30 de novembro de 2012

Herói que lutou pela liberdade e democracia


 
João Silveira Bettencourt

(04/04/1896 – 12/11/1980)

João Silveira Bettencourt era o filho mais velho de Manuel Maria Bettencourt e de Maria das Neves Silveira Bettencourt. Nasceu na freguesia da Luz e, por ser bom aluno, sempre quis estudar, apesar de seu pai ser um modesto agricultor e os seus dois irmãos quererem seguir as pisadas de seu pai.

Como era habitual naquele tempo, para completar os seus estudos teve de se deslocar para Angra do Heroísmo para aí frequentar o Liceu. Mais tarde acaba por tirar o curso de Professor na Escola do Magistério Primário daquela cidade, profissão que nunca chegou a exercer.

Ofereceu-se para cumprir o serviço militar, tendo ingressado na Escola de Oficiais. É aqui que descobre a sua verdadeira vocação.

Foi Comandante da Guarda Fiscal, na cidade da Horta, e, depois, segue para uma comissão em Lisboa, com a patente de Tenente da Guarda Nacional Republicana, ficando a residir no Quartel do Carmo.

É a partir daqui que o Tenente João Silveira Bettencourt inicia um processo de luta pela democracia e pela liberdade, que lhe terá custado 3 anos, 1 mês e 1 dia de deportação e de prisão. Este período da sua vida, de provação e cárcere, foi minuciosamente registado num documento a que deu o nome de “Diário de um Deportado Vítima do Totalitarismo da Época”.

Em março de 1926 o Tenente João Silveira Bettencourt decide revoltar-se devido à situação social do país e aos desentendimentos existentes entre os partidos políticos de então. Os revoltosos instalam o seu quartel-general na Travessa do Salitre. Os comandos revolucionários são constituídos pela Companhia da Estrela da Guarda Nacional Republicana, a Companhia das Janelas Verdes, a Companhia de Alcântara e a Secção de Metralhadoras Pesadas, comandadas pelo Tenente João Silveira Bettencourt.

No dia 9 de fevereiro do ano seguinte, os revoltosos rendem-se, por volta da 20 horas, porque, como escreveu,” lhe faltaram as munições e por ser impossível a meia dúzia de gatos pingados vencermos toda a guarnição de Lisboa, a maior parte toda comprometida”.

É preso, pela primeira vez, por dez dias, três deles incomunicável como era praxe. Descreve esse momento no seu diário com alguma frieza, afirmando “Como é horrível experimentar, sem ser criminoso, por dez dias, a vida de penitenciário. Só faltava o número nas costas! Tínhamos chamadas, portas fechadas todas as noites pelos guardas, etc., etc.”.

A 20 de fevereiro de 1927 sai da cadeia e a bordo do N/M Lourenço Marques é levado até à Guiné Portuguesa, viagem que, curiosamente, teve a sua primeira escala na Ilha Terceira, muito perto da sua terra natal.

Na Guiné esteve deportado em Batafá, Bissau e Bolama. Detestou esta terra e isso está bem patente no seu diário quando escreveu “Estive na maldita Guiné de mexericos, intrigas e invejas 15 meses e 25 dias”.

A 27 de junho de 1928 inicia, finalmente, a viagem de regresso aos Açores, passando pelo Funchal onde se reúne com a esposa e o filho. Curiosamente a sua família ficou sempre no Quartel do Carmo, protegida pelos seus camaradas de armas. Chega à Ilha Graciosa, para onde foi mandado residir, a 14 de julho desse mesmo ano.

A 2 de abril de 1929 embarca para Lisboa, por ordem do regime, a fim de ser julgado. A sentença atribui-lhe 12 meses de prisão e a igual tempo de multa a 2$50 por dia. Cumpre a prisão na Torre de S. Julião da Barra de 4 de maio de 1929 a 11 de julho de 1930.

Depois de cumprida a reclusão regressa à sua terra natal, onde chega a 15 de agosto de 1931.

Nesse mesmo ano, e por continuar insatisfeito com o regime da altura, participa na Revolta dos Açores, tomando as ilhas Graciosa, S. Jorge e Pico, a bordo do rebocador Milhafre com peças de artilharia amarradas com arames. Saíram do Porto da Folga até Santa Cruz, seguiram para Angra do Heroísmo, onde os revoltosos foram muito bem recebidos, depois para a Velas e Cais do Pico. Mais uma vez teve de se render “sem condições por falta de meios e apoio militar vindo de Lisboa”.

Foi novamente deportado, desta vez para Cabo Verde, onde permaneceu 7 meses e 20 dias. Em janeiro de 1932 regressa à Ilha Graciosa, tendo-lhe sido aplicada a medida de residência fixa.

Mais tarde regressa à cidade da Horta, onde “assiste” à revolução de 25 de Abril de 1974 pela rádio. Dizem os seus familiares que ao conhecer o desenlace da revolução dos cravos “chorou como uma criança pequena”.

Em 1975 é promovido a Capitão e passado à reserva, facto que o desagradou imenso. A luta que encetou contra a ditadura e o desprendimento que sempre demonstrou quando lhe eram oferecidos cargos em troca do seu silêncio, exigiam outro tratamento por parte do Estado.

Nesta cidade dedicou-se à contabilidade. Fez parte, também, dos corpos sociais e foi sócio efetivo de inúmeras instituições de solidariedade social, desportivas e culturais, como o Hospital da Santa Casa da Horta, o Amor da Pátria, o Lar das Criancinhas da Horta, o Grémio Literário, a Artista Faialense, a Filarmónica Artista Faialense, a Filarmónica a União a Filarmónica da Praia do Almoxarife, do Angustias Atlético Club, do Fayal Sport Club, do Sporting Clube da Horta e do Clube Naval da Horta, entre outros. Foi, também, sócio da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem.

Escreveu também para vários jornais com a Gazeta de S. Miguel, o Alma Nova e foi redator do jornal republicano Pátria Livre, além de colaborações nos jornais locais. Gostava também de escrever poemas.

Diz quem o conheceu que era um excelente conversador, mas nunca sobre si ou sobre a sua intensa atividade política, tal era a sua humildade. Apesar de marcado por anos de sofrimento era muito afável no relacionamento com os outros. Além da coragem que colocou na sua luta pela liberdade e pela democracia o Capitão João Silveira Bettencourt era conhecido por ser muito íntegro e sensato.

Nota: nesta simples crónica utilizei os dados mais marcantes do imenso diário que o Capitão João Silveira Bettencourt deixou e também algumas anotações feitas pelo seu filho e pelo seu neto, que me foram gentilmente cedidas.

29 de novembro de 2012

Contra tudo e contra todos


O Orçamento Geral do Estado para 2013 foi aprovado esta semana na Assembleia da República. Ao que dizem os jornalistas e muitos especialistas na matéria, alguns da área política da maioria, este é o pior Orçamento de que há memória.

Na discussão deste importante documento verificou-se que os partidos desta coligação, que governa o país, cortaram a direito e fizeram orelhas moucas aos que escolheram as ruas para demonstrarem o seu descontentamento por estas políticas e também à oposição, que apresentou algumas propostas no sentido de aligeirar este sufoco fiscal a que vamos estar expostos no próximo ano, mas sem qualquer resultado.

Tem crescido o número de pessoas idóneas, de todos os quadrantes políticos incluindo os partidos que estão no poder, que se tem insurgido contra estas medidas ao ponto de as considerarem inconstitucionais e apelarem ao Presidente da República no sentido deste vetar o Orçamento, coisa que ninguém acredita, tal a passividade que o mais alto magistrado da nação tem demonstrado nos últimos tempos.

Os novos escalões do IRS vão provocar um aumento enorme de impostos que vamos começar a sentir já no início do próximo ano quando forem aplicadas as novas tabelas de retenção na fonte. O Governo da República fez algumas manobras de diversão no sentido de disfarçar este brutal aumento da carga fiscal, mas em 2013 só irá encontrar mais contestação e mais desilusão devido a este aumento desmesurado e disfarçado.

Os subsídios por morte foram cortados a metade do atual. O subsídio por doença será reduzido tal como o subsídio de desemprego, que será de mais difícil acesso. Alguns pensionistas pagarão mais impostos do que os trabalhadores no ativo.

E mesmo assim a economia vai encolher, o défice vai aumentar, o desemprego continuará a crescer e as famílias a empobrecer.

22 de novembro de 2012

Políticas de Pescas e Valorização do Mar



Senhora Presidente da Assembleia

Senhoras e Senhores Deputados

Senhor Presidente do Governo

Senhora e Senhores Membros do Governo

Na minha primeira intervenção nesta que é a X Legislatura quero aproveitar a oportunidade para a felicitar, Senhora Presidente da Assembleia, e para lhe desejar os maiores sucessos na condução dos trabalhos desta casa que é, no fundo, a sede da autonomia.

