15 de Março de 2012

O logro


Berta Cabral veio a público regozijar-se da boa situação financeira da “sua” Câmara Municipal, com base num ranking saído no Anuário Financeiro dos Municípios. Que era bem gerida, que estava de perfeita saúde, que tinha um dos menores endividamentos per capita, que se encontrava entre as melhores do país e sei lá o que mais. Só coisas boas.

No dia da entrevista, onde essa revelação inusitada foi feita, notei grande candura na postura da presidente da Câmara de Ponta Delgada, o que, sinceramente, fez-me lembrar que quando a esmola é grande até o santo desconfia.

Pouco depois os Açorianos vieram a saber que houve um engano e que afinal não era bem assim, antes pelo contrário. A Câmara de Ponta Delgada não estava entre as melhores 50, infelizmente. O endividamento por munícipe afinal era o dobro da que se encontrava em 50º lugar desse ranking, o que atira aquele município, afinal, para as calendas gregas da tal listagem, num lugar nada honroso.

Até o professor Marcelo Rebelo de Sousa, comentador domingueiro, ficou inebriado com a prestação da sua companheira de partido, que, depois, veio a verificar-se, tratar-se de um flop nunca desmentido, apenas porque dava jeito.

Foi com estupefação que assistimos ao silêncio depois de tamanho engano com se isso fosse de somenos importância. Os Açorianos não merecem este tipo de comportamento branqueador.

Se foi por a dra. Berta Cabral ignorar a verdadeira situação financeira da sua edilidade, é grave, mas se foi uma ação premeditada então trata-se de um ato inqualificável e impróprio para quem tem ambições políticas.

Nestas coisas a verdade vem sempre ao de cima, diz o nosso sábio povo. Descobre-se o logro e cai a máscara, digo eu.

14 de Março de 2012

Humilde e culto




Edmundo da Cunha Ribeiro

(04/03/1910 – 09/08/1987)

Era na sua tenda situada na rua Serpa Pinto, por baixo do granel do senhor Francisco Barcelos, que estava sempre. De avental marcado por nódoas das tintas que usava, permanecia invariavelmente sentado de corpo curvado atrás da sua banca de trabalho, repleta de utensílios próprios da profissão. Passava horas seguidas, agarrado aos sapatos, moldando as solas, cozendo ou polindo, rodeado pelas suas ferramentas espalhadas pela banca, sempre ao alcance das suas necessidades. E sapatos, muitos sapatos, depositados num recanto da tenda esperando a sua vez para merecerem os cuidados deste artífice.

Este era o sapateiro a quem a minha família entregava os sapatos para as devidas reparações. Normalmente calhava-me a mim levar os ditos em mau estado, quase sempre de biqueira aberta devido às jogatanas no campo de S. Francisco, mais conhecido pelo campo da Rata, ou então de sola gasta pelo uso intensivo, para os ir buscar uns dias depois já como novos, prontos para mais uma temporada.

A tenda do senhor Edmundo, como era conhecida a sua oficina, funcionava, também, como ponto de encontro de muitos Graciosenses.

O chão era de cimento frio, que contrastava com o calor humano que reinava naquele espaço. Nas paredes viam-se alguns cartazes amarelados pelo tempo. Tinha um banco corrido num dos lados onde se sentavam todos aqueles que procuravam saber as novas, que, naquele tempo demoravam a chegar, trazidas pelos frequentadores e clientes que eram também os seus amigos. Num dos cantos ficava uma cadeira de vimes, mais confortável, que estava informalmente reservada ao Dr. Gregório ou ao Comandante Silveira, duas figuras de referência que não dispensavam uma presença diária naquele espaço. Por ali passavam médicos, comerciantes, sacerdotes, estudantes, carteiros, professores, etc.. Uma amálgama de gente que refletia a sociedade Graciosense.

Antes da revolução dos cravos era ali que se discutiam intensamente os assuntos que estavam na berra. Era ali que chegavam outras maneiras de ver o mundo, porque muitos dos frequentadores ouviam rádios não controlados pelo antigo regime e por aí sabiam a verdade, nua e crua, sobre o que se passava no nosso país e no mundo. Era ali que se abordavam os assuntos políticos, mais ou menos em surdina.

