, o Partido Socialista, a partir de 1996, apostou na inversão desta tendência suicida e decidiu construir uma nova e moderna fábrica que, neste momento, tem um enorme e inquestionável peso na economia da ilha.

Como se vê a obra do Partido Socialista, quer na Graciosa quer nas restantes Ilhas dos Açores, é muito maior do que o PSD de Berta Cabral quer fazer parecer. O povo, na altura certa, saberá fazer a destrinça entre o trigo e o joio.

7 de junho de 2012

Cortar a direito


Foi estranho para muita gente acordar na passada segunda-feira e não ter na RTP Açores o Bom Dia do conhecido Pedro Moura, tal como foi também triste para muitos Açorianos deixar de poder ver o noticiário regional das 13 horas.

Esta é a demonstração de que o plano do ministro Relvas já está em andamento, sem dó nem piedade. É mesmo assim, cortar a direito sem preocupações com as obrigações de serviço público, nem com o interesse dos Açorianos. E, o mais grave, é que ninguém consegue explicar que ganhos financeiros se obtêm com esta alteração.

Curiosamente, hoje foi conhecido um estudo de opinião, elaborado pela Norma Açores, onde 79% dos inquiridos não concorda com a concentração da programação regional entre as 17 e as 23.30 horas.

O referido estudo, e passo a citar a nota do Gabinete de Apoio à Comunicação Social, “aponta também para uma clara adesão do público açoriano à RTP Açores, que surge em primeiro lugar em termos de notoriedade total (reconhecimento e visualização), com 85,5%, sendo igualmente o canal mais visto do Grupo RTP nos Açores; seguida da TVI com 79%, e da SIC com 75,3%, respetivamente. Dentro do universo RTP, a RTP/Açores é, não só o canal que merece maior reconhecimento dos açorianos (47,5% para a RTP/Açores contra 41,5% da RTP 1), como é também o que é visto com maior regularidade (37% para a RTP/Açores, 18% para o Canal 1)”, fim de citação.

Este estudo de opinião indica, também, que o programa Bom Dia, agora extinto ao abrigo da imposição desta “janela” da programação regional, era o programa mais visto pelos Açorianos, seguido do Telejornal. Mais palavras para quê…

O receio é que, impelidos por esta suposta concentração de meios e de recursos, frase muito em voga agora, se comece, devagarinho e à falsa fé – como aconteceu agora – a promover o esvaziamento, primeiro, dos correspondentes e, depois, dos centros de produção mais periféricos, em nome da economia de escala. Com este caminho poderemos estar a desenhar o fim desta estação que muito tem dado aos Açores e às suas gentes.

Às voltas com esta questão anda o PSD Açores, sem saber o que há-de fazer com este embaraço em que se meteu. E tudo porque o PSD Açores se quer dar bem com Deus e com o Diabo, o que, convenhamos, não é boa política.

6 de junho de 2012

Uma vida de trabalho duro


Diógenes da Silva Lima

(04/12/1920 – 19/02/1988)

Em casa preparava-se mais um fim-de-semana na Praia. Era um ritual que levava o seu tempo, pois a viagem era grande. Apesar de serem apenas seis quilómetros de distância, aquela viagem parecia longa.

Com os poucos carros que circulavam na ilha, os transportes coletivos e de cargas assumiam um papel preponderante na movimentação de pessoas e bens entre as quatro freguesias da Graciosa. As festas da ilha obrigavam a vários desdobramentos até levar a casa os últimos passageiros. No período do Carnaval estas camionetas faziam as visitas aos clubes e ainda transportavam os resistentes folgazões que, depois do último baile deste período e já quando nascia um novo dia, davam um passeio pela ilha. Existiam também algumas indústrias, tais como a cal, a telha e os refrigerantes que requeriam transporte para a distribuição e exportação.

Fomos até à garagem e oficina do senhor Diógenes, no Atalho, e esperámos pela hora de nos abrirem as portas da gasta camioneta que nos haveria de levar nesta viagem. Tinha o motor na frente e um capô de abrir para os lados. O corpo da camioneta desenvolvia-se para traz do motor, o que lhe dava um ar de tartaruga, nome pela qual era popularmente conhecido este meio de transporte. A lentidão poderia muito bem ser outra explicação para esta alcunha. Os passageiros entraram e o condutor, com a ajuda do cobrador, colocou no tejadilho várias encomendas e a mala do correio, que haveriam de ser distribuídas pelos destinatários ao longo dos caminhos da ilha.