 A si, Senhor Presidente do Governo, também lhe desejo as maiores felicidades na execução do Programa do XI Governo da Região Autónoma dos Açores, que agora nos encontramos a discutir, para bem de todo o povo açoriano.

A economia do mar é uma prioridade estratégica para a região, no conjunto dos seus sectores e subsectores. É geradora de emprego e de mais-valias, mas o seu potencial de crescimento é enorme a curto e médio prazo.

Os três milhões de metros quadrados da plataforma continental ao redor do arquipélago dos Açores para além de representar novas oportunidades representam também uma responsabilidade acrescida na proteção e no aproveitamento dos recursos, quer vivos, quer minerais ou energéticos.

A abordagem das questões ligadas ao mar assume, nos tempos que correm, uma outra dimensão, muito diferente da visão do passado, que era assente em apenas três vertentes da sua utilização: os transportes, a pesca e a extração de inertes.

Ao contrário do que era tido como, de todo, desconhecido, hoje sabe-se que o mar dos Açores encerra uma série de recursos naturais importantes e por isso há a necessidade de garantir que sejam explorados de forma a não por em perigo o equilíbrio ambiental e tragam benefícios económicos à região, não só por via do valor acrescentado, mas também pelos avanços tecnológicos que a economia do mar pode trazer.   

Também hoje temos consciência das ameaças existentes sobre os recursos vivos, provocados pela exploração pesqueira e a poluição, ambas causadas pela intervenção humana, que podem por em causa espécies e habitats.

Estas duas premissas indicam o caminho a seguir.

Por um lado temos de avançar para novos usos do mar dos Açores em áreas como a ciência, a biotecnologia, a energia, o turismo e os recursos naturais.

Por outro lado apresentam-se-nos importantes desafios na gestão dos recursos piscícolas que nos levarão, indubitavelmente, à diversificação, à gestão cuidada das pescarias, à valorização do pescado e à constituição e regulamentação de zonas de proteção.

Senhora Presidente da Assembleia

Senhoras e Senhores Deputados

Senhor Presidente do Governo

Senhora e Senhores Membros do Governo

Nos fundos do mar dos Açores e em volta das fontes hidrotermais foram detetados sulfuretos polimetálicos, muito ricos em cobre, zinco e ferro, e jazidas de hidratos de metano, uma potencial fonte de energia para o futuro. A introdução de inovação tecnológica no aproveitamento destes recursos poderá gerar progresso nas nossas ilhas.

A pesca desportiva, a navegação de recreio, o mergulho, a observação de cetáceos e de aves marinhas constituem atividades componentes da indústria de animação turística que encerram potencial de crescimento e com capacidade para captar mais investimento e criar emprego.

A pesca tem um impacto socioeconómico importante nos Açores, porquanto representa cerca de 20% das exportações e 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB), absorvendo mais ou menos 5% da população ativa. 

Com as oscilações verificadas em algumas pescarias, nomeadamente na pesca demersal – conforme é notório nos casos do Boca Negra, Congro, Goraz, Pargo e Peixão – é fundamental diversificar as capturas, pescando mais longe e mais fundo, agora que as embarcações estão melhor preparadas para isso, com boas condições de habitabilidade e de segurança, fruto do investimento feito na renovação da frota de há dezasseis anos a esta parte.

É importante diversificar a própria atividade, enveredando por novos aproveitamentos, nomeadamente na pesca turismo.  

A formação dos profissionais do mar é, também, fundamental para a aquisição de novas competências e reciclagem de conhecimentos para a alteração do paradigma que se exige neste momento.

A forma descentralizada como a formação está organizada permite melhores índices de sucesso, porque a leva até todas as ilhas da região. O grau de mestrança terá, num futuro próximo, o seu enquadramento no Centro de Formação de Marítimos dos Açores, com conteúdos transversais a outros utilizadores do mar.

Pelas razões apontadas anteriormente o sucesso das pescas não passa pelo aumento do esforço ou sobre-exploração dos recursos, passando antes pela valorização do pescado, o que traz novas responsabilidades que terão de ser resolvidas por via da formação dos profissionais. Boas práticas no manuseamento dos produtos da pesca desde a captura, passando pelo acondicionamento e embalamento, até ao seu escoamento e entrega ao cliente final, trarão, certamente, mais-valias importantes. A reforma e o reforço da rede de frio que está em curso e que se iniciou na última legislatura, trará, com toda a certeza, novas capacidades para atingir esse desiderato.   

Senhora Presidente da Assembleia

Senhoras e Senhores Deputados

Senhor Presidente do Governo

Senhora e Senhores Membros do Governo

A Região Autónoma dos Açores está e estará, num futuro próximo, sujeita a grandes pressões todas no sentido de redução de direitos sobre os seus recursos.

Advinham-se, por isso, enormes desafios para os Açores nos próximos tempos. A firme recusa em “embarcar” em ideias centralistas vindas de S. Bento ou de Bruxelas tem de ser a nossa bandeira.

A defesa da gestão açoriana dos recursos minerais do fundo do nosso mar é uma prioridade. Por outro lado, na revisão da Política Comum de Pescas é fundamental que vingue a posição assumida pelos Açores, que defende o controlo nacional da área entre as 100 e as 200 milhas, mecanismo que, como se sabe, perdemos em 2004 com o Regulamento das Águas Ocidentais.

O poeta Manuel Alegre, no poema Tanto Mar, fez justiça e sintetizou muito bem este azul imenso, que muitas vezes nos separa, mas que também nos une, quando escreveu:

“Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores”.

Disse.

Horta, Sala das Sessões, 22 de novembro de 2012.

O Programa do novo Governo


Estamos a discutir, e haveremos de votar ainda hoje, o Programa do XI Governo Regional, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, aquela que é a sede da autonomia.

Neste programa estão plasmadas todas as promessas eleitorais assumidas no desenrolar da campanha eleitoral, o que é raro. Há quem não goste e tenha declarado que irá votar contra, mas se calhar votariam contra de qualquer modo.

Convenhamos que, no fundo, foram estas as promessas que foram apresentadas aos eleitores na campanha eleitoral e foram também essas as que receberam o apoio da maioria esmagadora do eleitorado açoriano.

O facto de se verter os compromissos assumidos neste importante documento, que, no fundo, irá orientar a ação deste Governo nos próximos quatro anos, é uma atitude corajosa e um sinal de que, tal como tem sido hábito nos últimos dezasseis anos, o contrato eleitoral celebrado com o povo açoriano, em outubro passado, é para ser cumprido.

Apresentado num momento de grave crise económica em que os agentes económicos se veem espartilhados pela diminuição do consumo imposto pelos cortes vindos de Lisboa e pela falta de financiamento bancário, este Governo coloca neste programa um grande destaque nas questões sociais e nos apoios às empresas e tudo porque é o tecido empresarial que cria riqueza e, por conseguinte, emprego.

Este programa põe, assim, as pessoas no centro das preocupações desta maioria. O Governo dos Açores pretende “proteger os fragilizados, apoiar os necessitados e estimular quem quer crescer e inovar”.

É um bom começo deste novo ciclo.

16 de novembro de 2012

Exigente, honesto e bondoso


Tomaz de Sousa da Luz

(13/11/1922 – 26/12/1977)

O senhor Tomaz era um homem que dava nas vistas. Era bastante alto e com uma compleição física própria de um homem do mar. De facto era no mar que trabalhava e era o mar que lhe dava o sustento.   

Naquele tempo os navios de carga alternavam entre os portos de Santa Cruz e da Praia, de modo a agradar a todos. Quando o mar pregava uma partida restava ao comandante do navio derivar para o porto da Folga ou então o cancelar a operação.

Habituei-me a ver o senhor Tomaz num frenético vai vem nos dias de navio em Santa Cruz. Era ele que coordenava, a partir do Cais Novo, a ida e a vinda dos batelões, que, rebocados pelas lanchas, se encostavam no bojo dos navios e aguardavam pacientemente, baloiçando ao sabor das ondas, as mercadorias que eram arriadas suavemente pelos paus de carga existentes a bordo. Era dele, da sua experiência e sabedoria, que dependia a eficiência desta operação tão importante para a economia da ilha.

Está na origem, já depois da revolução de 1974, da fusão destes trabalhadores dos batelões e das lanchas com os estivadores e é nessa altura que assume o cargo de encarregado geral da estiva, passando assim a coordenar toda a operação de carga e descarga dos navios que demandavam os portos da Graciosa.

