1 de fevereiro de 2013

Defender os Açores


Como se esperava, o Presidente do PS / Açores, Vasco Cordeiro, fez duas excelentes intervenções neste que foi o XV Congresso do partido, não tanto pela forma, que nesta altura pouco interessará, mas, sobretudo, pelo tom assertivo com que identificou as ameaças que aí vêm, pela esperança que incutiu nas palavras que dirigiu ao povo dos Açores nestes momentos de dificuldades e pela certeza que este conclave não servia para resolver questões internas ou disputas pelo poder, mas antes para procurar soluções para os problemas que estes novos tempos nos vão trazer.

Foram discursos para fora do partido, lembrando, aqui e ali, que os consensos alargados com os parceiros, sociais e políticos, só nos tornarão mais coesos.

Não haja dúvida nenhuma que os centralistas de Lisboa se preparam para assaltar o nosso mar de uma forma que, no dizer de Vasco Cordeiro, se assemelha à pirataria de outros tempos.

Agora, quando são conhecidas as potencialidades dos minérios existentes nos fundos açorianos, o Governo da República põe as garras de fora e tenta, a todo o custo, tirar proveitos à conta de atropelos à nossa autonomia política e administrativa.

Passos Coelho também se propõe alterar a Lei das Finanças das Regiões Autónomas. No meio de algumas propostas que vão no sentido de maior rigor e transparência que, para o nosso caso, são inócuas, o Governo Central quer baixar o diferencial fiscal de 30 para 20%, significando essa medida mais impostos para o açorianos, o que é verdadeiramente inaceitável para Vasco Cordeiro.

Vasco Cordeiro também se demarcou, e muito bem, do desmantelamento do estado social que o governo do PSD / PP está a preparar no continente.

Aqui, na Região Autónoma dos Açores, cabe-nos defender os que mais precisam, os mais desfavorecidos. É por isso que Vasco Cordeiro anunciou que irá manter todos os apoios sociais já existentes e aumentar o “cheque pequenino”, tal como o prometido na campanha eleitoral.

 Também foi anunciado o reforço de 30 milhões de euros na saúde, como forma de garantir a qualidade nesta importante área.

Temos de estar atentos e vigilantes para não sermos surpreendidos por manobras perpetradas nos corredores cinzentos do poder central.

A autonomia e os autonomistas têm agora a oportunidade de defender, em uníssono, as conquistas dos últimos 37 anos.

25 de janeiro de 2013

Médico do povo


 
Manuel Gregório Júnior

(12/04/1902 – 15/07/1986)

Cresci ao lado do meu primo e companheiro de brincadeiras, o Rui Manel, filho do Dr. Gregório. Nos períodos de férias passava, muitas vezes, as noites na sua casa para aproveitar e brincar até tarde e para recomeçar o divertimento bem cedo.

Foram belos tempos, aqueles. A imaginação e a criatividade produziam ideias para os jogos que nos entretinham dias a fio.

Correr de patins no enorme corredor, tocar piano no salão do fundo, jogar à bola no pátio ou lutar com espadas no quintal, eram os nossos passatempos favoritos.

Depois de vencidos pelo cansaço, a noite e o sono recuperador punha-nos aptos para, no dia seguinte, começar tudo de novo, com renovada energia.

O tio Gregório era um homem de hábitos. Noctívago desde que me lembro, nunca se deitava antes das quatro da manhã.

Passava as noites a passear na praça ou, quando o tempo não permitia, abrigado no bar situado por baixo do coreto ou então num qualquer clube jogando ou vendo jogar às cartas e ao dominó. Aquele costume de se deitar tarde fazia-o procurar os foliões ou os convivas de uma qualquer petiscada, para assim ganhar mais umas horas de companhia. Nos dias de maior invernia ou quando não encontrava ninguém a jeito, passeava no seu enorme corredor até à hora de se deitar.

Dava uma volta à ilha diariamente, com ele ao volante enquanto a sua saúde permitiu, ou então conduzido por alguém amigo depois de deixar de conduzir. Confessava que nesse passeio via sempre algo que lhe escapara nas vezes anteriores. Eram conhecidas as suas paragens, na companhia do Comandante Silveira, para ouvir o chilrear de um determinado pássaro que, segundo eles, os presenteava com uma exibição sempre à mesma hora. Já na fase final da sua vida cheguei a ter o privilégio de passear com ele e de ouvir as suas histórias e vivências contadas na primeira pessoa, com a sua inconfundível voz afável. 

Os graciosenses habituaram-se a vê-lo com um sobretudo ou uma gabardina por cima do seu fato com colete, polainas nos sapatos, chapéu na cabeça e sempre com uma varinha numa das mãos. No bolso interior do casaco transportava uma cigarreira de prata, onde colocava cuidadosamente os cigarros para o dia, e ainda uma boquilha para reduzir os efeitos nefastos do tabaco. Quando chegava a casa, colocava a varinha no bengaleiro e trocava o sobretudo ou gabardina por um robe cor de vinho.

O Dr. Gregório foi médico nesta ilha mais de quarenta anos, a grande maioria deles sozinho. Foi Delegado de Saúde, Médico Municipal e tinha consultório no rés-do-chão da sua casa. Era das consultas que deveria tirar a maior parte dos seus proveitos, mas isso nunca aconteceu porque não levava dinheiro. Aos pobres, quando lhe perguntavam quanto era a consulta, respondia “porque é que perguntas, se sabes que não me podes pagar?” Por outro lado ficava indignado quando os que podiam pagar não lhe perguntavam nada.   

Muitas noites o tio Gregório era procurado para acudir a quem sofria. Era frequente vê-lo sair noite dentro, muitas vezes já com a iluminação pública desligada, para tratar doentes. Entrava em casas de pobres e ricos, recebido quase como um salvador. As pessoas tinham fé nos seus conhecimentos para debelar as doenças que os afligiam

Dizem que era quase infalível nos seus diagnósticos, sempre feitos sem apoios de meios técnicos, porque não os havia. O seu estetoscópio, o toque com dois dedos e sua rara intuição, indicavam-lhe a origem do mal e o caminho a seguir para a cura, com uma prescrição que poderia ser um medicamento feito pelo senhor Juvenal “da Farmácia”, ou mesmo o chá mais indicado para aquela maleita. 

Um dia, devido à gravidade da situação e também pelo mau tempo que impedia a “gasolina” da baleia de evacuar um doente, resolveu fazer uma operação para a ablação do apêndice, como último recurso para salvar uma vida. A cirurgia correu bem, mas o tio Gregório apanhou um susto. Nesse dia tinha dado conta do desaparecimento da sua aliança que, chegou a temer, poderia, muito bem, estar no abdómen do seu doente. Felizmente que a dúvida foi desfeita quando verificou que a tinha guardado cuidadosamente antes da operação.

O escritor Augusto Gomes, aquando da sua morte, disse sobre ele: “Atendendo doentes de toda a ilha, os seus diagnósticos tornar-se-iam célebres pela infalibilidade. Salvou centenas de vidas. Seria fastidioso enumerar os casos quase lendários acerca do Dr. Gregório. Aliava à inegável competência profissional um espírito filantrópico e um desprendimento pelo fausto, pela opulência, não cobrando honorários. O povo adorava-o. Por quatro vezes teve o ensejo de o manifestar. Primeiro quando se deslocou a Ponta Delgada em tratamento, teve o seu regresso marcado por uma manifestação jubilosa, na qual se incorporaram milhares de pessoas. A segunda deu-se quando completou 70 anos. A terceira, aquando da inauguração do seu busto (…). E finalmente, a quarta e derradeira, ao derramar lágrimas de sincero pesar junto ao túmulo do seu filho dilecto, que tão relevantes serviços prestou à sua terra”.