Compramos o respetivo bilhete, de cor verde e encimado pelo nome de Diógenes da Silva Lima & Filhos Limitada, cortado, com uma pequena régua de alumínio, numa diagonal até à indicação do preço. Três escudos e cinquenta centavos era o custo desta viagem. Já com a camioneta em andamento, vinha o cobrador, sempre com a sua mala de cabedal a tiracolo, com uma espécie de alicate, fazer um furo no lugar correspondente ao percurso.

A viagem começava com piso razoável, mas grande parte do percurso ainda era feito em estrada de macadame. O caminho do Quitadouro, em direção à Praia, começava logo com uma grande subida, mas, mais ao menos a partir de meia viagem, no Formigueiro, havia uma descida abrupta, o que levava o condutor a redobrar os cuidados para levar os seus passageiros ao destino em segurança. A nossa tartaruga, de um modo esforçado, lá conseguia dar conta do recado, e completava assim mais um percurso, que terminava numa outra garagem, na Rua Rodrigues Sampaio, na Praia, onde o condutor, com o seu olhar clínico ditado pela experiência, via os níveis de óleo e de água e tratava de a pôr operacional para fazer mais uma viagem.

O senhor Diógenes a 22 de outubro de 1941 adquire, por dezasseis contos, o negócio de fazendas e mercearias, com sede na Rua Fontes Pereira de Melo, na Praia, filial da firma Costa e Medina Limitada, para o qual trabalhava desde 1936.

Quando tinha 18 anos constrói o seu primeiro autocarro, uma miniatura em madeira. Mal sabia ele que a sua vida empresarial estaria ligada aos transportes coletivos até ao dia da sua morte.

Em 16 de junho de 1948 recebe o seu primeiro táxi, um Austin. A 2 de agosto do ano seguinte recebe outro táxi, também daquela marca. A 29 de janeiro de 1951 recebe mais um táxi, também Austin e a 30 de março de 1954 recebe a quarta viatura para serviço de aluguer com condutor.  

Em 1954 compra um chassis de um autocarro e trá-lo até à Graciosa no navio Lima. É colocado num batelão em Santa Cruz, mas devido à fraca capacidade do pau de carga do porto, esse batelão é rebocado por uma “gasolina” baleeira até à Praia, onde finalmente é descarregado para terra firme. A carroçaria é feita na Graciosa pelos irmãos João e Manuel Machado, em madeira e forrada posteriormente a alumínio. Até os estofes eram feitos cá. Esta opção pela importação de chassis tinha a ver com a inexistência de meios para descarregar um autocarro completo.

Na altura a empresa tinha a sede na Praia. A primeira viagem desta camioneta dá-se a 23 de outubro de 1954, um sábado, fazendo um percurso de 52 quilómetros e realizando uma receita de 614$50.

As frequências foram aumentando, até que a partir de 9 de dezembro de 1957 passa a haver carreiras diárias.

A 24 de dezembro de 1955 recebe mais dois chassis que foram novamente carroçados pelos irmãos Machado, um destinado a carga e outro a passageiros. Curiosamente estes chassis saíram de Lisboa no navio Terceirense, a 20 de novembro, mas não puderam desembarcar devido ao mau estado do mar. Foram até Ponta Delgada e voltaram, desta vez no navio Lima, tendo desembarcado nesta ilha na véspera de Natal daquele ano.

Em 1958 a sede passa para Santa Cruz. Em 1968 dá-se uma alteração estatutária, passando a empresa a designar-se Diógenes da Silva Lima e Filhos Limitada.

Enquanto vai desenvolvendo a sua atividade nos transportes coletivos continua a investir nos táxis, chegando a ter 10 em circulação, espalhados pelas praças das quatro freguesias. Este negócio, no entanto, é abandonado a seguir à revolução de 1974. Mais tarde termina também com o serviço de transporte de mercadorias.