Para além desta atividade o senhor Tomaz era um reputado e exímio pescador. Foi proprietário, primeiro, do Tomaz Luz e, depois, do Valdemiro Luz, ambos de boca aberta e dedicados à pesca artesanal. O barco Tomaz Luz foi destruído, juntamente com um barco do senhor Casimiro, num dia de mau tempo, arrastados para o mar quando se encontravam varados no Cais Novo. Nesse dia escapou por um triz o barco do mestre António “Faroleiro” que se encontrava mesmo ao lado destas duas malogradas embarcações.

Mas foi na caça à baleia onde se destacou mais. Na baleação, como era normal e até recomendável - porque nestas coisas a experiência e a coragem é que capacitavam as pessoas - fez um pouco de tudo. De simples tripulante e remador, função que exerceu durante alguns anos, passou a trancador em 1948 depois de obter a carta de trancador ou arpoador de cetáceos, que custou, na altura, 81$00. Em 1965, depois de tirar a respetiva carta de mestre baleeiro cujo custo se cifrou em 86$90, passa a ser o oficial do bote São Salvador, pertença de uma companhia baleeira da Graciosa. Os valores pagos pelas licenças eram muito elevados, daí se perceber a importância social que estas promoções deveriam ter naquele tempo.

O seu porto e de saída e de entrada era o da Calheta, em Santa Cruz. Era ao largo deste porto que a Estefânia Correia apanhava o bote comandado pelo mestre Tomaz e era aí que o deixava quando terminava a faina.

Depois do sinal dado pela vigia da baleia do Monte da Ajuda, com um foguete ou com a buzina do Mazini (barco que naufragou no início do século XX no Calhau Miúdo), o mestre Tomaz e os seus homens deixavam tudo e corriam até à Calheta. Sem tempo a perder tiravam o bote do barracão, que hoje faz parte do Museu da Graciosa, e faziam-no escorrer até à água passando pelos paus previamente untados. Era uma correria para se chegar a tempo ou não fosse a baleia desaparecer dos binóculos do vigia. No regresso, quer corresse bem ou mal, lavavam o bote, estendiam as linhas no cais da Alfândega para secarem e faziam o percurso inverso em direção ao barracão.

Certo dia o mestre Tomaz, já depois de trancado o cachalote, percebe que o animal se deixava conduzir e avisa os seus homens que iria levá-lo até ao interior do porto da Calheta, para aí consumar a matança. Não conseguiu os seus intentos, mas falhou por muito pouco, pois o cachalote acabou por morrer um pouco mais ao lado, nos Terreiros.

A meados dos anos 70, um cachalote, depois de trancado e de tanto andar às voltas, virou-se repentinamente em direção ao São Salvador e com um golpe partiu o bote e fez todos os homens caírem ao mar, que ficaram ali, entre os destroços e o animal, até serem socorridos pela Estefânia Correia. Para além do mestre Tomaz, oficial do bote, estavam também o Armandino, trancador, o João “Bota”, o Marcelo, o Valter Bettencourt, o Urialdo Veiga e o José Manuel Quadros. Depois deste acidente o São Salvador foi para o Pico e esta tripulação passou a balear no Restinga.

Os que trabalharam com o mestre Tomaz dizem que era um homem muito rigoroso. Exigia respeito e respeitava os seus companheiros de trabalho. Os mais novos tratavam-no como um segundo pai, tal era a consideração que tinham por ele. Era dotado de grande coragem e com invulgar capacidade para tomar decisões difíceis, muitas vezes necessárias nesta dura vida de marítimo.

Era também um católico convicto. Não se coibia de tirar o boné e fazer uma oração sempre que passava pela igreja da Boa Nova, como que a pedir ou a agradecer a proteção de São Pedro Gonçalves, padroeiro dos homens do mar. No seu bote e no seu barco eram sempre visíveis símbolos religiosos que o confortavam nas horas mais difíceis.

A bondade era também uma das suas grandes qualidades. Gostava de ajudar os outros. Sempre que a pesca rendia pouco abdicava da soldada a que o barco tinha direito para não penalizar ainda mais a sua companha. Sabe-se também que quando um dos seus homens deixou de poder trabalhar no mar continuou a reservar-lhe uma soldada para deste modo o ajudar.

Nutria grande simpatia pelo Graciosa Futebol Clube, clube onde desempenhou vários cargos nos órgãos sociais.

O senhor Tomaz merece ser recordado pelas excelentes qualidades profissionais que demonstrou ao longo de uma vida ligada ao mar e também pelas qualidades humanas que sempre revelou. O seu caráter de homem exigente, honesto e bondoso fizeram dele uma pessoa admirada e respeitada na Ilha Graciosa.

15 de novembro de 2012

A visita


Angela Merkel veio em visita oficial a Portugal. Foi uma visita aparatosa devido à segurança que esse momento envolveu, apesar das escassas cinco horas que durou a sua passagem pelo nosso país.

É claro que esta visita gerou uma grande onda de indignação junto dos portugueses. Ninguém ficou indiferente e foi clara a colagem que se fez da chanceller à austeridade que demanda neste país.

Esta colagem, justa, com é vista pelo comum dos portugueses, ou não, como defendem os membros do governo de Portugal, decorre das políticas que a senhora Merkel tem imposto à europa e aos europeus.

Disse um pouco antes de desembarcar em Portugal que nunca impôs austeridade a nenhum país, no mesmo tom com que disse, logo a seguir, que estávamos no bom caminho. Esta postura, mesmo para os mais distraídos, é um claro apoio a estas medidas draconianas que vão destruindo o nosso país. É um claro apoio a estas medidas que vão muito mais além das propostas pelo memorando de entendimento que estabelecemos com organizações internacionais.

É por essas e por outras que os portugueses sentem que a sua soberania está ameaçada e que a democracia se encontra em risco como nunca esteve desde 1974.

É por essas e por outras que o povo se indigna e enche ruas e praças numa clara demonstração do desagrado que sente por estas políticas, como aconteceu ontem na greve geral.

Enquanto isto o primeiro-ministro de Portugal, Passos Coelho, continua a acreditar, cada vez mais sozinho, que esta política de empobrecimento da população é a via para o sucesso, enquanto o país se afunda cada vez mais, como confirmam os indicadores.

8 de novembro de 2012

O início de um novo ciclo


Esta semana tomou posse o XI Governo Regional dos Açores em sessão solene, um dia depois da instalação da nova Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, resultante das eleições de 14 de outubro de 2012.

Tal como o prometido na campanha eleitoral, Vasco Cordeiro nomeou um governo mais pequeno, com maiores cortes do que o inicialmente previsto, mais ágil e menos burocrático, com o objetivo de o tornar, afinal, mais perto dos cidadãos.

É o início de um novo ciclo que, indubitavelmente, terá pela frente novos desafios que se adivinham para os próximos tempos e que se preveem, também, difíceis e incertos, exigindo de quem nos governa rigor nas contas públicas e prudência nas opções políticas.

Os açorianos e os seus dirigentes saberão, como sempre souberam, ultrapassar as dificuldades que surgem, umas impostas pela natureza incontrolável e incontornável e outras fabricadas por esta crise económica. Os açorianos, que cresceram aprendendo a seguir em frente apesar das tempestades e dos vulcões, saberão, com toda a certeza, vencer, mais uma vez, estes desafios provocados pela situação económica do nosso país.

Neste dia Vasco Cordeiro, naquela que foi a sua primeira intervenção como Presidente do Governo da Região Autónoma dos Açores, fez um apelo à participação de todos, ao diálogo e à concertação, dirigindo-se aos partidos políticos e movimentos sociais, no sentido de unirem esforços para defenderem de uma forma unissonante a Autonomia dos Açores, para, deste modo e dispondo dos mecanismos que esta nos proporciona, minorar os efeitos desta enorme crise de contornos desconhecidos.

Vasco Cordeiro, também nesta comunicação, avançou com as três ideias que conduzirão este governo: a criação de emprego, o reforço do apoio às empresas e o auxílio às famílias.

Estas importantes referências vêm, de certa maneira, contrariar as opções do Orçamento de Estado para 2013 que impõe mais austeridade e mais impostos e que impede a criação de riqueza e, por conseguinte, de emprego.

É caso para dizer que o XI Governo dos Açores, liderado por Vasco Cordeiro, não vai deixar ninguém para trás.

1 de novembro de 2012

O Orçamento do Estado para 2013


Nestes dias de discussão do Orçamento Geral do Estado fomos surpreendidos com novo aumento de impostos. É mais uma situação que este governo da república confrontou os portugueses quase à socapa.