Na mesma altura o senhor Raúl Correia da Silva escreveu: “Homem de carácter íntegro, de extrema bondade e de evidente modéstia, era detentor de uma inteligência invulgar, o que lhe permitiu concluir brilhantemente o curso de medicina, em Coimbra, no ano de 1929. De tal modo que, tendo-lhe sido dirigido convite para ocupar as funções de assistente da respectiva faculdade, a sua reconhecida modéstia entendeu por bem decliná-lo. Mas para além de Homem de bem, foi também médico de competência rara que, durante 40 anos, deu o melhor do seu talento e espalhou ininterruptamente a semente da caridade junto dos seus conterrâneos, já que não cobrava praticamente nada pelo exercício do seu múnus profissional, limitando-se aos parcos vencimentos que auferia pelo exercício dos cargos de delegado de saúde e de médico municipal”.

Estes dois testemunhos dizem muito sobre a personalidade deste homem e a sua ligação à Graciosa e aos graciosenses. Ficou mesmo conhecido como “médico do povo”, cognome que aceitava com uma indisfarçável humildade.

Esse mesmo povo, a quem ele deu muito, juntou-se e ergueu-lhe um busto de bronze, ainda em sua vida, cuja inauguração constituiu uma emocionante homenagem acompanhada por centenas de pessoas que deste modo quiseram agradecer tudo o que este homem fez pelos filhos da sua terra.

O teatro era uma das suas paixões. Encenou e representou várias peças de teatro levadas à cena na Graciosa e noutras ilhas dos Açores.

Foi agraciado pelo Presidente da República com a Ordem de Mérito, antes da revolução de 1974 e em 1979, com o Grau da Ordem de Benemerência. A Região Autónoma dos Açores, a título póstumo, atribuiu-lhe a Insígnia Honorifica, pelos relevantes serviços prestados à sua comunidade.

24 de janeiro de 2013

O Congresso


Na reunião magna dos socialistas açorianos, que decorrerá no próximo fim-de-semana, o Dr. Vasco Cordeiro, Presidente do PS, apresentará uma Moção de Orientação de Política Global intitulada “Renovação com Confiança por uma Autonomia com Futuro”.

O título deste documento diz muito sobre o seu conteúdo. Enfatiza-se a renovação de protagonistas, apela-se a uma nova geração de políticas para garantir a sustentabilidade da Autonomia dos Açores.

O Partido Socialista, como grande partido da Autonomia, honra-se do seu passado e da obra feita por todas essas ilhas.

No entanto este partido não se deslumbrou com o seu histórico nem se aquietou no conforto dos bons resultados das suas políticas.

Foi capaz de se renovar de uma forma exemplar, sobressaindo a união de todos em volta de um projeto político que só tem um dono: o povo açoriano.

Agora o Partido Socialista prepara-se para ganhar os desafios que tem pela frente nos próximos tempos, que não serão poucos, como se sabe.

O Governo da República tenta, a todo o custo, criar dificuldades em nome da sua linha de atuação austera, como não há memória.

O poder local, a lei das finanças regionais, a desresponsabilização nas funções do estado ou a tentativa de apropriação de ativos da Região, são alguns dos constrangimentos que já se advinham.

O PS é o partido melhor colocado para defender os Açores dos ataques centralistas neste momento difícil e foi por isso, sem qualquer dúvida, que os açorianos lhes deram um mandato inequívoco para governar a Região.

17 de janeiro de 2013

ALRAA - 16/01/2013


Mais uma semana negra


Esta semana Passos Coelho veio aos Açores fazer um discurso hermético e descolorido. Aliás, a especialidade do primeiro-ministro é pintar de cinzento tudo o que diz. Enfatizou as dificuldades do país com convicção e acenou, a medo, com melhoras lá para a frente, que ninguém, no seu prefeito juízo, consegue vislumbrar.

Esta sua intervenção no congresso do PSD mereceu tímidos aplausos dos militantes do seu partido, talvez desanimados e desiludidos com a ineficácia do seu líder na resolução desta crise, que ele garante não ser da sua responsabilidade, mas que todos os portugueses sabem que foi ele que a precipitou logo a partir da sua tomada de posse.

Ficou também confirmado, através dos dados divulgados pelo Banco de Portugal na última terça-feira, que a recessão em 2013 vai ser mais grave do que se previa, com menos consumo e mais 88 mil postos de trabalho destruídos.

O desacerto deste governo, de matriz ultra liberal, é uma constante e, mais do que isso, é uma triste realidade que está a levar os portugueses ao desespero. Falham previsões atrás de previsões e continuam em frente. Faz lembrar a banda do Titanic que continuou a tocar enquanto o navio se afundava.

O relatório do FMI, encomendado pelo governo, contém uma série de propostas indiscritíveis que, a serem assumidas, irão esmagar, ainda mais, o rendimento dos portugueses. A OCDE também está por cá para colaborar na reforma do estado que, segundo se percebe, vai avançar a direito, sem esperar pela opinião de quem quer que fosse, tal como aconteceu com a reorganização das freguesias agora promulgada pelo Presidente da República.

A clima social por esse país fora é de tal gravidade que gente lúcida e com responsabilidade moral inatacável, como é o caso do Dr. Freitas do Amaral, já prevê a possível queda do governo de Passos Coelho.

Esta foi mais uma semana a correr mal.

11 de janeiro de 2013

Mestre da viola



A oficina do mestre José Juventino - com era mais conhecido o senhor José Gil de Ávila, por ter sido esse o nome de seu pai – ficava ao fundo da rua do Saco. Antes esteve situada na atual rua 25 de Abril e depois na rua Infante D. Henrique.

Adivinhava-se a sua localização pelo amontoado de tábuas encostadas às paredes, secando ao sol, para depois servirem de matéria-prima aos artistas daquela carpintaria e marcenaria, ele e os seus três filhos, que as transformariam em mobílias, armários, portas, janelas, mesas, cadeiras, soalhos, vasilhame ou cabos para utensílios agrícolas.

No seu interior, presas nas paredes ou espalhadas por cima dos bancos de trabalho, existiam várias ferramentas: serras, sutas, esquadros, maços, serrotes de ponta, serrotes de costas, berbequins manuais, plainas, martelos, etc.

Por cima do chão, que antes era nu e frio, acumulavam-se os cavacos de madeira nascidos na ranhura das plainas que, num vai vem frenético, iam dando forma e sentido à madeira. Durante a jornada, para não se perder muito tempo, empurravam-se as aparas e os cavacos para os cantos da tenda, mas no final de cada dia eram queimados mesmo ali do lado de fora da porta.

No teto viam-se alguns moldes e várias violas da terra carinhosamente construídas pelo mestre José Juventino. No início moldava pacientemente a rebelde madeira com que construía as violas com vapor que saía de panelas com água a ferver. Mais tarde construiu as suas próprias formas que, no fundo, lhe facilitavam a vida nesta atividade.

Dali saía quase tudo o que fosse possível moldar. Faziam trabalhos mais toscos, como coberturas de casas, ou moldes para as obras da Junta Geral, mas era na marcenaria que aquela oficina se destacava mais. O mestre José Juventino e os seus filhos deixaram nesta ilha, sobretudo nas casas mais abastadas, mobílias que ainda hoje são muito apreciadas.

Certo dia encomendaram-lhe um candeeiro tendo como corpo um fuso igual ao dos lagares. Depois de fazer as suas contas lá acabou por desenhar um esboço que o ajudaria a concretizar mais uma obra de arte. Apesar de ter pouca instrução, como era normal no tempo em que se criou, tinha conhecimentos empíricos de matemática capazes de o ajudarem a resolver alguns problemas ligados à sua profissão.

Era naquela oficina que vi fazerem piões que depois comprava para jogar com os meus amigos na escola ou na praça. Bocados de madeira amorfos iam-se enformando à custa da rotação do torno e da mão ágil do mestre José Juventino. Foi também nessa carpintaria que vi construir o meu primeiro carro de ladeira que utilizei em inúmeras brincadeiras durante vários anos da minha infância.

Dizem aqueles que o conheceram bem que gostava de fazer duas coisas na vida: trabalhar e tocar viola da terra. Só era visto de duas formas, ou curvado sobre a sua bancada ou então carregando a sua viola.