Acredito piamente que aquele espaço deve ter merecido a atenção da polícia política, pois muito do que lá se dizia, comentava e discutia, não era, de todo, bem visto pelo regime da altura.

Depois de Abril, com o advento das comunicações e da televisão o nosso mundo mudou, mudaram também o país, a região e a nossa ilha, mas a tenda do senhor Edmundo manteve-se inalterável. Era um local de culto para os seus frequentadores que continuaram a abordagem dos mesmos temas, só que de maneira mais desassombrada. Era o valor da liberdade.

O senhor Edmundo tocou trombone anos a fio na Filarmónica Recreio dos Artistas e terá pertencido aos seus corpos sociais, dando, assim, um contributo para a cultura Graciosense. Era um pescador de calhau exímio e, diz quem o conheceu, fazia uma caldeira muito apreciada pelos amigos. Estava sempre pronto para pregar umas partidas aos mais incautos que por ali passavam.

Apesar da modéstia e humildade o senhor Edmundo era um homem culto e que cultivava a verdadeira amizade.

8 de Março de 2012

Petições


Partilho da opinião de que as petições públicas são um instrumento importante nas sociedades modernas. Qualquer cidadão ou grupos de cidadãos podem, por esta via, invocar a atenção dos poderes públicos para uma situação ou uma questão tida como pertinente por parte de quem subscreve.

Esta é uma das grandes conquistas plasmadas nos documentos fundamentais, a Constituição Portuguesa e o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores.

Curiosamente têm surgido ultimamente muitas petições, o que faz denotar a maturidade da democracia e a participação dos cidadãos nas decisões sobre políticas que afetam a sua ilha, a sua região ou o seu país.

Recentemente surgiram nos noticiários duas petições, que chamaram a atenção por serem inusitadas, na minha opinião meramente pessoal. Uma destina-se à destituição do Presidente da Republica e outra à antecipação das Eleições Regionais.

O Dr. Cavaco Silva foi eleito em janeiro de 2011 com 53,14% dos votos expressos e, por isso, quer se concorde ou não com ele, está a ocupar um cargo com a legitimidade que tão larga maioria lhe deu nas urnas.

Nas Eleições Regionais de 2008 o Partido Socialista venceu com 49,92% dos votos expressos, atingindo uma nova maioria absoluta indiscutível que lhe garantiu a governação por mais estes quatro anos.

O povo, convocado a decidir, foi muito claro e escolheu quem queria para Presidente da República e antes, em 2008, apurou o partido que lhe dava mais garantias para dirigir os Açores.

Num e noutro caso o povo vai ser chamado novamente a decidir e é nesse contexto que fará o julgamento e não de outra forma, mesmo que desse mais jeito a este ou a aquele partido.

Alterar as regras parece-me a subversão da democracia, porquanto foi esta democracia, com as virtudes e os defeitos que encerra, que proporcionou a prerrogativa dos cidadãos utilizarem esta figura de participação cívica. Não a desvirtuemos.

1 de Março de 2012

O desemprego como arma


Na passada semana ficamos a saber que o desemprego nos Açores se situava nos 15,1 %, valor mais alto do que o registado no conjunto do país.

Logo tivemos quem se apressasse a atacar o Governo Regional dos Açores acusando-o de não ter conseguido estancar este drama que afeta muitos Açorianos, sobretudo o mais os jovens. Basta folhear os jornais e logo se veem os títulos garrafais de crónicas dos comentadores políticos dizendo isso mesmo.

Esta reação era esperada. Ainda recentemente vimos caras com ares de consternação apenas pelo facto de na Região Autónoma dos Açores não ser encontrado um “buraquinho” nas contas públicas que fizesse render alguns votos. Agora o desemprego também é usado como arma de arremesso. Infelizmente alguma oposição funciona assim, tipo, quanto pior, melhor.