Agora compreendo Vitor Gaspar quando se refere ao povo português como o melhor do mundo. Esta sua apreciação, infeliz a meu ver, pode confortá-lo neste momento em que todo o país está contra esta política de empobrecimento e da usurpação de direitos adquiridos ao longo destes anos da democracia, mas não poderá fazê-lo baixar a guarda, porque, e isso já se viu nas ruas e nas praças deste país, o povo está a chegar ao seu limite. O povo não pode mais. Não pode ser sujeito a mais impostos nem quer ouvir esta gente a enterrar cada vez mais a esperança, que dizem ser a última a morrer.

Não há dúvida nenhuma que esta via para resolver a crise não interessa a ninguém. Diminuir o défice contando apenas com a carga fiscal, esquecendo o crescimento não nos leva a lado nenhum. Não sou eu a dizer isto, são os especialistas de todas as áreas políticas que o afirmam à boca cheia. Só este governo continua a teimar nesta receita de emagrecimento da economia, na redução de direitos e do consumo e no desmantelamento das pequenas e médias empresas que, a um ritmo alucinante, atiram para o desemprego centenas de cidadãos a cada dia que passa.

Ouvimos este governo da república falar em cortar nas gorduras do estado e só o vemos, como resposta, aumentar novamente os impostos ou atacar nos apoios sociais. Cortar nas gorduras do estado não é empobrecer ainda mais os portugueses.

Depois de mais de uma década a reduzir as desigualdades e a pobreza, vem agora este governo, com o orçamento para 2013, tal como aconteceu com o do corrente ano, ignorar todo o esforço que foi feito na tentativa de transformar Portugal num país mais justo e mais solidário.

Não há dúvida que esta vontade do PSD de Passos Coelho em refundar as funções do estado só deverá querer dizer mais impostos e menos estado social.

Só nos resta fazer a pergunta: até aonde nos querem levar?

25 de outubro de 2012

O vencedor


As eleições do passado dia 14 de outubro determinaram um vencedor: Vasco Cordeiro. Com uma conjuntura externa muito difícil a marcar a campanha e, ainda por cima, surgindo como substituto de Carlos César que, como se sabe, comandou sabiamente os destinos dos Açores nos últimos 16 anos, Vasco Cordeiro soube ultrapassar o cenário das dificuldades impostas pela política de austeridade que vem da república e propôs ao eleitorado um novo ciclo para vencer novos desafios.

A conquista desta clara maioria absoluta estará ligada, em primeiro lugar, ao modo como Vasco Cordeiro geriu a sua campanha eleitoral. Rejeitou vivamente enveredar pela promessa fácil ou pelo ataque aos seus opositores diretos. Esta postura responsável deu-lhe tempo e, sobretudo, credibilidade para passar aos açorianos as suas propostas para os próximos quatro anos.

Esta vitória do Partido Socialista e de Vasco Cordeiro foi, também, a maneira que os açorianos encontraram para rejeitar as políticas de austeridade que este governo da república do PSD e do PP nos impõe.

Como é evidente também terá contribuído para esta vitória a boa governação do Partido Socialista nos últimos 16 anos, uma governação inovadora e progressista, que teve o condão de gerir bem as suas contas, como é o exemplo da dívida pública da região que se cifra em 18% do PIB, enquanto a dívida da república já vai nos 123% do PIB.

Esta boa governação permitiu aos Açores um crescimento superior à média europeia e manter a região com a segunda menor taxa de desemprego de Portugal, apesar do momento conturbado que atravessamos provocado pela falta de liquidez da banca e das empresas, processo que, como se sabe, teve origem fora dos Açores.

Sem dúvida que o povo dos Açores foi, mais uma vez, sábio na hora de decidir.

27 de setembro de 2012

Disparates e desespero


Isto deve estar muito mau para Berta Cabral. Nos últimos tempos apressou-se a prometer tudo a todos e agora nas visitas que faz por essas ilhas leva uma personagem de serviço que se limita a reproduzir o que os séquitos daquela líder querem ouvir.

Desde a inauguração do novo Centro de Saúde - espaço que Marques Mendes considerou como uma clínica privada talvez por ser uma estrutura de qualidade a que não deve estar habituado - que a oposição local elegeu aquela entidade para atacar como nunca se viu.  E ele, tal como um subserviente desta malta que por aqui anda, fez a figura que nem eu esperava de um comentador político de um canal nacional que está, de facto, a perder audiência.

Ninguém conseguiu perceber como esta figura foi capaz de fazer uma apreciação tão crítica sem saber do que falava. Só por maldade… Será que ele viu a Graciosa, será que ele sabia como era a Graciosa nos tempos do seu partido?

Perante a obra feita, perante um governo que apesar da crise nacional consegue manter apoios sociais a quem mais precisa, perante um governo regional que recusa aceitar o ataque do governo da república aos que menos podem, resta apenas a esta oposição optar pela maledicência.

Com este nervosismo todo de Berta Cabral e dos seus acompanhantes esqueceram-se do essencial: antes de criticar deveriam procurar conhecer e ver como funcionam as coisas. Esta ação talvez servisse para não dizerem disparates sobre o que não conhecem e talvez passassem a ter mais cuidado quando recebem informações de “zelosos” funcionários que não sabem distinguir o seu trabalho da sua intervenção política.

Tenho a certeza que se Marques Mendes, entre a tourada e a sardinhada, tivesse falado com outras pessoas e se procurasse conhecer esta ilha pela boca de outros que não aqueles que o rodearam, talvez ficasse a saber que a Graciosa e os Açores são bem servidos pelo serviço regional de saúde que é, em muito, superior ao do continente. Talvez ficasse a saber que no seu partido há quem distribua empregos pelos seus familiares, diretos e indiretos. Finalmente, poderia também aferir que outras famílias da sua área política abundam em alguns serviços da ilha. E mais… nesta visita Berta Cabral, muito preocupada com o resultado da última sondagem, acabou por fazer aquilo que acusa os outros: ofereceu cargos de chefia por um punhado de votos.

É o desespero.

20 de setembro de 2012

Pois é...


Na segunda-feira passada ouvi um dirigente nacional do PSD afirmar, muito convicto, que as razões do falhanço total das políticas económicas deste governo da república deviam-se à conjuntura internacional.

Esta foi a primeira vez, depois das eleições nacionais de 2011, que ouvi um dirigente do PSD aventar que esta crise que nos assola poderá afinal ter outro responsável que não o anterior primeiro-ministro. Pois é, afinal começam a cair as máscaras daqueles que sempre se esforçaram por atribuir as culpas a quem lhes dava jeito, quando todos sabiam que por essa Europa e pelo Mundo fora muitos países passavam por dificuldades semelhantes às nossas.

Agora, acossados por todos os lados e acusados de não conseguirem melhorar a situação económica do país, apesar do impressionante sufoco fiscal a que sujeitam e vão sujeitar ainda mais os portugueses, começam a pôr a mão na consciência e atiram para a conjuntura internacional as culpas desta crise, coisa que também deveriam ter feito, se houvesse honestidade política e intelectual, na altura em que entraram em campanha eleitoral.

Pela nossa região assistimos a algo parecido, mas ao contrário. O PSD andou à procura de buracos financeiros, de contas mal geridas, tentou empolar os números da crise, eu sei lá do que mais…

Como as coisas afinal não eram assim – e isso foi confirmado por entidades idóneas – o PSD desesperou, arrepiou caminho e mudou de tática. A opção passou pelo ataque pessoal de uma forma inadmissível nos tempos que correm, pela promessa de empregos inexistentes, pelas ameaças constantes, pela instrumentalização de atividades religiosas, pelo incentivo a manifestações de descontentamento, pelo prometer tudo a todos, desde obras até cargos políticos na administração regional e nas empresas públicas. Enquanto isto a líder do ainda maior partido da oposição anda por aí, feliz e contente, a afirmar que vai cortar aqui e ali, que vai moralizar o sistema, num constante debulhar de ideias avulsas e contrárias às ações perpetradas pelo seu partido por essas ilhas fora. Como é possível isto acontecer?

Enquanto isto o Governo da responsabilidade do PS continua a governar para os Açorianos, abrindo esta semana mais um ano letivo sem sobressaltos, recebendo nota positiva dos professores, pais e alunos e com a novidade de fornecer o pequeno-almoço aos alunos que dele precisem.

Pois é, a vida tem destas coisas.

13 de setembro de 2012

Semana negra


Esta semana fomos novamente confrontados com mais medidas de austeridade e outra vez destinadas aos mesmos de sempre: os que menos podem.