Andava de casa em casa, de clube em clube, ora tocando nas matanças do porco, ora animando os bailes com as modas de viola, onde mandava como ninguém. Nesta sua faceta era também muito bom.

Tinha conhecimentos musicais e isso dava-lhe mais traquejo e versatilidade para poder acompanhar o acordeão do José Berto, a voz do Joaquim dos Fados ou o piano da D. Nizalda Barcelos. 

Foi músico na centenária Filarmónica Recreio dos Artistas, onde também desempenhou cargos nos seus órgãos sociais. O trombone era o seu instrumento na banda que serviu durante longos anos.

Gostava muito de se juntar com os amigos em concorridas petiscadas que acabavam, quase sempre, em alegres cantorias acompanhadas pela sua inseparável viola.

O senhor José Juventino foi um artista nestas duas artes que foram, sem dúvida, a paixão de uma vida.

10 de janeiro de 2013

Ano fora discurso novo


Confesso que não ouvi a mensagem de Ano Novo do nosso Presidente da República. Não a ouvi por nenhuma razão em especial ou movido por qualquer preconceito, mas apenas por não me despertar qualquer tipo curiosidade, até porque do mais alto magistrado da nação já não espero grande coisa, sentimento que comungo com uma grande parte dos portugueses.

Com esta minha linguagem acabei por levar uma chapada com luva branca, não só por não ter avaliado bem a intervenção política do Presidente da República naquela que seria a sua primeira aparição no novo ano, mas também por ter ignorado a sua capacidade de avaliar os danos que esta política de Passos, Gaspar e companhia provocam aos portugueses e de dar um puxão de orelhas a quem nos levou para este atoleiro em que se encontra Portugal.

Eu - que assumo ser um simples mortal que muitas vezes se engana e que vive carregado de dúvidas, ao contrário do Chefe da Nação - tenho de confessar que, mais uma vez, falhei.

O Presidente da República reconheceu as dificuldades do ano velho, confirmou que o ano novo vai ser difícil e corroborou a certeza que todos temos de que o país empobreceu e que vai empobrecer ainda mais por via do aumento imenso e nunca visto da carga fiscal.

Mas não foi só. Falhei logo a seguir - e isto só pode dizer que são falhanços a mais - quando pensei que o Dr. Mota Amaral iria deixar passar este “deita abaixo” sem qualquer reparo.

Num artigo publicado nas páginas do jornal Açoriano Oriental, com o título “OE 2013 – a prova de fogo”, o Dr. Mota Amaral desfere um ataque a Passos Coelho e aos seus ministros reconhecendo que a situação do país tem vindo a piorar, ao contrário do que o Governo diz, criticando-o duramente por ter sido mais troikista que a troika e por não ter cumprido o que prometeu na campanha, nomeadamente na questão dos cortes nos subsídios de férias e de natal e nas pensões.

Reconheço a coragem destes dois políticos, que, muito certamente, estarão incomodados com estas e outras políticas que podem conduzir a uma, já eminente, rutura social.

No entanto não posso compreender porque não usaram os mecanismos que estão ao seu dispor: o veto em Belém, no caso do primeiro e o voto contra em São Bento, no caso do segundo.

Vamos ver em 2014…

3 de janeiro de 2013

100 anos é muito tempo


Há cem anos atrás, gente de visão larga e de espírito empreendedor, gente daquelas que faz coisas, resolveu fundar uma filarmónica para animar as festas profanas e dignificar e acompanhar as manifestações da fé do nosso povo.

A Filarmónica Recreio dos Artistas surgiu numa cisão com outra filarmónica, a Liberdade, processo que não terá sido muito pacífico, havendo mesmo algumas ameaças de pancadaria e metendo o tribunal pelo meio.

Lembro-me da imensa atividade desta instituição. Era uma casa animada, em que, para além dos ensaios da sua filarmónica, decorriam a preparação das fantasias, os bailes e onde ensaiava também um grupo de teatro. No verão a sua cerca anexa servia para apresentações de teatro, para bailes e ainda para assistir ao cinema.

Hoje esta casa está bem viva, com inúmeras atividades, destinadas a diversas idades, desde crianças até aos mais maduros. A Filarmónica, como habitualmente a denominamos, e os seus dirigentes, tem contrariado aquela ideia pré-concebida e pessimista de que já não há quem se interesse por estas coisas.

Temos de agradecer às mulheres e aos homens que hoje dirigem esta e outras instituições, que lhes dão vida, temos de lhes agradecer por teimarem em seguir em frente, a ultrapassar as dificuldades, sem nunca virarem a cara á luta.

Mas, no entanto, nunca poderemos esquecer aquelas e aqueles que depois de cada crise a souberam reerguer. Não poderemos esquecer todos os que a trouxeram até aqui, desde sócios, músicos e dirigentes, de modo a que as novas gerações possam agora usufruir dela.

No dia 1 de janeiro estiveram os sócios de parabéns e, mais do que os sócios, estão a Graciosa e os Graciosenses de parabéns, porque podem contar com uma Filarmónica Recreio dos Artistas centenária e pronta para o futuro.

28 de dezembro de 2012

Contador de histórias



Gabriel Correia Pacheco de Melo

(07/01/1923)

A biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian corria as freguesias carregada de livros, proporcionando aos Graciosenses o acesso à leitura. Para uma grande parte da população esta era a única hipótese de contatar com os livros.

A carrinha, de marca Citroen, tinha um aspeto esquisito. Era forrada com uma espécie de chapa frisada, uma frente proeminente, com formas bem marcadas, mesmo tipo caixote, e com o tejadilho de abrir. Podia parecer invulgar mas era funcional. O seu interior guardava cerca de dois mil livros, meticulosamente arrumados, ficando os infantis nas prateleiras de baixo, os livros de ficção, biografias e de viagens ficavam ao meio e nas prateleiras superiores eram colocados os livros menos requisitados.

Terão sido milhares os livros emprestados nesta ilha por este serviço criado pela Fundação Calouste Gulbenkian que, deste modo, se substituída ao estado numa das suas funções mais básicas. No país foram emprestados por esta instituição cerca de 95 milhões de livros, segundo uma notícia da Lusa/RTP.

A gestão da viatura e do armazém, que deveria ter o triplo da capacidade da biblioteca itinerante, era feita por um auxiliar e também por um encarregado, cuja função mais relevante era a de orientar as escolhas dos leitores. Não se exigia ao encarregado qualquer formação específica, apenas um boa cultura geral, o gosto pela leitura e uma boa capacidade para lidar com o público.

O senhor Gabriel Melo tinha todas essas competências. Durante os vinte e dois anos em que exerceu esta atividade recebia como ninguém os seus “clientes” e incutia-lhes o gosto pela leitura, não só lúdica mas também formativa e informativa.

Foi nesta sua função que tive o primeiro contato com o senhor Gabriel Melo. Ainda me lembro o modo afável com que recebia as crianças e jovens da minha idade e lhes emitia os cartões onde eram registados os empréstimos dos livros. Aliás este seu modo terno e sempre bem-disposto com que tratava as pessoas ainda o acompanha hoje em dia. Era também ele que distribuía gratuitamente os livros de estudo pelos estudantes com mais dificuldades.

O senhor Gabriel fez o liceu no Brasil e é nesse país que inicia o seu percurso laboral. Foi funcionário no Gabinete Português durante alguns meses e depois transita para o Consulado de Portugal em Salvador da Baía onde trabalhou durante dois anos.

Em 1946, quando resolve voltar à sua terra, esteve no Brasil à espera de transporte até Lisboa durante três longos meses. Chegado à capital portuguesa esperou ainda mais dois meses para apanhar navio para os Açores. Eram os resquícios da II Grande Guerra Mundial a ditar as regras numa altura em que faltava tudo. Casa quatro anos depois de cá chegar e desse casamento resultaram três filhos.