Fala-se muito dos jovens na busca de emprego, como se isto fosse um dado novo. As coisas não mudaram muito para os jovens, mas existem diferenças que importa revelar. Todos têm acesso ao ensino superior e quando isso não acontece existe uma enorme oferta de cursos técnico profissionais, que os qualificam e abrem portas ao mercado de trabalho. Quando acabam a licenciatura tem acesso a um primeiro contato com esse mercado através dos programas Estagiar, que, curiosamente, tem colocado muitos dos estagiários nas empresas onde cumpriram esse programa. Hoje qualquer jovem licenciado ou com formação profissional tem acesso a programas de empreendedorismo ou de criação do auto emprego.

Este flagelo do desemprego, usado indevidamente para caçar uns votos aqui e outros ali, tem afetado as regiões ultraperiféricas da Europa de uma maneira assustadora.

Nas diversas crónicas feitas por gente da oposição, nunca vi referências que remetessem o aumento do desemprego para a diminuição drástica do consumo, a redução do investimento, ou a falta de liquidez da banca para alavancar a economia, situações criadas pelo Governo Central que se orgulha, todos os dias, de, em matéria de cortes, ir muito mais além do que exige a troika.

Pela via das dificuldades de acesso ao crédito houve uma redução enorme da atividade no setor construção civil. O aumento brutal dos impostos fez diminuir drasticamente o rendimento das famílias, afetando o consumo e por isso o setor de comércio e serviços registou uma quebra sem precedentes. É por esse facto que todos os dias trabalhadores do comércio ou da construção civil engrossam os números de desempregados e isso deve-se às políticas desacertadas impostas pelo Governo da República, como facilmente se depreende.

O Governo Regional se não tivesse executado um Plano Regional de Emprego, se não tivesse criado mais de 21 mil novos empregos em 10 anos, se não criasse programas para empregabilidade para mulheres e jovens, se não apostasse na formação profissional e se não consolidasse o tecido empresarial, certamente que agora o problema do desemprego teria contornos muito mais graves.

E mais. O Governo Regional, enquanto esta conjuntura externa adversa atingia os Açores, tratou de minimizar os estragos, atacando o problema em várias frentes, nas empresas e nas famílias, passando pela agricultura e pescas e criando o Programa para a Promoção do Emprego e Competitividade para uma resposta imediata.

Uns, aproveitando a boleia desta conjuntura nacional e internacional desfavorável, tentam, desesperadamente, colar os seus efeitos nefastos ao Governo Regional sem apresentar uma única proposta para alterar esta situação, enquanto outros, por entre as dificuldades impostas, respondem aos problemas que assolam os Açores e Açorianos com confiança e determinação.

29 de Fevereiro de 2012

Oriolando de Sousa Machado Correia da Silva

Oriolando de Sousa Machado Correia da Silva

(06/11/1938 – 31/03/2008)

A primeira vez que ouvi o Cântico Negro de José Régio, já lá vão uns bons anos, foi pela voz do Oriolando. Creio que ninguém fica indiferente a estas poderosas estrofes, mas confesso que este cântico ganhou um lugar de honra nos meus gostos literários, muito por culpa de uma declamação que senti, na altura, ser perfeita, pelo tom, pelo ritmo e pela sensibilidade de quem o dizia.

Com o seu timbre forte mas, ao mesmo tempo, melodioso, o Oriolando declamava este e outros poemas como ninguém.

Também cantava acrescentando sentimento às interpretações que fazia, desde músicas do reportório popular até às mais eruditas, passando pelas de intervenção política mais conhecidas.

Era um notívago assumido e nessa condição era frequente vê-lo em convívios com os inúmeros amigos, que, quase sempre, proporcionavam momentos dedicados ao canto, à declamação ou a discorrer sobre História, de que tanto gostava, ou em simples cavaqueira. 

Assisti, no palco da antiga cerca da Filarmónica Recreio dos Artistas, aos ensaios de uma peça de teatro dirigida pelo senhor Brivaldo Santos, onde o Oriolando tinha um papel importante que representava com proficiência. Nesse tempo o teatro fascinava os miúdos que, sem mexer uma palha, assistiam incrédulos aos intermináveis ensaios, onde os atores se comportavam como autênticos profissionais.