Este governo de maioria PSD / PP entalou, literalmente, os portugueses e agora, depois de terem destruído milhares de postos de trabalho por via da redução do poder de compra, atiram-nos com mais impostos por já não saberem o que fazer.

Ainda de vez em quanto falam de uma herança pesada que receberam do governo anterior, mas o que é certo e sabido é que vão deixar ao próximo governo, além de uma herança ainda muito mais pesada, um país completamente empobrecido por medidas draconianas difíceis de suportar. Era por isto que os portugueses esperavam quando votaram em 2011? Certamente que não.

Estas medidas agora anunciadas tiveram um mérito inédito: não agradaram nem a gregos nem a troianos. Foram contestadas por todos, desde patrões a empregados, inclusivamente juntaram protestos de todos os partidos da oposição e também do PP, que, como se sabe, é parceiro do PSD no governo da república.

É caso para dizer que o PSD pensa que é o único partido que marcha certo e enquanto viver nesta ilusão não terá capacidade para perceber o mal que está a fazer a milhares de pensionistas e reformados, a trabalhadores que todos os dias veem acabar os seus postos de trabalho, às pequenas e médias empresas que não têm procura já que o poder de compra dos portugueses caiu a pique para níveis inauditos.

Assim vai a república arrastada por este desgoverno que, mesmo nesta conjuntura de aumento desmesurado da carga fiscal, mostra-se incapaz de melhorar as contas públicas.

Aqui nos Açores temos passado ao lado deste desvario, porque os governos do Partido Socialista tiveram o mérito e a sabedoria de manter as contas públicas em ordem e é por isso que este ato eleitoral que se aproxima é dos mais importantes dos últimos tempos.

Temos de combater o PSD, o de lá e o de cá, temos de nos manter firmes e intransigentes e bater o pé para que a autonomia dos Açores não seja alienada ou delapidada.

7 de setembro de 2012

Desta vez a derrota veio de Lisboa

Recentemente o Governo Regional dos Açores assinou com o Governo da República um memorando de entendimento, proposto em julho de 2011 pelo presidente Carlos César e aceite pelo primeiro-ministro em setembro do mesmo ano.

Quando o documento foi conhecido logo surgiram os agoirentos de turno a debitar considerandos, todos eles forrados de um pessimismo atroz, dizendo, nomeadamente, que os Açores tinham hipotecado a autonomia por uns milhões de euros.

Ora, nada de mais errado. A República Portuguesa, através deste documento e do que está plasmado no relatório da Inspeção Geral de Finanças, reconhece que a Região Autónoma dos Açores tem cumprido as metas orçamentais, não precisando de reduzir a despesa nem de aumentar a receita, nem tão pouco tem a necessidade de criar medidas restritivas ao contrário do que acontece lá fora ou na vizinha Região Autónoma da Madeira.

Isto quer dizer que os Açores não perdem a capacidade de promover medidas próprias de apoio às famílias e às empresas, como é o caso da redução do preço dos combustíveis, o complemento regional de pensão (cheque pequenino), complemento de abono de família para crianças e jovens ou a comparticipação na aquisição de medicamentos por idosos, não esquecendo o IVA mais reduzido ou o IRS e o IRC mais baixos em cerca de 20%.

Este acordo destinou-se a refinanciar a dívida pública devido às dificuldades de acesso aos mercados externos e garantir a capacidade da Região Autónoma dos Açores de manter uma política diferenciada, já que as contas dos Açores em nada contribuíram para o desequilíbrio financeiro do país.

Ao invés do que uma certa oposição pretende fazer crer, este entendimento é uma vitória e premeia a boa gestão das finanças públicas da Região Autónoma dos Açores.

É claro que o PSD, agachado à espera de um resgate financeiro ao estilo da Madeira, sofreu um novo revés, só que desta vez a derrota veio de onde menos se esperava, de Lisboa.

30 de agosto de 2012

Tal como o tempo


Os Açorianos sempre estiveram atentos às questões ligadas à meteorologia. Podemos mesmo dizer que em cada Açoriano há também um meteorologista, tão habituados que estamos a acompanhar o tempo nas nossas ilhas. Dão-se palpites, indica-se quando roda o vento, conclui-se quando é que o tempo vira. Quem por cá por vive sabe muito bem que as alterações da natureza são rápidas e cíclicas.

É também conhecido que quando o tempo começa a piorar no Corvo ou nas Flores, mais dia, menos dia haveremos de levar com a nossa parte. É por isso que os Açorianos ficam colados ao televisor, à espera de “O tempo” na RTP-Açores e avaliam o que está a acontecer por lá para perspetivar o dia seguinte. É uma situação que acontece vezes sem conta.

Neste momento em que se aproxima o final do prazo para a entrega das listas de candidatos às próximas eleições regionais saem notícias, primeiro dos cabeças de lista e depois de toda a sua constituição.

Algumas vezes somos surpreendidos com os nomes de pessoas que nem vivem nos círculos eleitorais por onde concorrem, o que, quanto a mim, não contribui para a credibilização da política.

Mas a notícia mais inesperada foi a de que o PSD não consegue fazer uma lista que concorra pelo círculo eleitoral do Corvo.

É estranho um partido, que se constitui como alternativa de poder e se autointitula como um partido de implantação regional, não conseguir, junto do seu eleitorado daquela ilha, fazer uma lista para concorrer por aquele círculo eleitoral.

Mais estranho ainda é a solução que aquele partido arranjou: apoiar o líder do Partido Popular Monárquico, precisamente aquele que desalojou o PSD do panorama político daquela ilha, no que respeita às eleições regionais.

Tal como o mau tempo também a primeira derrota do PSD vem do ocidente.

23 de agosto de 2012

Sondagens e outras coisas mais


Chegados a este período de pré-campanha eleitoral é habitual os partidos encomendarem sondagens para, a partir das suas conclusões, poderem ajustar estratégias, escolher candidatos ou mesmo reverter o modo de atuação junto das populações que servem.

Como se percebe este tipo de estudo pode, efetivamente, ser importante para os partidos políticos e para o sucesso de uma campanha eleitoral que todos querem que resulte numa vitória. É um instrumento que pode apoiar as lideranças e ajudar no planeamento das campanhas eleitorais.

O que já não é muito correto é o aproveitamento distorcido e malicioso que é feito de sondagens, invertendo resultados para daí poderem tirar algum proveito político.

Já em 2004 o PSD exibia uns papeletes afirmando ser detentor de sondagens que lhe davam cerca de 60% das intenções dos votos dos Açorianos. Embora coligado com o PP, estas forças políticas ficaram-se apenas pelos 36,8%.

Em 2008 o PSD repetiu a proeza e optou por atirar cá para fora novas sondagens que lhe davam uma vitória inequívoca. Uma vez mais enganaram-se, porquanto não passaram dos 30,3%.

Agora em 2012 o PSD tenta, a todo o custo, fazer passar a mensagem da existência de sondagens favoráveis, mesmo tendo conhecimento de que todas as que existem, as deles e as das outras forças partidárias, atribuem-lhe, mais uma vez, uma derrota.

Por aqui se vê que o PSD não aprendeu com o passado, como seria bom-tom. Teima em utilizar este tipo de estratégia de uma maneira arrogante como forma de adquirir algum balanço.

É apenas uma ilusão que não leva a nada, porque as eleições ganham-se nas urnas. Aquela que será a verdadeira sondagem só sairá no dia 14 de outubro e essa, com toda a certeza, não falhará.

16 de agosto de 2012

Ilha de chegadas e de partidas


Sempre fomos habituados a este frenesim próprio de um lugar pequeno. Uns chegam, para cumprirem uma função ou uma missão, enquanto outros partem para outros destinos para aí realizarem outra função ou nova missão.

Sempre fomos habituados a este fado de ver partir os amigos cuja amizade foi feita com base neste forma simpática com que recebemos quem nos visita. Por aqui, quem acolhe tudo faz para receber bem e quem é acolhido entrega-se surpreendido pela simpatia desinteressada dos locais.

Ontem, dia 15 de agosto, pude assistir a mais uma festa de homenagem ao Padre Dinis Silveira, a escassos dez dias da sua partida, neste caso na paróquia de Nossa Senhora da Luz. A população, reconhecida pela entrega do seu pároco, compareceu em força e agradeceu, à sua maneira, o seu esforço e a sua dedicação. Já antes o povo da Ribeirinha e de Guadalupe tinham feito também a suas homenagens.

Sobre a obra deste operário de Deus deixada nesta ilha já muito se disse. Sem dúvida que este homem deixa-nos, nesta sua passagem pela ilha Graciosa, uma marca que perpetuará por muitas gerações. Foram várias as suas intervenções, desde a requalificação de igrejas, capelas e altares, até à recuperação de imagens divinas, construção de salas de velórios e centros paroquias. Ele de facto esteve em todas as frentes.