Já na sua terra natal desenvolve uma intensa atividade social, sendo um dos fundadores do Clube Central e Recreativo de Guadalupe, de onde nasceram, por sua vez, o Sporting Clube de Guadalupe e a Filarmónica União Progresso de Guadalupe, dos quais também fez parte dos seus corpos sociais.

O surgimento do clube teve uma pequena história. O senhor Gabriel e um amigo, depois de autorizados a utilizar a casa de sua mãe para bailar, preparavam-se para proceder às respetivas limpezas na manhã seguinte. Durante a noite o senhor Gabriel pensou que seria do agrado da população a freguesia poder dispor de um clube definitivo e identifica a atual sede como um dos melhores sítios para a instalar, mesmo estando sem soalho e um pouco degradada. Nessa manhã e antes de procederem às limpezas na casa de sua mãe, conforme estava combinado, seguem até casa do procurador e fecham o negócio por 40 contos. E foi com este impulso que o Clube Central e Recreativo de Guadalupe é fundado a 31 de julho de 1955.

O Sporting Clube de Guadalupe também surge pela vontade deste homem que achava que um clube desportivo na sua freguesia traria algum movimento, apesar de ter sido dissuadido por amigos que o assustaram com os problemas que uma estrutura deste género poderia trazer. Não se atemorizou e procura o terreno para construir um campo de futebol para o clube que ajuda a inaugurar em 22 de abril de 1962.

No ano seguinte, mais precisamente no dia 29 de setembro, juntamente com os Guadalupenses que achavam que a freguesia mais rica e mais populosa da ilha necessitava de uma filarmónica que lhe desse prestígio, ajudou a fundar a Filarmónica União Progresso de Guadalupe.   

Foi o primeiro ganadero da Graciosa e, por essa via, foi o percursor das touradas nesta ilha. Com apenas dois toiros promoveu o gosto pela festa brava, que hoje ainda persiste e se encontra enraizado como uma tradição do nosso povo. Também se dedicou á exportação de gado vivo para o continente português durante cerca de 20 anos, atividade que, como se sabe, dinamizava a economia da ilha.

Em 1980 é eleito Presidente da Junta de Freguesia de Guadalupe, cargo que exerce até 1983.

Tem um gosto especial por viagens. Para além de conhecer muito o nosso país, conhece também o Brasil, onde viveu alguns anos, a Espanha, a Itália, o Reino Unido, a França e os Estados Unidos.

Tem um jeito muito especial para contar histórias de todo o tipo, mas distingue-se nas histórias verídicas. Nestes tempos de correria, em que não se pára para pensar e em que as preocupações com questões materiais se sobrepõem às coisas simples da vida, é um prazer ouvir histórias verídicas da nossa e de outras gerações e o senhor Gabriel fá-lo como ninguém. Conta-as umas atrás das outras.

No dia 7 de janeiro de 2013 o senhor Gabriel comemorará o seu nonagésimo aniversário, mantendo uma invejável boa disposição e um espírito jovem, que sempre o tem acompanhado ao longo da sua vida.

27 de dezembro de 2012

O Pai Natal


Neste período do ano lembro sempre, com uma certa nostalgia, os tempos em que acreditava no Pai Natal. Naquele tempo os diversos comerciantes, com a criatividade que os caraterizavam, tinham um Pai Natal que distribuía pelas casas dos seus clientes a prendas previamente adquiridas nos seus estabelecimentos.

A espera fazia-se em “pulgas”, com o pijama já envergado e com o rosto colado à janela da frente. Era um momento mágico, aquele em que o homenzinho de barbas brancas satisfazia uma parte, muito pequena diga-se, dos desejos da criançada.

Passada a idade da inocência e em que deixamos de acreditar em tudo o que nos dizem, mantenho o hábito de, nesta época natalícia e de transição para um novo ano, pedir a concretização de alguns desejos, muitos deles repetentes.

Queria que acabasse a fome e a guerra no mundo. Queria que o dinheiro gasto em armamento fosse todinho para a cura de doenças que ceifam vidas. Pretendia que o ser humano fosse mais justo e mais fraterno. Desejava acabar com a malvadez e a hipocrisia, tão abundante nos tempos que correm. Acho que não é pedir muito…

Mas ao aproximar-me do ano 2013 e pelo que os portugueses sofreram neste ano que agora termina, tenho mais uns desejos.

Queria que o Passos Coelho deixasse os pensionistas em paz e acabasse com as ameaças veladas de mais cortes nas suas pensões. Queria que o Presidente Cavaco Silva tivesse um sobressalto, nem que fosse cívico. Gostaria que os enfermos continuassem a ser tratados das suas maleitas e a ter acesso aos remédios de que precisam. Desejava que aos idosos continuassem a ser dispensados acompanhamento e carinho na última etapa das suas vidas. Queria que o governo não vendesse a RTP, que não deixasse morrer as universidades e que devolvesse os submarinos aos alemães.

Daqui a um ano cá estarei, se tiver vida e saúde, para renovar a esperança e os desejos que não forem concretizados. Bom Ano.

20 de dezembro de 2012

Diferenças


Estando sob a intervenção internacional para financiar o país, ficamos, indiscutivelmente, numa condição de estado com a soberania hipotecada, já se sabia.

Sempre que se pensa em algo de mais construtivo, como foi o caso recente da pretensão de aumentar o salário mínimo nacional, logo o governo de Passos Coelho se apressou a dizer que tem de pedir autorização à troika, que, por sua vez, depois de analisar o problema dá o seu veredicto.

Mas o país vai assim. Assiste-se ao falhanço de todas as metas negociadas no memorando de assistência financeira, apesar da enorme e desproporcionada carga fiscal a que estamos todos sujeitos, mas, mesmo assim, o ministro das finanças vem dizer que não, que acertamos em quase todas e as que falhamos foi, mesmo assim, por muito pouco.

Mas para esta confusão toda contribuem os membros deste governo e todos os líderes europeus bem como as organizações internacionais que não se cansam de dizer isto e aquilo e depois o seu contrário.

Merkel veio dizer que vamos no bom caminho. Depois vem a diretora do FMI dizer que é preciso prudência. Mais tarde a OCDE diz que não vamos conseguir. O Presidente do BCE vem dizer que o pior já passou. Depois vem Paulo Portas afirmar que já passamos o meio da ponte. Mais tarde ouvimos Merkel dizer que, afinal, está descontente com a prestação dos países periféricos, como Portugal. Enquanto isto Passos Coelho tem a certeza que este é o caminho certo, mesmo assistindo ao desmantelamento de empresas e destruição de emprego a cada dia que passa.

Não haja dúvida que a chanceler da Alemanha concorda com a gigantesca carga fiscal que os países em dificuldades impõem aos seus cidadãos. Essa tem sido, de facto, a sua receita.

A senhora Merkel tem confirmado que esta é a via para a recuperação e não se cansa de propalar essa ideia em todas as aparições públicas que faz fora do seu país, mas quando fala para os seus concidadãos, para os seus eleitores, a sua opinião muda completamente. Lá, no seu país, Merkel descarta qualquer aumento da carga fiscal para a classe média, que considera o motor do desenvolvimento. O que se percebe é que na Alemanha a senhora Merkel quer uma classe média e média alta pujante para estimular o consumo e assim proporcionar o crescimento. Para os outros a receita é precisamente o contrário: o empobrecimento da classe média que, por sua vez, diminui o consumo, contribuindo, assim, para a destruição de mais empregos.

Estas diferenças de entendimento, estas interpretações dúbias não faziam parte do pensamento dos construtores da Europa, com toda a certeza.

14 de dezembro de 2012

Alegre e conversador


Manuel da Ajuda Pereira Lima

(08/11/1943 – 01/03/2007)

O isolamento das nossas ilhas sempre foi combatido com fortes tradições muito enraizadas no nosso povo. Na Graciosa a música sempre ocupou um lugar de destaque no panorama cultural.