Era um eloquente orador e, nessa qualidade, era convidado com muita frequência para dissertar em cerimónias públicas, efemérides ou lançamentos literários.

Defendia os ideais de esquerda. Esta era a sua posição política que, no verão quente de 1975, lhe terá causado alguns dissabores, que soube enfrentar com coragem e determinação, rendendo-lhe, mais tarde, o respeito e admiração quer dos companheiros quer dos que não pensavam como ele.

Durante a sua vida participou ativamente na vida pública do seu concelho, tendo sido deputado municipal.

Encontrou na História a sua paixão. Nos últimos tempos fez investigação e chegou a pôr em causa alguns conhecimentos dados como certos da história da Graciosa, com fundamentos válidos e que apresentava com sabedoria.

Foi também genealogista, tendo sido um dos grandes mentores e impulsionadores dos vários encontros regionais destes especialistas realizados na Ilha Graciosa.

Profissionalmente foi solicitador e, nessa qualidade, participou em inúmeros atos onde se destacava pela sua oratória e conhecimentos jurídicos.

Esteve também imbuído do espírito associativo e, como tal, fez parte de diversos corpos sociais de clubes locais e foi também sócio fundador da Cooperativa Rádio Graciosa e o primeiro presidente da sua Assembleia Geral.

Embora sem grandes habilitações académicas este autodidata era um homem de saberes que ombreava com os demais na valorização da cultura e das tradições.

23 de Fevereiro de 2012

O Carnaval ainda é o que era


Por estas alturas do ano recordo sempre uma conversa que ouvi da boca de um senhor de provecta idade que afirmava que, para ele, o dia mais triste do ano era aquele em que terminava o Carnaval. Sentia-se a veracidade nestas palavras por serem ditas de maneira sentida.

Os Graciosenses, de uma ou de outra forma, gostam do Carnaval, que, por cá, é festejado de uma forma diferente, com caraterísticas muito enraizadas e que, felizmente, tem sido mantidas ao longo dos anos por gente anónima que dedica muito do seu tempo às atividades dos clubes que proliferam pela ilha.

Esta festa é transversal a toda a sociedade. Desde crianças até aos idosos, todos se divertem à sua maneira e ao seu ritmo.

A alegria é uma constante. Vive-se cada dia de festa de forma intensa, deitando para trás das costas as amarguras que estes tempos difíceis nos têm trazido.

Os bailes de salão têm o seu início logo a seguir ao Natal, às vezes antes, e são frequentados por várias gerações de Graciosenses e de forasteiros, que aproveitam estes momentos para se divertirem, revisitarem velhas amizades e conviverem. Muitos destes bailes terminam já depois do nascer do sol, sempre de forma ordeira apesar de alguns excessos próprios destes momentos.

Os grupos de fantasias, vestidas a rigor e quase sempre com cores garridas, percorrem todos os clubes da ilha executando coreografias mais ou menos simples - porque a folia não combina com grandes rigores técnicos - apresentando, deste modo, o contributo que dão a esta festa que é, no fundo, de todos.

As pessoas que têm passado pela experiência de viver estes dias connosco não ficam indiferentes e reconhecem que estes momentos são inesquecíveis, pela alegria contagiante, pela diversão pura e, sobretudo, por serem muito bem recebidas.

Por isso a nostalgia sentida pelo senhor que vos falei há pouco não deve ser rara. Muitos Graciosenses e muitas pessoas que nos visitam sentirão o mesmo.

Resta-nos a certeza de que para o ano haverá mais.

16 de Fevereiro de 2012

As pescas e o futuro


As pescas desenvolveram-se nos últimos anos por via do melhoramento da frota, da construção e reparação de portos e de outras estruturas de apoio e da formação dos seus profissionais.