Apesar deste seu interesse pelo lado mais material das suas paróquias, o Padre Dinis nunca descurou o lado espiritual do seu rebanho. Antes pelo contrário. Recuperou tradições religiosas, empenhou-se em catequizar os mais jovens, animou os mais idosos, confortou os doentes e apoiou os mais frágeis da nossa sociedade.

Porventura esta sua conduta não terá agradado a todos e até poderá ter causado alguma ciumeira nos meios locais. Mas foi uma obra notável, só possível porque o Padre Dinis Silveira se entregou de corpo e alma à sua missão, não se desviando um milímetro do essencial.

No dia 25 de agosto partirá um amigo, mas a amizade ficará para sempre no coração dos Graciosenses.

9 de agosto de 2012

Graciosa mais verde


Hoje, pelas 11 horas, irá proceder-se à assinatura do “Master Agreement” entre a EDA e a empresa Younicos.

Como é conhecido, a Younicos já trabalha no projeto de produção de energia limpa para a Graciosa desde há algum tempo. Na cidade de Berlim, onde a empresa tem a sua sede, foi realizada uma experiência em grande escala, onde foram feitos testes exaustivos e que provaram ser possível desenvolver a ideia de produzir e armazenar energia a partir de fontes alternativas.

 Representará um investimento total de 25 milhões de euros e pretende substituir o consumo de combustíveis fósseis para produção de energia por fontes amigas do ambiente, neste caso a eólica e a solar que, combinadas, serão suficientes para produzir 100% das nossas necessidades energéticas.

Sem dúvida nenhuma que a partir de agora nada será como antes. A aposta que o Governo dos Açores tem feito no ambiente tem dado resultados e este projeto, que foi distinguido com o Prémio Solar Europeu, irá permitir a esta ilha tornar-se numa ilha verde a muito curto prazo.

Este importante passo é, decididamente, o culminar de um processo inovador, que exigiu muita investigação e que, por isso, trará à Graciosa alguma notoriedade. Por outro lado permitirá, também, deixar um legado importante para o futuro.

Seguramente que este projeto será alargado a outras ilhas, tornando os Açores, cada vez mais, como um dos melhores locais do mundo para se viver.

2 de agosto de 2012

Turismo sustentado


O equilíbrio que se pretende manter nos Açores entre a natureza e o desenvolvimento do turismo tem vários caminhos, especialmente nas ilhas de menor dimensão.

O Turismo em Espaço Rural pode ser um contributo importante para diminuir a sazonalidade. É uma experiência que permite conhecer o dia-a-dia da vida no meio rural e ir ao encontro das origens culturais destas ilhas.

O Mergulho é, também, uma oferta que está a crescer em todas as ilhas. Segundo a obra “Debaixo de Água: 24 lugares de mergulho que todos os mergulhadores devem conhecer”, publicado na Alemanha, curiosamente o maior mercado mundial, os Açores estão entre os 24 melhores destinos de mergulho do mundo. Várias revistas da especialidade relevam as potencialidades das paisagens submarinas do nosso mar, onde se incluem baixas, cavernas, arcadas, ilhéus e naufrágios, que albergam uma variedade enorme de peixes, algas e corais, difíceis de ver noutros locais.

A Observação de Aves, embora de uma forma subtil, está também em franco crescimento nos Açores, nomeadamente no Corvo e na Graciosa. São procuradas aves migratórias dos continentes Americano e Euroasiático e outras espécies raras, como é o caso do Painho de Monteiro, tão bem retratado no recém-lançado documentário de Pedro Carvalho “Em busca do Painho de Monteiro”, que será transmitido em televisões nacionais e estrangeiras. Neste momento estão identificadas cerca de 400 espécies observadas na região.

A Observação de Cetáceos tem vindo a evoluir de forma sustentada e ainda tem espaço para crescer mais no futuro.

Os trilhos pedestres disseminados por todas as ilhas, alguns deles sendo reaproveitamentos de antigos caminhos para pessoas e animais, complementam a oferta turística e aproximam o turista da natureza deslumbrante dos recantos das ilhas, abrangidos por esta rede.

Aproveitar as potencialidades destas formas de turismo no futuro próximo é o repto que as ilhas da coesão têm pela frente. A conquista de nichos de mercado com práticas amigas do ambiente é a melhor forma para crescer de forma sustentada, provocando um impacte reduzido na natureza. E é esse o caminho que devemos seguir.

26 de julho de 2012

O abandono


Berta Cabral finalmente anunciou que vai renunciar ao mandato como presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada no final deste mês de julho. Foi um gesto que se adivinhava difícil, mas lá chegou há sua hora. Esta notícia, já esperada, vem repor alguma normalidade naquela edilidade, pois as ausências da sua presidente eram demasiado evidentes e cada vez mais demoradas, para se dedicar quase em exclusividade à sua candidatura a presidente do Governo Regional.

Mas, de facto, este abandono da maior autarquia dos Açores já não é de agora. Em boa verdade tem sido o vice-presidente a liderar informalmente a autarquia, com todos os inconvenientes que essa indefinição acarreta, por isso é correto inferir-se que Berta Cabral afinal já há muito tempo tinha abandonado a Câmara Municipal de Ponta Delgada e os pontadelgadenses.

Esta estratégia de se manter a todo o custo e até quase ao limite poderá, de certo modo, ter sustentado a constante aparição na comunicação social da sua presidente e candidata, que, como se sabe, gosta de juntar esta faceta mais vistosa da política a outras mais inusitadas: a da promessa fácil e da satisfação de descontentamentos.

No fundo este comportamento de se agarrar à cadeira do poder foi notoriamente prejudicial ao seu concelho, pelas razões óbvias que estão à vista de todos e ainda por ter feito da Câmara Municipal do seu concelho um posto de comando avançado de oposição ao Governo Regional. Este voltar de costas constituiu um prejuízo evidente para a população.   

Não há qualquer dúvida que a Câmara Municipal de Ponta Delgada foi usada por Berta Cabral, de forma abusiva, para satisfazer a ambição pessoal e política de chegar ao Governo Regional.

19 de julho de 2012

Regionais 2012


Fui convidado pelo Dr. Vasco Cordeiro e pelo PS/Açores para encabeçar, pela primeira vez, a lista pelo círculo eleitoral da Ilha Graciosa às próximas eleições regionais, que se realizarão, previsivelmente, no próximo mês de outubro.

Aceitei esse desafio e fi-lo com a convicção de que, apesar do muito que foi feito por todas ilhas dos Açores, é preciso terminar estra obra imensa de mudar os Açores e a Graciosa para melhor.

Fi-lo também porque apesar de estar orgulhoso do trabalho feito desde 2004, altura em que pela primeira vez fui eleito para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, tenho a humildade de reconhecer que é preciso fazer mais e melhor.

Por último, e com toda a certeza a principal das razões, aceitei este desafio porque acredito no Vasco Cordeiro e na sua capacidade para liderar um processo de renovação de um modo tranquilo e com confiança. As suas ambições para os Açores são imensas, a sua vontade de manter o estado social é inflexível e a sua coragem para enfrentar as dificuldades é conhecida.

Nestas eleições Vasco Cordeiro perfila-se como um candidato diferente de outros, nomeadamente do maior partido da oposição. É jovem, mas tem experiência e capacidade políticas que nos dão garantias para governar a região. É um acérrimo defensor da autonomia da nossa região e já afirmou que, seja lá que partido for a dirigir o país, cerrará fileiras para defender os interesses dos Açores e das suas populações. Esta sua forma inquebrantável de defender este enorme património opõe-se claramente àqueles que não se importam de se ajoelharem perante as sombras centralistas.

É por isso que não tenho dúvidas que estas eleições serão as mais importantes das realizadas até aqui.

18 de julho de 2012

Competente, dedicado e generoso


Juvenal Correia Teles

(14/02/1923 - 18/01/1996)

Quando saí do consultório do meu tio Gregório, situado no Largo de Santo António, onde agora é a agência da Caixa Geral de Depósitos, transportava na mão uma receita para o problema de pele que tinha aparecido poucos dias atrás e na cabeça trazia a esperança de poder debelar aquele ardor que me afligia, com a aplicação do medicamento prescrito.

Quando cheguei à farmácia Santos Costa e entreguei a receita ao senhor Juvenal da Farmácia, como era mais conhecido, é que percebi que não se tratava de uma receita tradicional, com o nome de um medicamento que seria retirado de uma qualquer prateleira. Antes pelo contrário. Era uma descrição de elementos químicos que combinados na dose certa haveriam de ajudar a combater o problema.