Antigamente existiam alguns divertimentos, como os diversos jogos de cartas e dominó, mas pelos bailes os Graciosenses deixavam tudo. Novos e velhos, todos gostavam de bailar e de cantar. Era desta maneira salutar que o nosso povo se divertia e confraternizava.

Nos bailes de carnaval, na matança do porco ou integrando grupos folclóricos, habituamo-nos a vê-los de viola a tiracolo, dedilhando e cantando músicas do reportório popular. Eram homens e mulheres, quase sempre bons foliões, que ocupavam os tempos que restavam da dura labuta do dia-a-dia divertindo os outros e fazendo o que mais gostavam: tocar.

O Manuel da Ajuda era um deles. Tocava muito bem a viola da terra. É impressionante ver tocar este instrumento. Com 12 de cordas (existe também uma versão com 15 cordas), a viola da terra emite uma sonoridade peculiar que se conjuga harmoniosamente com outros instrumentos musicais.

A aprendizagem da viola da terra era feita de um modo empírico, vendo os outros ou experimentando uma e outra vez, com muita persistência e dedicação. O Manuel da Ajuda também se fez executante assim, depois do senhor Manuel do Júlio lhe ter transmitido o gosto por este instrumento e lhe ter dado os primeiros ensinamentos.

A viola da terra é tipicamente Açoriana. Embora muito semelhante ao violão, é mais pequena e tem dois corações na boca, com as pontas opostas, que, dizem os entendidos, representam o amor entre duas pessoas que estão separadas fisicamente.

Desde o início que o Manuel da Ajuda tocou nas danças do senhor Francisco Sampaio. Foi membro do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Praia. Tocava também em grupos de Reis pelos caminhos da Graciosa, visitando, nas frias noites de inverno, as casas em festa, espalhando alegria e boa disposição a quem os recebia. Era também muito solicitado para animar os bailes de carnaval com as modas de viola.

Em 1988 participou num concerto com 24 violas da terra, na freguesia de Guadalupe, dirigido pelo incontornável Padre Simões Borges.

Era agricultor de profissão. Vivia do rendimento que lhe dava o gado bovino que pastoreava nas suas terras.

Gostava muito de pescar. Dizem os mais próximos que o Manuel da Ajuda tinha errado na profissão, pois gostava tanto do mar que deveria ter sido pescador. Aos familiares e amigos terá dito que quando chegasse a idade da reforma iria dedicar-se à pesca. Infelizmente não chegou a gozar esse privilégio porque a morte, com os seus ditames, roubou-lhe esse sonho.

Era muito alegre e divertido e um bom conversador. Com os seus colegas da música, o Manuel Zagaia e o José Helder, entre outros participava em tertúlias que eram momentos de pura diversão, como acontecia frequentemente na tasca do senhor Álvaro.

13 de dezembro de 2012

Mais um jornal que morreu


O jornal “A União” desapareceu como diário, talvez na qualidade de mais uma vítima desta conjuntura económica desfavorável que atravessamos. Depois de 120 anos a escrever a história e histórias dos Açores, atravessando momentos altos e outros baixos, certamente, encerra assim, sem mais nem menos, um dos ícones da comunicação social da nossa região.

Nesta quadra de Natal, sempre propícia a encontros com familiares e amigos e em que as conversas são, quase sempre, alinhadas por lembranças alegres da nossa infância, recordo este diário vespertino que sempre cobriu a velha secretária lá de casa.

O carteiro deixava na nossa residência um molhe com uma ou duas semanas de edições do jornal, normalmente atadas com um barbante cor de canela. Chegavam-nos desatualizados, mas valia a pena. Abria-nos a janela do mundo.

Foi este jornal que acolheu um suplemento sobre a Graciosa. Foi neste jornal que me habituei a ver e a ler artigos de meu pai ou títulos de secções, ou do próprio jornal, desenhados pelo seu punho. Foi também neste jornal que publiquei pela primeira vez, uma crónica desportiva, no caso, que esperei ansiosamente apenas para a reler e apreciar, embevecido, o meu nome escrito no seu rodapé.

O seu desaparecimento é uma notícia triste para todos nós e ainda para mais recebida nesta altura que devia ser de alegria e de confraternização, altura, também, em que há mais harmonia e em que pensamos mais nos outros.

É triste porque ficamos todos mais pobres. É muito mais triste, ainda, para aqueles que perderam o seu ganha-pão, apesar de terem dado tudo de si para que esta situação nunca acontecesse.

Assim morreu mais um jornal. A nossa democracia ficou muito mais pobre.

6 de dezembro de 2012

Uma receita que não serve


A receita que o Governo da Republica nos quer impor para a resolução desta crise não está a resultar, já sabemos. O valor da redução das despesas neste momento só serve para pagar juros a taxas altas que nos são impostas pelas instâncias internacionais que nos emprestam o dinheiro.

Não há dúvidas que, hoje, os portugueses estão muito mais pobres, com milhões a viver no limiar da pobreza e com o aparecimento, todos os dias, de novos pobres. O défice teima em não diminuir, apesar de sermos massacrados todos os dias como mais impostos, mais cortes e com o anúncio de mais despedimentos. Ainda assim e apesar de todo este sufoco a nossa dívida continua a aumentar, sem data anunciada para estancar.

Fico ainda mais preocupado, quase sem reação, quando oiço, nas visitas que os nossos governantes fazem a Bruxelas ou a Berlim, os líderes europeus a tecerem elogios a esta via, chegando mesmo a referir que vamos no bom caminho. Os portugueses acham que este governo nos está a levar, não por um caminho, mas antes por um beco sem saída, ao contrário desses branqueadores do sofrimento dos outros.

Dizem os entendidos que bastava, por exemplo, pagarmos a mesma taxa de juro que a Alemanha paga para gerir a sua dívida pública, para resolvermos esta situação aflitiva com que nos encontramos.

É claro que esta solução nunca interessará aos poderosos e percebemos bem porquê. Esses países continuarão, assim como está, a usufruir de taxas vantajosas para gerir as suas dívidas, algumas semelhantes à nossa, enquanto nós temos de nos “virar” para cumprir as nossas responsabilidades.

Será este, então, o bom caminho que nos indicam? Não creio.  

30 de novembro de 2012

Herói que lutou pela liberdade e democracia


 
João Silveira Bettencourt

(04/04/1896 – 12/11/1980)

João Silveira Bettencourt era o filho mais velho de Manuel Maria Bettencourt e de Maria das Neves Silveira Bettencourt. Nasceu na freguesia da Luz e, por ser bom aluno, sempre quis estudar, apesar de seu pai ser um modesto agricultor e os seus dois irmãos quererem seguir as pisadas de seu pai.

Como era habitual naquele tempo, para completar os seus estudos teve de se deslocar para Angra do Heroísmo para aí frequentar o Liceu. Mais tarde acaba por tirar o curso de Professor na Escola do Magistério Primário daquela cidade, profissão que nunca chegou a exercer.

Ofereceu-se para cumprir o serviço militar, tendo ingressado na Escola de Oficiais. É aqui que descobre a sua verdadeira vocação.

Foi Comandante da Guarda Fiscal, na cidade da Horta, e, depois, segue para uma comissão em Lisboa, com a patente de Tenente da Guarda Nacional Republicana, ficando a residir no Quartel do Carmo.

É a partir daqui que o Tenente João Silveira Bettencourt inicia um processo de luta pela democracia e pela liberdade, que lhe terá custado 3 anos, 1 mês e 1 dia de deportação e de prisão. Este período da sua vida, de provação e cárcere, foi minuciosamente registado num documento a que deu o nome de “Diário de um Deportado Vítima do Totalitarismo da Época”.

Em março de 1926 o Tenente João Silveira Bettencourt decide revoltar-se devido à situação social do país e aos desentendimentos existentes entre os partidos políticos de então. Os revoltosos instalam o seu quartel-general na Travessa do Salitre. Os comandos revolucionários são constituídos pela Companhia da Estrela da Guarda Nacional Republicana, a Companhia das Janelas Verdes, a Companhia de Alcântara e a Secção de Metralhadoras Pesadas, comandadas pelo Tenente João Silveira Bettencourt.