Nos últimos 10 anos (2001-2010) o número de pescadores nos Açores quase que duplicou, contrariando a tendência nacional, e isso devido à melhoria das condições de trabalho proporcionado a uma classe que abandonou a pesca de subsistência, ou a meio-tempo, e fez da atividade uma profissão digna e com bom rendimento.

É certo também que a pesca descarregada tem oscilado um pouco, dada a imprevisibilidade própria desta atividade que depende de diversos fatores, mas a tendência do valor dessas capturas tem vindo a crescer, muito embora com algumas exceções, como foram os casos de 2009 e 2011.

Pela leitura dos dados disponíveis verifica-se que apesar de, na sua globalidade, a pesca demersal ter vindo a ter apenas uma ligeira quebra, nota-se grande declínio nalgumas espécies deste grupo (de 1996 a 2011), quer na quantidade quer em qualidade, como são os casos do Boca Negra, do Congro, do Goraz, do Pargo e do Peixão.

Em tempos pensava-se que os recursos marinhos dos Açores eram ilimitados e que os problemas com a conservação de stocks não eram connosco.

Hoje, todos os intervenientes na fileira da pesca estão perfeitamente conscientes que é preciso manter as atuais e criar outras medidas preventivas para se evitar problemas de reposição de algumas espécies demersais.

Para esta visão realista terá contribuído, e em muito, o Departamento de Oceanografia e Pescas, que tem produzido importantes estudos na área da gestão dos recursos marinhos, reconhecidos a nível internacional e efetuado ensaios com sucesso, como é o caso da recuperação do banco de pesca Condor.

É fundamental garantir a sustentabilidade deste sector, com a aplicação das medidas de precaução já previstas, juntando outras, nomeadamente as que protegem as pequenas frotas de pesca artesanal das ilhas mais pequenas, porque a pesca contribuí com 3,6% para o Produto Interno Bruto da Região e ocupa, direta ou indiretamente, cerca de 5% da população ativa.

A atividade tem ainda um peso económico e social mais importante em algumas ilhas ou em comunidades mais pequenas.

Foi por estas razões que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista criou um grupo de trabalho, do qual fiz parte, para analisar esta problemática, apresentando as suas conclusões e elaborando uma bateria de recomendações tendo em vista a preservação dos recursos e a melhoria dos rendimentos dos profissionais da pesca.

Mais do que falar é preciso agir. E é para isso que cá estamos.

15 de Fevereiro de 2012

O Gasparinho

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Gaspar Manuel dos Santos Cordeiro
(04/09/1952 – 25/07/2011)

Em finais de julho passado fomos surpreendidos com a morte do Gasparinho, pouco tempo depois de ter sido assolado pela doença.
Por mais que queiramos nunca estamos preparados para enfrentar a morte como um desígnio da natureza, sobretudo quando esta nos rouba alguém a quem queremos muito e que muito ainda tinha para dar.
Era o caso do Gasparinho. Na Ilha Graciosa todos gostávamos dele. Para isso terá contribuído a sua maneira de ser, a sua maneira de agir e, sobretudo, a humildade e a bondade que colocava no relacionamento com os outros.

Na farmácia, onde trabalhou cerca de 40 anos, era um excelente profissional, dando sempre uma palavra a quem procurava aquele estabelecimento. Gente idosa e fragilizada pela doença constituí a maior franja de utentes de qualquer farmácia e, por vezes, aquando da compra de mais um medicamento para lutar contra a doença ou retardar e tratar os efeitos da velhice, uma voz amiga pode fazer toda a diferença. E era aí que o Gasparinho era exímio. Sem se deixar levar pelos lamentos de quem sofria, dava a cada um dos “seus clientes” uma palavra de alento e de coragem.

A música era uma das suas grandes paixões. Foi trompetista na Filarmónica Recreios dos Artistas, onde tocou com o pai, um tio e um irmão. Tocou guitarra e deu a voz nos conjuntos Selvagens do Rimo e Ritmo 2000, com quem gravou dois discos, Terra de Gente e Mar e Ritmo 2000 ao vivo nos Estados Unidos. Andou ainda muitos anos a animar os bailes de carnaval tocando no conjunto do Graciosa Futebol Clube.