A parte da frente da farmácia tinha uma mesa que servia de balcão e que era a base de uma velha registadora. As paredes estavam preenchidas com armários brancos repletos de medicamentos, meticulosamente ordenados. Na dependência interior existia uma mesa grande no meio, com tampo de mármore onde se podiam ver várias balanças, uma delas de precisão, um gral e outros utensílios farmacêuticos e as paredes ao redor forradas de frascos e potes, escuros como convinha, para manter a pureza dos ingredientes farmacêuticos, todos identificados com uma etiqueta branca, debruada a vermelho. Num dos lados estavam os adesivos, o algodão, a gaze, a tintura de iodo e o mercurocromo, preparados para tratar das feridas de quem procurava aquela farmácia. Sobressaiam também as caixas metalizadas com seringas e agulhas para a aplicação de injeções. No chão existia um estrado de madeira e junto às prateleiras podiam-se ver uns bancos pretos. A limpeza, o cheiro intenso a químicos e a medicamentos, a cor branca do mobiliário e dos tampos das mesas, dava a ideia de estarmos num lugar perfeitamente esterilizado, característica que é, aliás, comum a outros estabelecimentos do género e a hospitais.

O senhor Juvenal dirigiu-se à dependência interior e com o seu olhar experiente chegou, rapidamente, aos componentes descritos na receita e num ápice preparou o medicamento proposto pelo meu tio que me haveria de trazer alivio para a minha maleita.

Naquele tempo era assim. Uma parte do receituário de meu tio Gregório, único médico na ilha durante muitos anos, era composta na própria farmácia. Com a cumplicidade do Dr. Gregório o senhor Juvenal chegava mesmo a recomendar tratamentos, mas quando via que não estava à altura para resolver a situação, era o primeiro a reencaminhar o doente para o médico. Entre os dois havia uma relação de confiança que dava segurança aos doentes. De um lado estava um homem licenciado em medicina e que tinha, segundo dizem, um grande acerto nos diagnósticos e de outro estava um ajudante de farmácia, que aprendeu à sua custa tudo o que sabia, mas, no fundo, dotado de muitos conhecimentos que a longa experiência de mais de 40 anos de atividade lhe tinha dado. A enorme competência profissional demonstrada ao longo de toda a sua vida foi adquirida graças à sua dedicação e ao trabalho árduo.

O senhor Juvenal começou a trabalhar naquele estabelecimento quando tinha apenas 15 anos de idade, logo a seguir ao seu exame da 4ª classe. Interrompeu esta atividade aos 19 anos para cumprir o serviço militar no Batalhão Independente de Infantaria nº 17, onde recebeu um Louvor.

No seu percurso foi ganhando competências e estatuto. Passou a fazer domicílios para aplicação de injeções e tratar de feridas dos doentes acamados, fazendo-se deslocar primeiro de bicicleta, depois de mota e depois de carro. Mais tarde destacou-se na manipulação dos químicos que compunham muitos dos medicamentos que dali saíam. Fez também a contabilidade do estabelecimento.

Nesta sua profissão era chamado à farmácia com muita frequência. Muitas das vezes essas chamadas eram feitas pela noite dentro ou em períodos de invernia, para fornecer os medicamentos a quem deles precisava, o que implicava algum sacrifício pessoal. Nesta profissão muitas vezes o conforto de casa ou a participação em eventos sociais tinham de ser interrompidos para acudir a quem necessitava, tal como ainda hoje acontece.

Em 1982 ingressa na Câmara Municipal onde trabalhou até à sua morte, exercendo funções de carácter administrativo.

Para além destas atividades, o senhor Juvenal era um grande produtor de vinho de cheiro. Desde muito cedo que gostava de produzir o seu próprio vinho que era feito e armazenado numa adega anexa a sua casa. O que sobejava do utilizado para consumo próprio era vendido, nomeadamente exportado para a Terceira e S. Miguel, através do senhor Bernardino. Para este mesmo comerciante comprava pipas e pipas de vinho por toda a ilha, ajudando assim os pequenos vitivinicultores a escoar a produção excedentária. Na semana anterior passava pelas casas das pessoas avisando-as do dia do navio. No dia combinado passava novamente, mas desta vez de camioneta, e carregava as pipas que os produtores tinham deixado à porta das suas adegas. Por mês chegava a exportar 15 pipas de vinho, o que equivalia a 7.200 litros.

Antes de 1974 foi vereador da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa. Foi também diretor da Adega Cooperativa da Ilha Graciosa, num período que aquela instituição tinha um peso importante na economia da ilha.

Desempenhou o cargo de delegado nesta ilha do Instituto de Apoio Comercial à Agricultura, Pecuária e Silvicultura, no exercício do qual, segundo referia o seu Presidente da Direção aquando da sua morte, ”foi notório o interesse com que sempre abordou os problemas relacionados com a atividade deste Instituto”.

Na década de 70, altura em que se verificou um grande surto migratório, passou a ser procurador de muitos emigrantes residentes nos Estados Unidos da América e no Canadá. Nessa condição tratava dos imóveis e de outras burocracias de muitos dos que tiveram de procurar um melhor futuro noutras paragens. É sabido que esta função era desempenhada sem qualquer contrapartida, pelo que o senhor Juvenal terá ajudado muitas pessoas de modo gratuito, o que combinava muito bem com o seu feitio generoso, sempre pronto para ajudar quem dele necessitava.

12 de julho de 2012

Fazer o que se diz e ignorar o que se faz

Estava eu a passar os olhos pelos jornais logo pela manhã quando me deparei com uma notícia interessante: “Berta Cabral garante mais apoios sociais à custa de menos festas e viagens”.

Vindo de quem vem este propósito é, por demais, surpreendente. Todos conhecem, principalmente os micaelenses, a queda que Berta Cabral tem por festas e arraiais. Ainda recentemente, quando pressionada para suspender o seu trabalho, já a tempo parcial, como edil da maior autarquia dos Açores, a presidente da câmara e candidata a presidente do governo, apressou-se a disser que só sairia dessas funções depois das festas do Espírito Santo, as quais terão sofrido um reforço de verbas este ano. Pela amostra se percebe que estas festas são muito importantes para ela, se calhar pela visibilidade que lhe proporciona.

Se atentarmos aos inúmeros atos públicos, nesta muito fértil pré-campanha eleitoral, as festas tem servido de constante cenário para as suas aparições, mesmo quando promovidas por instituições cujos sócios não foram informados sobre a sua utilização abusiva como meio de propaganda, comprometendo as pessoas que exercem honestamente cargos nos órgãos sociais e os propósitos de equidistância e independência perante o poder político que estas instituições devem ter.

No que respeita a viagens, bem aí o que vemos é uma roda vida. Desde a Coreia do Sul, em representação da Associação Nacional dos Municípios Portugueses, ou os Estados Unidos da América, em representação da Câmara de Ponta Delgada, até ao Brasil, para assinar um contrato com um arquiteto para uma obra que não se sabe se verá a luz do dia, passando pelas inúmeras viagens entre ilhas, a atuação desta líder partidária tem-se pautado exatamente por um vai vem constante, nalguns casos de duvidosa utilidade.   

Por isso é difícil entender este título de notícia e estas oportunistas intenções, porquanto esta líder partidária faz exatamente o contrário daquilo que apregoa.

5 de julho de 2012

O turismo e as potencialidades naturais

Vasco Cordeiro, na qualidade de candidato a Presidente do Governo, assume que o mar, a biodiversidade e a localização estratégica destas ilhas, são fundamentais para o futuro dos Açores.

Nos Açores, e especialmente nas chamadas ilhas da coesão, os governos da responsabilidade do Partido Socialista impuseram uma marca indelével moldada por uma estratégia de modernização e desenvolvimento que já está a produzir frutos.

A infraestruturação das ilhas foi um trabalho imenso perpetrado com base num plano de desenvolvimento harmonioso de todo o arquipélago. Por aqui e por ali fizeram-se apostas nas aptidões endógenas, como a agricultura e a pesca, capacitando cada uma das ilhas de modo a poderem obter mais-valias, dinamizando, por esta via, as pequenas economias insulares.

A aposta na requalificação da indústria de laticínios, o melhoramento animal, a diversificação agrícola, a construção de portos de pesca e a renovação da frota, são exemplos disso mesmo. Estas medidas, em conjunto com a redução de custos e ajudas nos transportes, tem facilitado as exportações destas ilhas mais pequenas.