No dia 9 de fevereiro do ano seguinte, os revoltosos rendem-se, por volta da 20 horas, porque, como escreveu,” lhe faltaram as munições e por ser impossível a meia dúzia de gatos pingados vencermos toda a guarnição de Lisboa, a maior parte toda comprometida”.

É preso, pela primeira vez, por dez dias, três deles incomunicável como era praxe. Descreve esse momento no seu diário com alguma frieza, afirmando “Como é horrível experimentar, sem ser criminoso, por dez dias, a vida de penitenciário. Só faltava o número nas costas! Tínhamos chamadas, portas fechadas todas as noites pelos guardas, etc., etc.”.

A 20 de fevereiro de 1927 sai da cadeia e a bordo do N/M Lourenço Marques é levado até à Guiné Portuguesa, viagem que, curiosamente, teve a sua primeira escala na Ilha Terceira, muito perto da sua terra natal.

Na Guiné esteve deportado em Batafá, Bissau e Bolama. Detestou esta terra e isso está bem patente no seu diário quando escreveu “Estive na maldita Guiné de mexericos, intrigas e invejas 15 meses e 25 dias”.

A 27 de junho de 1928 inicia, finalmente, a viagem de regresso aos Açores, passando pelo Funchal onde se reúne com a esposa e o filho. Curiosamente a sua família ficou sempre no Quartel do Carmo, protegida pelos seus camaradas de armas. Chega à Ilha Graciosa, para onde foi mandado residir, a 14 de julho desse mesmo ano.

A 2 de abril de 1929 embarca para Lisboa, por ordem do regime, a fim de ser julgado. A sentença atribui-lhe 12 meses de prisão e a igual tempo de multa a 2$50 por dia. Cumpre a prisão na Torre de S. Julião da Barra de 4 de maio de 1929 a 11 de julho de 1930.

Depois de cumprida a reclusão regressa à sua terra natal, onde chega a 15 de agosto de 1931.

Nesse mesmo ano, e por continuar insatisfeito com o regime da altura, participa na Revolta dos Açores, tomando as ilhas Graciosa, S. Jorge e Pico, a bordo do rebocador Milhafre com peças de artilharia amarradas com arames. Saíram do Porto da Folga até Santa Cruz, seguiram para Angra do Heroísmo, onde os revoltosos foram muito bem recebidos, depois para a Velas e Cais do Pico. Mais uma vez teve de se render “sem condições por falta de meios e apoio militar vindo de Lisboa”.

Foi novamente deportado, desta vez para Cabo Verde, onde permaneceu 7 meses e 20 dias. Em janeiro de 1932 regressa à Ilha Graciosa, tendo-lhe sido aplicada a medida de residência fixa.

Mais tarde regressa à cidade da Horta, onde “assiste” à revolução de 25 de Abril de 1974 pela rádio. Dizem os seus familiares que ao conhecer o desenlace da revolução dos cravos “chorou como uma criança pequena”.

Em 1975 é promovido a Capitão e passado à reserva, facto que o desagradou imenso. A luta que encetou contra a ditadura e o desprendimento que sempre demonstrou quando lhe eram oferecidos cargos em troca do seu silêncio, exigiam outro tratamento por parte do Estado.

Nesta cidade dedicou-se à contabilidade. Fez parte, também, dos corpos sociais e foi sócio efetivo de inúmeras instituições de solidariedade social, desportivas e culturais, como o Hospital da Santa Casa da Horta, o Amor da Pátria, o Lar das Criancinhas da Horta, o Grémio Literário, a Artista Faialense, a Filarmónica Artista Faialense, a Filarmónica a União a Filarmónica da Praia do Almoxarife, do Angustias Atlético Club, do Fayal Sport Club, do Sporting Clube da Horta e do Clube Naval da Horta, entre outros. Foi, também, sócio da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem.

Escreveu também para vários jornais com a Gazeta de S. Miguel, o Alma Nova e foi redator do jornal republicano Pátria Livre, além de colaborações nos jornais locais. Gostava também de escrever poemas.

Diz quem o conheceu que era um excelente conversador, mas nunca sobre si ou sobre a sua intensa atividade política, tal era a sua humildade. Apesar de marcado por anos de sofrimento era muito afável no relacionamento com os outros. Além da coragem que colocou na sua luta pela liberdade e pela democracia o Capitão João Silveira Bettencourt era conhecido por ser muito íntegro e sensato.

Nota: nesta simples crónica utilizei os dados mais marcantes do imenso diário que o Capitão João Silveira Bettencourt deixou e também algumas anotações feitas pelo seu filho e pelo seu neto, que me foram gentilmente cedidas.

29 de novembro de 2012

Contra tudo e contra todos


O Orçamento Geral do Estado para 2013 foi aprovado esta semana na Assembleia da República. Ao que dizem os jornalistas e muitos especialistas na matéria, alguns da área política da maioria, este é o pior Orçamento de que há memória.

Na discussão deste importante documento verificou-se que os partidos desta coligação, que governa o país, cortaram a direito e fizeram orelhas moucas aos que escolheram as ruas para demonstrarem o seu descontentamento por estas políticas e também à oposição, que apresentou algumas propostas no sentido de aligeirar este sufoco fiscal a que vamos estar expostos no próximo ano, mas sem qualquer resultado.

Tem crescido o número de pessoas idóneas, de todos os quadrantes políticos incluindo os partidos que estão no poder, que se tem insurgido contra estas medidas ao ponto de as considerarem inconstitucionais e apelarem ao Presidente da República no sentido deste vetar o Orçamento, coisa que ninguém acredita, tal a passividade que o mais alto magistrado da nação tem demonstrado nos últimos tempos.

Os novos escalões do IRS vão provocar um aumento enorme de impostos que vamos começar a sentir já no início do próximo ano quando forem aplicadas as novas tabelas de retenção na fonte. O Governo da República fez algumas manobras de diversão no sentido de disfarçar este brutal aumento da carga fiscal, mas em 2013 só irá encontrar mais contestação e mais desilusão devido a este aumento desmesurado e disfarçado.

Os subsídios por morte foram cortados a metade do atual. O subsídio por doença será reduzido tal como o subsídio de desemprego, que será de mais difícil acesso. Alguns pensionistas pagarão mais impostos do que os trabalhadores no ativo.

E mesmo assim a economia vai encolher, o défice vai aumentar, o desemprego continuará a crescer e as famílias a empobrecer.

22 de novembro de 2012

Políticas de Pescas e Valorização do Mar



Senhora Presidente da Assembleia

Senhoras e Senhores Deputados

Senhor Presidente do Governo

Senhora e Senhores Membros do Governo

Na minha primeira intervenção nesta que é a X Legislatura quero aproveitar a oportunidade para a felicitar, Senhora Presidente da Assembleia, e para lhe desejar os maiores sucessos na condução dos trabalhos desta casa que é, no fundo, a sede da autonomia.

 A si, Senhor Presidente do Governo, também lhe desejo as maiores felicidades na execução do Programa do XI Governo da Região Autónoma dos Açores, que agora nos encontramos a discutir, para bem de todo o povo açoriano.

A economia do mar é uma prioridade estratégica para a região, no conjunto dos seus sectores e subsectores. É geradora de emprego e de mais-valias, mas o seu potencial de crescimento é enorme a curto e médio prazo.

Os três milhões de metros quadrados da plataforma continental ao redor do arquipélago dos Açores para além de representar novas oportunidades representam também uma responsabilidade acrescida na proteção e no aproveitamento dos recursos, quer vivos, quer minerais ou energéticos.

A abordagem das questões ligadas ao mar assume, nos tempos que correm, uma outra dimensão, muito diferente da visão do passado, que era assente em apenas três vertentes da sua utilização: os transportes, a pesca e a extração de inertes.