Tinha uma voz inconfundível, que se sobrepunha em suave melodia aos instrumentos musicais permitindo ouvir os bonitos temas que gostava de interpretar, desde fados até aos temas populares, acompanhado sempre pela sua guitarra, que tocava com desvelo. Com a sua trompete dourada dava show nos bailes tradicionais e quando se juntava ao Acácio e ao Valdemiro, em improvisos nas frequentes tertúlias, completava uma tripla de se lhe tirar o chapéu. Quem assistiu a estes momentos nunca os esquecerá. Foram noites e noites animadas por estes verdadeiros artistas.

Ouvi o Gasparinho cantar pela última vez na Gala do Desporto Açoriana, com os KontraBanda, no que agora, à distância, me parece uma espécie de despedida.

Foi também um grande jogador de futebol. Sempre o conheci a jogar a defesa central no seu clube de sempre, o Graciosa Futebol Clube, que serviu - como atleta, como músico ou como dirigente – até ao dia da sua morte, altura em que era Presidente da Direção.

Como jogador era conhecido pela elegância que punha em campo. Jogava muito bem, de cabeça e com os pés. Era muito astuto na leitura do jogo e com um comportamento irrepreensível. Como capitão da equipa dava alento aos colegas nas horas dos fracassos e rejubilava nas vitórias. Era ele que empurrava a equipa para a frente, literalmente.

O Gasparinho tinha várias qualidades e talentos, mas distinguiu-se, sobretudo, por ter sido um grande Homem.

9 de Fevereiro de 2012

Ameaças


A autonomia política e administrativa foi a conquista maior que os Açores obtiveram a partir da revolução de abril de 1974. O mote tinha sido dado por anos de lutas infrutíferas, mas quando surgiu a oportunidade, os açorianos não a enjeitaram. Este é um dado adquirido reconhecido por todos.

Essa prerrogativa, ansiada há muito pelos açorianos, permitiu que estas ilhas, abandonadas pelo estado centralista que nos governava até então, se desenvolvessem.

Foram os seus governos que, legitimados pelo voto popular, traçaram estratégias para recuperar o tempo perdido.

Nos últimos anos, já com os governos do Partido Socialista e com o importante financiamento dos fundos comunitários, concretizou-se a infraestruturação da região, em áreas fundamentais, como a agricultura, a pesca, o turismo, o comércio, os transportes e a indústria. Em paralelo, foram também implementadas políticas públicas importantes, na área social, na gestão de resíduos, na produção de energia com base em fontes renováveis, na preservação do ambiente, entre outras.

A estratégia produziu efeitos rapidamente porquanto estes setores, depois de uma reestruturação, consolidaram-se e hoje contribuem ativamente para os progressivos ganhos da economia regional. O número de empresas aumentou assim como aumentou o número de pessoas empregadas, notando-se, sobretudo, um reforço da empregabilidade feminina.

Ficamos mais fortes, mais autossuficientes, mas, como parte integrante da Europa, ficamos, também, mais expostos às ameaças que surgem do exterior.  

Hoje estamos a enfrentar esta crise atípica que abala a Europa, e muitos outros países do mundo, que tem como principal caraterística a imprevisibilidade dos seus efeitos nefastos.

O Governo dos Açores, e muito bem, tem centralizado a sua ação, nestes conturbados tempos, no apoio às famílias e às empresas. A decisão de colocar sempre as pessoas em primeiro lugar, confirma e reforça o lema que tem acompanhado o Partido Socialista desde que está a exercer o poder.

Mas esta crise traz outras ameaças. Poderá despertar nos centralistas – de todos os partidos, diga-se – sentimentos recalcados e que surgem á luz do dia logo na primeira oportunidade.

Não acredito que a autonomia esteja em risco, mas não tenho dúvidas que os ataques surgirão, a breve trecho, a reboque da polémica do “buraco” da Madeira.

Só há duas coisas a fazer: cerrar fileiras e resistir.