Recentemente o governo regional enveredou pelo terceiro pilar, o turismo. Mais uma vez o governo chegou-se à frente nas ilhas com menores capacidades financeiras e substituiu a iniciativa privada na construção de estruturas hoteleiras. Apostou-se, também, em pequenas unidades de turismo rural, como forma de captar nichos de mercado ligados à natureza. Os resultados não tardaram em aparecer com o crescimento sustentado das dormidas nos estabelecimentos de hotelaria tradicionais.

Esta aposta neste setor emergente tem sido devidamente acompanhada com medidas importantes na área do ambiente. O reconhecimento das ilhas do Corvo, Graciosa e Flores como Reservas da Biosfera pela UNESCO, os projetos na área de produção de energia limpa, como o caso do projeto Younicos na Graciosa, dão uma necessária notoriedade a este destino.

A par disso o Governo investiu na gestão dos resíduos urbanos, exportando todos os que não são passíveis de valorização. Criou também os parques naturais e o parque marinho que incluem áreas protegidas, que se revelam fundamentais na preservação de algumas espécies e contribuem para a reposição de stocks piscícolas.

Foi por tudo isso que em 2007 os Açores chegaram ao topo, quando foram consideradas as segundas melhores ilhas do mundo para o turismo sustentável pela prestigiada revista internacional National Geographic, logo a seguir às ilhas Faroe, na Dinamarca.

Esta paisagem verde retalhada e delimitada pelo azul deste imenso mar, as tradicionais casas construídas com a pedra negra dos nossos vulcões, constituem uma paisagem deslumbrante. A simplicidade e a simpatia dos Açorianos completam este cenário único.

Usufruir de todas as potencialidades minimizando os impactes negativos é o desafio que temos pela nossa frente.

4 de julho de 2012

Animador invulgar e lutador

Valter da Cunha Melo

(12/02/1934 – 22/03/2011)

Quando o navio Ponta Delgada se aproximava do porto de Santa Cruz ou da Praia, surgia ao fundo uma lancha com o Cabo do Mar a bordo que, com uma bandeira, sinalizava o local apropriado para o comandante da embarcação mandar arrear a âncora. Esta manobra era fundamental pois permitia aos conhecedores das baías escolher um bom fundo e dá-lo a perceber ao comandante e assim evitar a perda de tão importante equipamento. A partir do fundeadouro o serviço de desembarque e embarque fazia-se num lento vaivém desta frágil embarcação de madeira.

De seguida a lancha voltava ao cais e trocava o Cabo do Mar pelo senhor Valter Melo e dirigia-se novamente ao navio, encostando-se à escada do portaló feita de madeira e cabos, dependurada no través do navio. Com a ajuda de um dos marinheiros, que se colocava estrategicamente no patamar ao fundo da escada, o senhor Valter era a primeira pessoa a entrar no Ponta Delgada, sempre acompanhado por uma pasta com a listagem dos passageiros a embarcar e outra papelada necessária ao despacho. Naquela altura já havia grande azáfama, com os passageiros a prepararem-se para o desembarque. O senhor Valter, passava pelo portaló em passo apressado e perdia-se no convés por entre os passageiros em direção ao conferente de bordo para tratar da burocracia. Depois, a partir do navio, acompanhava toda a operação de desembarque e embarque dos passageiros e só regressava a terra na última lancha, cerca de 2 horas depois da chegada.

Primeiro o senhor Valter foi despachante oficial das Alfândegas. Depois da desativação daquele serviço nesta ilha, nos anos 70, ingressa na Empresa Insulana de Navegação. Mais tarde torna-se correspondente do Banco Português do Atlântico e inicia o percurso de mediador de seguros, tendo sido agente da Tranquilidade, função que exerceu até à sua reforma.

O senhor Valter Melo era daquele tipo de pessoas que não deixava ninguém indiferente. Muito alegre e sempre bem-disposto o senhor Valter destacava-se naturalmente em qualquer grupo, por ser o centro de todas as atenções. Tinha uma enorme facilidade para contar uma história e fazia humor a partir de uma qualquer banalidade. Conseguia arrancar gargalhadas dos amigos com muita facilidade, mesmo com histórias que a partir da boca de outros não teriam piada nenhuma. Estava sempre pronto para participar em convívios com os amigos que, normalmente, acabavam com ele a cantar músicas do reportório popular, sempre acompanhado pelo seu cunhado Serra, de quem era, também, inseparável amigo.

Este seu registo de pessoa divertida e bem-disposta contrastava, e muito, com a sua postura no campo profissional, que encarava com muita seriedade e reconhecida competência, em todas as funções que desempenhou ao longo da sua vida. Como é recomendável conseguia sempre manter uma fronteira bem definida entre o trabalho e o divertimento, nunca misturando as duas coisas.

Há alguns anos atrás foi-lhe diagnosticada uma doença grave que o obrigou a diversas e prolongadas deslocações para o respetivo tratamento. A grande maioria das pessoas, perante uma notícia destas, claudicaria, com toda a certeza. A gravidade desta situação complicada nunca lhe tirou a alegria de viver, nem amenizou o seu espírito brincalhão. Lutou diariamente contra esta doença e no final saiu vencedor. Sem dúvida que a experiência de vida deste homem e a sua reação à adversidade é um exemplo para todos nós, sobretudo para aqueles que se deixam abater perante a primeira contrariedade.

O senhor Valter Melo tinha uma grande paixão pelo “seu” Graciosa Futebol Clube. Naquele clube fez de tudo. Foi jogador durante anos e anos. Lembro-me de o ver jogar, no Campo Grande ou no Campo da Avenida. Na altura eu não tinha qualquer capacidade para avaliar um jogador, mas dizem-me que foi grande nesta modalidade. Foi também dirigente, incluindo presidente da direção. Aliás, deve ter desempenhado todos, ou quase todos, os cargos existentes nos corpos sociais do clube.

Quando o clube estava instalado na casa da senhora Carolina Maria, na Rua Dr. João de Deus Vieira, as festas de aniversário daquela instituição ocorriam, muitas vezes, na sua casa de campo, a Vivenda Verde, situada no Jardim. Eram momentos mágicos que pude assistir uma ou outra vez, levado pela mão do meu irmão, e que agora gosto de recordar com uma certa nostalgia.

Nos anos 80 foi preponderante na decisão de se construir uma sede social de raiz, em parceria com outros adeptos daquela instituição. Ele fez parte de um grupo de pessoas que meteu mãos à obra, literalmente, e ajudou a construir aquele edifício que agora muito orgulha os seus sócios.

Depois de deixar de jogar, ainda fez uma perninha num clube criado quase por brincadeira, o Falta de Ar, constituído por atletas já há muito retirados ou jogadores improváveis, que participava em atividades locais, tendo, inclusivamente, vencido uma prova nas Festas de Santo Cristo, perante os incrédulos jovens que faziam parte das equipas regulares, onde eu próprio me incluía.

Vi-o também jogar voleibol, no campo de S. Francisco nas tardes de verão, onde se assumia com líder e com quem todos gostavam de jogar. Eram jogatanas animadíssimas em que a piada fácil, especialidade do senhor Valter, alternava com as picardias próprias de jogos muito disputados. As pessoas, depois dos seus trabalhos, juntavam-se ali, equipados tal como estavam vestidos, marcavam o campo com cal e montavam a rede que normalmente ficava guardada no saguão do tribunal, tal como a única bola existente. Dividiam-se as pessoas em dois grupos e escolhia-se alguém da assistência para dirigir o jogo em cima de um banco cinzento retirado das sentinas, localizadas mesmo ali ao lado. Não interessava se o eleito percebia ou não da matéria, o que era imprescindível é que fosse capaz de manter a ordem. Juntava-se ali uma animada assistência que acompanhava o jogo que só terminava ao cair da noite.

Era um grande animador dos bailes do seu clube de sempre. Conseguia transformar facilmente uma noite sem brilho num baile memorável. Com a sua maneira de ser e a sua alegria, arrastava os presentes para as coreografias inventadas por ele na hora, ao ritmo das marchas tocadas pelo conjunto do Graciosa Futebol Clube, onde se destacava a voz e a trompete do saudoso Gasparinho, o saxofone do Acácio e a viola ritmo ou o órgão elétrico tocados pelo Valdemiro.

Nos serões que passava no Graciosa gostava de jogar à sueca ou ao dominó com o seu grupo de amigos. Foi também ator de teatro no grupo da Filarmónica Recreio dos Artistas, representando papéis que combinavam com a sua personalidade, ou seja, divertidos.

O senhor Valter Melo foi um animador invulgar e também um lutador que soube combater a adversidade com a única arma que tinha: a alegria de viver. Sem dúvida que o seu percurso de vida marcou várias gerações, uma das quais a minha.