Em 1980 transforma-se em Empresa de Transportes Coletivos da Ilha Graciosa, já com a participação da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa no capital social.

A vida deste empresário não foi fácil. O recurso ao crédito e as dificuldades próprias da época, que desfasavam o período do investimento do período do respetivo retorno, podiam afastar deste tipo de negócio os menos afoitos, mas não o senhor Diógenes. Nunca se deu por vencido e empenhou-se de corpo e alma neste seu projeto, que acabou mesmo por ser o seu projeto de vida, enfrentando e minimizando todas as contrariedades que surgiram.

As dificuldades nos transportes destes equipamentos de grande dimensão eram resolvidas com imaginação. Se um batelão não chegasse, juntava-se um outro e colocavam-se alguns postes de telefone, atravessados, para dar mais consistência e equilíbrio a este meio de transporte adaptado. A falta de peças suplentes era resolvida com muito trabalho. Frequentemente as suas oficinas trabalhavam ininterruptamente, por vezes inventando peças, para colocar o autocarro ao serviço logo pela manhã. São conhecidas histórias de reparações feitas mesmo durante as viagens ou mudanças de motor durante a noite para que no dia seguinte não faltasse transporte a muitos Graciosenses que dele dependiam.

O senhor Diógenes foi um empresário que teve uma vida de trabalho duro e de muita dedicação ao seu negócio, que não lhe terá rendido muito em termos financeiros, mas certamente que o preencheu. Podíamos vê-lo agarrado ao volante de uma das suas camionetas a conduzir horas a fio, a supervisionar a sua oficina ou a vender bilhetes no seu guichet. Era um homem que nunca parava.

Nos seus tempos livres gostava de tocar violão e dançar modas de viola nas festas de Carnaval que aconteciam nos clubes espalhados pela ilha.

A ousadia, a tenacidade e a coragem com que tratou os seus negócios fazem dele um empresário que se destacou na Ilha Graciosa e que importa recordar.

31 de maio de 2012

Açores sempre em primeiro ou a dança das cadeiras


No Dia dos Açores, que se comemorou este ano na Vila da Povoação, o Presidente Carlos César fez um discurso brilhante, como sempre, mas este foi especial, a meu ver, talvez por ser o último desta legislatura e por não ser candidato a Presidente do Governo dos Açores nas próximas eleições de outubro.

É conhecida a sua posição firme em defesa dos Açores e dos Açorianos. Carlos César nunca se coibiu de levantar a voz sempre que esteve em causa a autonomia da região, independentemente da cor política dos inquilinos de S. Bento. Sempre repeliu os ataques dos centralistas que gravitam em todos os partidos políticos e que surgem à luz do dia nos momentos em que podem fazer mossa.

A política de proximidade, configurada no nosso modelo de autonomia, permitiu ao arquipélago desenvolver-se mais rapidamente em áreas fundamentais, como a saúde, a educação e o apoio social, que levavam décadas de atraso em relação ao resto do país.

É certo que foi nos últimos 16 anos que a Região Autónoma dos Açores conheceu um enorme crescimento fruto das opções de investimento estratégico e do reconhecido rigor nas finanças públicas. Daí a convergência com o país e a Europa em indicadores económicos e sociais,  que demonstram o acerto nas políticas executadas pelo Partido Socialista. Mas, no seu discurso, Carlos César fez referências às conquistas dos 36 anos, tantos os que tem a autonomia dos Açores, sem nunca esquecer os que o antecederam, demonstrando um enorme sentido de estado.

Por isso, por colocar os Açores sempre em primeiro lugar e também por ser um grande político, no final da sua intervenção, o Presidente do Governo Regional foi longamente aplaudido de pé por quase todos os presentes.

Digo quase todos porque meia dúzia ficou sentada, com os olhos colados ao chão e um envergonhado esboço de aplauso sobre o regaço. Curiosamente são os mesmos que perpetraram uma inexplicável guerra de lugares, com telefonemas em voz exacerbada para a comunicação social pressionando-os para darem atenção a uma situação protocolar que é, no fundo, perfeitamente normal. E logo estes, habituados que estão a empurrar para ficarem mais à frente ou a atropelar todas as regras de ética para terem mais uns minutinhos de antena.