Ao contrário do que era tido como, de todo, desconhecido, hoje sabe-se que o mar dos Açores encerra uma série de recursos naturais importantes e por isso há a necessidade de garantir que sejam explorados de forma a não por em perigo o equilíbrio ambiental e tragam benefícios económicos à região, não só por via do valor acrescentado, mas também pelos avanços tecnológicos que a economia do mar pode trazer.   

Também hoje temos consciência das ameaças existentes sobre os recursos vivos, provocados pela exploração pesqueira e a poluição, ambas causadas pela intervenção humana, que podem por em causa espécies e habitats.

Estas duas premissas indicam o caminho a seguir.

Por um lado temos de avançar para novos usos do mar dos Açores em áreas como a ciência, a biotecnologia, a energia, o turismo e os recursos naturais.

Por outro lado apresentam-se-nos importantes desafios na gestão dos recursos piscícolas que nos levarão, indubitavelmente, à diversificação, à gestão cuidada das pescarias, à valorização do pescado e à constituição e regulamentação de zonas de proteção.

Senhora Presidente da Assembleia

Senhoras e Senhores Deputados

Senhor Presidente do Governo

Senhora e Senhores Membros do Governo

Nos fundos do mar dos Açores e em volta das fontes hidrotermais foram detetados sulfuretos polimetálicos, muito ricos em cobre, zinco e ferro, e jazidas de hidratos de metano, uma potencial fonte de energia para o futuro. A introdução de inovação tecnológica no aproveitamento destes recursos poderá gerar progresso nas nossas ilhas.

A pesca desportiva, a navegação de recreio, o mergulho, a observação de cetáceos e de aves marinhas constituem atividades componentes da indústria de animação turística que encerram potencial de crescimento e com capacidade para captar mais investimento e criar emprego.

A pesca tem um impacto socioeconómico importante nos Açores, porquanto representa cerca de 20% das exportações e 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB), absorvendo mais ou menos 5% da população ativa. 

Com as oscilações verificadas em algumas pescarias, nomeadamente na pesca demersal – conforme é notório nos casos do Boca Negra, Congro, Goraz, Pargo e Peixão – é fundamental diversificar as capturas, pescando mais longe e mais fundo, agora que as embarcações estão melhor preparadas para isso, com boas condições de habitabilidade e de segurança, fruto do investimento feito na renovação da frota de há dezasseis anos a esta parte.

É importante diversificar a própria atividade, enveredando por novos aproveitamentos, nomeadamente na pesca turismo.  

A formação dos profissionais do mar é, também, fundamental para a aquisição de novas competências e reciclagem de conhecimentos para a alteração do paradigma que se exige neste momento.

A forma descentralizada como a formação está organizada permite melhores índices de sucesso, porque a leva até todas as ilhas da região. O grau de mestrança terá, num futuro próximo, o seu enquadramento no Centro de Formação de Marítimos dos Açores, com conteúdos transversais a outros utilizadores do mar.

Pelas razões apontadas anteriormente o sucesso das pescas não passa pelo aumento do esforço ou sobre-exploração dos recursos, passando antes pela valorização do pescado, o que traz novas responsabilidades que terão de ser resolvidas por via da formação dos profissionais. Boas práticas no manuseamento dos produtos da pesca desde a captura, passando pelo acondicionamento e embalamento, até ao seu escoamento e entrega ao cliente final, trarão, certamente, mais-valias importantes. A reforma e o reforço da rede de frio que está em curso e que se iniciou na última legislatura, trará, com toda a certeza, novas capacidades para atingir esse desiderato.   

Senhora Presidente da Assembleia

Senhoras e Senhores Deputados

Senhor Presidente do Governo

Senhora e Senhores Membros do Governo

A Região Autónoma dos Açores está e estará, num futuro próximo, sujeita a grandes pressões todas no sentido de redução de direitos sobre os seus recursos.

Advinham-se, por isso, enormes desafios para os Açores nos próximos tempos. A firme recusa em “embarcar” em ideias centralistas vindas de S. Bento ou de Bruxelas tem de ser a nossa bandeira.

A defesa da gestão açoriana dos recursos minerais do fundo do nosso mar é uma prioridade. Por outro lado, na revisão da Política Comum de Pescas é fundamental que vingue a posição assumida pelos Açores, que defende o controlo nacional da área entre as 100 e as 200 milhas, mecanismo que, como se sabe, perdemos em 2004 com o Regulamento das Águas Ocidentais.

O poeta Manuel Alegre, no poema Tanto Mar, fez justiça e sintetizou muito bem este azul imenso, que muitas vezes nos separa, mas que também nos une, quando escreveu:

“Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores”.

Disse.

Horta, Sala das Sessões, 22 de novembro de 2012.

O Programa do novo Governo


Estamos a discutir, e haveremos de votar ainda hoje, o Programa do XI Governo Regional, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, aquela que é a sede da autonomia.

Neste programa estão plasmadas todas as promessas eleitorais assumidas no desenrolar da campanha eleitoral, o que é raro. Há quem não goste e tenha declarado que irá votar contra, mas se calhar votariam contra de qualquer modo.

Convenhamos que, no fundo, foram estas as promessas que foram apresentadas aos eleitores na campanha eleitoral e foram também essas as que receberam o apoio da maioria esmagadora do eleitorado açoriano.

O facto de se verter os compromissos assumidos neste importante documento, que, no fundo, irá orientar a ação deste Governo nos próximos quatro anos, é uma atitude corajosa e um sinal de que, tal como tem sido hábito nos últimos dezasseis anos, o contrato eleitoral celebrado com o povo açoriano, em outubro passado, é para ser cumprido.

Apresentado num momento de grave crise económica em que os agentes económicos se veem espartilhados pela diminuição do consumo imposto pelos cortes vindos de Lisboa e pela falta de financiamento bancário, este Governo coloca neste programa um grande destaque nas questões sociais e nos apoios às empresas e tudo porque é o tecido empresarial que cria riqueza e, por conseguinte, emprego.

Este programa põe, assim, as pessoas no centro das preocupações desta maioria. O Governo dos Açores pretende “proteger os fragilizados, apoiar os necessitados e estimular quem quer crescer e inovar”.

É um bom começo deste novo ciclo.

16 de novembro de 2012

Exigente, honesto e bondoso


Tomaz de Sousa da Luz

(13/11/1922 – 26/12/1977)

O senhor Tomaz era um homem que dava nas vistas. Era bastante alto e com uma compleição física própria de um homem do mar. De facto era no mar que trabalhava e era o mar que lhe dava o sustento.   

Naquele tempo os navios de carga alternavam entre os portos de Santa Cruz e da Praia, de modo a agradar a todos. Quando o mar pregava uma partida restava ao comandante do navio derivar para o porto da Folga ou então o cancelar a operação.

Habituei-me a ver o senhor Tomaz num frenético vai vem nos dias de navio em Santa Cruz. Era ele que coordenava, a partir do Cais Novo, a ida e a vinda dos batelões, que, rebocados pelas lanchas, se encostavam no bojo dos navios e aguardavam pacientemente, baloiçando ao sabor das ondas, as mercadorias que eram arriadas suavemente pelos paus de carga existentes a bordo. Era dele, da sua experiência e sabedoria, que dependia a eficiência desta operação tão importante para a economia da ilha.

Está na origem, já depois da revolução de 1974, da fusão destes trabalhadores dos batelões e das lanchas com os estivadores e é nessa altura que assume o cargo de encarregado geral da estiva, passando assim a coordenar toda a operação de carga e descarga dos navios que demandavam os portos da Graciosa.

Para além desta atividade o senhor Tomaz era um reputado e exímio pescador. Foi proprietário, primeiro, do Tomaz Luz e, depois, do Valdemiro Luz, ambos de boca aberta e dedicados à pesca artesanal. O barco Tomaz Luz foi destruído, juntamente com um barco do senhor Casimiro, num dia de mau tempo, arrastados para o mar quando se encontravam varados no Cais Novo. Nesse dia escapou por um triz o barco do mestre António “Faroleiro” que se encontrava mesmo ao lado destas duas malogradas embarcações.

