Manuel Gregório
Júnior
(12/04/1902 –
15/07/1986)
Cresci ao lado do meu primo e
companheiro de brincadeiras, o Rui Manel,
filho do Dr. Gregório. Nos períodos de férias passava, muitas vezes, as noites
na sua casa para aproveitar e brincar até tarde e para recomeçar o divertimento
bem cedo.
Foram belos tempos, aqueles. A
imaginação e a criatividade produziam ideias para os jogos que nos entretinham
dias a fio.
Correr de patins no enorme
corredor, tocar piano no salão do fundo, jogar à bola no pátio ou lutar com
espadas no quintal, eram os nossos passatempos favoritos.
Depois de vencidos pelo cansaço,
a noite e o sono recuperador punha-nos aptos para, no dia seguinte, começar tudo
de novo, com renovada energia.
O tio Gregório era um homem de
hábitos. Noctívago desde que me lembro, nunca se deitava antes das quatro da
manhã.
Passava as noites a passear na
praça ou, quando o tempo não permitia, abrigado no bar situado por baixo do
coreto ou então num qualquer clube jogando ou vendo jogar às cartas e ao
dominó. Aquele costume de se deitar tarde fazia-o procurar os foliões ou os
convivas de uma qualquer petiscada, para assim ganhar mais umas horas de
companhia. Nos dias de maior invernia ou quando não encontrava ninguém a jeito,
passeava no seu enorme corredor até à hora de se deitar.
Dava uma volta à ilha
diariamente, com ele ao volante enquanto a sua saúde permitiu, ou então conduzido
por alguém amigo depois de deixar de conduzir. Confessava que nesse passeio via
sempre algo que lhe escapara nas vezes anteriores. Eram conhecidas as suas
paragens, na companhia do Comandante Silveira, para ouvir o chilrear de um
determinado pássaro que, segundo eles, os presenteava com uma exibição sempre à
mesma hora. Já na fase final da sua vida cheguei a ter o privilégio de passear
com ele e de ouvir as suas histórias e vivências contadas na primeira pessoa, com
a sua inconfundível voz afável.
Os graciosenses habituaram-se a
vê-lo com um sobretudo ou uma gabardina por cima do seu fato com colete,
polainas nos sapatos, chapéu na cabeça e sempre com uma varinha numa das mãos. No
bolso interior do casaco transportava uma cigarreira de prata, onde colocava
cuidadosamente os cigarros para o dia, e ainda uma boquilha para reduzir os
efeitos nefastos do tabaco. Quando chegava a casa, colocava a varinha no
bengaleiro e trocava o sobretudo ou gabardina por um robe cor de vinho.
O Dr. Gregório foi médico nesta
ilha mais de quarenta anos, a grande maioria deles sozinho. Foi Delegado de
Saúde, Médico Municipal e tinha consultório no rés-do-chão da sua casa. Era das
consultas que deveria tirar a maior parte dos seus proveitos, mas isso nunca
aconteceu porque não levava dinheiro. Aos pobres, quando lhe perguntavam quanto
era a consulta, respondia “porque é que perguntas, se sabes que não me podes
pagar?” Por outro lado ficava indignado quando os que podiam pagar não lhe
perguntavam nada.
Muitas noites o tio Gregório era
procurado para acudir a quem sofria. Era frequente vê-lo sair noite dentro,
muitas vezes já com a iluminação pública desligada, para tratar doentes.
Entrava em casas de pobres e ricos, recebido quase como um salvador. As pessoas
tinham fé nos seus conhecimentos para debelar as doenças que os afligiam
Dizem que era quase infalível nos
seus diagnósticos, sempre feitos sem apoios de meios técnicos, porque não os
havia. O seu estetoscópio, o toque com dois dedos e sua rara intuição,
indicavam-lhe a origem do mal e o caminho a seguir para a cura, com uma
prescrição que poderia ser um medicamento feito pelo senhor Juvenal “da
Farmácia”, ou mesmo o chá mais indicado para aquela maleita.
Um dia, devido à gravidade da
situação e também pelo mau tempo que impedia a “gasolina” da baleia de evacuar
um doente, resolveu fazer uma operação para a ablação do apêndice, como último
recurso para salvar uma vida. A cirurgia correu bem, mas o tio Gregório apanhou
um susto. Nesse dia tinha dado conta do desaparecimento da sua aliança que,
chegou a temer, poderia, muito bem, estar no abdómen do seu doente. Felizmente
que a dúvida foi desfeita quando verificou que a tinha guardado cuidadosamente
antes da operação.
O escritor Augusto Gomes, aquando
da sua morte, disse sobre ele: “Atendendo doentes de toda a ilha, os seus
diagnósticos tornar-se-iam célebres pela infalibilidade. Salvou centenas de
vidas. Seria fastidioso enumerar os casos quase lendários acerca do Dr.
Gregório. Aliava à inegável competência profissional um espírito filantrópico e
um desprendimento pelo fausto, pela opulência, não cobrando honorários. O povo
adorava-o. Por quatro vezes teve o ensejo de o manifestar. Primeiro quando se
deslocou a Ponta Delgada em tratamento, teve o seu regresso marcado por uma
manifestação jubilosa, na qual se incorporaram milhares de pessoas. A segunda
deu-se quando completou 70 anos. A terceira, aquando da inauguração do seu
busto (…). E finalmente, a quarta e derradeira, ao derramar lágrimas de sincero
pesar junto ao túmulo do seu filho dilecto, que tão relevantes serviços prestou
à sua terra”.
Na mesma altura o senhor Raúl
Correia da Silva escreveu: “Homem de carácter íntegro, de extrema bondade e de
evidente modéstia, era detentor de uma inteligência invulgar, o que lhe
permitiu concluir brilhantemente o curso de medicina, em Coimbra, no ano de
1929. De tal modo que, tendo-lhe sido dirigido convite para ocupar as funções
de assistente da respectiva faculdade, a sua reconhecida modéstia entendeu por
bem decliná-lo. Mas para além de Homem de bem, foi também médico de competência
rara que, durante 40 anos, deu o melhor do seu talento e espalhou
ininterruptamente a semente da caridade junto dos seus conterrâneos, já que não
cobrava praticamente nada pelo exercício do seu múnus profissional,
limitando-se aos parcos vencimentos que auferia pelo exercício dos cargos de
delegado de saúde e de médico municipal”.
Estes dois testemunhos dizem
muito sobre a personalidade deste homem e a sua ligação à Graciosa e aos
graciosenses. Ficou mesmo conhecido como “médico do povo”, cognome que aceitava
com uma indisfarçável humildade.
Esse mesmo povo, a quem ele deu
muito, juntou-se e ergueu-lhe um busto de bronze, ainda em sua vida, cuja
inauguração constituiu uma emocionante homenagem acompanhada por centenas de
pessoas que deste modo quiseram agradecer tudo o que este homem fez pelos
filhos da sua terra.
O teatro era uma das suas
paixões. Encenou e representou várias peças de teatro levadas à cena na
Graciosa e noutras ilhas dos Açores.
Foi agraciado pelo Presidente da
República com a Ordem de Mérito, antes da revolução de 1974 e em 1979, com o
Grau da Ordem de Benemerência. A Região Autónoma dos Açores, a título póstumo,
atribuiu-lhe a Insígnia Honorifica, pelos relevantes serviços prestados à sua
comunidade.
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