Foi uma tentativa de estragar uma festa de partilha e de união, que é património de todos os Açorianos. Não conseguiram.

24 de maio de 2012

Ideias ou fogachos?



Nestes períodos de pré-campanha eleitoral, vai lá saber-se porquê, há a tendência de se cometerem atropelos, ficando relegado para segundo plano o bom senso recomendado para estes tempos de luta partidária mais acesa e, por conseguinte, de maior fricção.

É muito pouco dignificante fazer da pré-campanha apenas um frenético vai vem, onde parece não fazer mal, por exemplo, aparecer sem ser convidado, ou instigar terceiros a usar cargos associativos para promover campanhas partidárias em favor de um(a) candidato(a) ou ainda tentar controlar a comunicação social passando por cima da sua independência e idoneidade. Estes são alguns métodos – muito pouco inocentes, diga-se – executados por políticos com pouco escrúpulos, pelos seus solícitos mandantes ou pelos oportunistas, que surgem sempre à luz do dia de quatro em quatro anos, curiosamente.

Mais do que nunca precisamos, nesta altura, de ideias para o futuro desta região. Ideias claras e consistentes, que obedeçam a uma estratégia coerente e transversal que promova o crescimento, o emprego e a coesão social e económica.

Vasco Cordeiro tem feito esse trabalho por essas ilhas, propondo outras políticas e novas abordagens para novos problemas que assolam os Açores, Portugal e a Europa, mantendo um enorme orgulho no trabalho desenvolvido pelo Partido Socialista nesta região nos últimos dezasseis anos.

A política de solavancos e assomos ao sabor das circunstâncias perpetrados pelo PSD e pela sua líder, podem satisfazer momentaneamente alguma clientela aqui e ali, mas denota uma grande irresponsabilidade e falta de sentido de estado.

23 de maio de 2012

Agricultor inovador e homem solidário




António Maria da Cunha

(17/07/1918 – 10/04/2000)

Já passava das onze horas daquela noite fria e chuvosa quando bateram à porta da casa do senhor António Maria, no caminho Velho dos Fenais. Já estava habituado a que lhe batessem à porta, tanto de dia como de noite. Era, quase sempre, um sinal de que alguém precisava dele e dos seus conhecimentos adquiridos ao longo de uma vida de labuta. Tal como a maioria das pessoas que vivem do amanho da terra e da criação de gado, o senhor António Maria levantava-se muito cedo, para começar o seu duro dia, por isso aquela hora era já tardia.

Ao longo de toda a sua vida foi ganhando experiência no tratamento das mazelas e no acompanhamento dos partos dos seus animais, que, por vezes, por não correrem bem requeriam a intervenção humana para evitar perdas.

Ao mesmo tempo que a sua exploração ia crescendo, também crescia a sua fama no que respeitava ao acerto nos tratamentos dos animais e na resolução de partos mais difíceis. É claro que, numa ilha desprovida de médico veterinário durante anos e anos, este homem constituía uma mais-valia importante e, como tal, passou a ser muito procurado pelos agricultores de toda a Graciosa.

Era o caso daquela noite. O João, apercebendo-se que a melhor vaca da sua pequena manada, a “Caiada”, estava prostrada numa altura em que devia estar a parir, não hesitou e agarrou na sua motorizada Famel e meteu-se a caminho até aos Fenais.

O senhor António Maria veio à porta e ouviu da boca do aflito dono da “Caiada” a descrição do problema. Este ordenou que procurasse mais alguém para os ajudar e foi trocar o pijama por roupa quente e um fato de água, pois a noite não estava para brincadeiras e ainda por cima podia ser longa. De seguida mete-se na sua carrinha Peugeot, que mais parecia uma farmácia ambulante, e põe-se a caminho da pastagem do João, lá para os lados da Serra Branca.

Depois de algumas injeções e de várias manobras, lá acabou por nascer o bezerro da “Caiada”, aparentemente saudável. Já passava das três da manhã.

Muitas noites do senhor António Maria da Cunha terão sido passadas assim, ajudando os outros de forma abnegada. Aos agricultores com mais dificuldades nem o dinheiro dos medicamentos levava.