Mas foi na caça à baleia onde se destacou mais. Na baleação, como era normal e até recomendável - porque nestas coisas a experiência e a coragem é que capacitavam as pessoas - fez um pouco de tudo. De simples tripulante e remador, função que exerceu durante alguns anos, passou a trancador em 1948 depois de obter a carta de trancador ou arpoador de cetáceos, que custou, na altura, 81$00. Em 1965, depois de tirar a respetiva carta de mestre baleeiro cujo custo se cifrou em 86$90, passa a ser o oficial do bote São Salvador, pertença de uma companhia baleeira da Graciosa. Os valores pagos pelas licenças eram muito elevados, daí se perceber a importância social que estas promoções deveriam ter naquele tempo.

O seu porto e de saída e de entrada era o da Calheta, em Santa Cruz. Era ao largo deste porto que a Estefânia Correia apanhava o bote comandado pelo mestre Tomaz e era aí que o deixava quando terminava a faina.

Depois do sinal dado pela vigia da baleia do Monte da Ajuda, com um foguete ou com a buzina do Mazini (barco que naufragou no início do século XX no Calhau Miúdo), o mestre Tomaz e os seus homens deixavam tudo e corriam até à Calheta. Sem tempo a perder tiravam o bote do barracão, que hoje faz parte do Museu da Graciosa, e faziam-no escorrer até à água passando pelos paus previamente untados. Era uma correria para se chegar a tempo ou não fosse a baleia desaparecer dos binóculos do vigia. No regresso, quer corresse bem ou mal, lavavam o bote, estendiam as linhas no cais da Alfândega para secarem e faziam o percurso inverso em direção ao barracão.

Certo dia o mestre Tomaz, já depois de trancado o cachalote, percebe que o animal se deixava conduzir e avisa os seus homens que iria levá-lo até ao interior do porto da Calheta, para aí consumar a matança. Não conseguiu os seus intentos, mas falhou por muito pouco, pois o cachalote acabou por morrer um pouco mais ao lado, nos Terreiros.

A meados dos anos 70, um cachalote, depois de trancado e de tanto andar às voltas, virou-se repentinamente em direção ao São Salvador e com um golpe partiu o bote e fez todos os homens caírem ao mar, que ficaram ali, entre os destroços e o animal, até serem socorridos pela Estefânia Correia. Para além do mestre Tomaz, oficial do bote, estavam também o Armandino, trancador, o João “Bota”, o Marcelo, o Valter Bettencourt, o Urialdo Veiga e o José Manuel Quadros. Depois deste acidente o São Salvador foi para o Pico e esta tripulação passou a balear no Restinga.

Os que trabalharam com o mestre Tomaz dizem que era um homem muito rigoroso. Exigia respeito e respeitava os seus companheiros de trabalho. Os mais novos tratavam-no como um segundo pai, tal era a consideração que tinham por ele. Era dotado de grande coragem e com invulgar capacidade para tomar decisões difíceis, muitas vezes necessárias nesta dura vida de marítimo.

Era também um católico convicto. Não se coibia de tirar o boné e fazer uma oração sempre que passava pela igreja da Boa Nova, como que a pedir ou a agradecer a proteção de São Pedro Gonçalves, padroeiro dos homens do mar. No seu bote e no seu barco eram sempre visíveis símbolos religiosos que o confortavam nas horas mais difíceis.

A bondade era também uma das suas grandes qualidades. Gostava de ajudar os outros. Sempre que a pesca rendia pouco abdicava da soldada a que o barco tinha direito para não penalizar ainda mais a sua companha. Sabe-se também que quando um dos seus homens deixou de poder trabalhar no mar continuou a reservar-lhe uma soldada para deste modo o ajudar.

Nutria grande simpatia pelo Graciosa Futebol Clube, clube onde desempenhou vários cargos nos órgãos sociais.

O senhor Tomaz merece ser recordado pelas excelentes qualidades profissionais que demonstrou ao longo de uma vida ligada ao mar e também pelas qualidades humanas que sempre revelou. O seu caráter de homem exigente, honesto e bondoso fizeram dele uma pessoa admirada e respeitada na Ilha Graciosa.

15 de novembro de 2012

A visita


Angela Merkel veio em visita oficial a Portugal. Foi uma visita aparatosa devido à segurança que esse momento envolveu, apesar das escassas cinco horas que durou a sua passagem pelo nosso país.

É claro que esta visita gerou uma grande onda de indignação junto dos portugueses. Ninguém ficou indiferente e foi clara a colagem que se fez da chanceller à austeridade que demanda neste país.

Esta colagem, justa, com é vista pelo comum dos portugueses, ou não, como defendem os membros do governo de Portugal, decorre das políticas que a senhora Merkel tem imposto à europa e aos europeus.

Disse um pouco antes de desembarcar em Portugal que nunca impôs austeridade a nenhum país, no mesmo tom com que disse, logo a seguir, que estávamos no bom caminho. Esta postura, mesmo para os mais distraídos, é um claro apoio a estas medidas draconianas que vão destruindo o nosso país. É um claro apoio a estas medidas que vão muito mais além das propostas pelo memorando de entendimento que estabelecemos com organizações internacionais.

É por essas e por outras que os portugueses sentem que a sua soberania está ameaçada e que a democracia se encontra em risco como nunca esteve desde 1974.

É por essas e por outras que o povo se indigna e enche ruas e praças numa clara demonstração do desagrado que sente por estas políticas, como aconteceu ontem na greve geral.

Enquanto isto o primeiro-ministro de Portugal, Passos Coelho, continua a acreditar, cada vez mais sozinho, que esta política de empobrecimento da população é a via para o sucesso, enquanto o país se afunda cada vez mais, como confirmam os indicadores.

8 de novembro de 2012

O início de um novo ciclo


Esta semana tomou posse o XI Governo Regional dos Açores em sessão solene, um dia depois da instalação da nova Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, resultante das eleições de 14 de outubro de 2012.

Tal como o prometido na campanha eleitoral, Vasco Cordeiro nomeou um governo mais pequeno, com maiores cortes do que o inicialmente previsto, mais ágil e menos burocrático, com o objetivo de o tornar, afinal, mais perto dos cidadãos.

É o início de um novo ciclo que, indubitavelmente, terá pela frente novos desafios que se adivinham para os próximos tempos e que se preveem, também, difíceis e incertos, exigindo de quem nos governa rigor nas contas públicas e prudência nas opções políticas.

Os açorianos e os seus dirigentes saberão, como sempre souberam, ultrapassar as dificuldades que surgem, umas impostas pela natureza incontrolável e incontornável e outras fabricadas por esta crise económica. Os açorianos, que cresceram aprendendo a seguir em frente apesar das tempestades e dos vulcões, saberão, com toda a certeza, vencer, mais uma vez, estes desafios provocados pela situação económica do nosso país.

Neste dia Vasco Cordeiro, naquela que foi a sua primeira intervenção como Presidente do Governo da Região Autónoma dos Açores, fez um apelo à participação de todos, ao diálogo e à concertação, dirigindo-se aos partidos políticos e movimentos sociais, no sentido de unirem esforços para defenderem de uma forma unissonante a Autonomia dos Açores, para, deste modo e dispondo dos mecanismos que esta nos proporciona, minorar os efeitos desta enorme crise de contornos desconhecidos.

Vasco Cordeiro, também nesta comunicação, avançou com as três ideias que conduzirão este governo: a criação de emprego, o reforço do apoio às empresas e o auxílio às famílias.

Estas importantes referências vêm, de certa maneira, contrariar as opções do Orçamento de Estado para 2013 que impõe mais austeridade e mais impostos e que impede a criação de riqueza e, por conseguinte, de emprego.

É caso para dizer que o XI Governo dos Açores, liderado por Vasco Cordeiro, não vai deixar ninguém para trás.