Como agricultor o senhor António Maria fez um grande percurso, sempre na sua ilha Graciosa, apesar de ter feito uma tentativa para emigrar com destino ao continente africano a chamamento de um amigo, mas sem qualquer sucesso. Começou com uma pequena exploração, que partilhava com a condução de um táxi, e foi crescendo, até ser a maior agricultor desta ilha, já a tempo inteiro. Foi um dos pioneiros do melhoramento animal, pois na tentativa de obter um melhor rendimento procurou noutros mercados adquirir produtoras de raças com caraterísticas ideais para a produção de leite. Mais tarde abandona a produção de leite e dedica-se exclusivamente à fileira da carne.

Eram também conhecidos os enormes bois, que exibia com orgulho, capazes de dar um melhor rendimento no trabalho da terra, numa altura em que a mecanização era inexistente.

Foi pelas suas mãos que veio até esta ilha um enorme arado que, puxado por 12 juntas de bois, revolvia a terra até profundidades consideráveis tornando-a mais produtiva.

Sem sombra de dúvida que esta postura inovadora, a sua experiência e a sua visão do futuro terão impulsionado outros agricultores desta ilha. Quando falava em agricultura fazia-o com paixão e isso via-se nos encontros públicos em que participava, onde tinha sempre uma palavra a dizer e era ouvido com respeito e admiração.

Apesar de ter apenas a instrução primária gostava de escrever, sobretudo poesia, que declamava em eventos públicos ou oferecia aos seus amigos.

Entre 1982 e 1985 foi Vereador da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa.

Nove anos após a sua morte a Associação Equestre Graciosense associa o nome de António Maria da Cunha ao seu picadeiro, numa merecida e rara homenagem a um homem que deu tudo à sua terra.

Em 2010, em sessão solene realizada na ilha do Corvo, os órgãos próprios da Região Autónoma dos Açores atribuem-lhe, a título póstumo, a Insígnia Autonómica de Mérito Industrial, Comercial e Agrícola.

Este homem solidário e de vistas largas morreu com aquilo com que começou, ou seja, quase nada, mas teve uma vida muito preenchida, onde se destaca uma inusual dedicação aos outros, sobretudo os mais desprotegidos.

17 de maio de 2012

Oportunidades e outras pieguices


Portugal nem sempre tem entendido de forma perentória as declarações emitidas pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, quando este intervém. Por isso tem sido recorrente vir novamente a público, no dia seguinte, tentar explicar aquilo que tinha dito anteriormente. Mesmo assim não é líquido que as explicações dadas sejam mais esclarecedoras do que as declarações da véspera.

O caso talvez se explique pela forma intensa com que gosta de falar aos portugueses e pela densidade das ideias que pretende fazer passar.

As últimas declarações sobre o desemprego foram desastrosas. Classificar este drama social como uma oportunidade para mudar de vida, foi um erro de palmatória. As explicações do dia seguinte até foram percetíveis, mas não apagaram aquela enviesada maneira de ver um problema que afeta cada vez mais portugueses.

Abordar o tema do desemprego desta forma constituiu uma ofensa a quem luta todos os dias para arranjar um trabalho que lhe permita sustentar a família com o mínimo de dignidade. Infelizmente os números nacionais indicam que a situação é dramática e, como tal, este governo, da responsabilidade do PSD e do CDS/PP, deveria preocupar-se, tão só, com a criação de oportunidades, mas de emprego.

Pulamos de recorde em recorde e as políticas ativas para minimizar este pesadelo, que afeta muitos concidadãos, tardam em aparecer. Ouvimos todos os dias alguns ministros desfilarem as suas preocupações, mas na prática tudo continua na mesma, não se vislumbrando soluções para minimizar os problemas por que passam muitos portugueses.

Este governo do PSD e do CDS/PP está a esmagar a classe média, a criar dificuldades no acesso dos portugueses à saúde e ao ensino. Todos os dias se assiste à destruição de postos de trabalho, quer nas empresas, quer na função pública, atirando para o desemprego muitas pessoas, a grande maioria sem direito a subsídio de desemprego, cujas regras foram habilmente alteradas.

É notório que este governo de Passos Coelho e de Paulo Portas estabeleceu como objetivo primeiro deixar empobrecer este país. O mais grave é que está mesmo a conseguir.